segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Para que você não se deixe cegar pelas cortinas de fumaça do sistema

E para que não viva de bodes expiatórios, enquanto os
espertalhões deitam e rolam às suas custas


"A taxa de juros do cartão de crédito é a mais alta do Brasil. Em dezembro, somou 238,6% ao ano. Isso na média. Porque tem taxas que passam de 500% ao ano. Taxas desta natureza justificam o tamanho desta inadimplência. Uma dívida dobra de tamanho com o passar do tempo (se for pagando somente a fatura mínima). Um dos grandes motivos é esse fato. Juros altos fazem com que a dívida cresça rapidamente".
Miguel Ribeiro, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade.


O sistema tem conseguido prodígios na manipulação de inocentes úteis, que se jactam de sandices idiotas no deprimente papel de ventríloquos destituídos de qualquer juízo de avaliação.
Qualquer coisa que pareça repulsiva à atividade política escorre como uma torrente de destruição incontida, deixando o terreno baldio para que a vagabundagem de colarinho branco deite e role, meta a mão grande e assalte a população e o erário inermes como se o bem estivesse praticando em nome dessa cínica senhora que se veste da fantasia desbotada da moralidade e de sucesso empresarial.


O sistema sabe o que faz, sabe o que pretende, sabe onde quer e onde pode chegar. O cidadão imbecilizado, não. Descuidado e despolitizado, sem memória e sem conhecimento maior, sem método e sem capacidade crítica, esse analfabeto político pode ser usado como o perfeito idiota, como multiplicador de tudo o que o sistema precisa para manter o controle do que há de mais precioso numa sociedade humana – a opinião livre e fundada na análise correta, se possível, profunda, de modo a poder contrapor-se à carga de criminalização de todos os homens públicos, mantendo-os acuados e pautados pelos grandes grupos que estão por cima da carne seca e são até endeusados, conseguindo aparecerem como motivo de orgulho pelo  sucesso de sua desbragada agiotagem: essa semana, ninguém fez um único reparo ao anúncio de que só o Banco Itaú lucrou R$ 14 bilhões em 2011, algo que representa mais do que os orçamentos de muitos Estados e municípios: mais, vale lembrar, do que os gatos do governo  com o popularmente conhecido “Bolsa -Família”, programa compensatório que alcança 40 milhões de pessoas.

Nenhum fanfarrão da idiotice, que tem na internet todo o espaço do mundo para repassar os produtos bem elaborados do sistema, parou para pensar de onde um agiota, que vive da especulação financeira, tira tantas pepitas.  Não ocorre ao imbecil que toda essa dinheirama emana da mais vil espoliação que encurala a atividade verdadeiramente produtiva.

Decididamente fazer conta não é hábito de nossos patrícios.  Não lhe ocorre calcular que paga um monte de apartamentos quando compra um financiado em 240 meses. Que paga três automóveis, quando compra por um em 60 vezes.

Sequer esse repassador dos embustes do sistema se dá ao trabalho de comparar o lucro dos agiotas com a inadimplência de suas vítimas. Isso mesmo. Só no cartão de crédito, essa bomba que todos usamos crentes de nossa pujança, a inadimplência chegou a 26,7% segundo números do Banco Central.
Em outras palavras, de cada 4 brasileiros, um está pendurado nos juros mais caros do mundo e não tem de onde tirar  um tostão para cobrir seus sonhos de consumo.


Além de ser a mais alta de todas as modalidades de crédito, os números mostram que o patamar registrado em dezembro do ano passado, de 238,6% ao ano, é a maior desde junho de 2000. Segundo a Anefac, os juros desse amigo da onça que você usa vorazmente é mais do que o dobro da média das operações de crédito para pessoas físicas, de 114,8% ao ano. Superam até mesmo as taxas cobradas pelos bancos no cheque especial, que também são extremamente elevadas (162% ao ano em dezembro de 2011).

Se você usar uma maquininha verá que há um grande parentesco entre o ganho estratosférico dos bancos (Itaú, Bradesco e Santander lucraram R$ 33 bilhões e 404 milhões em 2011) e a corda no pescoço da macacada deslumbrada e com suas micros lanternas direcionadas única e exclusivamente para as mazelas dos políticos,  que estão na mesma dança, mas que, além de não serem todos, acabam sendo café pequeno diante do assalto esbeltado das máquinas especulativas de fazer dinheiro fácil.

Embora o jogo do poder seja de fácil percepção, não é difícil para o sistema levar o  cidadão de conhecimento crítico congelado a fechar os olhos para os assaltos dos banqueiros e canalizar sua amargura para a atividade dos homens públicos, que deveria ser a mais nobre de todas. Deveria ser, tudo bem, mas não é, por conta muito mais do corruptores que jogam suas tarrafas com sucesso na captura de políticos eleitos pelo descuido e a leviandade dos cidadãos.

Outro dia, um amigo sério, bem intencionado, calejado, me repassou uma mensagem em que defende remuneração zero para os vereadores. Nada parece mais charmoso. No tempo da ditadura, houve uma decisão em que só os edis das capitais podiam ter vencimentos.  Na mensagem, diz-se até, na maior sem-cerimônia, que o Brasil é o único país onde os legisladores municipais são remunerados.

Na minha resposta, disse-lhe na lata: isso é tudo o que querem as construtoras, empreiteiras ou não, insaciáveis, as máfias dos transportes, os prefeitos ladrões e outros malfeitores.  Numa cidade como o Rio de Janeiro, cujo orçamento é um dos dez maiores do país, superando o de 23 estados, vereador “voluntário” será presa fácil das quadrilhas que se apropriam de 30% dos impostos através de superfaturamento, concessões levianas e tantos outros favorecimentos.

Eles não precisarão prestar contas do que entrar em seus bolsos, sempre em moeda sonante, à salvo inclusive do imposto de renda, pelo caminho conhecido da Caixa 2 das grandes fornecedoras dos municípios.

Aliás, a bem da verdade, mesmo ganhando dos cofres públicos, os vereadores, como   muitos parlamentares  e titulares de todos esses podres poderes, inclusive honoráveis magistrados, já fazem parte de mensalões oferecidos por máfias que vivem à sombra e ainda desfilam como modelos de organizações econômicas.

Se recebendo oficialmente os parlamentares municipais pegam algum por fora, imagine o que farão na condição de voluntários – figuras que sumiam do mapa desde quando  ONGs inescrupulosas descobriram a “virtude” de profissionalizarem a solidariedade.

Escrevi as linhas acima porque ainda tenho alguma esperança de que alguém consiga abrir os olhos e pare para raciocinar, prática cada vez mais em desuso.
Escrevi e vou escrever mais, porque sou teimoso de nascença. E acredito piamente que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.


Escrevi porque não aguento mais receber mensagens repassadas por cidadãos imbecilizados, que não se mancam ante sua pobreza crítica e sua vocação para o culto das sandices elaboradas meticulosamente por uma meia dúzia de espertalhões,  fabricantes d cortinas de fumaça.

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Senhor Pedro Porfírio
    “Para que você não se deixe cegar pelas cortinas de fumaça do sistema”

    Tenho me dedicado quase que semanalmente a falar no domínio do estado pelo sistema financeiro.
    Me parece, falo a moucos, que se ouvem, não dão importância alguma ao fato de que a dominação mundial esta levando os que trabalham a pobreza.
    Veja bem: Na década de sessenta com a metodologia de Paulo Freire aplicada pelo SENAI em todo o Brasil, o aprendiz de uma profissão industrial não aprendia somente para o trabalho, mas para a vida.
    Lula (fenômeno) e outros tantos, nem tanto, são oriundos deste aprendizado.
    A escola era para poucos, os filhos dos trabalhadores que conseguiam estudar era em um curso profissionalizante.
    Hoje, fizeram da educação uma panacéia para a ascensão social. Ocorre que a escola em todos os níveis não ensina para a vida, apenas para o trabalho.
    Nós nos deparamos com os profissionais de ponta, as melhores carreiras, as mais bem remuneradas, que se apertar apenas uns milímetros não sabem diferenciar alhos de bugalhos. A escola não está preocupada com o ensino propedêutico, aquele que prepara o homem para absorver conhecimento, apenas e tão somente mecaniza o saber e deixa ao infante e a sua família a tarefa de introduzi-lo no verdadeiro conhecimento.
    A dominação do sistema financeiro sobre o poder político é visível, tanto que categorias antes preservadas e protegidas do esbulho financeiro, hoje, estão endividados até o pescoço, passando necessidades e sofrendo a amargura de um débito que não se acaba nunca, já que pode ser renovado, sempre que o cliente tenha margem de endividamento. Estou falando dos aposentados e pensionistas que eram livres do sistema financeiro, porem, o Presidente metalúrgico teve a brilhante idéia (sic.) de permitir empréstimos consignados como se isso fosse a solução para todos os nossos problemas financeiros.
    Parte dos bilhões de lucros do sistema financeiro nacional sai da já pouca remuneração social conquistada por longos e tenebrosos anos de trabalho.
    Com certeza, me convenci disso, será necessário alguns anos de trincheira para que a classe média nacional e internacional, saiba que todo o poder emana das suas entranhas e que é necessário saber usar este poder a favor do coletivo e entender que as oportunidades democráticas do sistema em que vivemos são quimeras, apenas e tão somente quimeras. É como o pote de ouro ao pé do Arco Iris. Não existe.
    Continuar escrevendo e falando aos nossos pares é uma obrigação, afinal nós conseguimos entender a alegoria de Platão, portanto, vamos continuar subindo e descendo penhas, na tentativa de conduzir alguns para o mundo novo, para a democracia do povo e para a felicidade utópica.

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  3. Salve Porfírio !
    Muito boa a matéria ! E absolutamente necessária. Já repassei para as minhas listas ... grande abraço
    Murillo Cruz (UFRJ)

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  4. José Netto11:12 AM

    ..."Os companheiros secretos da formação da riqueza ou da miséria são os juros compostos, ou juros sobre juros, chamdado pelo Barão Rothschild, o maior construtor de riquezas financeiras de que se tem notícias na história da humanidade, de: "A OITAVA MARAVILHA DO MUNDO"! "Se você puder criar riqueza do nada, então empreste-o a juros", era sua fantástica, e sábia, filosofia de vida. Extraído de Armindo Abreu, O Poder Secreto, Editora Kranion, 2005, pp 217-218.

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  5. Porfírio,
    Depois de pesquisa na rede sobre aposentadoria,abri seu Blog... me tornei mais uma fã... da sua raiva, do seu ódio, da sua dificuldade de compreender como podemos deixar as coisas como estão. É muito triste, mas saber que existem pessoas como você - que não se calam (gostei da sua escrita...nua e crua) é a nossa esperança. Muito obrigada.

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  6. Claudia Aguiar12:09 AM

    Não é a primeira vez que escrevo para você, caro Porfírio. prefiro sempre responder sua matéria enviada por e-mail. Mas esse comentário de Marc Gogh e os demais postados nessa sua última opinião me deixaram emocionada e me fizeram também deixar aqui minha admiração pública por você. Contamos com sua palavra sempre forte e aguerrida.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.