quarta-feira, 16 de maio de 2012

Uma CPI de pernas curtas com sintomas de anencefalia

Interferência direta do STF revela a falácia de
independência entre os poderes da República

"A impunidade é segura, quando a cumplicidade é geral."
Marquês de Maricá


Extraído do blog Brasil da Corrupção



Anote aí: essa CPI do Cachoeira tem todos os sintomas de um feto anencefálico que não resistirá à luz do dia. Que o diga o egrégio senador Pedro Simon, que jogou no lixo da esclerose a aura de vestal dos bons costumes ao escrevinhar no GLOBO (o que não é sua praia) a defesa prévia de intocáveis – o procurador geral e jornalistas que devem explicações como qualquer mortal – revestindo seus argumentos inusitados do verniz da boa intenção e até  de epítetos axiomáticos.
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Da sua lavra saiu a mesma fumaça da cortina que encobre o processo de cerceamento dos trabalhos de uma investigação parlamentar que se aceita como uma balela. Qualquer passo fora do acordado será estigmatizado com o anátema do diversionismo destinado a esvaziar o julgamento sensacional do que já foi julgado em prosa e versos nos mesmos palanques que o bravo senador gaúcho vê montarem na encenação de uma nova farsa em que, como observou, “os papéis foram bem distribuídos”, segundo seu raciocínio: “há também entre os membros da CPI quem se dedica a acusar jornalistas, numa clara ação de vindita que libera mágoas e ódios em acontecimentos passados”.
A este respeitado e celebrado prócer de carreira bem sucedida não ocorreu discutir o que consubstancia a independência e harmonia entre os poderes, nos termos sucintos do artigo segundo da sagrada Constituição republicana.
Nem lhe passou pela cabeça questionar a hermenêutica que levou um ministro dessa exibida suprema corte a interferir nos trabalhos da CPI para garantir ao principal indiciado, colarinho branco revestido em ouro, o “direito” de só depor depois de conhecer as acusações produzidas contra ele noutra esfera, a do Poder Executivo, como se a inquirição parlamentar estivesse apensada e condicionada forçosamente à investigação policial que, aliás, já havia sido abusivamente brecada em 2009 por um ato insustentável de um procurador que se acha acima do bem e do mal.
Não precisa ser advogado para saber que o traseiro não tem nada a ver com as calças. Mas a penca de causídicos que povoa esse parlamento acocorado engoliu a seco o pito do pináculo de um Judiciário que legisla todo santo dia, fazendo restar a quem tinha esse ofício a desabonadora senda do tráfico de influência na sombria  cerimônia do “dá lá, toma cá”.
Quando li o título e a assinatura da matéria na página de opinião do GLOBO, nesta terça-feira, 15 de maio de 2012, imaginei que era desse constrangimento que o senhor Pedro Jorge Simon, professor de Direito, iria verberar na defesa da liberdade processual da CPI, cuja agenda independe do que se fez alhures, embora essa, com sua ânsia palanqueal,  tenha sido montada como uma carroça diante dos bois: vai investigar o investigado por alguns delegados teimosos que, calados numa operação batizada de “Vegas”, romperam o cerco com outra, a “Monte Carlo”, matando várias coelhos com duas cajadadas.
Qual nada! O octogenário plêiade nem se tocou diante desse constrangimento dos seus pares,  porque, com toda a experiência acumulada, sabe muito mais do que eu o que se passa por debaixo dos panos.
Carlos Augusto de Almeida Ramos, que este mês festejou na cadeia temporária seus bem vividos 49 anos, não é um Anizio Abraão qualquer, embora seja seu parceiro, irmão, camarada. E tenha começado sua intrépida carreira com o know-how levado para Goiás pelo pai, que foi da máfia do Castor. 
Suas práticas foram tão ousadas que reduziram a cinzas própria lenda de Grigoriy Yefimovich Rasputin,  o mago russo que embeveceu a tzarina Alexandra Feodorovna e deu as cartas em Petrogrado até às vésperas dos sete dias que abalaram o mundo, no outono conturbado de 1917.
Rasputin valia-se dos dotes da mistificação e da devassidão, oferecendo seu talento bandido a um império em decadência. Carlos Augusto, o Cachoeira, aprendeu a cercar pelas sete e a distribuir benesses a brancos e pardos, com o que alastrou incólume seu próprio império criminoso pelos meandros de todos os podres poderes, sendo certo que, à parte do jogo sujo que move a CPI, muito se teria a conhecer, fosse honesta a sua propositura e cirúrgico o seu proceder.
Não é demais relembrar o defeito de nascença dessa investigação parlamentar. Em geral, as congêneres fazem suas próprias descobertas e, em havendo lisura, as reúnem em relatórios destinados ao Ministério Público, que dá continuidade com a abertura do processo devido.
Essa se inspirou no samba do crioulo doido, pegou o bonde andando e chamou a si, para efeito artístico, o que a Polícia Federal já descobriu em dose dupla. Trata-se, portanto, de uma comissão sob desconfiança, que terá de garimpar com coragem e  faro  canino para usar o já apurado como bússola e ir onde os policiais não puderam chegar. E para mexer em qualquer vespeiro, indiferente à mau querência dos portadores de  dotes avantajados.
Do contrário, essa CPI tem tudo para ser uma farsa, ao sabor dos cascateiros,  transformando-se em antro de acordos dos  cavalheiros de rabo preso.
Mal começou, aliás,  e já mostrou essa fatalidade torpe e hipócrita.  Quando o procurador Roberto Gurgel se disse minado pelos réus do “mensalão”, as entrelinhas de sua peroração portavam um recado.
Ele poderia estar lembrando também que daqui a pouco vai estar com o chicote nas mãos e na crista da onda. Muitos dos que o estão incomodando com a cobrança sobre o breque inexplicável que deu sobrevida à quadrilha do mago anapolino terão parceiros nos bancos dos réus e, quem sabe, da astúcia de cada um dependerá a catilinária na sua hora e vez. 
Até prova em contrário, pelos defeitos de nascença, em contraste com os alvos principais e periféricos, temos muito pouco a esperar dessa CPI de medíocre coreografia.
Há toda uma cadeia de interesses armada para contigenciá-la, para limitar ao quarteirão o seu espaço investigatório, ao contrário do que aconteceu na CPI dos Correios, que atravessou o rubicão, farejou em outras paragens e só não chegou a derrubar um governo ou a impedir sua reeleição porque faltou autoridade moral aos que desejavam tal desfecho.
Será de uma pobreza frustrante se essa CPI ficar no que já está fazendo a Comissão de Ética do Senado em relação ao preposto do delinquente naquela casa. E se ciscar  só no entorno dos negócios mais explicitamente ilegais já apontados. Essa organização criminosa, com a máfia italiana, tem tentáculos muito mais corrosivos nas frentes consentidas – e a construtora Delta não é seu único braço legal.
Também não ficará bem para o Congresso – e nisso o governador Marcondes Perillo tem razão – se cingir-se apenas aos mal feitos de uma única empreiteira, quando se sabe das traquinagens de outras muito mais ousadas.
Por que não resgatar os autos da “Operação Castelo de Areia”, que pôs na cadeia por alguns dias diretores da poderosa Camargo Corrêa, mas que  o STJ demoliu com uma penada, sob a alegação de que houve escutas ilegais?
 Por que não se avança no sentido de uma legislação de tolerância zero contra os corruptores que permanecem no proscênio, lépidos e fagueiros, em deslumbrantes farras parisienses, mesmo depois de desmascarados na fita, como aconteceu com a Locanty, Rufolo e outras terceirizadas, pilhadas oferecendo grana a granel a um suposto funcionário público?
Por quê? Ora, não precisa ser jornalista para concluir que num país de maus hábitos aceitos pela população como elementos culturais inevitáveis qualquer coisa não ultrapassa às muretas da conveniência, dos acordos compensatórios e da cristalização da impunidade como regra no trato com a coisa pública – regra cada vez mais pétrea e mais intocável.
O resto é matéria para vender jornal e dar audiência à mídia eletrônica.

6 comentários:

  1. Maria Helena1:29 PM

    Pedro, realmente, não há o que retirar do seu artigo. Nem mesmo o que contestar, já que há alguns anos, o que vemos é a população ser vilipendiada das verdadeiras informações, pois não há interesse maiores, por parte da grande mídia, ao informar. O que se vê são interesses escusos do Quarto Poder por trás de cada CPMI que se apresenta. Não vejo porque não se levam às investigações e aos tribunais jornalistas envolvidos até a tampa em escândalos de tráfico de influências e corrupção. Esses não podem representar uma classe que tem poder vital de manter a democracia e o estado democrático de direito, na medida em que detendo informações de bastidores deveriam informar a opinião pública.

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  2. Maria Helena1:31 PM

    Corrigindo: "...pois HÁ interesses maiores, por parte da grande mídia, ao informar."

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  3. Anônimo4:48 PM

    Pelo menos servirá para demonstrar a podridão dos nossos "Poderes" !!!

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  4. Luiza Ângela Mattos Aguiar12:18 AM

    Eu também fiquei muito surpresa com esse artigo do senador Pedro Simon, a quem admirava como um homem sério. Agora vejo que ele está fazendo média com o procurador e com jornalistas, que, como está nesse artigo, não são diferentes de nós, pobres mortais. Não vejo que estejam querendo se vingar de jornalistas. o que vejo é que o Carlinhos Cachoeira tinha muita influência. Vi reportagem na Tv Record que mostrou essa influência sobre a mídia. E fiquei pensando: em quem acreditar mais?

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  5. No Brasil, a corrupção é “para inglês ver” porque a meu ver, é promovida pelo próprio governo, para que cada integrante omisso no poder conivente com a não gestão, retire sua fatia e fique submisso;- prêmio: Não condenado pelo também omisso STF; - enquanto na educação sem nível cultural, ensinam uma história mentirosa as crianças e jovens, para que estes acreditem que o socialismo/comunismo é o único tipo de governo justo e que respeita o cidadão. Esta turma que ocupou o poder diminuiu a atuação de pensadores dentre a população e estão trabalhando nisso cada dia mais, fazendo com que no Brasil tenha muitos analfabetos funcionais, e poucos profissionais de nível superior com uma linha de raciocínio político que possa ser oposição ao governo;
    Primeira ação desta turma foi desaparelhar as forças armadas; - constituir a comissão da verdade com a finalidade de desmoralizar as Forças Armadas, não, revelar a verdade ou julgar realmente quem foi quem, ou, quem eram os comunistas que tramaram transformar o Brasil em terra comunista com um único ditador, seguindo o exemplo do ditador Cubano Fidel Castro. Não desistiram de tentar, tanto, que até hoje tramam, e para isto usam como arma silenciosa o impensante povo brasileiro; sofrido, sem benefícios,sem o direito ao ensino digno e verdadeiro. Não adianta falarmos do STF; seus membros foram escolhidos a dedo pelos mesmos que no poder nos últimos trinta e dois anos, tramaram e continuam tramando o Brasil a caminho do socialismo-ditador. Os três poderes não existe como guardião da sociedade brasileira, sem falar na Constituição Federal chamada de Carta Magna, que o STF diz que a defende... mas sempre procurando as entrelinhas, aspas, reticências, parêntesis,para interpretar de forma tal a favorecer os bandidos e criminosos do colarinho branco com habeas corpus. Como fraudes feitos na Constituição conforme processos que estão há anos nas mãos do PGR Gurgel, como exemplo a fraude no Art.166 que beneficia o pagamento da dívida pública. Dívida esta que nem existe mais, e o STF nada faz para resolver a situação do Brasil como Nação. A meu ver, estão todos vendidos, estão todos dentro da Arca de Brasília aguardando o momento certo para decretarem seus objetivos, que não será nada bom para o povo brasileiro, QUE NÃO ACORDA PARA A REALIDADE. Eu, neste momento chamo por Deus, para que mude o rumo desta Arca de Brasilia, derramando em cima dela o balsamo da integridade moral.
    Porfírio, o Brasil como o mundo todo está sendo dominado pelos sionistas, que compraram as governanças omissas e impatriotas; apresento-lhe abaixo, breve relato da selvageria e do exemplo do mal sem escrúpulo praticado por todos aqueles que estão nos poderes.
    http://mudancaedivergencia.blogspot.com.br/2012/05/com-e-cumplicidade-da-onu-vivemos-um.html
    http://mudancaedivergencia.blogspot.com.br/2012/05/grecia-os-banqueiros-e-empresarios.html

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  6. VALDECI GOIS ALMEEIDA11:39 AM

    É COMO DIZ O PROJETOR DE BRASILIA, O GRANDE ARQUITETO OSCAR NIEMEYER: "PROJETEI UM VASO DE FLORES E VOCES TRANSFORMARAM EM UM VASO SANITÁRIO; COLOCANDO LÁ, AQUELA POLITICALHA PODRE.
    ME ARREPENDO DE TER DESENHADO BRASILIA COM OS CONTORNOS DE UM AVIÃO, QUANDO DEVERIA SER EM FORMA DE UM CAMBURÃO"

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.