domingo, 24 de junho de 2012

Caiu porque não era do ramo


Lugo e Franco, seu vice, uma aliança de inconveniências


Mesmo sendo tudo muito rápido, o ex-bispo paraguaio não precisava entregar os pontos sem espernear


"O que existe, sim, é parte do exército norte-americano que faz ações humanitárias, e também exercícios militares, mas nós, paraguaios, negamos que haja uma base militar que possa operar a partir do Paraguai e agir nos países vizinhos do continente".
Fernando Lugo, depois de eleito em2008



Bem feito. O ex-bispo Fernando Lugo foi deposto pela mesma súcia com que partilhava coquetéis e quitutes, numa jogada de mestre de efeitos colaterais ameaçadores. Depois do xeque-mate paraguaio, a especulação política já quer saber quem será o próximo nesse tabuleiro de torpezas mil.


Porque a fórmula do golpe parlamentar deu certo, deixando os militares no chinelo. Ao prelado não lhe ocorreu que os inimigos não mandam flores. E que nessas horas não adianta pedir ajuda a Deus.

Ou se faz o jogo das vontades insaciáveis dos canalhas ou se recorre à turba. E ele não fez nenhuma coisa, nem outra. Daí servir o prato cheio para a trama tão bem montada, que grileiros e traficantes celebrados em palácios usaram como pretexto logo o massacre de sem-terras, coisa a que se dedicam secularmente, como se de repente eles, titulares de uma indomável capangada, estivessem indignados com as mortes dos pobres coitados.

Tudo foi milimetricamente planejado e aconteceu no Paraguai porque lá é o Paraguai dos produtos falsificados. Não adianta xingar os personagens do golpe, nem lembrar que, para variar, estava por trás o falso brilhante do Obama e seus miquinhos amestrados.

Não adianta porque o ex-bispo é antes de tudo um fraco. Talvez, quem sabe, sua anemia crônica fizesse dele um trapo. Faltou-lhe a garra do Francisco Solano Lopez, faltou a coragem necessária para se trancar no Palácio e pedir ajuda ao seu povo, que, salvo uma minoria de 5 mil inconformados, não se deu conta do péssimo exemplo que seus valhacoutos ofereciam ao mundo, em especial ao Continente, numa alusiva insinuação de que certos sociais-democratas são bolhas de sabão.

Pelo resultado arrasador das votações na Câmara e no Senado, viu-se que Fernando Lugo já estava na corda bamba no antro fétido dos podres poderes da Nossa Senhora Santa Maria de Assunção, a capital de 520 mil habitantes controlados por mafiosos de carteirinha.

Ele sabia que dormia com o inimigo, mas esperou em Deus que respeitassem seu mandato
, conquistado numa surpreendente metamorfose da dicotomia guarani, onde não existe essa de direita e esquerda: os políticos daquelas bandas são bandos de malfeitores muito menos recatados do que os militares, apesar da base norte-americana no povoado General Estigarribia, província de Boquerón, no noroeste do Paraguai, cuja existência Lugo sempre negou, alegando que operava ali apenas parte do Exército dos EUA dedicada a "ações humanitárias".

Esperou por um Deus que continua sendo usado na maior pelas classes dominantes. Pois o pretenso representante do Senhor, o come-e-dorme cognominado "núncio apostólico" foi o primeiro a ir apertar a mão do Judas que tomou o seu lugar, num apressado ato pecaminoso que faz lembrar o Vaticano de Cesar Bórgia.

Ao que parece, e tudo indica, Lugo foi preferido pelos golpistas por seu estilo de padre bondoso. Tanto que nem estrebuchava com o Estado paralelo que o contrabando e o narcotráfico montou por lá com a ajuda das multinacionais que descarregavam na Cidade do Leste e outras mais os produtos rejeitados pelo controle de qualidade das matrizes.

Também foi omisso ante a conivência de uma tropa que está associada ao crime, dando-lhe a cobertura armada e assegurando o fluxo de drogas e quinquilharias para a vizinhança de sacoleiros e mulas num entreposto montado a céu aberto.

Sua atuação não era de um líder, mas de um pretenso messias forjado nos púlpitos da santa madre igreja. Enquanto Chávez, Evo e Rafael Correa disparam seus talentos quixotescos no fomento de uma auto-estima patriótica, enquanto Dilma e Cristina mordem e assopram, mas têm o apoio incondicional do populacho, ele se deixou abater pelas baixarias a respeito de suas peraltices extra-clericais e se aceitou refém de um jogo de interesses que o suprimiu quando já estava mal das pernas.

É besteira comparar esse golpe consentido com o de Honduras, onde o fazendeiro Manuel Zelaia foi deposto pelo Exército com a chancela do Judiciário e do Congresso.Zelaia caiu, é verdade, mas caiu de pé, com aquele chapéu e aquele bigode trançados com a resistência que deu muito trabalho aos golpistas.

Pode até ser que a má notícia dada enquanto fieiras de chefes de Estado passeavam pelo Rio de Janeiro, por conta da suposta preocupação com o meio ambiente, encontre seu antagonismo do lado de fora da fronteira.

Seus vizinhos sabem que em cada salão iluminado há sempre um golpista de plantão, a serviço do crime econômico, com dólares doados para manter seus países como quintais da velha potência hoje abatida pela impotência senil.

Mas e daí? Os vizinhos vão pegar o ex-bispo no colo para levá-lo de volta ao poder que entregou na maior passividade, num rito sumário inusitado e sob pretextos indecentes?

O que tenho a dizer, gostem ou não os de um lado e de outro, é que Fernando Lugo caiu porque não era do ramo. Ali, onde os políticos viram casaca por qualquer meia pataca (os nossos cobram mais), o exercício institucional do poder é uma deplorável obra de ficção.

Quem decide mesmo é a máfia que Lugo tolerou porque não tem o sangue dos guerreiros do passado. Essa máfia, para variar, é multinacional e tem muito mais dotes do que os quartéis de pés descalços, que, tanto como os políticos, estão nas folhas da jogatina, do contrabando e do tráfico de drogas.

Resta saber só se esse estrago será restrito como coisa do Paraguai ou se vai animar os canalhas de outras plagas

sábado, 23 de junho de 2012

Para que o STF cumpra seu dever e retome o julgamento da Varig

Essa é a última esperança de milhares de trabalhadores penalizados por uma perversa tortura continuada

Eu estava lá, em 2006, quando fizeram o leilão da Varig a preço de banana para um ínico interessado.

“Até abril de 2006, eu era autossustentável. Meu latifúndio era produtivo sem agredir nem o meio, nem o inteiro ambiente. E para isso não precisei de nenhuma conferência global para batalhar pelo meu projeto de vida autossuficiente. Só precisei fazer uma coisa um tanto estranha para os amantes de eventos, Ongs, políticos e etc....trabalhar. Ah!, e uma segunda coisa – alguém poderia dizer que assumi um risco ambiental/previdenciário mal calculado - descontar uma parte da minha colheita, digo meu salário, para um fundo de pensão – para evitar que uma OG (Organização Governamental - o INSS), que pegava outra parte do meu salário/colheita, não lançasse sobre mim o seu estigma devastador, estranhamente não condenado por dez entre dez Ongs do planeta Terra e adjacências. Qual estigma?”
J.C. Bolognese, ex-comissário da Varig



Circula na internet uma petição pública para que o STF retome do julgamento do processo de defasagem tarifária da Varig contra a União, retirado de pauta “por 60 dias” em 25 de março de 2009 para facilitar um acordo que foi, de fato, o expediente mais torpe e mais desleal para mandar ao inferno as esperanças dos demitidos, aposentados e pensionistas da outrora mais importante companhia aérea brasileira.
Eu já assinei. Seus autores fixaram a modesta meta de 5.000 assinaturas e estão chegando perto. Para que você dê sua contribuição a essa manifestação de indignação basta clicar em
http://www.avaaz.org/po/petition/Julgamento_da_Acao_de_Defasagem_Tarifaria_da_VARIG_contra_o_Governo_do_Brasil/?eDeWhdb

Se você ainda acha que o Judiciário tem obrigação de se comportar com decência e ainda pode cumprir suas obrigações constitucionais, aponha sua assinatura agora mesmo. No site desse endereço é muito fácil formalizar sua adesão.
Essa é mais uma desesperada tentativa de um grupo de aposentados e pensionistas que vivem hoje na maior penúria, embora tivessem feito parte da mais bem preparada equipe de trabalhadores da aviação brasileira.
Penúria pela qual não têm nenhuma culpa, nenhuma responsabilidade. Penúria que compromete seriamente todo o discurso social de um governo formado primeiro por um sindicalista e, agora, por uma guerreira que sofreu na carne a tortura explícita nos porões da ditadura.
Mas que ainda não percebeu que mudou de lado e participa de uma tortura continuada de milhares de brasileiros punidos politicamente por autoridades que não estão nem aí para o sofrimento infligido num conluio entre todos esses podres poderes, principalmente o Judiciário, principal responsável pelo massacre no que foi o mais vergonhoso processo de “leilão-doação” de uma empresa que já foi top de linha da aviação internacional.
A petição quer somente que a ministra Carmen Lúcia se dê conta de que os seus 60 dias já passaram de mil dias e que já nem se fala mais em acordo nos salões da corte. Quer, e não quer muito, que a excelentíssima ministra do Supremo se faça respeitar e não ofereça mais uma razão para o já cristalizado descrédito da Justiça brasileira.
É muito simples: o processo que saiu de pauta “provisoriamente” para permitir o acordo, que virou um blefe, teve início em 1993. Quando, finalmente, ia ser julgado já tinha 16 anos de percurso nas lentas instâncias do Judiciário – já chegava tarde à pauta do STF.
Quando pedem o julgamento, os aposentados e demitidos da Varig fazem mais do que a própria empresa, ou o que sobra dela, devia fazer. Porque é uma reclamação sobre os prejuízos comprovados pela União, quando congelou as tarifas das aéreas brasileiras sem considerar que os seus custos continuavam subindo, imunes a qualquer controle, principalmente os combustíveis, que compõem a maior parcela das despesas operacionais.
Não seria um assunto da alçada dos empregados e dos aposentados. Mas o ganho inevitável da empresa, tal como aconteceu em 1997 com a Transbrasil, permitiria o ressarcimento do dinheiro roubado do Aerus, o fundo de pensão que deixou aeronautas e aeroviários a verem navios, com a supressão de seus compromissos decorrentes de contribuições aportadas por décadas de admirados serviços prestadas à aviação brasileira.
Esse dinheiro também poderia servir para saldar as dívidas trabalhistas que se perpetuam desde o infausto leilão-doação de 2006, quando em nome da nova Lei de Recuperação das Empresas, quase 10 mil trabalhadores foram para a rua com a mão na frente e outra atrás, sem ver sequer a cor do dinheiro dos últimos salários, burla que foi garantida por um estranho juiz que pode ir para o Guines pelo leilão mais rápido da história, em que uma empresa foi arrematada por um preço de banana: $ 24 milhões, contra o R$ 1,01 bilhão que o grupo formado pelo TGV – Trabalhadores do Grupo Varig – havia oferecido e arrematado, num leilão anulado um mês antes.
É bom que se diga, aliás, que todo o processo de destruição da Varig é marcado por uma torpeza ensandecida, cujos efeitos foram mais trágicos para a sua corporação do que para seus diretores, todos com o bolso forrado, providência que tomaram quando viram a queda-livre anunciada.
É bom que se lembre que ninguém foi punido por esse crime que principiou a desnacionalização dos nossos transportes aéreos, iniciada já no governo Collor de Mello, mas que, sobretudo, vem se prolongando como um verdadeiro genocídio, uma agressão aos direitos humanos, uma violação de décadas de direitos trabalhistas corporificados na CLT do presidente Getúlio Vargas.
Toda essa torpeza indefensável foi mais uma vez denunciada pelos valentes sobreviventes do massacre, que se reuniram junto ao forte de Copacabana neste último dia 21, por sinal, aliás, data do 8º aniversário da inexplicável morte de Leonel Brizola, um apaixonado pelos trabalhadores da Varig.
É pena que eu não tenha tido tempo para produzir o macabro dossiê do Caso Varig, uma peça estarrecedora, que ensejaria uma nova COMISSÃO DA VERDADE, na qual figurariam como réus alguns desses mistificadores, de um lado e de outro, que contribuíram por ação e omissão para a consumação desse holocausto à brasileira.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O espetaculoso faz-de-conta de uma farsa multimarcas ou o marketing da sustentabilidade de fachada



“Foi uma discussão genérica. Todo mundo a favor. E o problema está no detalhe”.
Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, sobre o documento preparado para ser chancelado pelos chefes de Estado do planeta na chamada “Rio+20”.


Mulheres puseram os peitos de fora e índios caíram no samba lá no Cacique de Ramos. Estas devem ser as lembranças mais relevantes desse evento que mais parece um “Rock in Rio” do verde, um verde que, convenhamos, não tem nada com aquela poética de Garcia Lorca, o “verde que te quero verde”.

Tem, sim, do “marketing esmeraldino”, uma das referências de maior retorno comercial na agenda da mídia publicitária. Porque os formais e os informais dessa semana multimarcas nada mais fizeram do que vender seus peixes, saídos de congeladores industriais e não dos mares bravios.

Não quero ser o estraga prazer, mas vou logo dizendo: isso que está acontecendo no Rio de Janeiro é uma “zona” que serve para tudo, menos para codificar compromissos de sustentabilidade, eufemismo de bela sonoridade, mas de baixo teor de verdade.

Começa pela confusão generalizada sobre os temas suscitados, uma confluência de boas intenções que vai continuar lotando o inferno: de boas intenções não se faz um cesto, quem dirá um pacto planetário de normas comportamentais.

Diz-se Rio+20 por causa daquele primeiro encontro, em 1992, menos escandaloso, porém, mais caudaloso, considerando que o tema ambiental mal virava moda, como hoje em que todos fazem juras de amor à natureza, mas, por natureza própria, vivem a corroê-la no berço esplêndido do faça o que eu figo e não o que faço.

Produziu-se um documento que podia ter sido dispensado e ninguém sentiria falta. Até porque, aliás, essa mania de soltar documentos que dão em nada não difere nem um pouco do tempo dos manifestos, aqueles em que imaginávamos um poder que as palavras não tinham.

A questão do meio ambiente, de fato, vai muito além dessas tratativas que inebriam o mundo diplomático, excitam a mídia, mexem com a consciência adormecida das pessoas, no dia-a-dia focadas por inércia em seus inarredáveis sonhos de consumo, porém estão fadadas ao efêmero, tal a volatilidade de suas vértebras de papel.

Não que a gente tenha que produzir um corte epistemológico em velhos hábitos e em economias que se sustentam na apropriação insaciável dos bens naturais e na sua destruição deliberada.


Isso não dá. Pau que nasce todo, morre torto, já se dizia lá na Castainha e no Riacho dos Bois, as fazendas de onde meu pai tirava o que a terra desse, quando dava, porque naqueles idos, por aqueles lados cearenses, o mais que se conseguia era fazer rapadura no engenho movido a bois e farinhada, com aquela roda viva pendente dos músculoa do sertanejo, o forte antes de tudo de Euclides da Cunha.

Se é só para mais uma oba-oba, que houvesse mais recato. Pode ser que os donos dos hotéis e dos bares estejam felizes da vida com tamanha freguesia.

Pode ser até que seja isso mesmo: hoje se traz esse mundaréu aos pés do Cristo Redentor, com o fito de repensar o planeta sustentável; amanhã o Papa virá com milhares de jovens católicos. E para culminar, como somos milhões de peladeiros, teremos copas de futebol e jogos olímpicos, tudo que enche nossos olhos pequenos e irriga nossos corações inchados.

Você queria que eu dissesse o quê? Que tudo se constrói tijolo sobre tijolo? É mesmo? Logo nessa cidade em que querem demolir o feio para dar vez ao incerto reluzente?

Eu não. Não conte comigo para festejar hipócritas encenações. Noticiou-se que as cidades fizeram seu próprio convescote. Mas não se viu ninguém anunciar providências elementares nas urbes, como a obrigatoriedade da coleta seletiva do lixo e incentivo ao aproveitamento da energia solar e o reaproveitamento das águas da chuva. Ou procedimentos permanentes contra a poluição das lagoas e dos rios.

E não se deu um só grito para reduzir a poluição sonora, ante o avanço audacioso da indústria dos espetáculos barulhentos. Se você morar de cara para o que seria a “terra encantada” da Barra da Tijuca será privado do direito ao sono, o mais antigo dos direitos humanos, porque a falência da projetada “Disney carioca” deu num inferninho a céu aberto de mil decibéis, sustentado por injustificável liminar judicial e pela conivência de autoridades acovardadas.

Esses coisitas que não dependem de fundos onerosos não existem por que a razão econômica das cidades apóia-se na indústria do estresse e no comércio da paranóia.

Querer abolir esses pilares do arcabouço pecuniário é mexer em vespeiro. Daí ser mais charmoso o discurso da camada de ozônio, do dióxido de carbono e demais macro-monstros que fazem profissionais das ONGs ecológicas repetirem ladainhas, como tratam a bula os propagandistas de remédios, isto num decoreba enfadonho para boi dormir.

Sinceramente, em que é que esse espetáculo multicor lhe tocou o cérebro eletrocutado por microondas digitais? Fala sério, ao menos uma vez. Ponha a mão na consciência e se ponha diante do espelho. O que você já imaginou para preservar o planeta além das alquimias vendidas por bem falantes mercadores?
Como ficou cristalino, o mar não está para peixe, mesmo. Tudo o que se disse e se dirá nesse concílio ecumênico de posudos chefes de estado e deslumbrados séquitos serão ondas de uma preamar efêmera.

Acabou o ritual, índios, caras pálidas e mulheres de belos seios, mesmo os de silicone, voltarão ao vazio de uma existência acrítica, ou, quando o mais, movida ao alvedrio dos novelões, dos bigs brothers, dos galvões, dos faustões e dos hucks que bombam nas telinhas e no twitter, esse manipulador de 140 caracteres que dimensiona o cérebro humano na modernidade borbulhante do quase nada.

Mais do que isso é sonhar o sonho impossível do hoje desconhecido Dom Quixote de la Mancha. É viajar na maionese das perdidas ilusões que se converteram no grande achado de um sistema de valores mínimos, de idéias descartáveis e de maus hábitos, subordinados à mediocridade republicana que consagra a incoerência, a mistificação, o esquece o ontem e a inconsistência como deusas da vitória a qualquer preço.

Não há maior sinal de tudo isso que escrevi do que a ausência absoluta de iniciativas consistentes em cada paróquia, em cada bairro, em cada condomínio, em cada convívio, mesmo nos mais promissores ambientes, como na Península da Barra, onde a exuberância do verde quebra a monotonia do concreto, mas não semeia nada além do cartão postal.

A única coisa a consolar-me nessa prosopopéia é a certeza inabalável de que um dia a casa cai. E na cabeça de quem menos espera.

domingo, 10 de junho de 2012

Julgamento do “mensalão” em paralelo com a campanha eleitoral: uma decisão temerária e nada republicana. E o caso Varig?

“O recebimento da denúncia (ocorrido a 28 de agosto de 2007) interrompe a prescrição, que começa a ser contada de novo a partir desse ato judicial”.
Saulo Ramos, jurista e professor de Direito.


“A prescrição, depois da sentença condenatória com trânsito em julgado para a acusação ou depois de improvido seu recurso, regula-se pela pena aplicada, não podendo, em nenhuma hipótese, ter por termo inicial data anterior à da denúncia ou queixa”.
Código Penal (Decreto-Lei 2848/40), artigo 110, parágrafo 1º


“Todos sabem que este julgamento é uma batalha política. E essa batalha deve ser travada nas ruas também porque senão a gente só vai ouvir uma voz, a voz pedindo a condenação, mesmo sem provas. É a voz do monopólio da mídia. Eu preciso do apoio de vocês”. 
José Dirceu, principal alvo do processo do “mensalão”, em discurso diante de 1.100 estudantes da UJS-PC d B, na UERJ, sábado, dia 9 de junho de 2012.

Presidente do Supremo, ministro Ayres de Britto sabe que vai haver pressão de todos os lados porque no período de campanha eleitoral tudo será visto com olho nas urnas.

O processo do “mensalão” arrasta-se no STF há 5 anos. Na pauta para agosto e metade de setembro, mais de 6 semanas seguidas, rivalizará com as campanhas eleitorais nos municípios, sofrerá influência de sua atmosfera e influenciará o voto, sobretudo nas grandes cidades. Independente de simpatias ou antipatias em relação aos acusados,  é um julgamento inegavelmente político e só um idiota não vê sua intempestividade.  Se esperasse passar o pleito, nada aconteceria em matéria de prescrição, pois a data aceitação da denúncia é que define os prazos.  Por trás desse agendamento pode estar tudo, desde a contrariedade da corte por conta dos cortes no seu orçamento abusivo para 2012, que reajustava os vencimentos dos ministros em 14,79% até o interesse de minar o julgamento, tornando-o inócuo e vulnerável a todo tipo de leitura. Já no caso do processo da Varig, iniciado em 1992, esse mesmo tribunal não tem pressa, embora a matéria tenha saído de pauta no dia 25 de março de  2009 para facilitar um acordo no prazo de 60.  Não houve acordo e, inacreditavelmente não se falou mais nisso no STF.
O governo anunciou que negociaria dívida com a Varig em 60 dias. Até hoje, nada. E o STF calou.

Finalmente, após um calvário de 17 anos, o processo da dívida do governo federal com a Varig estava na pauta do STF naquela quarta-feira, 25 de março de 2009. Cheguei a trocar algumas milhas para ir a Brasília acompanhar o que seria uma vitória inevitável do que restava da empresa, com a possibilidade de saneamento do fundo de pensão dos empregados – o Aerus – e o negociado ressarcimento dos aposentados e pensionistas, muitos vivendo na mais injusta humilhação,  depois de décadas de admiráveis serviços prestados à aviação brasileira.

Menos de 24 horas antes do julgamento, contando com a desastrosa cumplicidade da diretoria do Sindicato dos Aeronautas e dos gestores da “empresa em recuperação”, a ministra Carmen Lúcia Antunes Rocha, relatora do processo,  acolheu pedido do advogado geral da União, o agora ministro José Antônio Dias Toffoli e decidiu RETIRÁ-LO DE PAUTA POR 60 DIAS a fim de que as partes chegassem a um acordo.


Naquele mesmo 25 de março, em notícia assinada por Mariana Barbosa, o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO informava: A Advocacia Geral da União decidiu fazer um acordo com a velha Varig, rebatizada de Flex, e o fundo de pensão Aerus para resolver a questão da ação judicial pela qual a empresa aérea pede ressarcimento por perdas com o congelamento de tarifas em planos econômicos passados. Essa conta é estimada em mais de R$ 5 bilhões. A ação judicial movida pela velha Varig contra a União estava prevista para ser votada hoje pelo Supremo Tribunal Federal, mas a AGU, a empresa aérea e o Aerus pediram oficialmente o adiamento para que seja negociado um acordo entre as partes.



Se entrasse em julgamento e considerasse a decisão adotada pelo STF em 1997 em caso idêntico da falida Transbrasil, o governo seria fatalmente obrigado a desembolsar o dinheiro que tanta falta fazia e ainda faz  – muito menos para o que restava da mais tradicional aérea nacional e muito mais para milhares de ludibriados que só tinham nessa fonte de recursos a possibilidade de recuperar o que lhes era de direito na esteira do mais deprimente desastre da nossa aviação comercial.


  
 
  Mas a possibilidade de acordo havia sido espalhada com estardalhaço pela então presidente do Sindicato, Graziella Baggio, depois de um brinde com os outros personagens do episódio: Toffoli, o gestor judicial da Flex (sucessor da velha Varig),  Aurélio Panela, e o interventor do fundo Aerus, Aubiérgio Souza Filho. 
Naquela quarta-feira fatídica de 2009, o Supremo Tribunal Federal estava participando de uma farsa sobre a qual vaticinei sem titubear:  aqueles “60 dias” comporiam a maior mentira do ano, porque se houvesse intenção de acordo, se o governo realmente tivesse interesse de ajudar a reparar uma violência social perversa, já teria atendido em 2007  às ponderações do então ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que levei à Câmara do Rio de Janeiro numa audiência que acendeu uma chama de esperanças nos semblantes da corporação que estava sendo massacrada num indefensável genocídio social localizado.
Como escrevi então e em outras oportunidades, até hoje não se fez acordo nenhum e o Supremo Tribunal Federal FOI INCAPAZ de reagir contra essa burla que serviria como mais um condimento desmoralizador de sua condição de CORTE CONSTITUCIONAL.
O STF de tanta empáfia, de tanta pose, de tanta arrogância, meteu a viola no saco e não se falou mais nisso.  A vida dos ministros seguiu na volúpia de suas mordomias incomparáveis, que custam uma baba ao contribuinte, enquanto mais de um milhar de brasileiros permaneciam abandonados à própria sorte, ou, para ser mais preciso, ao próprio azar.
Para esses cidadãos, que não roubaram, não receberam propinas, não fizeram negociatas, a Justiça brasileira permaneceu de olhos vendados. Eles foram condenados pelo mais cruel dos tribunais, o tribunal da omissão da nossa corte de direitos constitucionais.

Por que desconfio do “mensalão” de agosto
Reponho essa página suja da história do Judiciário na ordem do dia para dizer que os fatos acumulados nesses anos de torpeza, em todas as instâncias de um poder de intocáveis,  cuja pena máxima ao serem pilhados em delitos graves é a aposentadoria integral, retiram desses 11 ministros supremos toda e qualquer confiança sobre o julgamento de 38 réus num processo político, em que há razões de sobra quanto ao que pode sair de uma decisão retardada até agosto, já no calor de uma disputa eleitoral cuja ambiência influirá inevitavelmente na imagem dos candidatos das fileiras desses acusados. 
Sem morrer de amores por nenhum dos réus, tenho todo o direito de imaginar que o agendamento para quando agosto vier pode ser mais uma atitude nada republicana, principalmente porque a gula orçamentária dessa casa que custa mais de R$ 600 milhões ao ano, mais do que qualquer corte semelhante na Europa, tomou um chega pra lá da presidente Dilma Rousseff na formulação do orçamento de 2012, o que irritou a a corte sob a alegação de que o Executivo não podia meter o bedelho em sua proposta, que previa um aumento de 14,79% nos vencimentos de todos os ministros, juízes e demais funcionários de um poder que já é de longe o mais bem pago do país: isto é, quase o triplo do aumento dos aposentados e pensionistas que ganham mais do que o mínimo.
Independente do dolo que pode custar condenações a alguns medalhões da base governista, o verniz político do processo enseja a produção de uma bomba de alto teor explosivo sobre os aliados da presidente Dilma, especialmente em São Paulo, onde o tucano José Serra, duas vezes derrotado em suas pretensões presidenciais, será inevitavelmente beneficiado por uma decisão que terá efeitos colaterais imediatos. Serra quer voltar a ser prefeito dos paulistanos, ainda que por curto prazo, para ter outra vez o mesmo trampolim que o habilitou a saltos mais altos.
O STF teve muitos anos para julgar o processo decorrente de uma CPI instalada em 20 de julho de 2005.  A denúncia foi recebida formalmente no Supremo em 28 de agosto de 2007, há cinco anos.  Por razões que a própria razão desconhece o processo ficou esse tempo todo nos labirintos daquela casa e só agora deve entrar em pauta, com todas as possibilidades de desviar os cidadãos das campanhas eleitorais em seus municípios, oferecendo habeas corpus para os delinquentes locais.
Será um espetáculo chocante desnecessário, até porque, ao contrário do que muitos espalham, não há o menor risco de prescrição dos crimes aventados: o acolhimento da denúncia em 2007 garante a punição de todos em todos os delitos apontados.
Pelo que ficou acertado entre os ministros, o julgamento espetaculoso e prioritário na pauta de toda a mídia deverá durar pelo menos 6 semanas, isto é, será o prato do dia durante todo o mês de agosto e metade de setembro. Só um inocente útil não vê seus  efeitos diversionistas em relação aos debates sobre as eleições municipais, revestindo-se de alto poder de interferência nas escolhas dos novos prefeitos e vereadores.
Isso será tanto mais verdadeiro se considerarmos o comprometimento da mídia, principalmente depois das revelações de ligações de alguns jornalistas com o capo Carlinhos Cachoeira. Essa mídia que não teve gás para exigir compostura da mais alta corte na procrastinação do caso da Varig, que sacramentou a farsa que tanto mal fez a centenas de desesperados aposentados e pensionistas, também ganhará munição para operar no processo eleitoral e até mesmo em relação à sustentabilidade do governo que tenta libertar-se do jogo de pressões inescrupulosas, alimentado no âmbito do Congresso e fora dele.
Escrevo hoje, neste 10 de junho, sabendo que tudo pode acontecer até agosto e durante esse mês tradicionalmente agourento.
E o faço valendo-me dos meus 51 anos de vida jornalística. Para a própria garantia de punibilidade, pautar o julgamento para ser um paralelo à campanha eleitoral é um risco com sintomas de má intenção.  Os ânimos estarão exaltados e a pressão sobre os julgadores nesse período poderá ter efeitos bem diversos dos desejados pelos que esperam condenações emblemáticas.
Afinal, muitos desses ministros “superiores” não são essas vestais que se proclamam.
José Dirceu pede apoio aos estudantes para ser absolvido no julgamento do STF. O ambiente vai estar carregado.
Permitida a reprodução, identificando a fonte e preservando o seu conteúdo na íntegra.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.