sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Alguém como Niemeyer não morre jamais


Mais do que uma admirável obra arquitetônica, ele deixa como grande legado 105 anos de caráter e coerência

Não é por acaso que a cerimônia do adeus a Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares envolve no mesmo canto harmonioso pessoas e personagens de todas as gerações, todos os credos, todas as ideologias, todos os matizes, todas as pátrias, numa homenagem unânime e uníssona.

Se não fosse por sua obra fecunda e magnífica,  espalhada pelos quatro cantos do mundo, ele mereceria todas as loas que a mente humana conhece só por ter vivido intensamente 105 anos, no gozo da mais rara lucidez e dedicado de corpo e alma a contribuir  e produzir com sua arte e seu pensamento até o seu último dia.

As futuras gerações disporão de um farto acervo artístico. Falarão de uma obra definitiva e marcante. Terão orgulho de um dos maiores arquitetos do universo, que deixou sua marca registrada em dezenas de países.

Caráter, o seu grande legado

Ninguém hoje negará sua contribuição, ninguém ousará mais diminuir-lhe a obra com a alegação invejosa de que ele era tão somente um papel carbono do francês Charles-Edouard Jeanneret-Gris, o Le Corbusier, seu supervisor na obra do Palácio Capanema, que esteve no Brasil em 1926 e 1936, e sobrevoou o Rio de Janeiro pelas asas do piloto Antoine de Saint-Exupéry, aquele que nos extasiou com  O Pequeno Príncipe.

Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares foi o nosso arquiteto maior. Mas o Brasil sempre teve e sempre terá grandes arquitetos, como Sérgio Bernardes.

O mundo sempre lembrará seu talento arrojado, mas o mundo também tem grandes profissionais da prancheta.

O que salientava sua personalidade admirável, porém, ia além de sua grife artística.

O maior legado desse gênio foi seu caráter único, sua coerência, sua coragem e seu companheirismo.

Coerência ao manter-se fiel à sua ideologia comunista, que abraçou em 1945 e da qual não  se afastou nem nos momentos mais sombrios da ditadura, que o obrigaram ao exílio, nem quando a consagração de sua obra o fez um homem de confortável situação econômica.

Coerência que o fez recusar alguns clientes e que levou alguns grandes construtores e alguns banqueiros a o evitarem, discretamente.

Nessa coerência pétrea, não se prestou a acompanhar os cabeças do velho partido comunista, quando, após o fim da União Soviética, abriram mão da sigla e dos símbolos, numa manobra deprimente que implicava numa patética renúncia à história.

Coragem de continuar sendo comunista quando a sociedade brasileira havia sido envenenada por uma campanha que criminalizava os comunistas, enquanto muitos deles eram executados nos porões da repressão.

Companheirismo na prática rotineira de ajudar aos que dele precisavam, tanto abrindo vagas de trabalho, como garantindo ajudas financeiras, como aconteceu com o líder comunista Luiz Carlos Prestes, cuja moradia custeou por longos anos.

O mesmo entendimento por mais de 100 anos

Um bom arquiteto não é difícil fazer. Um bom caráter é coisa cada vez mais rara numa sociedade competitiva tão brutal que não poupa nem as mais próximas relações familiares.

Um bom caráter pode existir por muito tempo; por mais de 100 anos é quase impossível. Porque o dia a dia de cada um se encarrega de deformá-lo e induzi-lo a mudar para pior sempre que situações extremamente favoráveis ou extremamente desfavoráveis influenciam.

Em relação às convicções ideológicas, a crônica dos nossos dias mostrou que poucos foram e/ou são os que efetivamente nelas acreditam honestamente. Houve uma época em que parecia inevitável que o mundo marchava inevitavelmente para o socialismo.  Muitos pequenos burgueses leram qualquer artigo de Karl Marx ou de seus intérpretes e só para não perder o barco da história vestiram o vermelho de um amanhã que não veio.

Hoje, a situação é mais grave ainda, porque o sistema já não teme essa adormecida  fatalidade e parece suficientemente estrutarado para protelar sine die  a utopia do arquiteto e de alguns poucos sonhadores.

Provavelmente foi o convívio com essa facilidade mutante que alimentou sua reiterada fidelidade aos antigos ideais. Essa firmeza foi, no entanto, uma negação ostensiva do entendimento dialético marxista, segundo o qual a condição econômica de classe  move  o pensamento político. Regra, aliás, burlada ao longo da história, diga-se.

Seja o que for, toda essa homenagem internacional ao grande arquiteto tem o condão de desmontar a indústria de intolerância que alimentou e alimenta ainda o jogo sujo da manipulação das sociedades por conservadores obsessivos.

Comunista ou não, Oscar Niemeyer deu mais projeção ao Brasil de que todos esses ditadores que o perseguiram. E engrandeceu igualmente a  grande massa de idosos, que, como ele, têm um grande potencial e não podem ser descartados como são só pelos cabelos brancos.  A ele, portanto, devemos um reconhecimento muito mais profundo e mais eterno.

Porque homens como Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares não morrem jamais.

Para conhecer melhor o pensamento de Niemeyer, clique aqui e acesse

 

6 comentários:

  1. Anônimo7:22 PM

    Sem dúvida alguma, a sociedade humana será muito melhor, quando a sua maioria for de pessoas com a ética do Oscar Niemeyer.
    Sem querer ser chato, mas já sendo, eu, como engenheiro civil, considero que ele foi um grande escultor de estruturas, mas faço algumas restrições quanto ao conforto interno destas estruturas.
    Enfim, concordo: "Alguém como Niemeyer não morre jamais".

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  2. Anita Silveira8:07 PM

    Concordo com a opinião desse engenheiro sobre algumas obras de Oscar Niemeyer. Digo isso principalmente em relação aos CIEPs. Mas também concordo com o que Pedro Porfírio escreveu sobre o exemplo que ele nos deixou. Foi sem dúvida o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos, mas também deixou um exemplo de camaradagem, simplicidade e respeito pelo povo.

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  3. Ruy Sarinho1:27 PM

    Meu prezado Pedro Porfírio, este seu artigo "Alguém como Niemeyer não morre jamais" não é um artigo. Mas um belíssimno poema-homenagem, que somente uma pessoa com a beleza da sua pena pode produzir. Concordo em tudo o que você escreveu. A arquitetura foi um mundo pequeno para Niemeyer, que é um gênio, principalmente, na arte de viver, com dignidade, compromisso com a transformação do mundo e sempre com a mesma ideologia, num mesmo rumo de coerência a vida toda. Viva Niemeyer, sempre vivo!

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.