segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Solidário a Lula, lembro com pesar das condições em que os brasileiros são atendidos na rede pública de saúde

E me sinto na obrigação de citar a medicina pública em Cuba, com seus invejáveis índices de saúde

“Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por problema de relaxamento médico. Como ela, morrem milhões sem atendimento neste país.”
Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a morte de sua primeira mulher, a tecelã Maria de Lourdes Ribeiro da Silva, em depoimento à historiadora Denise Paraná, autora da biografia que serviu de roteiro para o filme sobre sua vida.

Como todo brasileiro – e milhões de cidadãos pelo mundo – estou solidário com aquele que, independente de minha vontade, é a pessoa mais querida de nosso país nos dias de hoje. Estou na torcida por seu restabelecimento completo, como estive quando a presidente Dilma Rousseff foi acometida da mesma terrível doença e, felizmente, venceu essa batalha.

Torci também pelo presidente Hugo Chávez, para quem o pior já passou. E para alguns amigos que, infelizmente, não sobreviveram, como aconteceu com os irmãos Hélio Fernandes Filho e Rodolfo, com quem trabalhei na TRIBUNA DA IMPRENSA. (Esclareça-se que outras enfermidades os vitimaram, relaticamente jovens).

As primeiras notícias são de que o câncer na laringe de Luiz Inácio Lula da Silva foi descoberto em suas primeiras fases, permitindo prognósticos otimistas. Mesmo assim, o cotidiano dos brasileiros terá um elemento de tensão a mais. Enquanto ele não tiver alta, os temores não se dissiparão do consciente coletivo.

Os repórteres mostraram neste domingo que o ex-presidente aguardava ontem com a dignidade que o momento impõe o início da quimioterapia, previsto para hoje.
Mostraram o ex-metalúrgico em seu apartamento na São Bernardo, onde deu os primeiros passos como líder sindical. Ao contrário de outros ex-governantes, em todos os níveis, - observe-se - Lula conserva a vida modesta, muito menor do que sua renda de hoje, como ex-presidente da República, bem remunerado quando convidado para realizar palestras aqui e no exterior.

Ele não se deixou seduzir pelo canto da sereia que acometeu alguns dos seus auxiliares, como o ex-ministro Antônio Palocci, comunista radical na juventude, que caiu depois de comprar um apartamento escriturado em R$ 6 milhões e hoje leva a vida burguesa que o inclui em hábitos e modos no mundo dos privilegiados.

O poço discriminatório da saúde

Mas o atendimento prestado ao ex-operário, que, repito, é do seu direito e diz respeito à sua condição de hoje, me fez lembrar o enorme poço que existe na saúde hoje. Poço que o fez passar o dia mais triste de sua vida, naquele 7 de junho de 1971, quando perdeu sua primeira mulher, a tecelã Maria de Lourdes Ribeiro da Silva e o primeiro filho, em parto de risco num hospital público. Então, ela tinha 22 anos e Lula, 24. Até hoje o ex-presidente está convencido de que aquela morte resultou do péssimo atendimento no Hospital Modelo.

Suas suspeitas aumentaram mais ainda quando soube o autor do atestado de óbito, Sérgio Belmiro Acquesta, além de médico-chefe da Villares, fábrica onde trabalhava, era legista do IML e incluído entre os profissionais que deram laudos falsos durante a ditadura.
O mesmo povo que torce pela cura de Lula pecisa de maior atenção na saúde pública

O caos no Hospital Cardoso Fontes

Na segunda-feira, dia 24 de outubro, como morador de Jacarepaguá, fui levar minha solidariedade aos profissionais do Hospital Cardoso Fontes, em greve de 24 horas, exigindo providências urgentes para cobrir a enorme deficiência de médicos, em função da qual aquele que é o maior hospital  de uma região de 400 mil moradores não tem a menor condição de atender aos mais de mil e quinhentos pacientes que o procuram diariamente.

O caos está transformando o Cardoso Fontes em mal-assombrado hospital fantasma, onde, neste momento o quadro é desesperador, conforme relato dos funcionários:

“Permanecem inviabilizados os seguintes setores por falta de profissionais:
1- Unidade intermediária Cirúrgica
2- Unidade Intermediária Clinica
3- Unidade Coronariana
4- Enfermarias de Cardiologias
5- Ambulatórios de Especialidades Pediátricas: Pneumologia,
Endocrinologia,Nefrologia, Gastroenterologia e Ginecologia.
6- Emergência Pediátrica.
- Ambulatórios de primeira vez terão sua marcação suspensa.
- Emergência Adulta fechada com atendimento apenas dos riscos de morte.
- Pacientes com exames e consultas previamente agendados permanecerão
em acompanhamento”.

Na mesma semana, médicos do Sistema Único de Saúde também paralisaram suas atividades em quase vinte Estados para expor a defasagem salarial na rede pública, algo que faz com que muitos deles, por puro idealismo, “paguem para trabalhar”.

Comparações sem grosserias torpes

Não participo – e repudio com veemência – os comentários publicados na internet (inclusive de colunistas imbecis) que sugerem que Lula deveria procurar um hospital público. Quem comete tais grosserias com certeza é contribuinte dos extorsivos planos de saúde privados, que em 2010 faturaram R$ 72,7 bilhões, o equivalente ao orçamento do Ministério da Saúde.

Para disparar esse tipo de provocação contra o ex-presidente, tais pessoas, geralmente pequenas demais, infelizes por natureza, precisariam demonstrar elas mesmas que também passam pelo sufoco dos que dependem dos precários atendimentos na rede pública.

Elas sabem muito bem que se um ex-presidente da República recorre a um estabelecimento oficial – e ainda há hospitais de qualidade, como o próprio INCA – a ele seria dispensado um tratamento diferenciado, o melhor possível.

No entanto, não há como não olhar para a situação de milhões de brasileiros quando a mídia exibe a qualidade excepcional do hospital particular em que esperamos o ex-presidente se recupere desse câncer na laringe, detectado poucos dias depois de completar 66 anos.

Não se deseja que a rede pública tenha o mesmo padrão, mas é bom que se saiba que muitos dos profissionais de lá também prestam serviços no SUS, nas santas casas e em outras instituições onde têm condições mínimas para atender aos pacientes, que merecem os mesmos cuidados de todos quando podem pagar pelos “serviços de primeiro mundo”.

 Cuba mostra o que a saúde pública pode

Se tivesse sido diagnosticado em Cuba, que sobrevive a duras penas ao cruel bloqueio econômico patrocinado há quase cinco décadas pelos Estados Unidos, Lula poderia muito bem ter recorrido aos médicos de lá, como aconteceu com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a quem a própria presidente Dilma Rousseff ofereceu as atenção da equipe que a tratou nas luxuosas instalações do Sírio e Libanês.

O governante venezuelano, hoje com 57 anos, estava em Havana quando no dia 20 de junho, numa emergência, extraiu um tumor na região pélvica. Diagnosticado o câncer, apesar de várias ofertas, preferiu fazer o tratamento em Cuba, onde a medicina é exclusivamente pública e tem surpreendentes índices de qualidade, em muitos casos, como na pediatria e no tratamento dos idosos, superiores aos dos países mais ricos, incluindo os Estados Unidos.

Meus leitores mais conservadores (que não são poucos) não gostam que fale de Cuba e acham que estou aproveitando a deixa para fazer propaganda da medicina socialista.

Mas, igualmente, não há como deixar de falar do que esse desempenho representa, também a propósito do atendimento vip dispensado, repito com todo direito, ao ex-presidente Lula, que viu sua primeira mulher morrer há exatos 40 anos por falta dos cuidados que ainda hoje são negados a milhões de brasileiros.

Cuidados que não melhoraram nesses anos em que ele próprio esteve à frente do governo federal e em que o seu Partido dos Trabalhadores continua dando as cartas, prisioneiro a um equívoco de que ajudar aos pobres é distribuir as migalhas da bolsa-família e não investir numa política corajosa de saúde pública e de educação decente.

Infelizmente, a ganância do sistema privado de saúde domina à custa do sucateamento da rede pública. O ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva, graças a Deus, poderá desfrutar de uma atenção médica redobrada, até pela necessidade mercadológica de preservar o prestígio do hospital privado, nesses dias nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo.

Não é o caso, infelizmente, de milhões de brasileiros que, como ele nos tempos de torneiro-mecânico, permanecem expostos a um sistema público que tem médicos tão competentes, mas aos quais se nega o mínimo de condição de trabalho.

O que não aconteceria, ressalto, num país movido por outros valores sociais, como a Cuba que essa mídia estigmatiza sob encomenda.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

De queda em queda ou se correr o bicho pega; se ficar o bicho come

Se não virar a mesa com determinação, a presidenta Dilma ficará refém do jogo sujo dos podres poderes
“A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios”.
Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, pensador francês, autor do antológico “Espírito das Leis” (1689-1755)


Feito herói de fancaria, o PM milionário João Dias foi dispensado de depor na Câmara sobre  esquemas de corrupção, já que o ministro Orlando Silva havia caído. Quer dizer: com a queda, não precisam mais das suas “denúncias”.
Ladrão de carteirinha pego com a mão na massa, transformado em herói de fancaria pela VEJA e pelo o que há de pior na oposição,  o soldado PM João Dias Ferreira ia depor nesta quarta-feira numa Comissão da Câmara Federal juntamente com o cúmplice Célio Soares Pereira para fazer “novas revelações” sobre o “mar de lama” no Ministério dos Esportes “do PC do B”.

Como se soube ao meio dia que o ministro Orlando Silva recebera bilhete azul, o “delator” comunicou que não tinha mais o que fazer na Câmara. E os deputados que conseguiram aprovar sua convocação, “aproveitando-se de um cochilo na base governista” também desistiram do seu depoimento. Sua contribuição já  não se fazia necessária.
Isto é, incautos: tudo o que se queria era derrubar o ministro e, se possível, arrancar o Ministério dos Esportes do PC do B, abocanhando qualquer coisa, já que essa pasta de "segunda linha" vai pras cabeças, garantindo o bom e o melhor em casa, comida e roupa lavada.
As propaladas denúncias foram enfiadas na sua região condizente, enquanto a confraria dos boçais da mídia tratava de fazer o epitáfio do “cachorro morto”, dizendo assustadoras sandices sobre causas e efeitos de mais uma queda no governo da primeira mulher presidente.
No fundo, no fundo, cumpriu-se o script de uma trama escrita pelos ladrões do outro lado, os mesmos que abafam um monte de trapaças no governo de São Paulo e que, com uma maioria comprada a peso de ouro, barram lá qualquer tentativa de CPI.

E se isso acontecer será uma pena, porque ela, até prova em contrário, está querendo tão somente dar um chega pra lá no uso lascivo dos podres poderes. Mas a súcia de adversários e falsos aliados não trata de outra coisa senão de miná-la e transformá-la e refém dos maus hábitos inerentes à democracia representativa. Se ela não percebe, pior para ela e para os que vêem nela as mais puras intenções.

Está claro que o Ministério dos Esportes deu mole na terceirização de recursos para “ONGs amigas” e adjacentes. Essa prática de favorecer particulares com dinheiro público é um desatino que vem de longe, desde quando os cérebros do sistema dominante montaram a macro-estratégia da cooptação de potenciais lideranças e de diplomados sem vaga no mercado e sem interesse pelos míseros vencimentos dos servidores públicos concursados.

Se um partido ou grupo assentou-se num determinado ministério, negociou-se a sua justaposição nos governos estaduais e municipais. Mesmo sem poder levantar suspeitas gratuitas, qualquer um estranha a “especialização partidária” em cadeia. Com o Ministério dos Esportes, o PC do B tem as secretarias do mesmo naipe em vários Estados e prefeituras, como no Rio de Janeiro. Em São Paulo, do conservador Gilberto Kassab, os comunistas ganharam a Secretaria Especial da Copa e passaram a integrar sua base de apoio.
Nas recentes composições do poder as fórmulas terceiristas de última geração ganharam contornos harmonizantes. Fatiou-se o poder em pencas sequenciadas, fomentando interesses em escala.

Essa doutrina serial não é exclusiva do partido que tem uma história de lutas e sofrimentos por abraçar “as bandeiras do proletariado”. Na área do Ministério do Trabalho, que hoje é apenas o gestor dos recursos bilionários do FAT, a harmonia se opera mesmo em governos locais fora do bloco nacional. O secretário estadual do Trabalho do Rio saiu da “cota” do PDT, assim como o secretário municipal da capital. Mas em Caxias, de Zito, tucano até outro dia, o secretário municipal do Trabalho também é pedetista.

A mesma fórmula se aplica a outros partidos e a outros segmentos da administração. Pode ser uma “boa idéia”, mas dificilmente será uma prática fundada em boas intenções.

A “porteira fechada” não é necessariamente a mazela mãe dos maus hábitos na gestão governamental. Antes dela e maior do que ela é o sistema de favorecimentos que beneficia principalmente empreiteiras e fornecedores dos governos.

É pública e notória a existência da “bola da vez” na disputa de obras públicas. Isto é, os empreiteiros se entendem previamente sobre quem deve ganhar a próxima concorrência. E nem essa mídia farisaica, nem os políticos que posam de honestos usam suas ferramentas para desvendar tal “compadrio”.
As empreiteiras formam quadrilhas reluzentes e raramente são incomodadas. Quando foram, como no caso da “Operação Castelo de Areia”, que levou executivos da poderosa Camargo Corrêa por alguns dias para a cadeia, o STJ tornou sem efeito todo o trabalho do Ministério Público e da Polícia Federal, alegando que as investigações partiram de denúncias anônimas.

O mesmo acontece em relação às empresas de ônibus, que têm suas bancadas nas câmaras e assembléias mediante “mensalões” generosos. E outros tantos ramos que lidam com o poder público, na condição de prestares de serviços ou concessionários.

Nesse ambiente de corrupção consentida e enraizada, o aparecimento de “organizações não governamentais” com as mais sofisticadas roupagens e encabeçadas até por figuras de prestígio caiu como luvas nas mãos sujas dos gestores corruptos.

De 2003 a 2010, o número de ONGs saltou de 25 mil para 320 mil e já se fala na maior sem cerimônia que elas têm donos, como se fossem empresas privadas. Pode ver: esse PM que tem uma vida nababesca é apresentado como “dono” de duas ONGs. A coisa chegou a tal depravação que essas entidades são vendidas por anúncios em jornais.

Mais fácil do que simular licitações para favorecer empresas é destinar recursos para entidades, sem qualquer processo seletivo. O negócio é tão bom que muitos parlamentares têm suas próprias ONGs, irrigadas com dinheiro público para financiar seus “serviços sociais” instalados com fins absolutamente eleitoreiros.

Disse essas coisas acima para alertar a presidenta sobre a roda viva em que se encontra, à qual tende a se render diante da chantagem da governabilidade. Não vai ser a demissão de mais um ministro que a livrará do complô que investe no enfraquecimento do governo e do próprio Estado.
Orlando Silva caiu e o PC do B ficou mal na fita, mas o alvo mesmo é a presidenta, às voltas com um formato de governabilidade urdido pelo mais depravado jogo de poder. De tanto ter de livrar-se dos malfeitos dos outros ela vai acabar escorregando numa casca de banana sem ter como explicar porque seu governo abriga tantos malfeitores.
O uso de ONGs como artifícios de malandragem também não é exclusividade dos políticos. A pretexto da “responsabilidade social”, muitas empresas – grandes ou médias – descobriram nelas um viés de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Mas são raríssimas as investigações de tais práticas.
Neste momento, uma carga de pessimismo corrosivo me faz acreditar que vamos de mal a pior. Nunca se aplicou tão adequadamente aquele dilema “se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come”.

A única coisa que eu diria à presidenta hoje seria “se tiver de errar, erre com seus próprios erros”. Não se deixe rolar aos ventos de quem não está nada interessado na erradicação da corrupção, até porque nela também faz seu pé de meia.

E vá fundo na criação de mecanismos inibidores das práticas deletérias que fazem do poder público o melhor negócio privado do mundo. Ir fundo quer dizer virar de cabeça para baixo esse sistema programado para estimular o enriquecimento ilícito, às custas do erário.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mataram, esfolaram, exibiram e agora vão dar sumiço ao cadáver. O que você acha dessas ignomínias?

Se essas agressões viram moda, ninguém garante que os brasileiros não venham a passar por isso

“Se é verdade que Kadhafi foi deposto porque lutava contra a oposição de Benghazi, é verdade também que o desaparecimento de um clérigo libanês xiita (na Líbia) também contribuiu para o desenlace”.
Charles Glass, London Review of Books
Depois de exibir os corpos como troféus de guerra, o conselho títere vai dar sumiço a eles


Como você já sabe, o corpo de Muammar Kadhafi será sepultado nesta terça-feira em LUGAR SECRETO, provavelmente no deserto. Foi o que decidiu o conselho títere que ganhou o governo graças aos 40 mil foguetes despejados sobre a Líbia pelos aviões e navios dos Estados Unidos, França, Inglaterra e satélites menos cotados.

Essa decisão não me surpreende e está em consonância com a execução sumária, ao arrepio de todas as leis, de todos os códigos éticos e de todos os direitos humanos.

Até ontem, essa mesma súcia havia garantido que o corpo de Kadhafi seria entregue a seus familiares e sepultado no coração do seu clã, em Sirte. Teria destino semelhante ao de Saddan Hussein, que foi enterrado no domingo, 31 de dezembro de 2006, em Awja, sua cidade natal, perto de Tikrit, na presença de alguns familiares e membros de sua tribo, um dia depois de sua execução na forca.

Como você vê, esses bandos que se jactavam de defensores dos valores democráticos e dos direitos humanos não são nem um pouco diferentes dos bandidos do Rio de Janeiro, que costumam sumir com os corpos de suas vítimas em “microondas”, como aconteceu com o jornalista Tim Lopes.

Por que o conselho títere mudou de idéia? Curiosamente, as notícias divulgadas pela mídia não dão detalhes. Quanto menos se alongarem sobre mais esse espetáculo de perversidade, melhor. A mídia está comprometida até a medula com essa trama e não tem como opor reparo à barbárie festejada em prosa e versos pelas cortes ocidentais.

Esconder corpos de adversários é uma prática censurada no mundo todo. Aqui mesmo, centenas de familiares ainda esperam saber onde os esbirros da ditadura ocultaram os cadáveres de suas vítimas, eliminados segundo a mesma mise-en-scène – isto é, com a alegação de mortos em combate.

Na Líbia, porém, o requinte de perversidade ganha direito ao livro dos recordes. Esses mesmos que ameaçam usar a “charia” como fundamento de todas as leis da “nova Líbia”, isto é, querem instalar uma teocracia medieval, deixaram de cumprir uma das causas pétreas do Alcorão: o morto deveria ganhar sepultura no prazo de 24 horas.

E agora será mais uma vez sequestrado, sem que os moleques dos governos ocidentais dêem um pio, e se não piam é porque, ou estão por trás dessa idéia de dar sumiço ao cadáver, ou não querem perder posição em relação ao que, para eles, é o principal: precisam que os títeres formalizem a entrega do melhor petróleo do mundo, extraído dali, perto da Europa.

Al Qaeda e Hezbollah a serviço dos EUA, quem diria? 

A essa altura, nessa esdrúxula aliança que juntou no mesmo balaio os imperialistas conhecidos e os fundamentalistas da Al-Qaeda e do Hezbollah devem estar disputando palmo a palmo quem manda mais, quem vai levar mais vantagem com a desnacionalização do petróleo e as fraudes periféricas.

Para você, que vibrou com a morte de Kadhafi, seguindo de olhos fechados a voz do dono, eu só queria informar o que não vão te dizer mesmo: quando a aviação e a marinha dos países agressores começaram a atacar, eles viram que se dependesse dos “rebeldes” de Benghazi, a conta ficaria alta e não daria resultado.

Nessa época, Kadhafi se recusou a ajudar os talibãs no complô para derrubar o governo do Partido Democrático Popular do Afeganistão, como fez a Arábia Saudita e o Paquistão, o que lhe valeu a sentença de morte dos muçulmanos radicais, embalados pelo impulso do jihad feudalista.
Foi então que Barack Hussein Obama autorizou negociações diretas com o general Abdel Hakim Belhaj, emir (chefão) do Grupo de Combate Islâmico Líbio, treinado pela CIA, na mesma cartilha de Bin Laden, junto com os mujahideens que combateram o governo progressista e secular do Afeganistão nas décadas de 70 e 80.

Os patrocinadores do movimento contra Kadhafi usaram também as velhas rixas entre Kadhafi e o Hezbollah, o “partido de Deus” do Líbano, que em 2003, num só dia, mandou pelos ares, com um caminhão-bomba, 232 “marines” norte-americanos e, em outro atentado, 52 soldados franceses, que estavam acampados em Beirute.

Nascido em 1982 e treinado pela Guarda Revolucionária do Irã, esse grupo xiita faz parte agora do governo libanês ao lado da burguesia financeira. Foi sob sua influência que o Líbano votou no Conselho de Segurança da ONU a favor da intervenção militar da OTAN na Líbia e ainda aliou-se sem qualquer constrangimento às ações seguintes, emprestando pessoal e treinando os marginais e mercenários contratados para serem “rebeldes”.

Há especialistas que dizem que tanto quanto as bombas e foguetes da aviação ocidental a participação da milícia xiita libanesa foi decisiva, principalmente na tomada de Trípoli.

Uma aliança dessa natureza não me surpreende. Os “terroristas” sempre foram criações reais ou fictícias do complexo industrial-militar-financeiro de Washington, pois sua existência, devidamente explorada e exacerbada, justifica o trilhão de dólares que os Estados Unidos destinam ao seu orçamento militar anualmente, favorecendo aquelas empresas de que muitos dos políticos de lá são sócios ou assalariados.

E quando essas agressões baterem em sua porta?

Você ainda vai me cobrar porque estou esses dias todos falando do massacre da Líbia e de todas as ignomínias assimiladas por nossa opinião pública como decorrentes naturais de uma “santa cruzada” de alguns governos para livrar o povo árabe de “ditadores sanguinários”.

É como se eu tivesse muito mais sobre o que escrever e preferisse o samba da nota só.

No entanto, meu empenho é demonstrar como estamos vulneráveis, nós brasileiros, na medida em que todas as trapaças internacionais são aceitas sem qualquer reação de nossa parte. Esses crimes ganham roupagem do bem e podem ser aplicados em qualquer lugar e hora, a juízo dos moleques da Casa Branca.

Ou você acha que esses mesmos donos do mundo vão deixar nossas riquezas em paz? Ou você não sabe da pirataria na Amazônia e das articulações nos centros do poder sobre a potencialidade do petróleo abaixo da camada de sal?

Provavelmente você não sabe que a Convenção do Direito do Mar (1982) reconhece a soberania dos Estados até o limite de 12 milhas marítimas do litoral - o Mar territorial, o direito sobre os recursos naturais até o limite de 200 milhas - conhecida como Zona Econômica Exclusiva (ZEE) - e o controle sobre a plataforma continental. Nosso pré-sal está a mais de 400 Km do litoral e a crise energética bate à porta da Europa, EUA e Japão: entendeu ou precisa de mais explicações?

ONU só serve para “legitimar” os donos do mundo
Para agravar, estão sucateando nossas forças armadas, relegando-as a mosquetões da I guerra, numa hora em que os neocolonialistas só respeitam mesmo quem tem (ou parece ter) arsenal nuclear e/ou tecnologia avançada de guerra.

O que está acontecendo na Líbia cristaliza uma nova doutrina de intervenção, com cobertura desse apetrecho chamado ONU, uma organização subordinada às grandes potências - que até hoje observa as mesmas regras de 1948, quando foi criada e tinha 60 participantes, menos de um terço de hoje: isto é, cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança e poder de veto ganham através desse estatuto a condição formal de DONOS DO MUNDO.

Leva-me a escrever também a própria angústia diante da lavagem cerebral que a mídia faz diariamente sobre todos os brasileiros, segundo regras absolutamente tirânicas e avassaladoras. Senão veja: três ou quatro grupos econômicos controlam todos os meios de comunicação, impedindo, inclusive, a existência de rádios comunitárias de baixa potência e ocupando todos os canais da tv a cabo – as lixeiras americanas dominam toda a grade de alternativas. Nem mesmo uma estação argentina ou de outro país vizinho pode ser vista por nós.

Tenho a esperança de que alguns dos leitores de meus escritos procurem aprofundar-se, conhecer melhor os fatos, a fim de que não sejam, eles próprios, as próximas vítimas do embuste e da mistificação.

É por isso que escrevo sobre a conspurcação da África pela fraude ocidental-fundamentalista.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ainda sobre a intervenção estrangeira na Líbia, a morte de Kadhafi e o retorno ao fundamentalismo

São tantas as ignomínias que um artigo só é pouco para expor o jogo sujo das potências agressoras

Mandela e o CNA não teriam derrotado o regime do apartheid se não fosse o apoio de Kadhafi. Por isso, o líder sul-africano dseu a um neto o nome do grande aliado.

“Eu estou orgulhosa da bravura do meu marido, Muamar Kadhafi o guerreiro santo, e meus filhos que enfrentaram a agressão de 40 países ao longo dos últimos seis meses”.
Safiya Kadhafi, viúva e mãe de seis dos sete filhos do líder executado.

Bem que queria falar de outro assunto, mas o sangue quente dos indignados ainda corre em minhas veias e não me tira da cabeça que é preciso clamar aos sete mundos, antes que a sinfonia macabra irradiada por uma súcia de boçais faça do seu epílogo a consagração do “direito de agressão” das potências decadentes que, como em toda a história, vão sugar as riquezas alheias para safar-se de suas crises.

Foram muitas as manifestações de apoio aos meus primeiros comentários sobre a chacina que eliminou o líder de um país por ordem expressa de Obama e Sarkozi. Estes mesmo disputam o butim como abutres desesperados, afirmando que foram os seus os aviões que bombardearam o comboio em que o Moujahid Kadhafi era conduzido prisioneiro, sob insultos e humilhações de vândalos em crise existencial: como a consciência apontava para a terrível traição ao país, aqueles monstrinhos precisavam agredir o homem cuja cabeça valia uma fortuna para os prepostos do complexo industrial-militar-financeiro do Ocidente.

Mas também uns dois ou três, de boa fé – creio – escreveram-me para festejar a morte, sempre repetindo a imagem surrada que a mídia financiada pelos grandes conglomerados pintou, usando com cinismo as tintas da mentira e da manipulação dos fatos.

Sob o signo do fundamentalismo mais atrasado

Os imbecis que vibram com essa “vitória militar” não sabem que estão fiando o atraso. Graças a seu carisma, Kadhafi havia tido a ousadia de bancar uma república virtualmente laica, sem deixar de reconhecer que o seu povo era muçulmano e que o alcorão ainda é o principal elemento de identidade e unidade dos povos árabes.

É o velho truque: como não vão querer manter as conquistas sociais do povo, que não paga aluguel, tem os melhores hospitais da região e outros benefícios, vão recorrer à cortina de fumaça dos primórdios do islamismo, e assim manter os cidadãos sob o domínio teocrático que pode até restaurar a monarquia.

Isto porque na sua “ditadura” de Kadhafi o líbio conheceu a verdadeira cidadania: as mulheres ganharam espaço que não existe em nenhum outro país árabe, nem mesmo na Palestina, na Argélia e na Síria; o analfabetismo, que em 1969 era de 90% da população, inverteu: neste 2011, 90% dos líbios estão livres desta arma do obscurantismo.

E mais, ressalto para a sua avaliação: números de organismos internacionais confirmam que 10% dos jovens líbios em idade universitária ganhavam bolsas do governo para estudarem na Europa e Estados Unidos.

Vamos, ponha a cabeça para refletir: que regime ditatorial teria coragem de pagar a seus futuros doutores para ir em busca de conhecimentos em países sabidamente hostis?

Ao declarar a Líbia libertada, Mustafa Abdel Jalil, ministro da Justiça de Kadhafi até fevereiro, cooptado pela CIA e feito chefe dos “insurgentes”, foi logo declarando que cederá aos fundamentalistas muçulmanos que vinham tentando derrubar o governo há mais de 20 anos. Já anunciou que revogará as leis que deram cidadania às mulheres, inclusive a que estimula a monogamia.

Isso levou Rokaya Elbadri, uma ginecologista de Trípoli, 53 anos, a desabafar: “Coloque a religião fora disso! Não transforme religião numa arma. Não, não quero nada como Dubai (nos Emirados Árabes Unidos, ditado pela religião). Com eles no poder, é sempre assim: todas as regras que mudam são contra mulheres. Não proíbem nada para eles mesmos! É sempre: "mulher tem que fazer isso, não pode fazer aquilo. Não quero isso”.

A África perdeu seu grande irmão

Falei pouco sobre a abrangência do golpe, alcançando a África, que teve em Kadhafi o seu grande amigo, desde o tempo em que Nelson Mandela, agora assimilado pela mídia Ocidental, estava encarcerado e contava com a sua ajuda para enfrentar o apartheid.

A propósito, veja o que escreveu na Gazeta de Luanda - Jean-Paul Pougala, um escritor de origem camaronesa, diretor do Instituto de Estudos Geoestratégicos e professor de sociologia na Universidade de Diplomacia de Genebra, na Suíça:

“Para a maioria dos africanos, Kadhafi é um homem generoso, um humanista, conhecido pelo apoio incondicional à luta contra o regime racista na África do Sul. Se ele tivesse agido de forma egoísta, ele não teria corrido o risco de sentir a ira ocidental ao apoiar o Congresso Nacional Africano (CNA) tanto militarmente quanto financeiramente, na sua luta contra o apartheid.

Foi por isso que Mandela, logo após a sua libertação depois de passar 27 anos na cadeia, decidiu visitar a Líbia em 23 de Outubro de 1997, quebrando o embargo da ONU.

Por cinco longos anos, nenhum avião estava autorizado a aterrissar na Líbia. Era necessário ir de avião até à cidade tunisiana de Jerba, e prosseguir por uma estrada que cruza o deserto durante cinco horas, até chegar a Ben Gardane, depois atravessar a fronteira, e continuar por outra estrada através do deserto durante mais três horas, antes de chegar finalmente a Trípoli.

Mandela não mediu palavras quando o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, disse que a visita era “mal vista”. “Nenhum país pode reclamar para si o policiamento do mundo, e nenhum estado pode ditar o que outro deve fazer”, disse Mandela. E acrescentou, “aqueles que ontem eram amigos dos nossos inimigos e têm a ousadia de dizer, hoje, que eu não devo visitar o meu irmão Kadhafi, estão pedindo que sejamos ingratos e esqueçamos os nossos amigos do passado.”

Em seu artigo, Jean-Paul Pougala faz comparações, citando Jean Jacques Rousseau:

“A questão, que até alguém com o mínimo de inteligência não pode evitar de colocar, é a seguinte: países como a França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Noruega, Dinamarca, Polônia, que defendem o seu direito de bombardear a Líbia fundamentados pelo seu auto proclamado estatuto democrático, serão esses países realmente democráticos? Se sim, serão eles mais democráticos do que a Líbia de Kadafi? A resposta, na verdade, é um retumbante NÃO”.

Esse raciocínio pode ser complementado com o texto do blog que publica o primeiro testamento de Kadhafi, datado de abril.


“Sob a liderança de Muammar Kadafi, a Líbia obteve o melhor padrão de vida na África. Em um artigo de 2007 da African Executive Magazine, Norah Owaraga nota que a Líbia, “diferente de outros países produtores de petróleo como Nigéria e Arábia Saudita, utilizou a renda do petróleo para desenvolver o país.” Isso é algo muito marcante pois em 1951 era oficialmente um dos países mais pobres do mundo.

David Blundy e Andrew Lycett, jornalistas da Two Fleet Street que não são defensores da Revolução líbia de 1969, dizem-nos:

“Os jovens são bem vestidos, alimentados e educados. Os líbios possuem agora uma renda per capita maior que a dos britânicos. A disparidade das rendas anuais são menores que a de muitos países. A riqueza foi consideravelmente espalhada na sociedade. Todo líbio tem direito a educação e serviços dentários e de saúde gratuitos e geralmente de excelente qualidade. Novas faculdades e hospitais são impressionantes em qualquer padrão internacional. Todos os líbios possuem uma casa ou um flat, um carro e muitos possuem televisores, gravadores de vídeo e telefones.”

O Estado buscou dar moradia a todos os seus cidadãos, sem cobrar aluguel. O Livro Verde de Kadafi diz: “A casa é uma necessidade básica tanto do indivíduo quanto da família, portanto outras pessoas não podem possuí-la.” Esse ditado se tornou uma realidade para o povo líbio.

Grandes projetos agrícolas foram implementados na tentativa de “fazer o deserto florescer” e atingir a auto-suficiência em produção de comida. Qualquer cidadão líbio que queria se tornar um agricultor tem uso livre da terra, uma casa, equipamentos, um pouco de criação e sementes”.

Vou ficar por aqui, por hoje. Mas publico no meu blog também os dois “testamentos” de Kadhafi, o de abril, que me foi enviado por Thomas Fendel, e o mais recente, publicado em trechos na Gazeta de Luanda

Kadhafi: "Morrer protegendo nossa nação é uma honra, vendê-la é a maior traição que a história poderá recordar"

Para quem ainda não foi intoxicado pela propaganda maciça da mídia de aluguel




Seria bom que você lesse os testamentos de Kahafi, escritos sob os foguetes criminosos das potências agressoras. Essa leitura será últil principalmente para quem ainda não foi totalmente intoxicado pela mettralhadora  giratória da mídia de aluguel.

O primeiro é de abril e é o seguinte, na íntegra:

"Em nome de Alá, o benevolente, o misericordioso...



Por 40 anos, ou foi mais, eu não me lembro, eu fiz tudo que pude para dar ao povo casas, hospitais, escolas, e quando ele estava faminto, eu lhes dei comida. Eu até mesmo transformei Benghazi em terra arável a partir do deserto, eu resisti aos ataques daquele cowboy Reagan, quando ele matou a minha filha adotiva órfã, quando estava tentando me matar, e ao invés matou aquela pobre criança inocente. Então eu ajudei meus irmãos e irmãs da África com dinheiro para a União Africana.


Eu fiz tudo o que pude para ajudar o povo a compreender o conceito de democracia real, no qual comitês populares governam nosso país. Mas isso nunca foi o bastante, como alguns me disseram, até pessoas que tinham casas com 10 cômodos, ternos e móveis novos, jamais estavam satisfeitos, egoístas que são e queriam mais. Eles diziam aos americanos e a outros visitantes, que eles precisavam de "democracia" e "liberdade" jamais percebendo que este é um sistema suicida, no qual o cachorro maior come os outros, mas eles estavam encantados com aquelas palavras, jamais percebendo que na América não havia medicina gratuita, hospitais gratuitos, casas gratuitas, educação gratuita e alimentação gratuita, a não ser quando as pessoas tem que mendigar ou entrar em longas filas para ganhar sopa.


Não, não importava o que eu fizesse, jamais era o bastante para alguns, mas para os outros, eles sabiam que eu era o filho de Gamal Abdel Nasser, o único verdadeiro árabe e líder muçulmano que tivemos desde Salah-al-Deen, quando ele clamou o Canal de Suez para seu povo, como eu clamei a Líbia, para meu povo, foi suas pegadas que eu tentei seguir, para manter meu povo livre da dominação colonial - de ladrões que nos queriam roubar.


Agora, eu estou sob o ataque da maior potência militar da história, meu pequeno filho africano, Obama, quer me matar, para roubar a liberdade de nosso país, para roubar nossas casas gratuitas, nossa medicina gratuita, nossa educação gratuita e nossa alimentação gratuita, para substituir pela roubalheira americana, chamada "capitalismo", mas todos nós no Terceiro Mundo sabemos o que isso significa, quer dizer que Corporações governam os países, governam o mundo, e as pessoas sofrem. Então, não há alternativa para mim, eu devo resistir, e se Alá desejar, eu morrerei seguindo Seu caminho, o caminho que tornou nosso país rico com terra arável, com comida e saúde, e até mesmo nos permitiu ajudar nossos irmãos e irmãs árabes e africanos para trabalhar aqui conosco, na Jamahiriya líbia.


Eu não quero morrer, mas se chegar a isso, para salvar essa terra, meu povo, todos os milhares que são minhas crianças, então que assim seja.


Que esse testamento seja minha voz para o mundo, que eu resisti aos ataques dos cruzados da OTAN, resisti à crueldade, resisti à traição, resisti ao Ocidente e suas ambições colonialistas, e que eu resisti com meus irmãos africanos, meus verdadeiros irmãos árabes e muçulmanos, como um raio de luz. Quando outros estavam construindo castelos, eu vivi em uma casa modesta, e em uma tenda. Eu nunca esqueci minha juventude em Sirte, eu não gastei nosso tesouro nacional tolamente, e como Salah-al-Deen, nosso grande líder muçulmano, que resgatou Jerusalém para o Islã, eu peguei pouco para mim mesmo...


No Ocidente, alguns me chamaram "insano", "louco", mas eles sabem a verdade porém continuam a mentir, eles sabem que nossa terra é independente e livre, e que não está sob o jugo colonial, que minha visão, meu caminho, é, e tem sido claro e pelo meu povo e que eu vou lutar até meu último suspiro para nos manter livres, e que Alá Todo-Poderoso possa nos ajudar a permanecer fiéis e livres."

Coronel Muammar al-Kadafi, 05/04/2011

No segundo, mais recente, pede que ele seja enterrado em sua  cidade natal, Sirte. Aqui publico os trechos que encontrei na Gazeta de Luanda:

Um documento póstumo revela que Muammar Kadhafi não afastava a possibilidade de uma morte no campo de batalha e que o antigo presidente da Líbia recusou várias ofertas de asilo político.


O testamento foi divulgado pelo site Seven Days News, conotado com o antigo líder líbio.

“Se for morto, gostaria de ser sepultado, de acordo com os rituais islâmicos, com as roupas que estava a usar no momento da minha morte e o meu corpo por lavar, no cemitério de Sirte, junto à minha família”, declara Kadhafi na missiva.


“Quero que a minha família seja bem tratada após a minha morte, sobretudo as mulheres e as crianças”, acrescenta.


A carta transforma-se depois num testamento político de defesa das ações do líder líbio. “Que o povo líbio preserve a sua identidade, os seus feitos, a sua história e a honorável imagem dos seus antepassados e os seus heróis. (…) Apelo aos meus seguidores que continuem a resistir e a lutar contra qualquer agressão estrangeira contra a Líbia, hoje, amanhã e sempre”, declara Kadhafi.


“Que as pessoas livres de todo o mundo saibam que podíamos ter negociado e abdicado da nossa causa em troca de segurança pessoal e de uma vida estável. Recebemos muitas ofertas para este efeito, mas escolhemos estar na frente de batalha como prova do nosso dever e da nossa honra”, afirma.


“Mesmo que não ganhemos imediatamente, deixamos às gerações vindouras a lição de que escolher proteger a nossa nação é uma honra, e que vendê-la é a maior traição que a história poderá recordar”, termina Kadhafi.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Uma guerra muito longe de ter chegado ao fim

Assassinado na resistência, Kadhafi lega aos líbios o exemplo do guerreiro que não foge à luta
"Estão disputando as carcaças, como abutres. O ministro francês da Defesa disse que um avião Rafale atirou contra o comboio. O Pentágono disse que o pegaram com um avião-robô comandado à distância, um drone Predator, que lançou um míssil Hellfire”.
Pepe Escobar, Asia Time (traduzido pelo pessoal da Vila Vudu)


Clque na foto e veja as imagens da britalidade


No mesmo dia em que o Conselho de Segurança desse apetrecho chamado ONU  decidiu patrocinar os bombardeios da Líbia com a fraudulenta resolução de exclusão do espaço aéreo, conforme escrevi a tempo e a hora, Muammar Abu Minyar al-Kadhafi percebeu que seu destino estava selado - naquele 17 de março de 2011 seu país tivera cassado o direito à soberania e ele fora condenado à morte.

Fosse o ditador que essa mídia de aluguel pintou até agora,  teria tratado de si a partir daquela data fatídica. Os governantes corruptos guardam elevadas somas nos colchões dos paraísos fiscais e, no aperto, fogem para lugares igualmente paradisíacos onde vão gastar as fortunas roubadas.

O   Moujahid Kadhafi, não. Ciente de que em horas os mísseis Tomahawk já estariam sendo despejados sobre Trípoli e Mistrata, optou pela resistência na corajosa afirmação da soberania do seu país, a bola da vez da pirataria de Estado. Dos primeiros bombardeios, no dia 20 de março,  até seu assassinato, em 20 de outubro, decorreram exatos 7 meses.
Quase desde a execução, a internet passou a exibir as cenas brutais de uma violência inexplicável. Kadhafi fora capturado e estava num comboio de vários veículos da OTAN que foi bombardeado. Nesse ataque, foi gravemente ferido. Em seguida, os mercenários treinados pela CIA transferiram-no para um carro que tomou o rumo de Misrata. No percurso, quando afirmava em voz trêmula sua condição de líder do país,. recebeu dois tiros fatais: um na cabeça e outro no abdômen, para simular ferimentos de combate.
Logo os palácios das potências agressores fizeram a festa, ecoada por uma mídia de boçais e mercenários. Era preciso dourar a pílula para anunciar aos quatro ventos a “nova Líbia” que nascia com a morte do seu líder, aquele que, aos 27 anos, à frente de jovens militares, pusera para correr o imperador senil, que estava entregando seu petróleo de mão beijada às empresas norte-americanas.
Dá náuseas assistir a esse esforço para justificar a agressão de potências decadentes, mas ainda bem armadas, a um país soberano. Assalta-me uma frustração pueril, a impossibilidade de não ter toda a força do mundo para destruir os arsenais e imobilizar os criminosos que usam de mísseis e artimanhas para apossar-se das riquezas alheias.
Porque na verdade, para além do petróleo líbio, esse golpe tem uma abrangência maior: Kadhafi assumia a liderança de toda uma África que começava a refletir a partir de seu exemplo e de sua ajuda. Além disso, ressaltava ganhos com medidas corajosas, como livrar-se do dólar como moeda intermediária.
Morte que se transforma numa centelha viva
Mas a percepção milimétrica dos fatos mostra que a morte de Kadhafi no campo de batalha, junto aos seus irmãos na sua cidade, bombardeada quadra por quadra, vai ser, sim, o início de uma nova Líbia, mas não a dessa desfigurada súcia que exibe a bandeira dos Estados Unidos como se aspirante á colônia.

A Líbia que sepulta Muammar Abu Minyar al-Kadhafi nos seus 69 anos não é a mesma que ele encontrou em 1969. Bombardeá-la, pagar e treinar mercenários,  explorar conflitos tribais e aspirações pessoais, isso foi fácil.
Apropriar-se de seu petróleo para sempre e subordinar a soberania nacional aos interesses das potências em crise, instalar um governo títere e apaziguar as massas, isso não tem a menor possibilidade de acontecer.
A guerra  subterrânea pelo butim

Como em todas as civilizações, o Moujahid Kadhafi morto se converterá na mais viva centelha da resistência e o heterogêneo Conselho Nacional de Transição, monitorado pela trinca EUA-França-Inglaterra, entrará em choque na disputa da parte do leão. O seu presidente, Abud Al Jeleil, era ministro da Justiça de Kadhafi até fevereiro, quando foi cooptado pela CIA com a promessa de virar o cabeça da sedição.
No entanto, embora prestigiado pessoalmente por Obama e Sarkozi, já teve de enfrentar crises gravíssimas. No final de julho, mandou matar o general Abdul Fattaḥ Yunes, então chefe do Estado Maior rebelde, e em 8 de agosto dissolveu a Executiva formada em fevereiro, entregando seu comando a Mahmoud Jibril, ex-chefe da equipe econômica de Kadhafi, formado na Universidade de Pittsburgh, nos EUA e homem de confiança do governo norte-americano.
Tem contra ele o general Abdel Hakim Belhaj, responsável pela tomada de Trípoli, ligado ao Al-Qaeda e aos talibãs do Afeganistão. Antigo conspirador, chegou a ser condenado a morte depois de um golpe frustrado, à frente do Grupo de Combate Islâmico Líbio.
Com sua pena convertida em prisão perpétua domiciliar, ganhou anistia em 2008, juntamente com outros 170 fundamentalistas islâmicos por iniciativa de Saif al-Islam Muammar al-Gaddafi, filho do líder líbio. Neste setembro, tomar Trípoli, ficou sabendo que havia sido  capturado em 2002 na Malásia pelo M16, serviço secreto britânico, que o entregou a ao governo líbio, quando este havia se aproximado do Ocidente, depois dos atentados de 11 de setembro. Indignado, obrigou o premir inglês e mandar investigar a denúncia, com base em documentos encontrados nos arquivos dos serviços de segurança.
Se o problema fosse apenas as lutas previsíveis no interior do grupo líbio, seria fácil debelar. A briga é mais encima e resulta da convicção da trinca agressora de que é preciso meter a mão logo no que sobrou dos destroços. Estados Unidos e França já estão se estranhando porque seus fracassados governos precisam de qualquer coisa para ludibriar os eleitores nas eleições vindouras.
É farinha pouca, meu pirão primeiro. Porque a “conquista” da Líbia está vinculada à crise da Europa e dos Estados Unidos, uma crise puxada pela insuficiência energética. A França quer ser a dona do petróleo líbio e já pagou adiantado. Os norte-americanos alegam que gastaram um bilhão de dólares nesses sete meses e também reclamam imediato ressarcimento.
Uma mudança na resistência
É provável que a nova Líbia signifique uma mudança nas organizações de resistência que sobreviverão mais escaldadas depois da morte de Kadhafi. O líder apostava numa relação direta entre as massas e ele. Cofiando na mudança que produziu, refletindo-se na elevação dos índices de Desenvolvimento Humano (os maiores da África e maior do que do Brasil), a implantação de ensino gratuito em todos os níveis, saúde pública de qualidade para todos e um arrojado investimento no maior sistema de irrigação do mundo, entre outros benefícios.
Mas, submetido a um pacto entre tribos, desprezava a organização do povo, ao contrário de Cuba, no nariz dos Estados Unidos, que desafia a poderosa potência há 52 anos. Nem com o bloqueio econômico, que mantém a ilha em uma dieta forçada, nem com a as centenas de tentativas das CIA e outras agências de inteligência, os norte-americanos conseguiram derrubar o governo revolucionário.
Desde que assumiu em 1969, Kadhafi priorizou o entendimento entre os chefes tribais, fazendo-se dependente deles. Com isso, apareceram dissidências no núcleo central do poder, formado pelos militares nacionalistas que derrubaram o rei Idris. Isso o levou a um estilo de governo sustentado no seu carisma e nos avanços sociais baseados em políticas compensatórias.
Até mesmo o Exército perdeu sua influência a partir de 2002, quando Kadhafi fez “uma abertura” econômica, privatizou algumas empresas e ganhou como compensação o fim do bloqueio econômico junto com investimentos estrangeiros.
Foi considerando esse quadro e o próprio contexto árabe que as potências estrangeiras viram criadas as condições para recolonizar o país e derrubar seu líder, que mesmo com a guerra impiedosa ainda era a figura mais querida do país.
Agora, com sua morte, essas potências não sabem em quem realmente apostar para a reconstrução do país. A única coisa que querem é apoderar-se do butim, e isso ainda vai dar muitos panos pras mangas. 

Kadhafi foi derrotado e morto pelos milhares de bombardeios aéreos. Os ditos rebeldes só sabiam dar tiros pra cima festejando o sucesso dos aviões estrangeiros. E agora não estão nem um pouco preparados para assumir o governo da Líbia, país  que ia de vento em popa sob o líder covardemente assassinado.
Daí prever o seu amanhã é um exercício de adivinhação. Que vale um prêmio com as tintas da ficção.
E se Kadhafi estiver vivo?
Ao finalizar esta coluna, recebi e-mail garantindo que a notícia da morte de Kadhafi é uma montagem.  Transcrevo trecho da informação para nossa avaliação:
“O Movimento dos Comitês Revolucionários e os Comitês Verdes da Líbia confirmam que o líder está vivo, e que os inimigos procuram tirar proveito da desinformação que estão espalhando através da mídia ocidental.
Segundo analistas políticos da Mathaba (Centro de União dos Povos) na Líbia, o objetivo é repetir esse boato várias e várias vezes. Por um lado eles querem desmoralizar a resistência líbia que continua lutando por mais de sete meses contra forças poderosas da Otan (40 países), exércitos imperialistas e terroristas. Por outro lado, desejam atrair o líder Muamar Kadhafi para uma armadilha, tentando obrigá-lo a fazer uma ligação ou chamada para obter a sua localização”.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Isso não é uma denúncia. Isso é uma agressão ao jornalismo e ao bom senso

E ainda querem que o “denunciado” prove a inocência, quando o ônus da prova é da acusação


"Considero muito grave algumas afirmações, de que não importa a apuração, não importa o processo, o que importa é que há uma denúncia. Lembrei do tribunal de Nuremberg, do dito brasileiro às favas os escrúpulos. Isso é um tribunal de exceção. Acusar alguém e não provar, acusar alguém sem o devido processo é fazer um tribunal de exceção. Isso tangencia para o fascismo".
Orlando Silva, ministro dos Esportes.

O mais confortável seria surfar na onda da revista Veja & companhia, mas a leitura e releitura reiterada da matéria sobre suposto envolvimento do ministro Orlando Silva em esquema de propinas no Ministério dos Esportes me põe diante de um episódio sórdido, subproduto mal acabado da pior mídia marrom, do que há de mais repugnante no jogo sujo do poder.

Numa me imaginei defendendo o ministro Orlando Silva, mas a reportagem da Veja (e as repercussões decorrentes) é uma agressão ao jornalismo – afirmo em nome dos meus 50 anos de redação. Cheira à matéria de encomenda, mesmo sem o mínimo de requinte e, provavelmente, tem muito a ver com toda essa trama de interesses que envolve os eventos bilionários programados para 2014 e 2016.

Estou com essa matéria atravessada ma garganta desde o sábado em que foi para as bancas. Interessei-me porque acho que essas terceirizações através de ONGs sem qualquer licitação é um perigoso ralo, sobre o qual ninguém, absolutamente ninguém, pode ter controle. O repasse do recurso público permite tudo, até que o dinheiro seja usado honestamente.

Mas ao deparar-me com o seu conteúdo, vi logo que ali tinha truta. Leviandade pura, irresponsabilidade de baixíssimo nível. Coisa de moleque. Inacreditável. Inadmissível. Intragável.

Com esse tipo de jornalismo não dá. Isso é muito feio, é um péssimo exemplo para tanta gente que acredita no poder da palavra.

Faço o desmanche dessa matéria exatamente porque considero a banalização leviana de falsas denúncias, fofocas primárias, um péssimo desserviço à luta contra a corrupção. Não é admissível que a palavra de um picareta encurralado por seus próprios delitos, que nos afronta com descarado enriquecimento ilícito, seja a única peça a alimentar a reportagem com chamada na capa, uma espécie de panfleto contra um ministro de Estado, ainda mais no centro de tantas controvérsias por conta dos eventos internacionais em que o Brasil está envolvido.

A revista nem se deu ao tabalho de checar as "denúncias"

Como é que pode? Nesse caso, penso diferente do ministro. O grande vilão não é esse PM que mora em uma mansão com três carros importados, conforme o próprio GLOBO mostra hoje, terça-feira. Quem deve ser questionado firmemente é a revista que o transforma em “testemunha” de algo sobre o que não exibe uma única prova, nada, só a palavra dele, claramente a palavra de um criminoso usado para atingir e desestabilizar um  ministro.

Essa irresponsabilidade ainda é mais grave porque bóia em citações genéricas, sem o menor cuidado de nominar possíveis envolvidos. Nada que justifique essa verdadeira fraude jornalística: “Agora, surgem evidências mais sólidas daquilo que os investigadores (quais investigadores?) sempre desconfiaram: funcionava dentro do Ministério do Esporte uma estrutura organizada pelo partido para desviar dinheiro público usando ONGs amigas como fachada. E o mais surpreendente: o ministro Orlando Silva é apontado como mentor e beneficiário do esquema (texto da revista).

A revista simplesmente assina embaixo das declarações desse dublê de policial militar e empresário, preso junto com outras quatro pessoas, por desviar dinheiro recebido do Ministério dos Esportes para dar treinamento a crianças em Brasília. Isso sem acrescentar qualquer comprovante que dê verossimilhança às suas supostas “delações”.

PM milionário, corrupto e truculento

Segundo reportagem de O GLOBO, PM acusador mora numa mansão em condomínio fechado, com três carros importados na garagem: um Camaro, um Volvo e uma BMW. Seu salário bruto: R$ 4.5000,00. Isso a VEJA omitiu.

Esse soldado PM, João Dias Ferreira, que já foi filiado ao PC do B, partido do ministro, aparece também como dono de uma rede de academias de ginástica. E Célio Soares Pereira, a pessoa indicada por ele para reforçar suas acusações, é seu funcionário, gerente de uma das academias de sua propriedade.

Pelos critérios investigativos mais razoáveis, qualquer um procuraria saber, em primeiro lugar, como um soldado da PM conseguiu reunir esse patrimônio. A polícia e o ministério público certamente já sabem.
Segundo a revista, durante o inquérito policial os outros quatro presos “concordaram em falar à polícia. Contaram em detalhes como funcionava a engrenagem. O soldado João Dias, porém, manteve-se em silêncio sepulcral”. Ele contava que o próprio ministro do Esporte livraria sua cara: “O Orlando me prometeu que ia dar um jeito de solucionar e que tudo ia ficar bem” – declarou à Veja.

E admitiu que fez todo tipo de pressão para que o livrassem do processo criminal e da obrigação de devolver ao Ministério R$ 3,16 milhões desviados. Procurou pessoalmente o então secretário nacional de Esporte Educacional, Júlio Cesar Filgueira, para tirar satisfação. O encontro foi na secretaria. O próprio João Dias conta o que aconteceu: “Eu fui lá armado e dei umas pancadas nele. Dei várias coronhadas e ainda virei a mesa em cima dele. Eles me traíram”.


A revista a rigor nada revela e ainda fica nos devendo informações elementares:
Diz a matéria: “as ONGs, segundo ele, só recebiam os recursos mediante o pagamento de uma taxa previamente negociada que podia chegar a 20% do valor dos convênios”.
No mínimo, o repórter localizaria alguma ONG e publicaria seu depoimento.

Diz a matéria: “O partido indicava desde os fornecedores até pessoas encarregadas de arrumar notas fiscais frias para justificar despesas fictícias”.
Não seria difícil dar nomes de alguns fornecedores ou autores de notas frias. Nenhum nome aparece, porém.

Na matéria, Célio Pereira, funcionário do PM, diz: “Eu recolhi o dinheiro com representantes de quatro entidades aqui do Distrito Federal que recebiam verba do Segundo Tempo e entreguei ao ministro, dentro da garagem, numa caixa de papelão. Eram maços de notas de 50 e 100 reais”
Para ganhar credibilidade, esse relato teria que apontar os nomes das quatro entidades das quais ele havia recolhido o dinheiro.

Reporta ainda a matéria: “João Dias diz que Fredo Ebling era um dos camaradas destacados por Orlando Silva para coordenar a arrecadação entre as entidades. O policial relata um encontro em que Ebling abriu o bagageiro de seu Renault Mégane e lhe mostrou várias pilhas de dinheiro. “Ele disse que ia levar para o ministro”, afirma”.
Sinceramente, tem cabimento o sujeito ficar mostrando a outro dinheiro arrecadado indevidamente?

Na entrevista publicada com a matéria, o repórter pergunta: “O senhor deu dinheiro ao esquema?”.
O policial militar responde: “Não. Exigiram pagamento adiantado a um escritório indicado por eles. Foi feito um contrato de consultoria que depois eu percebi que era fictício”.

O repórter nos deve o nome desse escritório, bem como dos fornecedores de alimentos e material esportivo de quem João Dias afirma ter sido obrigado a comprar.


Você pode estranhar a minha repugnância a esse tipo de "denúncia" e até achar que resolvi fazer às vezes de advogado do ministro, com quem nunca cruzei.

Mas se for mais racional haverá de entender o porquê da minha desconfiança sobre esta matéria. Nada compromete mais uma reportagem dessa gravidade do que a inconsistência que a permeia, da primeira a última linha.

Acho que a reação do ministro Orlando Silva não foi feliz, na medida em que ele descarrega sua ira sobre o policial militar, deixando de considerar a responsabilidade da revista que o acusa formalmente de ser beneficiário de um suposto esquema de propina. É isso mesmo.

A revista Veja está garantindo a seus leitores, com base n entrevista de um delinquente, que o ministro Orlando Silva e o PC do B paparam R$ 40 milhões em propinas repassadas compulsoriamente por ONGs beneficiadas pelos programas do Ministério.
O combate á corrupção é coisa séria. Não pode ser achincalhado por matérias típicas da velha imprensa marrom, sem qualquer elemento de prova, documental ou testemunhal. Acusações desmontáveis comprometem o acusador, em primeiro lugar. E acusador não apenas é o brutamonte que diz ter invadido armado o gabinete de uma autoridade para exigir que o ministério lhe livrasse a cara.
Só faltou seguir as normas elementares do jornalismo que se aprende no primeiro dia de redação. Isto é, faltou responder às perguntas básicas de uma reportagem – o que, onde, como, quando, por que, para que - e oferecer elementos reais de prova.

Do jeito que a armação foi feita, até a oposição está dividida. E não é pra menos. Quem tem "inimigos" tão incompetentes e precipitados não precisa nem ter amigos para afirmar-se no poder.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

No combate à corrupção, um olho no padre e outro na missa

Repito mais uma vez: não acredito em manifestações organizadas por quem nunca vi mais gordo

Juiz Fausto de Sanctis: este sim, quis combater a corrupção e a roubalheira e ficou quase sozinho sob pressão do presidente do STF, sem que estes manifestantes de hoje fossem para as ruas em sua defesa.

Se um deputado comprado para votar pela aprovação de um projeto de lei que beneficia privilegiadamente uma empresa privada é denunciado, passa-se, nos meios de comunicação, a visão de que apenas ele é corrupto, como se a empresa que o comprou não existisse - o crime do corruptor é ignóbil tanto quanto o do corrompido”.
Nota do PCB, divulgada no último dia 11 de outubro.

Um militante com a bandeira do PSOL foi agredido e expulso da manifestação contra a corrupção e Brasília. Segundo vídeo reproduzido no site do GLOBO, alguns manifestantes gritavam: “o povo unido não precisa de partido”.

O PSOL, que se saiba, não tem nada a ver com as maracutaias que assolam o país, antes pelo contrário. No entanto, já na manifestação do Rio de Janeiro, em setembro, o deputado Marcelo Freixo, de atuação desassombrada contra o crime organizado e reputação ilibida doi hostilizado  por ter ido ao ato,  organizado por  estranhos desconhecidos sob as expensas não se sabe de quem, mas com apoio orquestrada da grande mídia, sobretudo do sistema GLOBO.

Quem quer que fosse suspeito de pertencer a um partido político, fosse ele qual fosse, mesmo de ficha mais limpa do que certos empresários auto-proclamados vestais dos bons costumes,  teria passado por constrangimento semelhante,  como aconteceu nos idos tenebrosos da Alemanha nazista.

Tal parece ser o escopo primário da sociedade anônima que privatizou o descontentamento generalizado e investe perigosamente numa manipulação torpe, de viés fascista, muito bem radiografada por um partido octogenário, o PCB, que hoje não tem um único deputado, mas cuja história é respeitada por gregos e troianos:

O “combate à corrupção”, na forma manipulada com que é alardeado e conduzido por este movimento, atende claramente a demandas da direita, dos setores mais retrógrados da sociedade brasileira, que, nos idos de 1964, marcharam em favor do golpe empresarial-militar e que, hoje, se articulam para restringir, o mais que puderem, o pouco espaço democrático de que dispomos, no Brasil, conquistado à custa de muita luta nas décadas passadas. O objetivo principal é afastar os trabalhadores e os setores populares dos partidos políticos e da própria política, para que o exercício desta seja privativo dos homens e mulheres de “bens”.
CLIQUE AQUI e leia a nota do PCB


Atraindo os desavisados

Ao contrário do esperado, o número de participantes do evento deste dia 12 de outubro foi menor em Brasília do que no dia 7 de setembro. Em outras cidades, a adesão foi mínima. Em São Paulo, onde o governo Alckimin está envolvido no rumoroso escândalo das “emendas compradas”, sobre as quais nada se ouviu no ato, a passeata não somou dois mil. No Rio, mesmo com a mudança para Copacabana, os mesmos gatos pingados.

Nem um pingo dos 750 mil alegres integrantes da parada gay, que coloriram a Atlântica três dias antes. Até mesmo a marcha pela legalização da maconha teve mais gente do que os indignados (e enganados) contra a corrupção, uma das maiores mazelas do nosso país.

Essa pretensão de que, pelo uso afoito de redes sociais na internet, algumas pessoas saídas do nada, sem vínculos orgânicos e sem biografia conhecida, sem nenhuma contribuição conhecida ao bem comum, podem pautar a presença do povo nas ruas e decidir quem tem direito de se manifestar é uma perigosa balela. Quem tem um mínimo de vivência não vai correr atrás de quem nunca viu mais gordo, só porque a grande mídia decidiu catapultar ungidos por ela a um proscênio de araque.
Por que isso? Já escrevi sobre a manipulação da indignação com objetivos outros que não o de denunciar a corrupção em suas múltiplas facetas.

Quem tem o mínimo de capacidade perceptiva vai ver em tais eventos, ostensivamente excludentes, o dedo de uma certa cruzada de interesses, com zero de autoridade para falar em corrupção, principalmente por sua colaboração com a ditadura, onde a roubalheira corria solta sob a proteção das baionetas e das câmaras de tortura, num ambiente obscurantista que nos legou como subproduto deprimente a imbecilização de boa parte do nosso povo.

No caso dessas recentes manifestações urdidas mais pela grande mídia do que pelas ainda insipientes redes sociais, que atraem desavisados cidadãos de boa fé, o combate à corrupção entra na pauta como Pilatos entrou no Credo. O que se pretende – como transparece – é aproveitar a deixa para fragilizar a ossatura do sistema democrático, expondo personagens pontuais, escolhidas a dedo, enquanto encobrem a bilionária rede de corruptores que se locupleta à sombra desde priscas eras.

A grande corrupção poupada

Tem sentido falar apenas em episódios pontuais no Congresso, cuja maioria foi eleita em campanhas milionárias bancadas por esses mesmos interesses escusos, enquanto se mantém a mais suspeita omissão sobre as grandes tacadas, em que rolou dinheiro sujo, como na privataria que, entre outras pérolas, entregou de mão beijada a Vale do Rio Doce a alguns apaniguados do sistema financeiro?

Tem cabimento calar sobre as políticas que favorecem a aventureiros influentes, que estão se apoderando de nossas riquezas estratégicas e remetendo para fora na maior irresponsabilidade, deixando de questionar os leilões do nosso petróleo ou as transações imorais com nosso nióbio?

Por que essas falsas vestais calam ante episódios suspeitíssimos, como a decisão de ministros do STJ que anulou a ação do Ministério Público e da Polícia Federal na “Operação Castelo de Areia”, que pegou grandes empreiteiras com a mão na massa, sob a alegação de que as investigações tiveram origem em denúncia anônima?

Quer enfrentar a corrupção pela raiz, honestamente, então vamos exigir uma auditoria em todas as dívidas contraídas com propinas em dólares, vamos tapar o ralo imoral que drena bilhões para a especulação, vinculando nossas receitas a compromissos suspeitos impagáveis: segundo o Banco Central, o superávit primário do setor público consolidado chegou a R$ 13,789 bilhões em julho de 2011, enquanto no mesmo mês de 2010 essa economia para o pagamento dos juros da dívida pública foi R$ 1,532 bilhão.
E por que nada se fala da comprometedora postura do ministro Gilmar Mendes, que, na presidência do STF mandou soltar Daniel Dantas duas vezes, apesar da fartura de provas reunidas pelo juiz Fausto de Sanctis, este, aliás, vítima da mais brutal perseguição por querer, ele sim, punir corruptos e corruptores?

Mostremos as vísceras da corrupção

Quando põe todos os políticos no mesmo saco, como se não houvesse um único de mãos limpas, os cabeças desses eventos nada espontâneos jogam pesado na desestruturação do arcabouço democrático, na desmoralização da atividade pública,  pregando o mesmo descrédito institucional que levou à quartelada de 1964. Esse direcionamento perigoso se torna mais grave quando, no mesmo diapasão, são excluídas e criminalizadas as entidades que, bem ou mal, são representativas de segmentos da sociedade organizada.

Querem realmente denunciar a corrupção no país? Então mostremos suas vísceras, vamos pedir a apuração rigorosa da ação deletéria de grandes empresários, os corruptores beneficiados por licitações e favorecimentos fraudulentos – vamos exigir a investigação de obras superfaturadas, contratadas sem licitação sob pretextos insustentáveis, como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016: vamos exigir a derrubada do regime diferenciado de concorrências, um basta à intervenção da quadrilha da FIFA com o objetivo de favorecer grupos associados a seus dirigentes. Ou seja, vamos denunciar toda a promiscuidade corrupta sob o manto de discutíveis vantagens advindas dos eventos manipulados.

Essas farsas que pretendem apropriar-se do sentimento de indignação do nosso povo nos obrigam a estar com um olho no padre e outro na missa. Façamos um inventário de todo esse ambiente de cumplicidade que compromete as instituições políticas, mas fiquemos atentos ante a tentativa de simplesmente acuá-las e destruí-las, abrindo caminho para as hidras que querem renascer com o nosso grito para instalar outra vez o arbítrio golpista, notoriamente direcionado para favorecer os granes cartéis que corrompem, espoliam nossas riquezas e se blindam a ferro e a fogo.

Combate pra valer à corrupção é muito mais do que boiar na superfície, remedar duas ou três palavras de ordem, agir que nem “Maria vai com as outras” e repedir clichês inventados por quem, no fundo, quer mesmo é proteger a cada vez mais poderosa indústria privada de negociatas e apropriação do Estado.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.