domingo, 26 de fevereiro de 2012

Antes que a “Comissão da Verdade” comece em pizza

Enquanto aqui reina a tibieza, ditadores e torturadores estão sendo julgados nos países vizinhos

“Nos últimos anos, um número cada vez maior de países da região está abrindo os baús de seus períodos autoritários e levando para os tribunais agentes do Estado responsáveis por atrocidades”.

Ruth Costa, em matéria para o jornal ESTADO DE SÃO PAULO

O ex-ditador argentino Jorge Videla (1976-1981) foi condenado na véspera do natal de 2010 a prisão perpétua por um tribunal de Córdoba pela execução de opositores e outros crimes contra a humanidade.


Agora que o carnaval passou, que finalmente, não é heresia falar da realidade nua e crua, que começamos a arrancar as máscaras e fantasias de um calendário compensatório esticado,  creio ser este o momento de cobrar agilidade no trato de  feridas históricas ainda expostas, condimento da maior das impunidades, os crimes praticados por agentes do Estado e encobertos a sete chaves por uma meia dúzia de sádicos que ainda agem como se monitores da tropa e tutores das instituições
Essa resposta sobre um período de sevícias e indignidades, que custou centenas de vidas e arruinou outras milhares, que produziu gerações de traumatizados e acovardados, é, antes de tudo, a primeira garantia do saneamento cirúrgico de hábitos que se perpetuam sob mantos diferentes, mas com o mesmo resíduo autoritário e com a mesma cobertura da hipocrisia midiática.
O que hoje acontece em áreas de poder que se consideram acima do bem e do mal  não passa de subproduto daqueles idos que matreiros e covardes querem por que querem empurrar para debaixo do tapete.  
O período que fez de farrapos os elementares direitos dos cidadãos deixou uma bactéria de alto poder corrosivo. Esses jovens que exercitam seu potencial em fugas para o nada, que sequer se vêem motivados a questionamentos de amputações que lhes afetarão o próprio futuro, esses meninotes que se gabam da alienação e da indiferença são espécimes elaborados quando seus pais e avós fizeram da cabeça baixa a condição se sobrevirem sem riscos de maus tratos, de serem confundidos com os “perigosos subversivos” que estavam sendo triturados nos porões da ditadura.   
Essa idéia da inutilidade do pensamento crítico, essa onda de acomodações e essa dança conforme a música tem origens na mãe de todas as impunidades, a que faz o Estado dito democrático fechar os olhos para crimes indefensáveis e imprescritíveis, quando o arbítrio campeou sob a blindagem da censura férrea e do silêncio de conveniência de quem hoje usa e abusa de um direito a que renunciou naquele então.
Todo mundo sabe que a apuração das violências cometidas por um regime tão escabroso que caiu de podre, que se recolheu à caserna depois de gerar um passivo desastroso, é do interesse prioritário de quem não teve nada com o peixe, mas que calou e consentiu, mesmo sabendo dos abusos nos porões do regime.
Essas pessoas precisam do conhecimento de toda a verdade tanto quanto as famílias de mortos e desaparecidos, dos que ainda vagam à procura de uma cova onde poderia encontrar os restos mortais de um  ente querido.
E como estas, precisam saber de tudo, com toda clareza cristalina, os cidadãos que ainda hoje vivem sob a tortura das meias verdades. Precisam saber, principalmente, que todo aquele tormento não foi exclusividade de uma meia dúzia de militares boçais, mas resultado de um certo pacto de poder, costurado por alienígenas que patrocinaram perversidades iguais por toda a Latino-América  que se queria soberana, que fora sacudida pelo vento sudoeste da libertação social que sacudia as consciências.
A demora em iniciar os procedimentos de apuração de toda a verdade compromete todo e qualquer discurso em nome dos direitos humanos.  Não se pode garantir tais direitos hoje se não expomos ao conhecimento geral todas as suas abusivas violações. Nesse ponto, reconheça-se, o Brasil deve ao mundo e às suas novas gerações informações preciosas, capazes de desautorizar qualquer veleidade golpista, sempre cultivada pelos que não sabem ter seus interesses  contrariados.


Até na Guatemala ditadores e verdugos estão sentando nos bancos dos réus, como escreveu Ruth Costa, direto de Oxford, Inglaterra:

“Parentes de vítimas de alguns dos massacres mais cruéis da história latino-americana passaram a última semana celebrando a decisão da Justiça da Guatemala de julgar o ex-ditador José Efraín Ríos Montt. Foi uma noticia bem-vinda no ano em que se completam 30 anos da matança de Dois Erres - um entre os muitos massacres ocorridos durante a ditadura de Ríos Montt (1981-1982).
É difícil prever os resultados do julgamento do ex-ditador, mas a decisão de colocá-lo no banco dos réus consolida uma tendência que ganha força na América Latina, definida pela cientista política Kathryn Sikkink como "cascata de justiça".
A Argentina foi a primeira a investigar os segredos dos generais e é o país que mais avança nos julgamentos por graves abusos aos direitos humanos.
No Uruguai, o Congresso derrogou a lei de anistia em outubro, facilitando o julgamento de militares e policiais. No Chile, desde que Augusto Pinochet teve de alegar demência para não ser julgado, dezenas de militares foram indiciados. No Peru, o ex-presidente Alberto Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão em 2009 pelos massacres de Barrios Altos e La Cantuta”.
Mesmo com todos cuidados para não gerar insatisfações nas áreas militares,  mesmo com funções limitadas a eventuais revelações, sem previsão de punições como em outros países, a comissão da verdade tupiniquim ainda não saiu do papel. Não se sabe nem quem a comporá, embora já tenha sido aprovada no Legislativo.


Por que essa tibieza?
Nesse compasso, vão acabar constrangendo preventivamente o seu trabalho, impregnando-a dos mesmos condimentos da pizza que está no epílogo de tudo o que se tenta apurar nesta terra das mais ferinas impunidades.

É preciso que todos saibam com tranquilidade e firmeza: como em todas as situações, a verdade sobre o período em que os cidadãos eram obrigados ao silêncio sepulcral será um remédio de positivos efeitos colaterais.
A demora em ministrá-lo é mais do que uma demonstração de insegurança: - é, lamentavelmente, uma tática solerte para tornar a Comissão da Verdade mais uma peça do faz-de-conta que mantém o país sob a mais espessa cortina de fumaça.

2 comentários:

  1. Raael Nogueira8:49 AM

    Achei muito feliz sua abordagem. Não vivi essa época - era criança - e sinto falta de informações sobre o que realmente aconteceu. Espero que a Comissão seja realmente da VERDADE e possa dar uma luz sobre esse momento triste da nossa história.

    ResponderExcluir
  2. Roberto Paulino das Neves9:14 AM

    Pois é não só a Comissão da verdade começou em pizza,como as decisões da Comissão de anistia também terminam em pizza,e não são respeitadas pelo Ministro da Justiça,faço parte de um grupo de anistiados políticos do Arsenal de Marinha,que tivemos nossos recursos de pedidos de anistia política julgados e deferidos por unanimidade pelo pleno da Comissão de anistia,que se deslocou em caravana de Brasília para o RJ no dia 29-05-2010 na sede da OAB RJ,e pasmem, até hoje aguardamos as assinaturas das respectivas portarias.Quer dizer,a tortura agora é psicolóliga e com requinte de crueldade,pois nós perseguidos e anistiados estamos psicológicamente abatidos e nos sentindo humilhados,torturados,discriminados e perseguidos novamente,pois foi feito o julgamento,a leitura do voto do relator que da direito a reparação e a prestação permanente e continuada.Quer dizer,será que foi armado um teatro para enganar a nós perseguidos pela ditadura?Que país é esse que não respeita nem as leis criadas pelo estado de direito?Para que existe a Comissão de anistia,se as decisões da mesma,que é composta por historiadores e doutores da lei não são respeitadas e acatadas pelo Ministro da Justiça? O Ministro José Eduardo Cardoso tem o dever moral de acatar a decisão da Comissão de Anistia,se não destitua a Comissão,pois de que adianta um orgão criado só para enganar,e dizer que no Brasil as coisas estão acontecendo,quando na verdade não estão?

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.