domingo, 25 de março de 2012

Ninguém é obrigado a ser corrupto

Em depoimento gravado, cito minha própria experiência para rebater a idéia de que a corrupção é inevitável

“No Rio, em geral, há um afrouxamento da conduta ética. Certas situações são entendidas como normais. Isso leva a esse tipo de sentença complacente com os erros administrativos”.
Desembargador aposentado Marcus Faver, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Clique na foto e veja o depoimento sobre minha experiência na administração pública
Junto com o noticiário sobre as propinas oferecidas por prestadores de serviços de 4 empresas que têm contratos gordos com o Estado do Rio e a Prefeitura difundiu-se a idéia de que as práticas de suborno e a má conduta de autoridades são inerciais, inevitáveis e fazem parte de uma cultura enraizada.

Pode até ser que isso aconteça na maioria das contratações de terceiros pelos órgãos públicos e na compra de materiais e produtos. Os repórteres que colheram evidências desses desvios de conduta a partir de um hospital de porte médio não tiveram muito trabalho para documentar o que uma das corruptoras cunhou de “ética do mercado”.

Para apoiar a constatação dessa fatalidade vergonhosa, reportagem assinada por Chico Otávio no GLOBO deste domingo revela que a morosidade da Justiça é uma decisiva aliada na cobertura dos desvios do dinheiro público.

 “Vinte anos após o início da vigência da Lei de Improbidade Administrativa, que pune políticos e servidores envolvidos em desvio de dinheiro público, apenas 70 dos 1.209 processos no estado (6% do total) tiveram condenação com trânsito em julgado — quando já não cabe mais recurso à decisão. Outros tribunais do país exibem a mesma dificuldade. O Tribunal amazonense registra apenas uma ação com condenação definitiva. Em Pernambuco, nove. Na Bahia, 13 casos”.

A matéria destaca ainda:

“Entre pessoas físicas e jurídicas, o Rio tem 3.285 processados por corrupção. Há casos de réus respondendo a 20 ações. Na busca de um diagnóstico, o CNJ investiga desde o mês passado a vagarosidade do Estado do Rio. Uma das hipóteses é a complexidade da lei, que determina a notificação prévia de todos os envolvidos antes da instauração do processo. Esse primeiro passo, dependendo do número de pessoas, pode levar anos. A outra hipótese investigada é uma demasiada aproximação de magistrados às esferas do poder”.


Não obstante, acredito piamente que considerar inevitável as práticas de corrupção, tráfico de influências e favorecimentos é uma desculpa esfarrapada que beneficia os corruptos e corruptores pegos com a mão na massa.Se seguirmos esse raciocínio, estaremos legitimando os desvios de conduta e contribuindo para a sua multiplicação de ano para ano por todos os cantos do país.

Parto do princípio de que ninguém é obrigado a ser corrupto. E que ainda existem funcionários, cada vez mais raros, que resistem às tentações dos corruptores. Os diretores do hospital que facilitaram o trabalho do repórter do “Fantástico” certamente estão entre esses gestores públicos decentes. Neste momento, eles devem estar na mira das máfias de corruptores que foram desmascarados e de outras autoridades cujas trapaças aparecerão se as investigações na área não forem torpedeadas no caminho. 
Como você sabe, por muitos anos ocupei cargos públicos no Executivo do Rio de Janeiro e exerci mandatos na sua Câmara Municipal.  Com determinação, fiz gorar todas as tentativas de malfeitos e ainda fiz realizar obras pagas antecipadamente e não realizadas na administração anterior.

Mesmo sofrendo todo tipo de assédio e pressão, passei incólume duas vezes por uma Secretaria onde a emergência era quase rotina, devido à sua área de atuação: o socorro das populações pobres, atingidas por temporais, enchentes, incêndios, despejos e outras tragédias que exigiam pronta resposta.

Já pensei em escrever um livro a respeito. Mas, por hoje, resolvi gravar um depoimento de 25 minutos, feito de improviso, que postei no You Tube.  Tomei essa iniciativa com o propósito de demonstrar, por experiência própria, que ninguém é obrigado a ser corrupto. Com certeza, não sou o único que pode exibir o resultado de um trabalho realizado com lisura e rigor na festão da coisa pública.

Por isso, creio ser importante divulgar não apenas os casos de corrupção que precisam ser punidos com rapidez exemplar. Os exemplos de resistência às ofertas dos corruptores e a punição administrativa de desvios de conduta  servem de estímulo àqueles que são tentados ao jogo sujo do poder, mas cuja índole não assimila práticas deletérias.

Antes de acessar meu depoimento, ponha uma coisa na cabeça: em havendo vontade política dos governantes e uma consciência crítica dos cidadãos, é possível reduzir as ações criminosas que são responsáveis por todas as mazelas que desmoralizam os poderes públicos e cristalizam um sistema inoperante, ineficiente e perverso, especialmente com quem precisa de seus serviços.

CLIQUE AQUI, veja meu depoimento e dê sua opinião. De preferência, manifeste-se através do blog ou do próprio You Tube.

Um comentário:

  1. Paulo Antônio Mesquita10:08 PM

    Achei muito oportuno o depoimento do Pedro Porfírio, mostrando que ninguém "é obrigado a ser corrupto". Há outras pessoas sérias. Infelizmente, a imagem da classe política está muito desgastada. E ninguém acredita mais em políticos. Não é o meu caso. Acho que ainda é possível separar o joio do trigo.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.