sábado, 28 de janeiro de 2012

Bem que eu avisei: ou você se liberta da inércia, ou outros prédios cairão sobre sua cabeça

Se a causa da tragédia foi obra mal feita, então recorra ao capacete: outras iguais estão em curso.

“Não constam na Secretaria de Urbanismo qualquer pedido de licenciamento de obras recentes nesses imóveis, qualquer denúncia de obra irregular e ainda qualquer registro de ocorrência ligada à estabilidade e segurança das edificações”.
Da nota da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro sobre o desmoronamento de três prédios.

“Não conheço o projeto, não vi a obra e sequer sabia como a sala era antes”
Engenheiro Paulo Sérgio da Cunha Brasil, dono da Estruturar Projetos e Engenharia, responsável por um laudo sobre a obra.
Derrubei apenas as paredes de tijolos. O concreto não foi tocado”.
Alexandro da Silva Fonseca, pedreiro que escapou milagrosamente dentro do elevador.
Paulo Renha, dono de administradora de imóveis e síndico do prédio, poderia ter parado as obras, se quisesse.
Não há exagero em afirmar que, mais do que brasileiro, Deus é carioca.  Se esses três prédios da chocante tragédia da quarta-feira, 25, tivessem desmoronado três horas antes, estaríamos contando mais de um milhar de mortos. Ali no buliçoso coração da cidade há um formigueiro humano e ao cair da tarde as pessoas se esbarram na rotina de fim do expediente. É um vai-e-vem nervoso e não são poucos os que “dão um tempo” nos bares da redondeza para esperar passar o pico do trânsito.

Não há também exagero em dizer que o diabo igualmente sentou praça nestas paragens inebriantes. O que abalou a 13 de maio, entre a Cinelândia de tantos agitos e o movimentado Largo da Carioca, é o que o lugar comum proclama como tragédia anunciada aos olhos de um sistema de gestão corrompido até a medula, onde tudo pode acontecer como aborto de concepções obsoletas e o propinoduto viçoso que acomete quem tem algum mandato fiscalizador – seja agente público, seja um síndico sensível a alguns trocados.
Nesse convívio dialético entre Deus e o diabo na terra do sol as grandes urbes estão expostas inexoravelmente a hecatombes continuadas que dispensam terremotos e tsunamis.  Aqui as mãos sujas do homem propenso a tentações do caráter dispensam a fúria da natureza. Não faz muito, um restaurante foi para os ares ao nascer do dia 13 de outubro passado, na emblemática Praça Tiradentes, detonado por suas instalações irregulares de bujões de gás.
 
Nesta terra descuidada, as possibilidades de aberrações urbanas são cada vez mais frequentes
. O cenário está montado para isso: velhas edificações geminadas em cadeia são preservadas sem qualquer monitoramento e desafiam as próprias leis vigentes. Qualquer fiscal sabe que o código de posturas proíbe o funcionamento de cursos acima do terceiro andar. Mas pelas conhecidas cargas d’água uma empresa mantinha professores e alunos do sexto para cima.
Na década de 70, trabalhei no 9º andar do velho Edifício Colombo, um dos que vieram abaixo. Ali funcionava a Focus Propaganda, do saudoso Alfredo Souto de Almeida, o homem que em 1948 revelou Fernanda Montenegro, Chico Anísio e Sílvio Santos. O prédio ficava na “rua” Manoel de Carvalho,  o  beco estreito de 55 metros que ligava a Rio Branco à 13 de Maio, nos fundos do Teatro Municipal, e já então desafiava as leis, pela ausência de qualquer dispositivo de prevenção contra incêndios: agarrado aos outros do pedaço não tinha escada externa ou  qualquer alternativa razoável de evacuação.
A qualquer comentário sobre essa situação precária, aduzia-se a desculpa compensatória: todo o Centro da Cidade, além de bairros como Copacabana e até Ipanema e Leblon eram e são apinhados por edifícios colados uns aos outros, alguns preservados pelos decretos das APACs, áreas de proteção artísticas e culturais concebidas para “inibir o crescimento dos bairros”, e para o desespero dos moradores, condenados a viverem em pardieiros até que aconteça coisa semelhante à tragédia de quarta-feira.
 
Esse desmoronamento noturno parece até um aviso, uma espécie de senha do que está por vir.
Digam o      que disserem, mas suas causas são muito mais profundas do que as imediatas explicações que alimentam a ansiedade decorrente. Tudo o que alegam pode ser e pode não ser. Porque se fosse o que cada um diz, principalmente por conta da obra no nono andar do Edifício Liberdade (Meu Deus, até nessa avacalham essa santa utopia)  é de se estranhar a complacência do síndico e a omissão da vizinhança, que não fez qualquer queixa ao bispo.
Prédio velho é prédio velho e envelhece mais ainda quando se sabe, como revelou o historiador Nireu Cavalcanti – homem sério e apaixonado pela cidade – antes ali, séculos passados, era a Lagoa de Santo Antônio.
Está bem que não se pode falar só da fragilização pela idade da construção, objeto até de redução do valor do IPTU. Mas se ao invés do trato das antigas edificações nos limites de seu valor cultural houvesse mais rigor na sua fiscalização, dever de todos, principalmente dos cidadãos, seriam bem menores as possibilidades de desmoronamentos como os da 13 de Maio.
 
Ouso dizer que o acontecido é decorrência da degeneração dos condomínios,
sob comando de síndicos “eleitos” pelo ardil das procurações de condôminos omissos.
  Essas autoridades prediais parecem mais interessadas numa vantagem qualquer, pois como tenho dito e repetido, o cidadão já começa a ser pungado no nesses pagamentos, cada vez mais onerosos, ainda mais depois dessa onda de “síndicos profissionais” que não têm compromissos de raiz com os proprietários e inquilinos.
  Nesse caso, volto a lamentar a inércia que acomete esse arremedo de cidadania destes tempos “eletronizados”.
É curioso: foi da auto-gestão no Condomínio do Edifício Alfa, que implantei como síndico em 1975, que nasceu na rua Lauro Muller, entre Botafogo e Urca, a primeira associação de moradores de classe média do Rio de Janeiro. (Infelizmente, está esgotado meu livro O PODER DA RUA, editado pela Vozes, com prefácio de Carlos Drummond de Andrade).
Hoje, a modernidade cultiva a irresponsabilidade social. Nem o elevador, nem a vizinhança de parede aproximam as pessoas. Antes, é cada um de nariz empinado, indiferente ao convívio rotineiro, numa exacerbada manifestação do individualismo internalizado.
     Esta terra carioca nunca conheceu o que se poderia chamar de prudência urbana.
 Fez-se aos trancos e barrancos, pirateando o mar, aterrando lagoas, córregos e demolindo morros, principalmente quando a burguesia emergente tomou o lugar da aristocracia, acostumada ao bairro de São Cristóvão como paraíso da corte.
Novos ricos, novos espaços urbanos.
Mares e morros foram agredidos. Não gostavam de canais, como lembrou Nireu Cavalcanti, desprezando a bela experiência de Amsterdã. Não tinham apreço ao racional, tão possuídos pelo delírio da fortuna fácil. Essa ocupação desordenada do solo pode não ser a causa direta da tragédia,
mas se insistirem na parede derrubada, então os outros que se cuidem: o mais corriqueiro é a avalanche de “reformas” de antigas edificações,
sob cobertura do próprio Plano Diretor (Lei Complementar nº 111/2011, artigo 57, inciso IV, parágrafo primeiro): “não dependerão de licença da prefeitura as obras de modificação interna, sem acréscimo de área, que não impliquem em alterações das áreas comuns das edificações”.
Já se sabe, porém, que no prédio maior, cujo síndico era o dono de uma administradora de imóveis, vinha num processo de desfiguração nada solitário de seu projeto original, incluindo aí abertura de janelas laterais, o que compromete a máquina da fiscalização de posturas.  Nesse episódio, é bom que se ressalve: o prefeito Eduardo Paes também é vítima desse ambiente de leniência e está trabalhando feito um doido para amenizar os efeitos da tragédia. Certamente, poderá tirar uma boa lição e refletir sobre o caos urbano, inclusive quanto às suas próprias intenções, como no caso da projetada demolição do Elevado da Perimetral, a ser substituído por túneis em áreas de aterro.
Na quarta trágica, nem chover, choveu. Nem a brisa calorenta fez-se ciclone. Nem a terra se mexeu. Nem se fazia qualquer coisa naquela hora. Seria uma noite como outra qualquer, sem eira, nem beira. Tão desinteressante que as câmeras da maior rede de televisão estavam ligadas no altiplano boliviano, onde o Flamengo de Ronaldinho jogava com um time das alturas.
Mas quis o destino que, talvez até por distrações como essa, esse 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, a maior metrópole brasileira, três prédios despencassem  do seu cansaço e oferecessem o sacrifício mortal de alguns cariocas como o mau presságio que não pode ser minimizado como um acidente isolado.
Há mais “obras” e estruturas mal-tratadas além do formigueiro que liga a Cinelândia ao Largo da Carioca.

4 comentários:

  1. Felícia Antonieta Barros9:42 AM

    Acho que esse desmoronamento vai ter um efeito muito negativo na cabeça das pessoas, que poderão ficar com medo de subir em prédios antigos ou até mesmo em qualquer prédio. Foi uma coisa muito inesperada, muito fora de explicação e isso causa muita insegurança na pessoas.

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  2. Já passaram mais de 24 horas e as autoridades não têm uma resposta para as causas do desabamento de 3 prédios antigos no centro do Rio de Janeiro. Quando acontece isso, ausência de evidências de uma causa específica, é hora de se pensar em um efeito de ressonância provocado por ondas sísmicas mesmo de baixa energia. E o que provocaria essas ondas sísmicas mesmo de baixíssima energia? O Metrô. Foi num horário de pico do Metrô e os prédios ficavam entre duas estações de Metrô. É hora de se entregar o problema para sismólogos e geotécnicos. E fazer um estudo sobre toda a área por onde passa o metrô para evitar inclusive novas catástrofes.

    Francisoc Santana

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  3. A idéia de que prédio antigo pode desmoronar é errônea com excessão do descaso público. Podemos observar na Europa onde cidades como Londre, Bruxelas, Amsterdã, Paris, entre outras, existem inúmeros prédios antigos e todos sobrevivem à modernidade, às escavações, aos aterros. A questão dos desabamentos no Rio e no Brasil passa pela certeza da impunidade da fiscalização. Acredito que, tanto prédio antigo quanto os novos devam ser rigorosamente fiscalizados e autuados se for o caso. A idéia de que prédio velho deve ser derrubado é errada, estamos apagando a nossa história. Um exemplo dessa estapafúrdia foi a demolição do Palácio Monroe na época da constução do Metro, bem ali, pertinho da 13 de Maio. A especulação imobiliária é outra inimiga da história que compro com qualquer propina a liberação de imóveis antigos para demolição sem qualquer manifestação pública.
    Sobre a queda dos tres edifícios na rua Treze de Maio no Rio de Janeiro, foi observado que não haviam caçambas para entulho nas calçadas ao redor do edifício em obras, significando que possivelmente estariam acumulando restos de obra maciçamente entre os andares, sobrecarregando assim, sua estrutura.

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  4. Anônimo12:34 PM

    Os acidentes são causados pela soma de erros:
    1- qualidade do projeto;
    2- qualidade da construção;
    3- acréscimo de andares, aumentando a carga em pilares já construidos e projetados para cargas menores;
    4- reformas sem o devido cuidado técnico, causando mais aumentos de cargas nestes pilares;
    5- obras próximas sem o devido cuidado técnico, causando problemas na fundação existente e mais aumentos de cargas;
    6- e GANÂNCIA !!!

    O grande problema da humanidade é a GANÂNCIA (e a preguiça)!!!
    Ou não ???

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.