terça-feira, 13 de março de 2012

(Quase) nada a declarar


Estão acontecendo coisas tão estapafúrdias, tão extravagantes e tão desanimadoras que me custa muito balbuciar algo.  Pode ser que essa minha sensibilidade à flor da pele veja moinhos e dragões onde os outros só vêem letreiros luminosos.

Pode ser que isso seja coisa da minha idealização do mundo. Pode. Mas, em verdade vos digo: nunca neste país a impostura deitou e rolou com tanta desenvoltura.

Não se faz política para o bem geral -  fofoca-se, em meio a exuberantes cortinass de fumaça. Não se pensa no interesse público, trata-se ostensivamente das ambições desmedidas e insaciáveis de cada um.  É nesse plano menor que se dão os atritos e os conflitos. O noticiário é farto na exaltação do vale tudo pelo poder, qualquer poder. Porque de qualquer poder há sempre como tirar bom proveito.

Seguiu-se o conselho: às favas com os escrúpulos. Necas de princípios. Ao inferno a coerência. Cinismo puro, cinismo que alavanca carreiras e afunda compromissos no lamaçal das conveniências, na fogueira das vaidades.

 Vive-se 24 horas na peleja pela conquista de uma nesga de poder, para mantê-la a qualquer preço ou para resgatá-la em caso de perda. É cada um puxando brasa para sua sardinha e é sobre as manobras nesse poluído meio ambiente que se escreve a crônica midiática.

Mais nada. Um vazio glorificado. Ou pela cumplicidade comprada ou pela indecência assimilada, ou pela superficialidade deliberada.

À sombra e a margem os negócios patrimonialistas prosperam a plenos vapores. Ninguém, absolutamente ninguém, resiste aos eletrônicos cantos das sereias.

Não se avalia competência, mas subserviência. Não se buscam valores; antes deles se foge como o diabo da cruz.

Fazer o quê?

Dizer o quê?

Ando calado esperando a travessia desses dias torpes. Estou absolutamente na contramão dessa volúpia de poder.  Dessa ausência de caráter.  Dessa dissimulação festejada. Dessa banalização da má conduta. Estou mal das pernas.

Envelheci? Estaria esclerosado?

Chego aos 69 anos neste domingo. Vejo-me e não me vejo. Olho-me e não me acho.  Receio ser eu o insano.  Temo estar totalmente superado pela avalanche do arrivismo triunfante.

Não é a primeira vez que as náuseas me abatem. Sempre consegui levantar-me a uma réstia de vida inteligente. Mas agora, o que há de se esperar?

Não quero pronunciar uma só palavra do arsenal que povoa meu cérebro nervoso.

Não quero dar nomes aos bois.

Não posso. Fantasmas me atordoam num cerco asfixiante. Sãos os fantasmas da solidão, da impotência e do revés.  Temo-me incrédulo. Será?

Não lhe peço que me decifre.  Nem ao menos que me entenda. Não lhe peço nada. Não tenho direito nem de súplicas.

Só tenho a dizer por hoje que não há nada a declarar.

Valho-me do antigo ensinamento: neste instante, o silêncio fala mais alto.

No mais, porém, numa recaída de quase esperança, creio no gás que vem do sangue, do suor e das lágrimas de indignados. Creio na energia dos que ainda pensam. E pensam criticamente.  Creio, apesar de tudo, que nem tudo está perdido.

Ou está?

6 comentários:

  1. ABSOLUTAMENTE FANTASTICO ESSE ARTIGO!!!ACHO QUE É O QUE TODOS OS PENSANTES ESTAVAM QUERENDO FALAR!!!PASSEI PARA MILHARES DE AMIGOS DO FACE E E-MAIL!!!OBRIGADO POR ESSE ARTIGO MARAVILHOSO!!!!

    ResponderExcluir
  2. Senhor Pedro.

    O Senhor não esta solitário nessa linha de pensamento. Creio que há uma corrente de indignados e creio que ela esta crescendo, principalmente em duas pontas sociais; O Velho como nós e o jovem que se mobiliza com mais facilidade. Ter medo, tenho, mas o que vamos perder além de alguns sopros de vida.

    ResponderExcluir
  3. Anônimo12:39 PM

    O nosso sistema planetário é neutro em relação aos dramas humanos.
    Como somos associações biológicas efêmeras e processadoras de emoções, só nos resta OPTAR pelo "lado bom" e mandar o "lado mau" para a pqp...
    É como pintar de azul uma folha branca, com cada um fazendo um único pontinho azul. Demora prá kct, mas um dia fica azul...

    ResponderExcluir
  4. Pedro, meu amigo, entendo-o perfeitamente. Ando muito descrente das verdadeiras intenções das pessoas que estão ocupando algum poder. Mesmo o mísero cargo de síndico de condomínio é alvo de disputas desleais e de dissimulações e cinismos com o único objetivo da locupletação. Ando meio desligada das notícias que são veiculadas nos grandes canais de comunicação, seja jornal ou telejornal. Mas, quando leio seus artigos, mesmo estes em que você desabafa, tenho uma réstia (parafraseando-o aqui) de esperança nos homens de boa vontade e de boas intenções. Acho louvável que, aos quase 69 anos, você ainda tenha tanta garra para, ainda que com indignação,escrever suas colunas e mobilizar tantas pessoas que como eu o admiram muito justamente por tudo isso.
    Confesso que, aos 53 anos, ando muito desanimada com as pessoas, de modo geral, sobretudo com aquelas com que somos forçados a conviver, como os infelizes vizinhos.
    Infelizmente ainda vivemos sob uma imensa cortina de fumaça e sendo levados a crer, por exemplo, que há um rombo na previdência e que a única solução é condenar os futuros aposentados a uma vida de quase indigência. Não sei se estarei viva para ver mudanças reais e necessárias, mas, até lá, vou me desligando das coisas que me fazem mal. Já falei e repito: você é um dos únicos que me fazem parar para ler seus artigos. E nunca me arrependo. Obrigada mais uma vez.
    Beijos

    ResponderExcluir
  5. vera vassouras10:18 AM

    Caro Porfírio:

    Você não está sozinho nesta agonia. Não sei se você assistiu o filme Planeta dos Macacos. Atualíssimo e com mensagens nada subliminares aos "macacos-cidadãos" da atualialidade e as várias formas de aprisionamento. Paralelamente, verificamos que os chamados "animais irracionais" estão evoluindo. Evoluem assimilando as doenças de seus donos; evoluem construindo pontes para fugir de seus cativeiros; evoluem decidindo resolver seus conflitos por território através de negociações e paz entre seus membros. Os animais chamados irracionais estão evoluindo e quiçá, os que se consideram racionais dentre os humanos, sejam aqueles que, assim como você, sentem no íntimo este incômodo das violações diárias do que se entendeu denominar sociedade humana. A questão é: quem é humano? e dentre esses, não estaria na hora de analisar essas bestas como psicopatas perigosos e afastá-los do convívio social? O que fazer? Usar o tempo para montar estratégias de resistência e, uma delas, decidir por uma meta comum, todavia, o tempo é desperdiçado em palavras, virtualmente, sem contato físico entre as pessoas. É preciso des-esperança total quanto à possibilidade de evolução desses bárbaros psicopatas, excluí-los, afastá-los, apontá-los como um defeito genético, cuja consequencia criminal não tem cura. É um cancer e precisa ser extirpado, por ação, pois as palavras já não fazem mais sentido.É preciso construir pontes, assim como os macacos nos zoológicos-prisões, neste zoológico chamado demo-cracia.

    ResponderExcluir
  6. porfirio, to com tigo. voce sempre claro nos brilhantes artigo. é preciso voltar p/ruas e levar nossa indignação a todo povo brasileiro.
    VIVEMOS NUM PAIS QUE PERDEU SUA IDENTIDADE. TUDO É MUITO NEBULOSO.
    OS DONOS DO PODER ESTÃO ACOMODADOS.
    O POVO NÃO PERCEBE NADA PORQUE NÃO TEMOS MAIS LIDERES QUE FAÇA O POVO ACORDAR. REGATTIERI

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.