sábado, 21 de janeiro de 2012

Para lembrar um grande líder na data do seu nascimento

Brizola deixou uma obra que nem a mesquinharia de Cabral e das elites apagará da história
“Brizola é o primeiro governante brasileiro a compreender em toda a sua profundidade a inexcedível importância do problema educacional, cuja solução é requisito indispensável para que o Brasil progrida”.
Darcy Ribeiro, no perfil de Brizola, escrito em 1994.
O projeto do Memorial Leonel Brizola, assinado por Niemeyer,  foi desmontado pelo governador Cabral e ficou por isso mesmo
Nesses dias em que o ano novo ainda engatinha oscilando entre repetidas tragédias e a corrida ao sol de praias paradisíacas, cumpre-nos lembrar uma data cada vez mais marcante em nossa história: neste domingo dia 22, Leonel de Moura Brizola completaria 90 anos se tivesse vingado sua expectativa de vida longa, ceifada inesperadamente por uma estranha gripe, 12 horas depois de hospitalizar-se.

Quem gosta e quem não gosta do líder que encarnou tantos sonhos patrióticos deve a ele o respeito que poucos próceres dessas décadas recentes merecem. Quem gosta sente sua falta como se um imenso abismo tivesse aberto em nossa história.  Quem não gosta, pelo menos deveria conhecer melhor sua odisséia, a inefável contribuição que ofereceu à vida pública, objeto de mais uma obra retrospectiva – o livro A Legalidade e outros pensamentos conclusivos de Leonel Brizolaque estará sendo lançado nesta segunda-feira, às 18 horas, na ABI, com a assinatura dos respeitáveis jornalistas e pesquisadores  Osvaldo Maneschy, Ápio Gomes, Paulo Becker e Madalena Sapucaia.

Registrar o nonagésimo aniversário de nascimento do menino pobre que se fez engenheiro, foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul e, por duas vezes, governador do Estado do Rio é repassar os traumas de um processo político no qual, provavelmente, ele foi até muito longe.


Quem como ele teve a coragem de enfrentar os trustes estrangeiros e a mais poderosa e inescrupulosa articulação midiática teria sido condenado a um exílio na própria terra se não fosse por sua obstinação e pelos sete fôlegos que marcaram sua personalidade indômita.  Jamais teria sido o único brasileiro a governar dois Estados e a fazer da educação pública decente a grande bandeira de suas administrações.

Qualquer um sabe, e isso o livro que agora vem a lume retrata com documentação farta, que Brizola foi condenado por antecipação a jamais chegar à Presidência da República, desde o dia em que, aos 39 anos de idade, comandou a mais tenaz resistência a um golpe militar, garantindo a posse do vice-presidente João Goulart e impedindo que se consumasse em 1961 o que viria a acontecer em 1964, quando ele, já fora do Executivo,  também tentou convencer o presidente constitucional a resistir.

Hoje, por ironia do destino, Brizola continua vivo no imaginário social e até os adversários de sua grande obra, a educação como primazia, já admitem assumir sua torpedeada tentativa de implantar o ensino de tempo integral como condição para preparar nossas crianças, adolescentes e jovens para servirem a um país que tanto carece de profissionais realmente preparados, em oposição a essa farsa que faz da  maioria de nossas faculdades reles centros de expedição de diplomas e um dos negócios mais lucrativos da modernidade.

A cada 22 de janeiro eu mesmo me vejo envolto na mais deprimente amargura.  A obra de Brizola precisa ser melhor estudada e seus verdadeiros seguidores têm uma grande responsabilidade diante das gerações de hoje, de cuja lembrança gregos e troianos tentam apagar como uma nova condenação histórica.  O exemplo mais patético dessa determinação foi a destruição do Memorial consagrado a ele, pelas mãos geniais de Oscar Niemeyer, iniciativa do mais adestrado quadro das elites, o governador Sérgio Cabral Filho, com o qual, inexplicavelmente, coabitam hoje os próprios herdeiros de Brizola.

Consola-me, porém, saber que ainda há uma faísca de luz no resgate do seu legado e o livro de Maneschy e companheiros se inscreve como foco e referência indicados ao conhecimento de quantos sonham com um Brasil livre do baronato insaciável e acessível a todos os seus filhos.
Brizola, segundo Darcy Ribeiro

Consola-me também reler o depoimento de Darcy Ribeiro, escrito em 1994:, do qual destaco o trecho seguinte: 
“Estive ao lado de Brizola nos dois governos que ele exerceu no Rio de Janeiro. No primeiro, como Vice- Governador, no segundo, como Senador. Em ambos, como coordenador de seu programa educacional. Fizemos juntos muitas coisas recordáveis. A mais importante delas foi reinventar a escola primária brasileira na forma dos Centros Integrados de Educação Pública - CIEPs. Admiráveis por sua arquitetura, devida a Oscar Niemeyer, e muito mais pela revolução educacional que representam, como escola de tempo integral para professores e alunos; como de treinamento em serviço na arte de educar; como centro produtor de variado material didático de excelente qualidade e ainda como oficina de elaboração de cursos audiovisuais, através de tele-vídeos e de programas de informática educativa...
...Todos esses feitos, de que me orgulho muito, não são criações minhas, mesmo porque eles apenas concretizam ideais antigos dos principais educadores brasileiros, encabeçados por Anísio Teixeira. O que os tornou viáveis foi o fato de eu poder contar para concretizá-los com o primeiro estadista de educação que o Brasil conheceu: Leonel Brizola”....

4 comentários:

  1. Frederico Passos11:21 AM

    Realmente, eu não consigo entender. O Sérgio Cabral desfez o projeto do Memorial de Brizola e seus familiares, inclusive o PDT, partido que ele fundou depois de ser roubado da sigla do PTB, fazem de conta que não houve nada. Assim, não querem preservar o legado do grande líder brasileiro.

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  2. Leonel Brizola foi um dos poucos políticos de expressão que teve uma preocupação com a educação pública brasileira. Tive a oportunidade de vê-lo em campanha a presidência da República em 1989 lá na praça Pe Cícero em Juazeiro do Norte. Nunca votei nele, mas admirava por ser um político progressista e seu socialismo moreno. Grande engenheiro Leonel de Moura Brizola! Grande brasileiro!

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  3. Brizola é uma dessas figuras públicas que aparecem a cada 100 anos. Sua obra somente será compreendida por futuras gerações, quando não houver mais sobreviventes de sua época.
    No momento, somente uma parcela intelectualmente privilegiada sabe do alcance de seus ideais, de sua integridade e de seu desprendimento.
    Enquanto existirem partidários seus vivos, paira sobre sua lembrança o estigma de político, que os políticos de baixa envergadura, e mau caráter(predominante), procuram destruir.
    Talvez tenha que virar mito, para estar despojado desses estigmas. E, então, ficará o legado de seu pensamento, a sua filosofia, a sua obra, como referências de pureza e - quem sabe? - perfeição a ser praticada como dogma.
    O jogo político de cada época é muito baixo e sujo para executar os projetos puros e mais elevados.
    Veja o exemplo de Cristo. O próprio povo por quem ele deu a vida levantou a voz "Crucificai!".
    Depois os poderosos, contra quem Cristo se posicionou, trouxeram-no mistificado, com inversão de sua mensagem como se esta se destinasse a manter o povo a endeusar os donos do poder.

    Os brizolistas são mortais. Temo que, na posteridade, seu nome venha a ser invocado como defensor de tudo o que ele combateu.

    O tempo dirá! E não estaremos aqui para testemunhar.


    Franklin

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  4. Nos, os socialista,vemos os operários como o fim de toda politica publica, mas a classe dominante ainda nos vê como mão de obra e só.
    Somos educados unica e exclusivamente para servir e obedecer, como fazem com os animais. Como podem permitir que sejamos educados e libertemos as nossas consciências com educação de tempo integral. Nunca que isso vai acontecer. Brizola era socialista e não nos via como escravos-operários. Educação integral tivéssemos e acabaríamos com a farra capitalista nos desmoralizando enquanto combinam o descaso com o brasileiro e perpetram o saque da nossa economia. Somos produtores de produtos primários e está muito bom. Quem quiser mais que se mude para os países centrais. Ele teve coragem. Coisa que o Cabral não tem. Liquidar com a memória de Brizola é eliminar a ameaça da hegemonia deste bastardos.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.