sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Repensar a cidade com honestidade, carinho e afeto

Fartura de causas apontadas e pressa em respostas compensatórias alimentam a paranóia coletiva

“A paranóia que surge em relação aos prédios tem um lado positivo: essa paranóia se transformará em conscientização”.
Engenheiro Antonio Eulálio Pedrosa, conselheiro do CREA-RJ

Assustados com uma “sensação de tremores”, funcionários que trabalham no Edifício Octavio Noval, na Almirante Barroso, desceram correndo dos seus 22 andares na tarde da última quarta-feira. Esse prédio é vizinho dos edifícios que desmoronaram uma semana antes. Na quinta, foi a vez do pessoal do edifício da Evaristo da Veiga, 55 – 150 metros distantes.  Isso está acontecendo quase diariamente desde a tragédia da rua 13 de Maio. Uma cortina de medo desceu sobre os cidadãos do Rio de Janeiro. Na semana de 25 a 31 de janeiro,  a Defesa Civil recebeu 877 telefonemas com denúncias sobre riscos de desabamento, isto é, 290% a mais do que as 225 ligações em igual período no ano anterior. Já o Crea-RJ, que recebia entre três e cinco denúncias/dia antes da tragédia, registrou nos quatro dias seguintes 220 telefonemas, uma média de 55 ao dia.
Avolumam-se as hipóteses sobre as causas do desabamento que traumatizou a cidade e implantou um cenário de destruição na área onde começa o carnaval, com o desfile do bloco da Bola Preta. Cada uma delas serve para reforçar a paranóia que já se generaliza e tira as pessoas do sério. A tensão e a insegurança tornaram-se elementos sombrios nos passos largos de cariocas impressionados pelas imagens daquela noite de terror. O medo reina. Não dá para esconder esse efeito inevitável sobre o imaginário coletivo. 
Isso impõe uma reflexão profunda sobre o poder multiplicador das tragédias.  E exige das autoridades e dos formadores de opinião uma postura madura, uma sensibilidade aguda. Exige visão e poder de comando. Não se resgata a confiança perdida só com meia dúzia de palavras e busca de bodes expiatórios. Ao contrário, a versão de superfície e as alegações inconsistentes só servem para disseminar a peste da paranóia, que a todos afeta.
É preciso considerar que a massificação da informação negativa produz sensações negativas multiplicadas e abre um fosso de desconfiança e até de desesperança em relação às autoridades sobre as quais as cobranças são concentradas. O que não se fez até agora na repartição das responsabilidades não se pode fazer em cima do lance. O clima exige prudência máxima em cada pronunciamento oficial.
O país está por demais acometido de malfeitos, que vêm à tona na reação de seres desfigurados pela constatação de que seus hábitos individualizados podem dar com os burros n’água. Toda e qualquer providência compensatória deve ser cuidadosamente calculada antes de proclamadas. Não foi feliz a idéia de transferir para os condomínios a contratação de laudos porque só o poder público pode agir como instituição fiscalizadora. A terceirização dessa tarefa sujeita a tudo nesse mar de edificações construídas ao arrepio das regras. No caso do Edifício Liberdade, até fizeram um laudo qualquer sobre o peso de três sacos de cimento. E não era essa a questão.
Se quiserem restituir o ambiente de tranquilidade, será preciso perseguir com coragem os fatores pretéritos. Se alguma culpa têm os empresários que faziam obras, elas estão no fim da linha e seriam apenas a gota d’água. Descarregar sobre eles toda a responsabilidade seria o cúmulo da insanidade. Se fosse só isso, milhares de “reformas internas” que se processam nesse momento em muitas cidades poderiam causar outros tantos desmoronamentos.
Como já disse antes, décadas de desmazelo e decisões incorretas levaram à hecatombe do dia 25 de janeiro. Errou-se mais da conta. Errou-se tanto que ninguém mais tem direito de cometer um só erro, sob pena de inviabilizar a vida sob os arranha-céus. No caso desses desmoronamentos, os efeitos são mais cáusticos do que a derrubada das torres gemas, em Nova York. Porque lá ficou a impressão de obra de aviões pilotados por terroristas (e foi muito mais, ressalve-se). Aqui, não aconteceu nada disso. Todo mundo foi impactado pela surpresa, até porque nem sequer chovia: os prédios estavam praticamente vazios, portanto livres de todo o peso da movimentação de pessoas. E como o que aconteceu ainda alimenta um universo de hipóteses, a dúvida atroz paira sobre nossas cabeças e corrói nosso sistema nervoso.
Do que já se conjecturou, além das condições do terreno, antiga lagoa, e dos acréscimos de andares depois do habite-se, ouso considerar as indicações do perito José Schipper, que se referiu a uma “leve inclinação” no Edifício Liberdade, durante as obras do metrô, em 1976.
Na construção do metrô, foram instaladas, na Avenida Treze de Maio, duas paredes paralelas: uma do lado par e outra do lado ímpar dos prédios e moradias da via, para que se cavasse uma grande depressão na rua, onde passariam os trens. A parte da parede em frente à calçada do Liberdade apresentou fissuras. Os operários logo taparam o buraco ali, para a construção de nova parede. Na sequência, as pessoas ali repararam que o prédio sofreu uma pequena inclinação. Não posso precisar de quantos centímetros, mas era visível — disse Schipper, que, na época, tinha um escritório na Treze de Maio.
Curioso: ali perto, optaram por demolir o histórico Palácio Monroe, que abrigou o Senado Federal. Não precisa ser engenheiro de estrutura para saber que esta obra tinha menores possibilidades de abalo do que os edifícios com alicerces colados aos fossos por onde passam os trens.
Mas o metrô começou a ser cavado em tempos em que qualquer dúvida poderia ser catalogada na conta suspeita da subversão.  E essa mídia hoje ouriçada fechava os olhos, compactuava e exaltava tudo que o regime autoritário fazia. Ou você não sabe do cemitério sob a ponte Rio-Niterói de que quase nada se falou à época?
As condilções precárias das obras do metrô em 1976 inspiraram minha peça CANTEIRO DE OBRA, proibida  na época  pela censura e publicada em livro com capa  de Ziraldo e prefácio de Plínio Marcos,  por Jorge e Alexandre Sávio, da editora Europa, por iniciativa do produtor Rodrigo Farias Lima

As obras do metrô se fizeram em condições tão precárias que houve revolta dos operários e inspiraram minha peça CANTEIRO DE OBRA, só encenada anos depois,  devido ao crivo da censura de então. Não me surpreenderá se esses buracos  tiverem deixado uma boa quantidade de bombas de efeito retardado por seu caminho.
Em todos os casos, só há uma alternativa para quem detém qualquer tipo de poder, inclusive o midiático: esta é a hora de repensar a cidade, de repensar qualquer intervenção, qualquer coisa que se faça sem o máximo de cautela.
As urbes já foram muito agredidas e estão fragilizadas. Tudo o que se fez aqui contou com o beneplácito de uma natureza amiga – estamos livres de furacões, ciclones e abalos sísmicos de grande magnitude. Mas não se podia abusar. E abusaram.
Repensar tudo por tudo, com o indispensável distanciamento crítico, sem as influências maléficas do poder econômico, sem a preocupação de proteger interesses pontuais.
Repensar com a devida serenidade e a necessária responsabilidade. Repensar sem partidarismos, sem querer tirar qualquer tipo de proveito do clima de insegurança que paira.
Repensar com o máximo de honestidade e espírito público. Com carinho e afeto. Repensar e agir com visão de estadista, com compromisso republicano.  

6 comentários:

  1. Moro no interior de Minas. Minha casa se encontra a 100 metros de onde passa a Estrada de Ferro Leopoldina - hoje desativada. No tempo da Maria Fumaça, o trem passava na linha e fazia tremer os móveis dentro de minha casa.
    Baseado neste simples fato, tento imaginar uma projeção do impacto da movimentação dos trens do Metrô sobre todo o solo e os prédios existentes apoiados naquela estrutura. Isto sem se falar no efeito das obras, na retirada de massa térrea que compunha toda aquela base de sustentação do que havia na superfície.
    Sem paranóia, penso que o perigo é muito maior do que parece. Terminadas as obras, o movimento dos comboios causa indubitavelmente tremores subterrâneos diariamente, que comprometem a segurança de todos os prédios existentes nessas imediações. Os desabamentos ocorridos podem ser o começo de uma série, porque somente agora as bases demonstraram o esgotamento de sua resistência.
    Todas as obras subterrâneas deveriam dispor da tecnologia aplicada no Japão para a construção de prédios, com amortecedores destinados a diminuir os efeitos dos tremores de terra que fazem parte de sua natureza.
    Aqui não há os tremores, mas a vibração das gigantescas máquinas teria que ser considerada.
    Franklin Ferreira Netto

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  2. Emília Santos Julião9:16 AM

    Tenho ouvido conversas sobre problemas surgidos na construção do metrô. Acho que é hora de começar a fazer vistorias nos prédios que poderiam ter sido afetados ou pelas escavações ou pela passagem dos trens, como lembrou Franklin Ferreira Neto sobre o que acontecis em sua cidade.

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  3. Marcio12:59 AM

    Onde poderia encontrar este livro para compra ? marciocavalcante@pop.com.br

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  4. pedro parabéms e muntobomesselivro

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.