sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para que o circo não pegue fogo

Eu queria ficar fora dessa, mas não aguento mais. Eu queria ficar à margem desses fatos reluzentes, até porque ainda estou vivendo a ressaca de urnas injustas, mas não consigo.
E o mais dramático: sinto náuseas de certos acontecimentos que parecem alimentar o instinto de vingança e compensar os recalques, as derrotas e as frustrações de subprodutos do regime de exceção, cujas negociatas e o entreguismo eram blindados pela censura e o terror do Estado arbitrário, em que vivemos acuados durante 20 anos.
Não vejo esses acontecimentos como as presas manipuladas de um sistema calcado nos interesses espúrios.  Não vejo só o que querem que eu veja, porque padeci por longo tempo nos cárceres da ditadura - e não há escola melhor para entender os subterfúgios, as entrelinhas, o subtexto, as segundas e terceiras intenções.
Muitos dos que me respeitam e a quem respeito estão embarcando inocentemente no coro estridente de um processo inquisitorial, como se estivéssemos de repente diante de uma novidade, como se antes maltas muito mais ousadas não tivessem dilapidado nossa soberania, não tivessem comprado parlamentares para mudar a Constituição, não tivessem se envolvido em desonrosas negociatas, como a compra da Light quando sua concessão estava expirando (obra indefensável do regime dos generais), ou nas privatizações ulteriores, em que a riquíssima Vale do Rio Doce foi entregue a preço de banana (obra insustentável dos civis neoliberais).
Não lamento a eventual punição de delitos mais recentes, mas tenho o direito de reclamar um inventário da corrupção ao longo de anos, do conhecimento de todos, mas metalicamente blindada como forma de alcançar apenas quem, certo ou errado, está pagando muito mais pelo que fez de bom, de admirável, do que pelo que fez de ruim.
É patético ler que alguns militares se assanharam e resolveram peitar a hierarquia só para procurarem se identificar com a figura que se notabiliza num processo que agride o direito na medida em que é a primeira e última instância, sobre o qual não cabe recurso,  situação muito semelhante a do reino dos atos institucionais que a ditadura perversa alimentou com a cumplicidade torpe de meio mundo, esse mesmo meio mundo que se vale agora do regime de total liberdade, pelo qual nos sacrificamos ante a covardia e a ajuda desses mesmos referidos.
Eu não tenho nada com nenhum desses bodes expiatórios que estão sendo construídos para facilitar o engessamento do processo decisório, para acuar os consagrados pela vontade soberana do povo: não tenho mesmo.
Mas também não sou míope para engrossar a manipulação deliberada, que alcança a alma limpa de alguns desavisados  pelo expediente da hipocrisia, sob a batuta de  quem jamais se levantou contra as farras de uma corrupção endêmica, razão de muitas fortunas sovadas como mitos de sucesso e exemplos a seguir.
Todo esse espetáculo montado desde agosto no cenário de um poder por si encharcado de mal feitos tem desígnios muito mais solertes do que revela a primeira leitura, ultrapassando capciosamente seu escopo aparente e indo de encontro a projetos demoníacos e ambiciosos na direção do mais pérfido retrocesso.
Não tenho dúvida em dizer que esse é um julgamento político faccioso, que só  teria legitimidade se alcançasse por igual a todos os infratores, desde as priscas eras dos porões da exceção até os hodiernos golpes que forjaram "caçadores de marajás" para desfocar o sentimento crítico de um povo que tendia já então a um caminho progressista trilhado nos passos corajosos de um intimorato. 
Entendam-me como quiserem, mas também considerem que não sou da panela, nem bafejo os manda-chuvas de hoje. Tudo o que quero é abrir os seus olhos e os olhos cansados de milhões de brasileiros, metade dos quais não viveu a barbárie da usurpação, não padeceu sob a mais longa das noites.
Que se faça justiça, sim. Mas que em seu nome não se consagre uma farsa peçonhenta de efeitos danosos para um processo que não pode dar marcha à ré, nem  ser de constrangimento ao progresso e à transformação que o Brasil merece.

6 comentários:

  1. Anônimo9:06 AM

    Pedro, por que será que os corruptos entreguistas dos governos FHC não foram julgados como os corruptos do PT e companhia estão sendo?´

    []s

    José Renato
    enviado através do e-mail jornaldo@pedroporfirio.com

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  2. Que sonho! A realidade é que a sociedade caminha de bodes expiatórios em bodes expiatórios. Não há outro caminho. Às vezes os bodes expiatórios são os bons (bodes), e outras não.
    Quando o processo do Mensalão terminar, os corruptos que não foram punidos já estarão trilando outros caminhos para exercer sua expertise, até a próxima ruptura e escolha de novos bodes expiatórios.
    Eenquanto a História dá de ombros para isso tudo.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.