sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Judiciário que se acha acima do bem e do mal no olho do furacão

Onda encrespada de indignação adia decisão do STF contra controle da sociedade sobre seus atos
Eu não tenho que me desculpar. Estão dizendo que ofendi a magistratura, que ofendi todos os juízes do país. Eu não fiz isso de maneira nenhuma. Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados”.
“As portas estão se fechando. Parece haver um complô para que não se puna ninguém no Brasil.”
"A quase totalidade dos 16 mil juízes do país é honesta, os bandidos são minoria. Uma coisa mínima, de 1%, mas que fazem um estrago absurdo no Judiciário"
Eliana Calmon, 66 anos, ministra do STJ, corregedora do CNJ.

“A associação sempre defendeu que o CNJ tem que exercer um controle externo da magistratura, e é imprescindível para esse controle que o conselho tenha uma função correcional e fiscalizatória. Há embasamento constitucional para isso e não é possível que, principalmente os órgãos de segunda instância, exerçam sua atividade sem fiscalização. E mais, com relação aos juízes de primeira instância, o CNJ interferindo, pode garantir a independência desses juízes se houver abuso ou excesso pelas Corregedorias.”
Juiz José Henrique  Rodrigues Torres, presidente da Associação de Juízes para a Democracia.

O folclore forense tem duas pérolas emblemáticas: uma diz que o bom advogado conhece as leis, o ótimo advogado conhece os magistrados; outra, que os juízes se acham deuses, os desembargadores têm certeza.
Tais peças caem como luvas nessa extravagante polêmica sobre o papel do Conselho Nacional de Justiça, que o corporativismo dos intocáveis quer abaixo de zero, já que, de fato, ele não é nem a sombra do que se esperaria de um órgão capaz de inibir o perigoso absolutismo judicante.
Perigo explicitado em letra de forma pela ministra Eliana Calmon, cujas palavras sensatas ecoaram em todas as páginas de leitores do país, numa onda encrespada, muito mais incisiva do que as encenações de ONGs profissionais, que, curiosamente, tentam fazer o povo acreditar que a corrupção é restrita à classe política.
Tanto barulho por quase nada
 
Na verdade, desembargadores e juízes pilhados em delitos tão lesivos que lhes custaram o constrangimento da prisão têm na aposentadoria com todas as vantagens a maior punição no âmbito do CNJ, criado pela Emenda Constitucional  n° 45, de 30 de dezembro de 2004.  Em seus seis anos de existência, o órgão que é presidido pelo próprio chefe do Poder Judiciário, aplicou apenas 50 punições até hoje: 24 magistrados foram aposentados compulsoriamente, 15 afastados liminarmente, 6 colocados à disposição, 3 removidos e 2 censurados.
O CNJ é o acanhado arremedo do que seria um indispensável órgão de controle do Poder Judiciário e isso se deve à sua própria composição: dos 15 conselheiros, 9 são magistrados, o que levou, em março de 2008, Paulo Lobo, então representante da OAB, a afirmar que só uma composição paritária – magistrados e não magistrados – garantiria a consecução do seu desiderato.

As favas contadas contra a Constituição

Não obstante, apesar do circunscrito poder de punição, a busca de blindagem contra os malfeitos no Judiciário parecia favas contadas se não fosse o grito pungente da ministra Eliana Calmon. Se entrasse em pauta na fatídica quarta-feira, 28 de setembro, pelo menos 35 desembargadores faltosos seriam reabilitados num passe de mágica. Entre eles, alguns já punidos, que anulariam as decisões do CNJ e voltariam a seus lugares como se o STF tivesse passado uma borracha em suas trapaças.
A alegação da Associação dos Magistrados Brasileiros é inacreditável porque as funções do CNJ estão inscritas na própria Constituição Federal, a partir da aprovação da Emenda 45.
O parágrafo 4º do seu artigo 103-b define claramente as atribuições do Conselho Nacional de Justiça. Em seu inciso III, estabelece-se como uma delas “receber e conhecer das reclamações contra membros ou órgãos do Poder Judiciário, inclusive contra seus serviços auxiliares, serventias e órgãos prestadores de serviços notariais e de registro que atuem por delegação do poder público ou oficializados, sem prejuízo da competência disciplinar e correicional dos tribunais, podendo avocar processos disciplinares em curso e determinar a remoção, a disponibilidade ou a aposentadoria com subsídios ou proventos proporcionais ao tempo de serviço e aplicar outras sanções administrativas, assegurada ampla defesa”.

A exigência de uma investigação prévia a nível de corregedorias locais não passa de um expediente procrastinatório e, como declarou a ministra Eliana Calmon, “é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga."

Tolerância corporativa acima de tudo

São fartos os exemplos de tolerância corporativa em todos os tribunais. Mas uma investigação de 2004 no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desencadeada a propósito do escândalo envolvendo a disputa pelo controle da Brasil Telecom é uma peça emblemática.
Então, denúncias do escritório Andrade & Fichtner levaram à nomeação de uma comissão integrada por três ex-presidentes do TJ-RJ, que detectou fraudes em distribuições dirigidas de 11 processos, todos envolvendo grandes somas de dinheiro. 
Ao final da investigação, apenas 4 funcionários subalternos foram punidos. De posse do relatório, que citava 7 desembargadores, sem imputar-lhes culpas, o presidente do TJ-RJ, Miguel Pachá, informou que remeteu o caso para o Ministério Público. “Só o ministério público pode investigar”, afirmou. Segundo Pachá, o tribunal foi “até o limite que a lei permitia”, uma vez que “a lei não permite que a Justiça investigue”. Depois, não se falou mais nisso e a investigação ganhou o caminho da sepultura.

Ao assumir, a corregedora já sabia onde pisava

Não é de hoje que a ministra Eliana Calmon, bacharel da inquieta turma de Direito da Universidade Federal da Bahia de 1968, denuncia o ambiente deletério no âmbito do Judiciário.
Há exatamente um ano, no dia 27 de setembro de 2010, pouco depois de assumir a Corregedoria do CNJ, ela foi incisiva em entrevista a uma revista semanal:

  1. “Não é incomum um desembargador corrupto usar o juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas corpus ou uma sentença. Os juízes que se sujeitam a isso são candidatos naturais a futuras promoções. Os que se negam a fazer esse tipo de coisa, os corretos, ficam onde estão”.
  2. “Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores, por exemplo. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário”.
  3. “Recentemente, para atender a um pedido político, o STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal”.
  4. “Se a Polícia Federal recebe a denúncia, investiga e vê que é verdadeira, e a investigação chega ao tribunal com todas as provas, você vai desconsiderar? Tem cabimento isso? Não tem. A denúncia anônima só vale quando o denunciado é um traficante? Há uma mistura e uma intimidade indecente com o poder”.
Um guarda-chuva para  atitudes pouco recomendáveis

A preocupação da Associações de Magistrados em esvaziar o CNJ tem muito a ver com o mau comportamento de muitos dos seus integrantes. Hoje mesmo, o respeitado colunista esportivo Juca Kfouri cita reportagem do jornalista Marcelo Auler, do LANCE, para informar que a CBF está patrocinando um torneio de futebol entre juízes federais espalhados pelo país na Granja Comary, com tudo pago pela entidade.

“Não é a primeira vez que a CBF faz gentilezas a magistrados, porque ficaram famosos os vôos da alegria por ela promovidos nas Copas do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, e em 1998, na França, quando até desembargadores da Justiça do Rio de Janeiro, com suas mulheres, foram convidados da CBF em hotéis cinco estrelas” – observa Kfouri.

Depois de lembrar que há na Justiça vários processos envolvendo a CBF, ele acentua: “Ricardo Teixeira já foi condenado, em agosto de 2000, a seis anos de reclusão por prestar informações falsas às autoridades fazendárias, mas a sentença ficou por tanto tempo para ser decidida no STJ (Superior Tribunal de Justiça) que, quando foi, o crime já estava prescrito e ele se livrou da condenação”.
Faz pouco, o jovem ministro José Antonio Dias Toffoli faltou a um julgamento no STF  para participar do casamento do advogado criminalista Roberto Podval na ilha de Capri, no sul da Itália.
Os noivos ofereceram aos cerca de 200 convidados dois dias de hospedagem no Capri Palace Hotel, um cinco estrelas cujas diárias variam de R$ 1,4 mil a R$ 13,3 mil. Toffoli é relator de dois processos nos quais Podval é patrono dos réus. Antes, atuou em pelo menos outros dois casos de clientes de Podval.
Em 2006, - Mais de 40 juízes desfrutaram o feriado de 7 de Setembro numa praia da Bahia, com tudo pago pela Febraban – Federação Nacional dos Bancos. No mesmo ano, conforme relato do jornalista Fernando Rodrigues, a Associação dos Magistrados Brasileiros realizou seu 19º Congresso, em Curitiba, exibindo o patrocínio do Bradesco, Vale do Rio do Doce, Banco do Brasil, Nestlé e Volkswagen. “Essas empresas têm algo em comum. São partes em ações na Justiça. O patrocínio pode não garantir a elas julgamentos camaradas. Mas revela o abismo entre certas instituições e a sociedade” – escreveu Rodrigues.

“Poder Judiciário precisa ser reinventado”

Em entrevista à jornalista Carolina Brígido, em 3 de janeiro de 2010, o ministro Joaquim Barbosa, do STF, também reclamou do envolvimento do Poder Judiciário na sustentação do ambiente de corrupção em nosso país.
Falo especialmente dos órgãos cuja ação seria mais competente em termos de combate à corrupção, especialmente do Judiciário. A Polícia e o Ministério Público, não obstante as suas manifestas deficiências e os seus erros e defeitos pontuais, cumprem razoavelmente o seu papel. Porém, o Poder Judiciário tem uma parcela grande de responsabilidade pelo aumento das práticas de corrupção em nosso país. A generalizada sensação de impunidade verificada hoje no Brasil decorre em grande parte de fatores estruturais, mas é também reforçada pela atuação do Poder Judiciário, das suas práticas arcaicas, das suas interpretações lenientes e muitas vezes cúmplices para com os atos de corrupção e, sobretudo, com a sua falta de transparência no processo de tomada de decisões. Para ser minimamente eficaz, o Poder Judiciário brasileiro precisaria ser reinventado”.
O grito juvenil e valente da ministra Eliana Calmon, de 66 anos, tem tudo para ser um basta no ambiente de impunidade que tem no Judiciário numerosos usuários. De imediato, provocou os sentimentos de uma população que já não aguenta saber que para muitos advogados suas causas dependem da natureza do julgador e não do teor do seu arrazoado.
Hoje, são 70 milhões de processos que se arrastam numa berlinda desigual em que só existem prazos para as partes e cujos destinos estão entregues ao império da hermenêutica, onde  o instituto da liminar se vulgarizou num varejo atormentador,  sob o signo do costume inercial de que “decisão judicial não se discute, cumpre-se”.
A maioria do Supremo quer cristalizar esse ambiente. Na quarta-feira, deparou-se com a indignação generalizada dos cidadãos e deu um breque. Mas nada garante que não sacie a corporação com o mesmo protetor impermeável, ainda que camuflado sob a égide do sofisma e da malícia.
Consumando esse propósito, estará inviabilizando de vez o controle externo da sociedade sobre os atos do Poder Judiciário.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Será que mais verbas vão remediar o sistema público de saúde?

Todos tiram casquinha no dinheiro público, com a rede estatal pela hora da morte e os planos privados bombando

Doentes nos corredores: a rotina macabra nos hospitais públicos

“O atendimento dos pedidos dos trabalhadores e a extensão do plano de saúde para os parentes foram determinantes para a retomada das obras”.
Nilson Duarte Costa, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada Intermunicipal do Rio de Janeiro (Sitraicp).

“A lógica do sistema (da saúde brasileira) induz criar a doença e a lucrar com ela, não a utopia médica de acabar com a doença”.
Aloysio Campos da Paz, cujo trabalho à frente da Rede Sarah é exaltado em artigo do senador Cristóvão Buarque.

Os trabalhadores que paralisaram as obras do Maracanã por 21 dias tinham entre suas principais reivindicações a conquista de um plano de saúde mais amplo, que alcançasse seus familiares. Nada mais deprimente. Até mesmo os peões estão incluindo, junto com suas reivindicações salariais (ou acima delas) a inscrição nos planos privados, temendo as traumáticas e escandalosas humilhações com risco de vida nos hospitais públicos.

Essa novidade nas pautas dos operários ganha relevo no momento em que a Câmara Federal aprova a regulamentação da Emenda 29, que, teoricamente, garante mais recursos para a saúde pública, ao estabelecer percentuais obrigatórios para a União, Estados e Municípios.

(Teoricamente porque se permanecer a redação atual, os Estados não incluirão como receitas repasses do governo federal para educação, o que reduz suas obrigações atuais em mais de R$ 7 bilhões. E porque a União não tem um percentual fixo: está obrigada a repetir o gasto do ano anterior mais a variação positiva do PIB).

O pleito operário é um atestado berrante do grau de descrédito da saúde pública no Brasil, atacada por informações sinistras: segundo o Sindicato dos Médicos do RJ, de janeiro a agosto deste ano, 6 mil pacientes morreram nos quatro maiores hospitais da cidade, na maioria dos casos devido às péssimas condições de atendimento.

No mesmo momento, uma auditoria da Controladoria Geral da União revelava superfaturamentos e outras irregularidades em seis hospitais federais no RJ, práticas que poderão acarretar um prejuízo superior a R$ 16 milhões.


Todos os discursos a respeito do estado terminal da saúde pública no Brasil abstraem a discussão do principal: com esse modelo de atenção, de natureza quase exclusivamente curativa, não haverá dinheiro que chegue.
De fato, como motor de todo esse quadro de penúria, há um complô de interesses conjugados, que seriam fatalmente afetados se o país adotasse uma consistente política preventiva, que reduziria drasticamente a clientela disponibilizada à gula de tais interesses.

Não se pode dizer que os R$ 150 bilhões orçados este ano pela União, Estados e Municípios sejam suficientes para prover os serviços, desde que houvesse seriedade na sua gestão. No entanto, o  modelo em si, com profissionais mal pagos e desmotivados, além das terceirizações, resiste a qualquer iniciativa de racionalização ou aumento de verbas. Hoje em dia, os recursos são maiores do que há dez anos, o que não se reflete nos serviços.

Como acontece em todas as rotinas de um sistema híbrido, em que o público e o privado transam sem qualquer recato, haverá sempre uma saúde pública desacreditada, ao gosto das poderosas empresas que intermediam a preços exorbitantes a chamada medicina de grupo.

Para que se possa pedir mais dinheiro para a rubrica precisam que milhares de brasileiros morram por causa de um atendimento tão imoral que joga até a peãozada no colo do sistema privado, um dos negócios mais lucrativos do país: 1 em cada 4 brasileiros caiu na sua rede, proporcionando um invejável faturamento – em 2010, R$ 73 bilhões contra uma despesa de R$ 58 bilhões, isto é, ganhos de R$ 15 bilhões, ou mais de 20% da receita.

Pode até ser que realmente haja necessidade de alocar mais recursos para a saúde pública. Para Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, “o gasto público em saúde é muito baixo (menos de US$ 350 per capita – inferior a Argentina, Uruguai, Chile, Costa Rica e Panamá). Do total de gastos com saúde, menos de 50% são públicos. São números muito abaixo daqueles dos países que têm sistemas similares ao SUS, inclusive na América Latina”.

Quem garante que haverá alguma melhora por conta de mais recursos?  O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, calcula que precisamos para a área mais R$ 45 bilhões, isto é, o que se perdeu com o fim da CPMF. Mas esta supressão não repercutiu no atendimento: com ela e sem ela o ambiente caótico é o mesmo.

 Em São Paulo, uma única "OS" gerencia   22 unidades hospitalares. O Estado do Rio e a Prefeitura carioca seguem o mesmo caminho. Esse “novo modelo de gestão” aproveita a falência da administração pública, com suas roubalheiras crônicas, sua incompetência generalizada, sua ausência de vocação, com a farsa do “Estado faz que paga e o funcionário faz que trabalha”, para vender uma alternativa nada confiável.
Mais dinheiro na rubrica não significa necessariamente mais dinheiro para os serviços públicos de saúde. Estes estão ganhando uma nova roupagem de privatização, com a transferência de gestão para “organizações sociais”.

Ninguém da área quer mudar o sistema ambíguo de que se nutre, responsável por graves distorções que fazem os gastos paralelos em caráter particular superarem as verbas governamentais. E abastecem com o dinheiro dos impostos  uma meia dúzia de aproveitadores privados, não só através da terceirização, como das compras superfaturadas de medicamentos e serviços.

Quando digo que ninguém quer mudar, é ninguém mesmo. Todos os atores dessa farsa encontraram como tirar uma casquinha e se beneficiar do pano de fundo, o sistema público combalido. Sem esta condição deprimente, a cadeia de interesses espúrios perde fôlego e não se sustenta.

É como definiu muito bem o senador Cristóvão Buarque, em seu artigo de 27 de agosto último: “no sistema atual, mesmo com o SUS, a doença tem sido motivo para viabilizar o lucro das indústrias farmacêuticas e de equipamentos, bem como o salário de servidores, mais do que para atender aos doentes”.

Por conta dessa trama diabólica, o cidadão não passa de bucha de canhão. Nada se faz para preservar sua saúde; pelo contrário, trabalha-se na direção oposta. Doente, precisando de atendimento, submetem-no a um pesadelo cruel, que atinge e dilacera a todos, mas principaliza no ritual macabro os mais velhos e é implacável com os pobres, presos por inanição aos açougues onde o plantonista tem de decidir diariamente quem vai deixar morrer e quem vai ser atendido, como admitiu um médico a alguns deputados que foram saber da situação em hospitais do Rio de Janeiro.

Por conta dessa insuficiência orgânica, 47  milhões de brasileiros já se renderam à bitributação na atenção médica, como acontece na educação, na previdência e na segurança, onde máquinas privadas são irrigadas pelas economias familiares, à margem dos altos impostos cobrados, isso sem falar numa boa fatia de atendimentos pagos à vista: o profissional que se garante liberta-se dos planos e faz seu próprio preço.

Contribui para essa capitulação a incrível conduta dos conselhos regionais de Medicina e dos sindicatos, que , já que os equipamentos públicos não teriam mais salvação.
concentram suas fiscalizações nos hospitais públicos, enquanto a mídia as noticia como se o remédio mesmo fosse procurar um plano, já que os equipamentos públicos não teriam mais salvação. 
Exemplo disso: não foi o CRM quem flagrou medicamentos com prazo de validade vencido na sofisticada Clínica São Vicente, na Gávea, mas sim o pessoal da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública, acionada por alguém indignado. Na operação, a polícia achou mais de 80 produtos com prazo vencido e deteve o responsável pela farmácia, liberado depois de ouvido.

As fiscalizações fecham os olhos para os prazos de atendimentos via planos: uma consulta pode demorar até três meses, um exame de ultra-sonografia ou ressonância magnética, requisitados em abundância,  ídem. Na emergência de um hospital particular, o cidadão pode esperar até 8 horas para ser atendido, nada diferente dos públicos.
Os números são cada vez mais chocantes. Estudo circunstanciado do pediatra Gilson Carvalho, de São Paulo, revela a que ponto chegamos: em 2009, União, Estados e municípios somaram R$ 127 bilhões dos seus orçamentos, enquanto as áreas privadas faturaram R$ R$ 143 bilhões.

Detalhando: a União gastou R$ 58 bilhões; os Estados, R$ 34 bilhões e os municípios, R$ 35 bilhões. Os seguros de saúde faturaram R$ 64 bilhões, os gastos diretos somaram R$ 24 bilhões e os medicamentos custaram R$ 55 bilhões, somando tudo R$ 270 bilhões.

Junte-se a esse diagnóstico a crescente terceirização no âmbito do SUS, mais a renúncia fiscal no imposto de renda da pessoa física para gastos com saúde de R$ 6,5 bilhões, a renúncia fiscal de R$ 5,1 bilhões em medicamentos e os benefícios das entidades “filantrópicas” de R$ 2,1 bilhões. Ou seja, além do faturamento direto, o sistema privado ainda se sacia num modelo que lhe favorece de cabo a rabo cada vez mais.

Se realmente quiserem mais verbas para o sistema público e tiverem boas intenções, terão que ir fundo numa cirurgia transformadora: primeiro, precisam adotar com honestidade os procedimentos preventivos através dos médicos de família; depois, precisarão pagar decentemente aos profissionais da área, exigindo dedicação exclusiva, como preconiza o médico Aloysio Campos da Paz, responsável pela excelente qualidade do atendimento na rede Sarah.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Combate à corrupção ou impostura sob encomenda: não contem comigo

Causa secular, sem fronteira e sem dono, não pode ser privatizada pelas cartas marcadas da má fé

"Não é incomum um desembargador corrupto usar o juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas corpus ou uma sentença. Os juízes que se sujeitam a isso são candidatos naturais a futuras promoções. Os que se negam a fazer esse tipo de coisa, os corretos, ficam onde estão”.
Ministra Elaine Calmon, 66 anos, corregedora do Conselho Nacional de Justiça. 

Manifestação na Cinelândia dia 7 teve menos de 50 gatos pingados
 


“Depois de estudar 23 países, Raymond Baker, diretor de um think tank de Washington, elevou (as perdas com as fraudes) a US$ 2 trilhões, e conclui que 3% do total podem ser atribuídos à corrupção política, um terço ao crime organizado e entre 60% e 65% a manobras ilícitas de pessoas físicas e grandes empresas. Traduzindo: os ricos evadem o dobro do dinheiro que os políticos e o crime organizado juntos”.
Marcos Oliveira e Sérgio Souto, colunistas do MONITOR MERCANTIL
(Na minha coluna O dinheiro sujo da grande corrupção: dele quase não se fala (por razões óbvias).

 Sejamos razoáveis: não há maior blindagem da corrupção do que tentar privatizar os movimentos  espontâneos, apropriados por algumas pessoas que saíram de lugar nenhum como se tivessem caído do céu como vestais da Pátria.

Digo isso para início de conversa com o intuito de alertar os noviços de uma causa que atravessa séculos e fronteiras e que, se calarmos, pode tomar o impulso do pior ensaio golpista, quando se dá à indignação natural as cores de uma roupagem suspeita.

Uma certa empresária – que nunca vi mais gorda em outras canchas e em outras procelas – se outorgou a propriedade particular da próxima manifestação no Rio de Janeiro, impondo suas regras que cheiram à encomenda de quem quer tudo, menos o combate honesto a essa doença típica de uma sociedade em que vale mais quem tem mais, razão porque a pressa de alguns de pularem ao topo.

Doença que não existiria se seus grandes beneficiários não fossem poderosos empresários – banqueiros, empreiteiros, concessionários, prestadores de serviço ao Estado, sonegadores e especuladores que manipulam as políticas econômicas do país sem nenhum escrúpulo, multiplicando fortunas longe dos refletores.

Dizendo-se à frente de cinco amigos, a dita empresária (não declina o ramo), usando como sempre o mesmo jornal que se acha dono da opinião pública, se arvorou do poder pessoal de selecionar quem pode e quem não pode estar presente no próximo evento (o do dia 7, na Cinelândia, tinha 50 gatos pingados), perfilando o estereótipo das mesmas madames que saíram às ruas em 1964, naquelas tenebrosas e direcionadas “marchas da família com Deus pela liberdade”.

E não fez por menos: “Somos um grupo de cinco amigos por trás do movimento Todos Juntos Pela Corrupção, criado em agosto deste ano. No evento, só daremos voz à sociedade. Não vamos abrir espaço para os políticos”.

Essa madame não deve ser a única invenção do sistema com a tarefa de distorcer um sentimento justo para colocá-lo a serviço de outras tramas, como demonizar os homens públicos como um todo, juntando-os no mesmo balaio, visando assim solapar a confiança na sociedade democrática e abrindo caminho para a meia dúzia de três ou quatro nostálgicos de regimes impostos aos cidadãos pela força do complexo empresarial-militar - que não perde as esperanças de resgatar a ditadura mil vezes mais corrupta do que o mais corrupto dos governos expostos ao olhar livre dos cidadãos.

Porque do jeito que tais pessoas tentam conduzir a indignação popular, não se vê outro caminho em suas cabeças idiotas e/ou mal-intencionadas senão o da estigmatização de todos os políticos, sem exceção, com a supressão pura e simples dos vetores representativos e o exercício de poderes plenipotenciários por alguém que saia de algum asteróide “apolítico”, como aconteceu em passado recente, quando a corrupção hipertrofiada ganhou a blindagem do silêncio compulsório, da censura, do açoite, da conivência pragmática, do arbítrio, das câmaras de tortura e da impunidade imanente.

Ninguém está aqui para poupar corruptos – essa parece ser preocupação mais detectável em escribas de aluguel e em magistrados de altas cortes, como no deprimente episódio em que um juiz decente e um delegado íntegro foram massacrados por um presidente do STF, por pegaram um peixe grande com a mão na massa, ou ainda no casa da grande empreiteira que ganhou a blindagem do presidente do STJ, sob a alegação de que a investigação que descobriu um monte de podres começou a partir de uma denúncia anônima.

As pessoas precisam saber que até para ser oportunista é preciso ter talento e o mínimo de competência. E precisam aprender também a usar a própria cabeça no juízo dos acontecimentos. Ir simplesmente na onda dos outros é a mais afiada faca de dois gumes. Ou melhor, é cultivar o tiro no próprio pé.

Nesse ambiente casual de falso combate à corrupção acontecem barbaridades a granel, desenhando o folclore da inconsistência mais pueril. Tenta-se fazer crer que o crime é exclusivo de Brasília, de gambiarras mais reluzentes. E de um poder legislativo que já perdeu o recato, mas onde sobrevivem bravamente homens de bem como Pedro Simón e Cristóvão Buarque, para citar apenas dois ícones que são alentos aos que ainda teimam em apostar na mudança de hábitos, sem abrir mão do patrimônio constitucional, conquistado a cu sta de muito sangue, suor e lágrima.

Usa-se essa bandeira com escopo exclusivamente partidário, na falta de outro discurso para alvejar quem vive o falso dilema da governabilidade a qualquer preço, embora tenha o apoio reiterado da cidadania. Poucos sabem das peripécias do governo de São Paulo, Estado que concentra metade do PIB brasileiro, em cuja assembléia legislativa, uma maioria engendrada segundo as piores receitas fisiológicas impede a formação de qualquer CPI ao longo do mandarinato tucano.

Poucos sabem igualmente do furor neoprivatizante que move o governo do Paraná, leva o da Bahia a privatizar todos os cartórios e o do Estado do Rio a seguir os passos paulistas na terceirização dos serviços públicos fundamentais, como educação e saúde, através de improvisadas “organizações sociais”.

O combate honesto à corrupção é muito mais do que a busca de alguns minutos de fama, da tentativa de assenhorear-se da patente com o calço de uma mídia hipócrita e da prestação de serviço aos interessados na farsa seletiva de alguns bodes expiatórios, enquanto a ossatura criminosa permanece intacta, lépida e fagueira.

Para ser consistente, deverá fluir sem donos, sem censores, sem manipuladores, sem oportunistas de última hora, sem direcionamentos capciosos, sem espetacularização ridícula, contando com a participação de quantos efetivamente possam somar, de preferência com biografias conhecidas e inatacáveis, à prova de motivações velhacas.

Enfim, quem quiser entender a natureza da corrupção num sistema em que o Estado terceiriza serviços e é o maior comprador, decide sobre modelo econômico, enquanto o complexo estatal tem as maiores verbas publicitárias, sugiro ler minha coluna do dia 28 de maio passado, na qual exponho as várias faces da corrupção que tanto mal faz ao povo e à nação.

Permitida a reprodução e repasse desta matéria, desde que preservada sua autoria.

sábado, 10 de setembro de 2011

11 de setembro – napalm na terra dos outros é refresco ou o feitiço contra o feiticeiro

Por conta do atentado, os EUA continuam patrocinando genocídios imperiais no outro lado do mundo

“Um número surpreendente de pessoas ainda acredita que a organização terrorista Al Qaeda não foi responsável pelos ataques executados com aviões comerciais contra as Torres Gêmeas de Nova York e o Pentágono em Washington, que deixaram quase 3.000 mortos. As teorias mais ousadas de complô afirmam que elementos dentro da administração do então presidente George W. Bush utilizaram explosivos colocados de forma prévia e mísseis contra os edifícios do World Trade Center e do Pentágono”.
Sebastian Smith, da agência France Presse em Nova York


Torres gêmeas são lembradas. Vítimas do napalm norte-americano em dezenas de atos terroristas,NÃO!
Confesso que, independente de questionar sua autoria, tive reação bem diferente ao saber dos atentados que culminaram com a destruição das torres gêmeas e de boa parte do Pentágono, sede do Ministério da Defesa dos EUA.

Lembrei-me de imediato de um outro 11 de setembro: com apoio ostensivo do governo norte-americano, naquele 1973 o Exército chileno abandonava uma longa tradição de respeito à Constituição para derrubar a bombas o governo do presidente Salvador Allende, em incursões letais que incluíram o Palácio presidencial de La Moneda.

Abrindo minha angular, sem maiores esforços, passei em revista os banhos de sangue que se tornaram doutrinas da política externa de Washington: vieram-me à cabeça as imagens dos bombardeios com a terrível bomba de napalm no Vietnam, que custaram mais de um milhão de vidas ao longo de uma guerra marcada por experimentos criminosos, incluindo armas bacteriológicas, que reduziram a pó dezenas de cidades e mataram milhares de civis, num ambiente em que a mídia procurava legitimar um genocídio que botava no chileno até mesmo as bombas atômicas despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki, quando a II Guerra já estava ganha, excesso desumano que batizou festivamente os Estados Unidos como potência nuclear e deu as pilotos do feito às mais altas condecorações como heróis.

É claro que, no 11 de setembro, pensei nas vítimas inocentes que não tinham nada com as atrocidades praticadas pelas três armas dos EUA, as quais, porém, contaram sempre com a aceitação e o apoio da maioria dos americanos, conforme pesquisas sucessivas divulgadas pelo Galup e outros ibopes de lá.

O ponto de referência do meu entendimento crítico era simples: enfim os norte-americanos estavam conhecendo os horrores da guerra em seu próprio território. Até aquele 11 de setembro de 2001, o aparato bélico mais sofisticado do mundo mantinha as contendas em territórios alheios, nas casas dos outros. E bomba em terra alheia é refresco que valoriza as ações da indústria bélica no Wall Street.
Pensei e lamentei, tanto como penso e lamento cada vez que uma bala perdida fulmina uma criança a caminho da escola na favela carioca.

Mesmo na II Guerra Mundial, que serviu para reduzir a força das potências européias e alavancar os Estados Unidos como primeira referência bélica do Ocidente, os norte-americanos assistiram à distância o grande morticínio, que ceifou 50 milhões de vidas.

Ante a notícia que descabelou o mundo, ocorreu-me apenas revisitar o passado recente, enquanto contemplava daqui o pânico que desceu sobre  Nova York no ataque “consentido” (ou forjado)  já  esperado pelos serviços secretos, conforme incontestáveis provas reveladas posteriormente, inclusive o documentário a respeito de Mike Moore – o Fahrenheit 11 de setembro – produzido em 2004.
Era o feitiço que se voltava contra o feiticeiro – pensei. Estava mesmo na hora do povo dos Estados Unidos sofrer na própria pele, ainda que em um ato pontual, o que representa para as populações civis o uso de máquinas mortíferas contra quem “não tem nada com o peixe”.

Minha idéia era que todo aquele horror servisse de lição e levasse os cidadãos da grande potência belicista a assumirem suas responsabilidades diante da facilidade com que seus governantes decidem despejar bombas sobre outros povos, em guerras que parecem indispensáveis ao próprio sistema, em que tiram todo tipo de proveito os grandes negociantes de armas e o crime organizado que opera a partir do Wall Street.

Os fatos seguintes mostraram, porém, que um outro sentimento envolveu a massa, cujos brios foram explorados e serviram de matéria prima para novas guerras: os grupos econômicos souberam tirar proveito mercadológico do trauma provocado e se sentiram apoiados para lançar mais bombas sobre outras populações, de olho principalmente na rapina de riquezas minerais.

Com o sofrimento provocado pelos ataques de meia centena de terroristas, Bush e os prepostos das empresas de guerra invadiram o Iraque em 20 de março de 2003, 18 meses depois do atentado das torres gêmeas, e fizeram a festa que pôs no mesmo barco a indústria bélica e as empresas especializadas no saque da riqueza alheia, a principal das quais, a Halliburton, do então vice-presidente Dick Cheney, ganhou contratos bilionários para coordenar a apropriação das riquezas do país invadido.

Já estava em curso a invasão do Afeganistão, cujas riquezas são escondidas a sete chaves, até chegarem neste 2011 ao mais descarado dos assaltos militares coordenados, agora para tirar da lama a cambaleante economia de posudos países ocidentais.

Nessa nova ação, em que a opinião pública mundial foi enganada pela mídia a serviço dos piores interesses, a ONU foi solenemente transformada em biombo “jurídico”, aprovando uma resolução que seria inevitavelmente fraudada – aquela história de autorizar o bloqueio do espaço aéreo da Líbia, cenário de uma farsa seriada protagonizada por canastrões sem escrúpulos.

Os norte-americanos que neste 11 de setembro lembram os civis mortos no ataque terrorista (sic) não têm olhos críticos para as práticas igualmente terroristas em que se lançam suas forças armadas, causando os mesmos traumas e os mesmos sofrimentos a povos indefesos, cujos únicos crimes são tentar preservar a soberania sobre suas riquezas.

E se calam e consentem ante as investidas terroristas de seus governantes, não estão à vontade agora para tentar fazer marketing com a lembrança da data infausta.
Que se saiba, não faz parte de nenhuma lógica o entendimento de que os genocídios produzidos pelas potências ocidentais são civilizatórios e se destinam tão somente a garantir o exercício da liberdade nos países de que são algozes.

Toda essa manipulação da tragédia em casa parece destinada a embasar a teoria de uma “guerra santa” em terras distantes: desde aquele dia que tirou os americanos do sério, 1 trilhão de dólares já foram queimados em outras agressões, com o apoio de um Congresso corrupto, mediante propinas e sob a proteção do lema “Deus salve a América”.

Mesmo em crise, no limiar da pindaíba, os contribuintes norte-americanos continuam pagando sem reclamar foguetes de um milhão e meio de dólares empregados nas guerras de rapina, nas agressõesem  às soberanias de outros países, conforme a doutrina de “xerifes do mundo” e “povos superiores”, que desprezam as vidas de seres humanos nascidos e criados em outros cantos,   na mesma ilusão de que também são filhos de Deus.

Continuo com o mesmo sentimento em relação ao dia em que a deslumbrada Nova York amarelou, tremeu, viu ruírem símbolos de seu poderio e se deparou ao vivo e a cores com a destruição insana, de que se imaginava blindada.
É provável até que esse sentimento olímpico que sustenta as maratonas mortíferas seja hoje ainda mais forte ao pé da bandeira estrelada, porque as tropas imperiais continuam operando ferozmente em outras plagas sempre com o consentimento e apoio dos donos da cocada branca, totalmente abobalhados por uma mídia que canta e exalta as agressões alhures, ainda que a custa de milhares de vítimas tão inocentes como os que estavam nas torres atacadas naquele 11 de setembro, que não poderá sair da memória de ninguém.

Porque o 11 de setembro de 2001  mostrou que qualquer um está exposto aos horrores de uma guerra. Inclusive os exportadores de homens e armas para terras estrangeiras.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Quando a SEGURANÇA é apenas uma SENSAÇÃO baseada na ocupação policial dos guetos

Com vinte vezes mais PMs por m² no morro do que nas ruas, política de UPPs  deixa cidade desguarnecida
“Nós temos o hábito de ouvir música o tempo todo. Além dos bailes, sempre tinha um forró, um pagode tocando nas escadas e nas ruas. Hoje, os policiais estão acabando com a música a partir de meia-noite. Chegam criando confusão e as pessoas, que na hora já beberam um pouco, resolvem brigar”. Todos os policiais que estão aqui são muito jovens e inexperientes. O trabalho deles deveria ser vigiar essas reuniões e impedir que o tráfico se estabeleça, mas como eles não conseguem fazer isso, saem restringindo tudo. Para mim não é um grande problema, pois eu até tenho dinheiro para sair lá embaixo, ir às boates e bares, mas tem gente que não tem, que a única diversão é essa, na favela.”

Monique Silva e Silva, 20 anos nascida em criada no Morro Dona Marta, em Botafogo, aluna bolsista de Direito da PUC-RJ.

Um morador foi atingido por 3 balas de borracha
 no Morro do Alemão

A manhã beijada pelo sol brilhante tinha tudo para banhar de um prazeroso frescor a rotina dos moradores de Ipanema, bairro imortalizado por Vinícius de Morais e Tom Jobim, onde os imóveis têm um dos mais caros metros quadrados do país.

Era sábado e porque era um sábado de temperatura amena o trânsito fluía tranquilo na Avenida Prudente de Morais em direção ao Leblon. Às 11h20m, o arquiteto Rômulo Castro Tavares manobrou seu Tuckson para entrar no prédio 680, próximo à Maria Quitéria e a três quadras de um dos endereços mais sofisticados do Rio de Janeiro - o Country Club.

A espera do portão abrir, o rapaz bonito e atlético foi abordado por um elemento armado. Aturdido pelo assalto inesperado, àquela hora do dia, abriu a porta para sair e foi alvejado na barriga, caindo junto a uma árvore. O criminoso saiu correndo para a moto que lhe dava cobertura, sem levar nada, nem o carro, nem o rolex, nem o celular da vítima, que completara 33 anos na sexta-feira.

Aquela era um das 120 ocorrências policiais no bairro em agosto – 23 a mais do que no mesmo mês em 2010 e muito mais do que no ano anterior. Isso sem se falar numa quantidade enorme de delitos menores que as vítimas deixam de registrar para evitar outros aborrecimentos.

Perto dali, os mais de 5 mil moradores das favelas do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho estão virtualmente acorrentados desde que foram ocupadas por uma Unidade de Polícia Pacificadora – UPP - em dezembro de 2009, conforme a nova fórmula de proteção aos cidadãos na cidade do Rio de Janeiro, que trabalha a partir da “recuperação de territórios em poder do tráfico”.

No sábado da tragédia, não se viu policiamento naquela avenida glamourizada, paralela à Vieira Souto. Mas nos dois morros próximos, os moradores, em sua quase totalidade trabalhadores, vivem sob pressão ostensiva num ambiente de “pacificação” esdrúxulo, com um volume incontável de vigias, que os imobilizam como suspeitos, mas não conseguem nada além de remeter a venda de drogas para o “sapatinho”, enquanto fazem falta na rua em que o arquiteto foi assassinado.

Policiais trocam o asfalto pela ocupação das favelas

Segundo números oficiais da Secretaria de Segurança Pública, há um PM para cada 1.778 m² nos morros “pacificados” da Zona Sul. Enquanto isso, na área urbana do 23º Batalhão, que pega Leblon e Ipanema, a média é de um PM para cada 23.118 m², e a do 19º - Copacabana – é de um PM para cada 12.326 m².

O governo do Estado vendeu a uma sociedade desavisada o xarope de uma sensação de segurança inspirada na ocupação policial das comunidades pobres. A regra é clara na cartilha do governo Cabral: “há violência urbana porque há favelas controladas pelo tráfico ou as favelas existem para dar retaguarda aos criminosos”. Militarizadas, elas não poderão acobertar tais elementos.

Vender esta concepção estapafúrdia não foi difícil, antes pelo contrário. Até alguns badalados sociólogos embarcaram no teorema. Há décadas o cidadão do asfalto vem sendo bombardeado com a imagem de que as favelas são irremediáveis santuários do crime, principalmente a partir do governo Brizola, que ousou impor o reconhecimento da cidadania dos seus moradores - norma suficiente para que se espalhasse que a polícia fora proibida de entrar nesses guetos.

Muitos desses cidadãos se sentiram aliviados quando a PM subiu o morro para lá aquartelar-se e a mídia se encarregou de explorar essa expectativa com tal eficiência que os imóveis próximos se revalorizaram: afinal, minoraram os riscos decorrentes dos confrontos à bala entre policiais e os traficantes bem armados.

A ninguém ocorreu imaginar que o desmonte das fortalezas criminosas é muito mais provável com ações de inteligência, até porque nas áreas ainda poupadas qualquer menino buchudo sabe onde e como agem os traficantes. A ocupação em si, pelo contrário, desenvolve defesas entre os criminosos e enseja relações de promiscuidade com uma polícia vulnerável ao propinoduto do tráfico.

Envolvimento de policiais em práticas de extorsão tem sido noticiado de quando em vez: nessa terça-feira, dia 6, um sargento e dois soldados, lotados na UPP dos morros da Coroa, Fallet e Fogueteiro, na Zona Norte, foram presos dentro de um carro, perto da comunidade, com quase R$ 13 mil, cuja origem não souberam explicar.

UPP que se limita a pôr bandidos no “sapatinho”

Ninguém percebeu que estava diante de uma reles encenação, como se vê agora, com a erupção de confrontos regados a balas traçantes no Complexo do Alemão, enquanto o secretário de Segurança, José Maria Beltrame, afirma que “os traficantes voltaram” e estariam por trás das últimas manifestações. Esse tipo de bala só pode ser disparada por fuzis 7.62, de uso exclusivo das Forças Armadas: encontrar essas armas com traficantes não é novidade.

A UPP, na prática, é implantada mediante “acordo” não celebrado com a bandidagem local, que muda seu modus operandi, trocando o proscênio pelos bastidores e escondendo seu arsenal a sete palmos. Com isso, delegados como Monique Vidal, de Copacabana, admitem que ficou mais difícil flagrar o negócio, que se modernizou com a entrega em domicílio. Ontem mesmo, o próprio Exército divulgou o vídeo de uma boca de fumo, na Rua 9 da Vila Cruzeiro, que ocupa desde dezembro passado.

Mas também ninguém queria perceber nada diferente de suas idealizações. Nas grandes cidades, qualquer um que não tenha grana para um carro blindado ou para seguranças pessoais vive morrendo de medo de ser a próxima vítima de uma morte violenta, como a do arquiteto, em Ipanema. Daí acreditar em qualquer coisa que lhe sirvam como calmante.

Os cidadãos tendem a apoiar medidas com o sabor de punição seletiva. E isso não é só entre os da classe média. No morro mesmo ninguém suporta o desfile de bandidos armados exibindo o que há de mais moderno e mais letal em fuzis e metralhadoras. Ninguém se sente bem com o comércio de drogas à porta de sua casa.

Mas, como diz uma faixa exposta numa das entradas do Complexo do Alemão, a prática das ocupações militares foi “uma troca de seis por meia dúzia”, com desconfortáveis aditivos colaterais que realçam a repressão sobre todos, a humilhação da tutela policial e a discriminação social.

Isto é, trocando em miúdos: a concentração de efetivos em algumas favelas limitou-se à “tomada de território inimigo” - não estancou a criminalidade na vizinhança e ainda produziu um elemento explosivo que o tempo vai revelando.

Quando o medo orienta as ações

Os militares agem sob o impulso de uma doutrina de guerra urbana e não estão livres do medo, obrigando-se à demonstração contínua de sua condição “superior”. Em “campo inimigo”, recorrem ao exercício frenético da “autoridade” como forma de consolidar sua presença.

No final de semana, os moradores do Complexo do Alemão, sob ocupação do Exército, experimentaram toda sorte de truculência, a partir de um primeiro incidente,  quando soldados mandaram baixar o volume de uma televisão que transmitia um jogo de futebol.

Os protestos e confrontos que se seguiram até hoje, nos quais a principal arma dos moradores tem sido as filmadoras improvisadas e a internet, eram de se esperar ali, como também na Cidade de Deus e em outras comunidades sob ocupação. Mais dia, menos dia, o “ganho psicológico” cederá à realidade e os cidadãos dos guetos se exporão em manifestações, provavelmente com um entendimento mais político da verdadeira natureza da decantada “pacificação”.

Essa possibilidade já vem sendo captada pelo governo do Estado, que promove esta semana seminário no âmbito da Secretaria de Segurança para avaliar suas ações nas áreas ocupadas. Pelo que se percebe, porém, a doutrina “pacificadora” não será revista. Pensa-se, ao contrário, como dominar os focos de insatisfação.

Nas ruas o policiamento continua limitado
Esses números mostram a concentração de
policiais nas favelas e as ruas pouco protegidas

Enquanto isso, as ruas continuarão à mercê dos bandidos, principalmente nos bairros fora das áreas turísticas. Se em Copacabana há um PM para cada 12.326 m², em Jacarepaguá, área do 18º Batalhão, essa relação chega a um PM para cada 174.615 m²; em Bangu, do 14º, a coisa é mais assustadora: um PM tem de cobrir 205.156 m². Nesse levantamento, divulgado pela jornal EXTRA no domingo passado, não aparece comparativo sobre Campo Grande e Santa Cruz, as maiores regiões da cidade, mas, com certeza, a disparidade é muito maior. Essas áreas permanecem sintomaticamente sob a égide das milícias mais poderosas, embora alguns de seus chefes estejam presos.

O próprio governador Sérgio Cabral começa a se tocar sobre sua falácia, ao declarar que há uma expectativa exagerada sobre os efeitos de sua política: “é evidente que há, tanto na comunidade quanto nas forças de segurança, um resquício do aparato de violência e da cultura do poder paralelo do tráfico ou das milícias” – disse na formatura de 385 novos recrutas da PM, já escalados para o Morro da Mangueira.

Como ainda não caiu a ficha, não lhe ocorre a idéia de que combater o crime pela ocupação militar das comunidades pobres é um jogo de cena caro e estéril, de efeito virtual e efêmero, que não gera a ansiada proteção na urbe, cujos cidadãos já se renderam à necessidade de contratar seguranças particulares em seus condomínios e em suas quadras, enquanto se compensam psicologicamente com a criminalização da população miserável, amontoada em barracos e conjuntos proletários, alguns, como a Cidade de Deus, construída no governo Lacerda na década de 60, transformados pela semântica criminalizante em favelas, com o que isso representa de estigma e maldição.

Permitda a reprodução e repasse desta matéria, respeitada a sua autoria

domingo, 4 de setembro de 2011

Achando na prática do futebol explicações para os murros em pontas de facas

Coluna de crônicas sobre peladeiros me leva a refletir sobre a própria personalidade quixotesca

“Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, por isso se deve aprender algo; mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.”
Arthur Schopenhauer (1788-1860) filósofo alemão.

Minha última postagem foi na sexta-feira, 26 de agosto. Isso quer dizer que estou atrasado com você. Faz parte. Dependendo da repercussão do escrito, deixo fluir para tirar o máximo de ensinamentos das respostas. E naquela reflexão sobre a possibilidade de estarmos mortos enquanto cidadãos choveram comentários. Como aprendi.

Os fatos dignos de opiniões sucederam-se impunemente. Fui dando tempo ao tempo e o tempo é cruel, devia saber disso. Dar tempo ao tempo é uma temeridade.

Logo no sábado, dia 27, li um artigo primoroso do senador Cristovam Buarque sobre a saúde pública no Brasil, tomando por ponto de partida as experiências do médico Aloysio Campos da Paz à frente do Hospital Sarah. Era para ter comentado na bucha, mas vacilei. Estava na agenda geral a discussão sobre a Emenda 29, que estabelece parâmetros de gastos públicos com a saúde. Quis fundir os dois assuntos. Mas fui derrotado outra vez pela idéia de dar um tempo ao tempo, de deixar tudo para quando setembro viesse.

A reação da mídia e da maioria da “oposição” contra a redução da Taxa Selic pelo Banco Central causou-me perplexidade e torpor. Aquilo foi de lascar o cano. Pagamos os juros mais altos do mundo, mas essa turma da pesada acha pouco. “Culpou” a Dilma pelo ato do Banco Central, que tirou R$ 6 bilhões dos especuladores ao promover a redução em meio ponto. Quanta mesquinharia mal contada.

No episódio,  esses embusteiros deixaram cair a última camada de uma máscara desbotada e sairam em defesa da agiotagem. Sabem que juros altos fazem a festa dos bancos. E, como pensam mais nos banqueiros do que na gente, rodaram a baiana. Peço tempo, pouco tempo, mas peço. Vou falar mais a respeito de tal insolência com números.

Falaria também sobre as trapaças bélicas das potências decadentes, que estão tirando a Líbia do mapa. De país soberano, só uma nesga de resistência tribal. Daqui para frente, será um cassino disputado a propinas pelas petrolíferas, que querem continuar lá, sem ter que deixar a maior parte do lucro, como impunha Kadhafi.

Meu lado de peladeiro como referência

O que me leva a ensaiar as primeiras palavras neste setembro que se inicia frio é a alegria do espelho mágico. Graças ao talento privilegiado de Sérgio Pugliese, um desses raros jornalistas que sabem dar trato às letras, dei-me conta de mais uma razão de ser carne de pescoço; localizei mais uma explicação para a luta, a resistência epidérmica que está no cerne de minha personalidade.

Explico: Pugliese é um profissional de comunicação vitorioso em todas as suas vertentes. Não o conhecia pessoalmente, mas sabia dele, atraído que fora pela inusitada opção pelo periférico no futebol: enquanto os coleguinhas correm atrás dos ronaldos, das estrelas, dos manos, dos teixeiras, ele abriu espaço para os peladeiros, numa coluna que faz o caderno de esporte do GLOBO ser lido de trás para frente aos sábados – sua crônica ocupa metade da última página e tem um título sinalizador, “a pelada como ela é”, variável de “a vida como ela é”, que imortalizou Nelson Rodrigues.

Um certo dia, o programa da Ana Maria Braga exibiu matéria sobre o palavrão nas peladas. Por mero acaso, lá aparecia eu, com essa barriga toda, batendo minha bolinha, como quem não quer nada. Pugliese viu e decidiu ir conferir.

Uma espécie de “sociólogo do futebol” esse jornalista atento estava lá,  numa terça-feira, dia em que posso ser flagrado sempre esperando um passe amigo na banheira do adversário, ali, no campo da Península.

E não foi sozinho: levou a respeitada nutricionista Ana Cristina Teixeira, responsável por muitos milagres na causa da boa forma, valendo-se também do preparador físico Adriano Vargas, que já joga com a gente e tem um trabalho à parte na preparação de garotos para a carreira futebolística,  trabalho que faz sem qualquer ajuda oficial, pois nem ONG quis criar.

Da sua ida brotou a matéria “Fome de Bola”, que saiu publicada na coluna deste sábado e no seu blog, cujo teor transcrevo abaixo.

Foi preciso que essa matéria ganhasse as páginas de esporte de um jornal da mídia diária, num relato enriquecido pelos pendores literários do autor, para que eu parasse para refletir sobre essa insistência em jogar futebol até hoje, no único exercício físico que faço – se é que posso chamar de exercício  essa participação localizada na zona do agrião.

Filosofando sobre a prática do futebol alternativo

Creio com segurança de que isso tem muito a ver com minha teimosia e minha coerência na resistência pétrea e minha tendência aos desafios quixotescos. Às terças-feiras, o jogo é restrito a maiores de 40 anos. Mas costumo também frequentar as peladas de sábados e domingos pela manhã, sem restrições de idade, onde há mais parceiros generosos, até mesmo craques profissionais, como oTuta (quando não está sob contrato, como agora) , que só sossegam quando me vêem empurrar a bola para o fundo da rede.

Considero a pelada a forma mais natural de  aproximar e agregar  pessoas. E vejo no exercício de uma atividade que depende do coletivo um sinalizador exemplar para tudo o que nos diz respeito em nosso cotidiano. Posso dizer, aliás, que foi o envolvimento com os times que meu irmão Manoel encabeçava que me fez brotar o gosto pela organização social.

Os textos muito bem escritos pelo Sérgio Pugliese reforçam o entendimento sobre o efeito humano benéfico das práticas amadoras do futebol. Outro dia mesmo, li uma matéria sobre o Capri, primeiro campeão das peladas do Parque do Flamengo, há décadas, cujo grupo se mantém unido até hoje. E não há maior patrimônio para nossas vidas do que a amizade conservada anos a fio.

Foto que ilustra a matéria de Sérgio Pugliese em "A pelada como ela é"
Para você que me conhece de trincheiras encrespadas e dos murros em pontas de faca, vale a pena ver essa outra faceta através da matéria assinada pelo brilhante profissional, cuja opção pela cobertura da pelada é uma atitude corajosa de quem se garante pela beleza dos seus textos.

FOME DE BOLA

Lei Gorda flagra atletas que passam mais tempo na resenha do que no campo de futebol

- Tchau, amor, vou dar uma corridinha!
Casada há 28 anos com o jornalista Pedro Porfírio, Dona Fátima desistiu de entender os benefícios dessa tal corridinha. Pelo contrário. Para ela, o exercício noturno, às terças, na Barra da Tijuca, tinha efeito contrário e vinha causando estragos consideráveis na silhueta do maridão. Para desvendar esse mistério, a equipe do A Pelada Como Ela É convidou a nutricionista Ana Cristina Teixeira e o preparador físico Adriano Vargas para uma visita surpresa ao campo da Associação dos Amigos do Condomínio Península (ASSAPE). A pelada estava marcada para às 21h e chegamos meia hora antes. Do portão, o cheirinho de churrasco despertou nossos estômagos. Eram Afonso e Nasil, o Sadam, do time de fora, iniciando os trabalhos com aquela suculenta costelinha do Outback. Discretamente, Adriano Vargas filou um pedaço e foi repreendido pela colega.

- Gente, gordura demais entope as artérias! – alertou.

Ninguém entendeu nada. Quem seria aquela médica de jaleco branco dando conselhos em plena resenha? Explicamos o motivo da “Lei Gorda” e vários peladeiros a cercaram para tirar dúvidas. Enquanto isso, a primeira partida seguia em câmera lenta e o preparador físico bocejava. Neide Moura, do barzinho, vendia amendoim, cerveja e Doritos aos que chegavam atrasados do trabalho. Ana Cristina olhava atravessado. Neide, há seis meses comandando o espaço, revelou que os hambúrgueres são os campeões de audiência.

- Doutora, não queria nos encontrar comendo salmão, né? – questionou o craque Kiko, para gargalhada geral.

Mas Kiko tinha motivo especial para comprar essa briga. É dono de um quiosque, no condomínio Barra Sul, especializado em cachorro-quente e sandubas radicais. O lateral Leandro, chef de cozinha, saiu em defesa da alimentação saudável e o dentista Vitor Monteiro Novaes garantiu: durante os churrascos consome apenas duas fatias de picanha e uma latinha de cerveja.

- Desse jeito, ele zela por uma boa digestão - elogiou a nutricionista.

Mas não é tarefa fácil saciar o apetite dos peladeiros. Em novembro de 2010, mostramos aqui as habilidades culinárias de João Barba e a turma do Show de Bola, de São Cristóvão, onde o cardápio das resenhas nunca é repetido. Fala, Paulão! Fala, Márcio Ricardo! E também tem a pelada de terça-feira no LCR Esporte, em Quintino, liderada pelo securitário Sergio Rodrigues. Ali, a ideia seria correr para eliminar a cerveja do fim de semana, mas os dotes gastronômicos de Beto impedem qualquer tentativa de dieta. Reza a lenda que nesse ano a rapaziada consumiu 103 quilos de carne, maionese e farofa, mas o objetivo é alcançar meia tonelada até dezembro. Boa sorte, Seu Carlos!

Enquanto isso, no Península.....

- Chegou Pedro Porfírio, o Montinho Artilheiro! – gritou o engenheiro João.

Velho conhecido de Adriano Vargas, as curvas do cearense gente boa impressionaram Ana Cristina: 105 quilos espremidos em apenas 1,53cm.

- Ele desafia qualquer lei da Física – brincou Luiz Albuquerque, o Pinóquio.

Trocou de roupa e entrou em campo. Foi ovacionado! Diabético, pressão alta e em tratamento de esteatose hepática (gordura no fígado), Porfírio, de 68 anos, é goleador. Mas ao tentar um chute perdeu o equilíbrio na grande área, caiu e não conseguiu levantar-se sozinho.

- Chamem o Carvalhão, esse só com guindaste – sugeriu o goleiro Roberto.

O centroavante estaca, como definiu Adriano Vargas, caminhou mais alguns minutos até ser fisgado pelo cheiro da costelinha. Difícil resistir! Se lambuzou e matou a sede com algumas geladas. Na avaliação, os profissionais o reprovaram sem dó nem piedade, afinal não produziu uma gotinha de suor sequer e consumiu vorazmente. A mulher, Dona Fátima, estava certa, a corridinha era lenda. Mas rodeado de amigos, sentia-se o homem mais feliz do planeta: “A pelada me faz vivo!”. A nutricionista alertou sobre os riscos e a importância de uma guinada radical na alimentação. Deixou o cartão e partiu preocupada. O craque culpou a formação anárquica, indisciplinada, para tanto descuido. Pesado, tudo fica mais complicado, o ar falta, os joelhos latejam, o coração dispara. Mas nas noites de terça-feira ele vira criança, chuta o balde, olha o abismo do alto e se joga nos braços da galera.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.