sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Permita-me a indagação insólita: será que estamos mortos e não percebemos?


Para onde quer que olhemos, por aqui, só vemos andantes pálidos, inertes e insípidos
“Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exato momento em que deixamos de ser úteis”.
Jean Paul Sartre


Que país é esse? Que mundo é esse? O que se passa na cabeça de cada ser humano, seja daqui, seja dacolá? Onde estão os indignados de todas as gerações, de todos os recantos? Nada lhes ofende, lhes mareja os olhos, lhes desperta a cólera e lhes motiva o protesto diante de tanta ignomínia? A tormenta que desce sobre as africanas terras líbias não é de sua conta?

Noites insones e dias tensos nada explicam: antes, para o meu desespero frenético não oferecem a menor chance de uma réstia de luz que enseje uma resposta, que sinalize o sintoma dessa letargia.

Meus Deus! O que estou fazendo diante de um computador ligado ao vazio de pessoas e de idéias, de cara para a inércia mais atormentadora, convertida numa contemplação pusilânime de um ritual movido a indignidades, abusos, violências, transgressões, usurpações, mentiras e hipocrisias?

Serei eu um débil mental que ainda não teve a lucidez de se olhar no espelho? Que mira pela fresta errada e não vislumbra um óbvio pútrido? Por que uma agressão criminosa a um país, agora esfacelado e desconstruído, toca a tão poucos e cada vez mais raros? Por que meio mundo se deixa entorpecer pela semântica de encomenda, pela desfaçatez do panfleto midiático enganador?

Incrível, penso em lamentos quase lacrimosos: agora que o mundo se tornou tão pequeno pela interação instantânea internáutica não seria o caso de uma mais cálida compreensão entre os seres humanos? Ou esse mundo que ficou pequeno tem o despudor de um brinquedo obsceno, uma abstração, de um exercício compensatório de ilusões forjadas?

Vi um patrono de uma turma de Direito declarar que nossa geração fracassou. No mesmo diapasão ele também se referia ao subproduto mais degenerado desse fracasso: a erupção de um individualismo desalmado nas gerações de agora, embaladas pelo metálico do som ensurdecedor ou pelo medíocre do funk que aportou entre nós como cavalo de tróia de uma gangrena mental.

E vi seus 99 formandos no culto patético de uma ansiedade ensimesmada, intelectualmente empobrecida, sem qualquer visão de contexto, como se nada lhes motivasse naquela noite de júbilo senão o olhar flamante na causa própria, no futuro pessoal, na esperança de que o mundo esteja cada vez mais conflitado para que disso tirem o seu sustento e disso façam sua razão de viver.

Vi jovens barbaramente envelhecidos pela balada altissonante do “salve-se quem puder”, o “daqui pra frente é com cada um” ou, no máximo, com o círculo de prediletos, como se o diploma conferido fosse a munição para a mais terrível das guerras, a sôfrega competição profissional nas pegadas dos exemplos herdados da esperteza como única via  da sobrevivência, do acesso ao conforto e ao prazer.

Enquanto isso, a mídia capta e exacerba todas as torpezas, fazendo delas elementos tão preponderantes no comportamento humano que nelas se inspira  no vôo cego de um cotidiano destituído de todos os valores restantes, no confronto explícito com os pulverizados pigmentos das virtudes em extinção.
Não causa surpresa que ninguém se sinta obrigado hoje em dia a reagir às barbaridades perpetradas pelos senhores do ágio e das armas, hipertrofiando a própria torpeza, num super dimensionamento da ambição voraz.

É certo alguém chegar em sua casa para determinar como deve ser sua relação com o clã? É tolerável alguém jogar seus filhos, uns contra os outros, para imobilizar a todos e se apoderar de suas posses?

Será que ninguém tem mais olhos para ver assaltos tão grotescos como os que países decadentes, endividados, em crises sistêmicas, enrolados em suas próprias pernas, promovem na maior sem-cerimônia para se apoderar das riquezas finitas de outros povos?

Você vê isso à luz do dia e não se sente nem um pouco atingido? Você quer o que, que chegue a nossa vez? Essa modernidade mal grada está nos impingindo o silencioso suicídio nacional em doses homeopáticas, está nos bestializando, nos acostumando ao convívio indolor com o massacre dos mais fracos, na configuração psicanalítica de uma apatia crônica, na qual nos servem brotos de papoulas imobilizantes encapados em papel celofane com as cores lustrosas da ilusão ótica minúscula e temporária.

Esse espetáculo da mais trágica alienação não poupa ninguém. Minha geração se repete na ladainha de um fracasso mensurado pela descontinuidade do sonho. Mas pode ser que aqueles rueiros dos anos sessenta tenham blefado e agora, lépidos e fagueiros, se desdizem no leme dos podres poderes.  

Ou, como se pode constatar, você não percebeu até que nossa vez já chegou, na intervenção sibilina e camuflada que varou a imensidão do território desguarnecido em pomposas mistificações em nome da demarcação de territórios gigantescos convertidos em flancos para a mais sofisticada pirataria alienígena?

Curioso: aqui quem quiser ver massa nas ruas só lhe resta contemplar os milhões das paradas gays e dos desfiles pentecostais.
Fora disso, meia dúzia de gatos pingados tenta chamar atenção para algumas tragédias pontuais que já não sensibilizam o povaréu. Por que a maioria já renunciou ao direito ao conhecimento, às obrigações do Estado com sua saúde e ao respeito devido à dignidade de todos.

Tal é o traste da alma humana que até a solidariedade se profissionalizou em organizações especializadas na terceirização do pensamento, da ação, da insatisfação social e dos deveres oficiais. Aqui, nesta terra invadida por Pedro Cabral, está cada vez mais difícil falar em dignidade e autoestima, eis que de migalha em migalha a massa enche o papo.

Diante desse quadro de cores pálidas veio-me uma despropositada indagação, que faço a você, envolto na mais pungente perplexidade: será que somos mortos vivos, almas penadas, corações sangrados, mentes entorpecidas e inebriadas?
Será?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A intervenção estrangeira na Líbia para além da mídia de aluguel e dos perfeitos idiotas

O mesmo "direito de agressão" poderá ser usado para nos tomarem a Amazônia

“Que tipo de guerra “popular” foi aquela? O pessoal do serviço secreto trouxe-lhe em bandeja de prata a mais recente pesquisa Rasmussen – segundo a qual, só 20% dos norte-americanos apoiam hoje o escandaloso bombardeio por EUA/OTAN, sobretudo porque aqueles panacas bombardearam civis e mais civis, até crianças. Os europeus – os que contam, gente de verdade, não os burocratas panacas de Bruxelas – estão ainda mais incomodados que os norte-americanos”.
 Pepe Escobar, Asia Times Online -20/8/2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Imagem da tv Al-Jazira mostra Saif al-Islam, filho de Kadhafi nas ruas de Trípoli. Espelharam aos quatro ventos que ele fora capturado pelos “rebeldes”.
Preste atenção: todo aquele que defende a intervenção estrangeira na Líbia ou está levando grana ou é um perfeito idiota. Todo aquele que diz que Kadhafi enfrenta rebeldes defensores da democracia e da liberdade ou é um perfeito idiota ou leva grana dos grandes interessados na farra do petróleo líbio, o de melhor qualidade do mundo.

Vamos e venhamos: o que está acontecendo lá é uma tremenda trapaça bélica, uma agressão explícita acobertada muito mais pela mentirada midiática de que por qualquer peça jurídica em nome da democracia.

Não estou exagerando: a mídia que embola os cérebros dos cidadãos está cheia de corruptos. Tem muito “jornalista” mais rico do que certos políticos. E tais fortunas não são colhidas só dos seus salários, por maiores que sejam. Desde priscas eras, o “por fora” sempre existiu nas áreas mais influentes das redações.Também não é pra menos. De que vive um veículo de comunicação? Da venda direta aos consumidores, nem pensar. Foi-se o tempo de jornais como o PASQUIM, que se pagava com só nas bancas. Hoje, incrivelmente, até a tv a cabo é uma grande farsa: cobra os tubos dos assinantes, mas está cheia de anúncios. Coisa estapafúrdia que ninguém quer ver.
 Outro dia mesmo, pelos telegramas pinçados daquele site demolidor, soube-se dos nomes de alguns jornalistas brasileiros que prestam serviços de informações à Embaixada dos EUA. Um deles, aliás, nem jornalista é e se mandou para a Itália para não ter de dar explicações.
Quanto aos perfeitos idiotas, eles são fabricados em séries por faculdades que tratam muito pouco dos mistérios da reportagem em seus currículos, cobram uma grana preta e mandam os garotos sem vocação e sem o mínimo da necessária perspicácia correr atrás. Se forem bonitinhos, podem conseguir uma oportunidade nas televisões e adjacências. Isso alguns: os outros bonitinhos vão tentar a vida em outras praias.
Se Kadhafi fica ou será assassinado, a esta altura não é o que se pode comentar. Porque tudo pode estar acontecendo, inclusive uma manipulação sórdida das informações, técnica usada desde o tempo do bumba.
Quando as potências estrangeiras começaram a despejar foguetes sobre Trípoli, escandalosas agências de notícia garantiram que o líder líbio havia fugido para a Venezuela. E muito bobalhão acreditou.
Pode ser até que agora, depois de 5 meses de bombardeios criminosos despejados por aviões e navios das decadentes potências ocidentais, principalmente França e Inglaterra, as condições de resistência sejam menores.
De fato, não é contra beduínos recrutados a peso de ouro que o governo luta: quem está fazendo estragos letais é a aviação estrangeira. E nisso, esses senhores das armas servem-se de uma fraude canalha e cruel: Em 18 de março, o Conselho de Segurança da ONU determinou tão somente, e não mais, fechar o espaço aéreo para impedir os vôos dos aviões líbios.
À época, escrevi que aquilo era uma grande mentira. Em horas, os norte-americanos estavam cravando foguetes no coração de Trípoli. Nada, portanto, com a fatídica resolução do conselho, manobrado pelos Estados Unidos. Resolução que, por si, já era uma aberração jurídica ao gosto do vale tudo quando se trata de dar cobertura à pirataria imperialista.
Países em que um mandato eletivo sai por uma fortuna, em que quem ganha uma sinecura trata logo de fazer seu pé de meia à custa do erário, se arvoram em símbolos da democracia e ainda se acham no direito de meter o bedelho nos países dos outros, especialmente se esse país dos outros for rico em petróleo e outras riquezas estratégicas.
Não mandam tropas nem bancam “rebeldes” em dezenas de países pobres, sob o chicote de ditaduras ferozes, algumas dedicadas ao extermínio de tribos rivais. Nessas regiões, milhares de pessoas morrem de fome todos os dias, enquanto seus tiranos vivem nababescamente, em estreita ligação com os governos da Europa e dos EUA.
A Líbia de Kadhafi não está sendo massacrada por ter um regime que permite a recondução do seu líder, algo necessário como elemento de unidade do seu mosaico tribal. Antes do coronel nacionalista, a Líbia era dominada por uma monarquia absoluta, que se impunha igualmente ao fatiamento tribal: lá há 4 habitantes por Km2, isto porque a maior parte do seu território é desértico, situação que Kadhafi está enfrentando com os mais grandiosos projetos de irrigação da face da terra.
Todos esses mercenários do computador que trabalham noite dia para fazer a caveira do coronel são incapazes de prever o que acontecerá sem ele. Os variados grupos que estão de olho no poder já brigam entre si desde o primeiro dia dos conflitos. O general que trocou o Ministério do Interior pelo comando dos insurgentes em Benghazi já foi assassinado por eles mesmos. Quem fala hoje pelos rebeldes poderá cair do cavalo amanhã.
Se finalmente Obama, Sarkozi e outros menos conhecidos puderem cantar vitória, com certeza os derrotados não serão o coronel Muammar Abu Minyar al-Kadhafi e os resistentes, mas a própria nação Libia, que ficará em petição de miséria e será dividida por gananciosas empresas estrangeiras do ramo, como aconteceu no Iraque.
Os “buchas de canhão” que foram recrutados por agentes da CIA instalados em Benghazi não terão como usufruir da mudança, porque o controle será exercido totalmente de fora através de títeres domesticados, como acontece no Afeganistão.
Democracia, pretexto para a agressão estrangeira como foi também para a ditadura que derrubou o governo constitucional de João Goulart, será uma palavra mais adequada ao folclore midiático.
Todos os esforços de progresso serão castrados e a Líbia será apenas um conglomerado de poços de petróleo, explorados sem leis e sem limites pelas companhias estrangeiras que precisam assaltar nações alheias para tirar suas metrópoles da pindaíba.
Só que ainda é cedo para os neocolonizadores cantarem vitória. Assim como a notícia da prisão dos filhos de Kadhafi não passou de um rotundo blefe, não me surpreenderá se as coisas não estiverem bem assim, como descrevem os jornalistas mercenários e repetem os perfeitos idiotas.
Se a intervenção estrangeira vingar, ninguém por estas bandas poderá chiar no dia que os imperialistas decidirem pôr na agenda a internacionalização da Amazônia.

domingo, 21 de agosto de 2011

De volta à arena política, porque esse combate é uma obrigação de que não podemos fugir

Estou me filiando ao PSB na esperança de um espaço em que possa contribuir para uma virada radical na vida pública.
"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons."
Martin Luther King

“O preço que os homens de bem pagam pelo seu desinteresse da política é a qualidade dos políticos".   
 Platão

Voltar à praça pública para tentar reacender a confiança dos cidadãos é  nosso dever
 
Estou retornando à vida partidária. Depois de três meses de consultas, nesta quarta-feira, dia 17 de agosto, entreguei minha ficha de filiação no Partido Socialista Brasileiro ao professor Marcos Villaça, secretário do partido, num almoço na Taberna da Glória, com a presença do secretário de organização, Moisés Silva, e o “de acordo” do garçom João Batista, brizolista desde a volta do caudilho.
 
Devo lhe dizer que esta  foi provavelmente a decisão política mais pensada que tomei ao longo dos meus 68 anos. E não significa apenas a intenção de candidatar-me, em 2012, à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, casa em que desempenhei mandatos em quatro legislaturas.

Mais do que isso, creio ter encontrado um espaço, aqui no Rio de Janeiro, para apoiar uma atividade partidária séria, que vá muito além dos limites eleitoreiros. Espaço que será ainda mais fortalecido na medida em que pessoas com a mesma identidade crítica também se incorporem, entendendo que não basta ficar falando de fora, enquanto os maus elementos usam mandatos, cargos públicos e cidadelas partidárias unicamente em benefício próprio e dos seus financiadores.

Em princípio, a direção estadual do PSB deve marcar para a segunda semana de setembro, provavelmente dia 12, para um ato público em que serei formalmente recebido. Esse evento será importante para pautar de forma indelével a natureza mais profunda dessa aproximação, que preservará o respeito por minha total independência, enquanto jornalista.

A pena como arma na luta pela verdade e justiça

Quem me honra com a leitura dos meus comentários desde os idos da TRIBUNA DA IMPRENSA pode testemunhar o despojamento com que procuro contribuir de forma crítica e independente para uma efetiva transformação social no Brasil e para o respeito à soberania dos povos: são 50 anos passados desde que o destino – e não uma faculdade – me fez repórter comprometido com a verdade e a justiça, compromissos que me custaram o sofrimento da tortura, da prisão arbitrária e da mutilação da minha própria carreira profissional.

Meus parceiros não têm dúvida quanto à minha natureza – por vezes quixotesca – que me fez sempre presente em uma trincheira, sem escolher ferramentas, incluindo minha obra teatral em plena ditadura – 8 peças encenadas com sucesso de 1972 a 1982 – expressão artística do inconformismo, o que me valeu também a perseguição implacável da censura, com a proibição de duas delas, uma no dia da estréia.

Por isso, tenho orgulho de minha biografia. Até mesmo os muitos erros cometidos brotaram das mais puras intenções. Em nenhum momento deixei-me impulsionar pelo interesse mesquinho, pela deslealdade, pela ambição pessoal e pelo desrespeito aos princípios cimentados desde a adolescência, ainda na década de 50, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, naqueles calorosos debates em que conheci Roberto Amaral, hoje uma dos grandes próceres do PSB.

Naqueles tempos, imagine, já via correr nas minhas veias o sangue quente dos indignados. Já aflorava  uma relação apaixonada com a causa pública, a que me dediquei com o sacrifício da minha juventude.

Com a volta da vida democrática, filiei-me ao PTB e, depois, ao PDT, quando arrancaram a sigla história das mãos do seu mais legítimo continuador. Permaneci fiel a Brizola até sua morte e estaria no mesmo partido se não fossem as novas companhias tão conflitantes com o ideário original da legenda e a predominância de um pragmatismo açodado e desfigurador.

Saindo da sombra e indo à luta de peito aberto

Até o almoço da quarta-feira passada, por vários anos circunscrevi meu combate à palavra. Não parei de escrever, mesmo quando os interesses das elites inviabilizaram a TRIBUNA DA IMPRENSA. Fortaleci meu blog e meu jornal por correspondência. Não me rendi jamais, não calei um instante.

Poderia continuar nos limites das minhas colunas, que posto em dias incertos, no uso pleno da liberdade de um aposentado. Mas vi que isso acaba sendo uma opção pelo mais cômodo, pelo entrincheiramento na minha casa confortável, no sopé da serra dos Três Rios.

Enquanto isso, as casas legislativas ficam cada vez mais expostas ao que há de pior na política. As câmaras municipais, então, nem se fala. O clientelismo, a truculência das milícias e dos poderes paralelos, a interferência do poder econômico corruptor bancando campanhas milionárias, assim como o uso abusivo da máquina oficial compõem uma aquarela berrante, em que poucos edis exercitam suas obrigações – legislar, fiscalizar e representar.

Isso leva o povo a abrir mão do peso do seu voto num estado democrático de direito. A descrença chega a ser patética. Um mês depois das eleições de 2010, 40% dos eleitores já não lembravam em quem tinham votado para deputado. Nada mais assustador.

Não e não. Eu, Pedro Porfírio, com todo um passado de lutas, não posso ficar sentado a um computador vendo acontecerem tantas barbaridades e estelionatos políticos. Tenho que voltar à luta no corpo a corpo das ruas, sim. Nem que isso represente o sacrifício de quem, nessa idade, já não goza das condições de saúde ideais.

Não posso enclausurar-me na crítica caseira num momento em que há sinais de mudanças corajosas no ambiente do poder: há claros indicadores de que a impunidade perde terreno e uma nova odisséia cirúrgica se descortina, precisando somar apoios que ajudem a demolir o poder de chantagem que faz dos legislativos antros de negociatas e pressões inescrupulosas.

O porque da opção pelo Partido Socialista

Como disse no início, escolhi o PSB depois de conversar com vários partidos. Fiquei enojado com a postura de alguns, que avaliavam “pragmaticamente” minha possível adesão: se fosse para ajudar a eleger quem já tem mandato, tudo bem. Mas se oferecesse risco, aí já não interessava.

Foi em alguns dirigentes do PSB que sintonizei preocupações políticas mais profundas. Participei de debates públicos sobre a reforma política, com a presença do presidente estadual, deputado Alexandre Cardoso, do cientista social Jairo Nicolau e do vereador Rubens Andrade, um professor que no seu terceiro mandato se mantém coerente com as mesmas idéias de sua juventude: em 2002, foi o único que se dispôs a ir comigo ao Oriente Médio, numa missão permeada de riscos.

Esse ambiente de debates amplos é um caminho que ajudará a uma visão mais consistente da atividade política e serve para revelar vocações, já que as universidades e as organizações classistas acomoraram-se  na penumbra. É o que se pode fazer de melhor no âmbito dos partidos para que eles possam cumprir suas responsabilidades e, quem sabe, ajudar a resgatar o mínimo de credibilidade junto à população.

Melhor será ainda quando a discussão voltar à praça. Aí  poderemos acender uma fagulha que leve os eleitores a um melhor entendimento da sua própria responsabilidade diante de um país que se move tensamente num enigmático mundo em decomposição.

Socorre-nos, felizlmente,  a força que ganha a internet, com apenas 20 anos de existência. Graças a ela, o mundo ficou pequeno com as imensas possibilidades de comunicação, que estão nos libertando do monopólio midiático. Neste momento, apesar das resistências e da má vontade das áreas oficiais, 43 milhões de brasileiros já acessam a banda larga. No mundo, a cada minuto, 168 milhões de e-mails são enviados, 98 mil tweets são publicados, 694 mil consultas são feitas ao Google, 695 mil atualizações de status no Facebook, enquanto publicam 510 mil comentários e fazem 79 mil ponderações no mural.

A internet abriu um vasto campo de manifestação e conscientização, inclusive para os mais velhos. Entre os que responderam à minha pesquisa, pelo menos 35% tinham mais de 60 anos. Há milhares de listas de encaminhamento de matérias: há um terreno fértil para a reprodução da indignação popular e, através da rede, centenas de protestos são convocados em todo o mundo.

Dito tudo isso, venho à sua presença pedir sua opinião. Você acha que ainda posso contribuir na disputa de um mandato parlamentar? No caso afirmativo, você terá como engajar-se ao meu lado, mesmo à distância?

Não esqueça de que continuo com a mesma independência de sempre e só disponho do poder da palavra para disputar uma eleição. A viabilidade de uma campanha, a essa altura da vida, depende principalmente dos que acreditam nessa palavra, transformando-se em agentes de nossa proposta.

Em síntese, a ajuda de quem acredita no meu bom combate é imprescindível.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A execução da juíza Patrícia Accioli e a indignação do desembargador Siro Darlan

Há muito mais pólvora do que se imagina nos 21 tiros  que alvejaram a magistrada

“Doravante, será mais do que suficiente um olhar de soslaio do réu para que o juiz assine – trêmulo, mas de pronto – o alvará de soltura. Eu, no lugar de qualquer deles, assinaria. Você não?”
Desembargador Siro Darlan de Oliveira, da 7ª Câmara Criminal do Rio de Janeiro.


Desde sexta-feira passada estou tentando escrever sobre um dos mais escabrosos episódios da rotina tétrica de impunidade incrementada por todo um misterioso complexo criminoso, no qual as chamadas milícias são apenas sua expressão mais grosseira.

Com a experiência de 50 anos reportando os fatos, reuni tantas informações e cheguei a tais conclusões que acabei abatido por um estranho sentimento da inutilidade de pôr tudo no papel.

Vi-me mais uma vez impulsionado a cutucar uma penca de onças com varas curtas. Mas os cabelos brancos interferiram no pulsar do meu cérebro nervoso e alcançaram seus recônditos com uma carga pesada de entorpecimento. De que adiantaria ir fundo para oferecer uma peça acusatória que iria muito além da investigação policial em curso?

Procedimentos recentes no âmbito do Judiciário sugerem uma lógica inibidora. Não me sinto em condições de ousar mostrar as vísceras de um estranho mundo, cuja deformação ameaça o que se chama sem convicção de estado de direito.

Porque a salva de 21 tiros que prostrou Patrícia Accioli, a juíza de verdade, partiu de muitos gatilhos. Não foi por acaso que dispararam tantas balas. Não pretendiam apenas matar uma magistrada corajosa – a fartura mortífera alcançaria – como alcançou - toda uma sociedade em sobressalto, repassando um recado aterrorizante assinado por um amplo espectro criminoso.

Nas minhas pesquisas, as declarações do desembargador Rogério de Oliveira Souza, um dos magistrados mais brilhantes e dignos do Tribunal de Justiça fluminense, tornou-se uma referência. Ele lembrou que há um ano e meio a juíza Patrícia Accioli esteve no Gabinete do então presidente do TJ, desembargador Luiz Zveiter, para pedir o restabelecimento de uma escolta que lhe foi tirada em 2007.

A partir daí, a polêmica sobre a omissão do presidente e os fatos relacionados com o abandono da juíza, literalmente entregue às feras, passou a ocupar o noticiário com inevitável ênfase. Já se sabe hoje de boa parte da verdade que fez dessa juíza uma solitária combatente do crime organizado, sem cobertura dos seus superiores.

Algo que se traduz num patético exercício da teimosia quixotesca.

Hoje, porém, senti-me encorajado a tentar reproduzir o clima de revolta e insegurança que o assassinato de Patrícia Accioli, a juíza de verdade, disseminou.

Mas, daqui para frente, vou preferir levar ao seu conhecimento uma das obras mais corajosas e lúcidas escritas a respeito. Refiro-me ao artigo do desembargador Ciro Darlan, outro admirável magistrado, que expôs sua indignação com a autoridade de um verdadeiro paladino do direito e da verdade, cuja trajetória aprendemos a respeitar desde sua emblemática atuação como juiz da Infância e da Adolescência.

O que ele escreveu, sim, pode ser o resgate da esperança no Poder Judiciário, ainda que tímida esperança. Porque, como ele, outros magistrados estarão refletindo sobre esse ambiente sórdido que permitiu a execução sumária da juíza criminal de São Gonçalo.

Veja o que Siro Darlan postou em seu blog às 18 horas e 8 minutos do dia 13 de agosto de 2011.

"Não se esqueça de Patrícia Accioli

DO INSULTO À INJÚRIA

http://www.blogdosirodarlan.com/?p=130

Pouco mais de 24 horas se passaram desde que a juíza Patrícia Lourival Accioli foi chacinada. Quando se pensava que a covardia desse ato ficaria restrita a ele próprio – um insulto em forma de cusparada de sangue na cara do país -, se vê a ele somada a injúria da empáfia das autoridades públicas, especialmente as do Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.


O atual presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro se apressa em justificar o injustificável: o motivo para uma juíza que até as paredes do fórum de São Gonçalo sabiam ameaçada de morte estar completamente à mercê de seus matadores é singelo: ela não requisitara proteção, por ofício. Não obstante, sem ofício, ou melhor, de ofício, sua segurança, conforme avaliação (feita por quem? com base em que critérios?) do próprio tribunal, havia minguado na proporção inversa do perigo a q ue a juíza diariamente se via submetida.


Fica, assim, solucionado o crime: Patrícia cometeu suicídio. Foi atingida por si mesma, 21 vezes, vítima de sua caneta perdida, que se encontrava a desperdiçar tempo mandando para a cadeia milicianos e todo tipo de escória que cresce à sombra do Estado, de sua corrupção e de sua inoperância. Patrícia era uma incompetente, uma servidora pública incapaz de fazer um ofício! Não é isso que o senhor quer dizer, Presidente?


Que vergonha, Exa.! Por que no te callas? Melhor: renuncie ao seu cargo. No mínimo será muito difícil seguir à frente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, com a morte de Patrícia em suas costas. Ela está agarrada ao seu corpo e ao do seu antecessor, como uma chaga pestilenta. Sua permanência no ambiente dá asco e ânsia de vômito.


Qualquer pessoa que assistisse ao noticiário televisivo, que lesse jornal ou que tivesse acesso a algum out ro veículo de imprensa nacional tinha conhecimento da situação de Patrícia e de que sua vida estava em risco. Não a Presidência do TJRJ. Segundo palavras do ex-presidente daquele órgão, seu único contato com a juíza se deu numa ocasião em que esta por ele foi chamada para prestar esclarecimentos a respeito de um entrevero que tivera com um namorado. O fato chegou às folhas e S. Exa., o então Chefe do Judiciário, se sentia no dever de agir logo, chamando às falas (sem ofício) a subordinada que colocava em cheque a imagem do Poder por ele gerido. Mas, para proteger a vida de Patrícia – ah, aí é querer muito! – era fundamental um ofício!


E fico a pensar: em quantas vias? 21? As cópias deveriam ser em carbono azul ou seria possível usar um modelo vermelho sangue? Era necessário que a magistrada juntasse ao expediente um mapa com a localização do Fórum de São Gonçalo, talvez? Ou um comprovante de residência? Atestado de bons antecedent es? Declaração dos futuros assassinos afirmando que a ameaça era real (a lista encontrada com o “Gordinho” não tinha firma reconhecida, nem era autenticada, afinal).


Não tentem ler a minha mente, sem antes chamar um exorcista.


Magistrados de primeira instância, uni-vos! Vossa integridade física está à mercê da fortuna. Vossa vida a depender de uma folha de papel. Vossas famílias nas mãos de mentecaptos.


Marginais e milicianos em geral devem estar com a dentadura escancarada num esgar de romance policial. Bastaram duas motos, dois carros, um bando de vermes, 21 tiros e poucos segundos para derrubar o castelo de cartas que era a imagem da Justiça no Estado do Rio. Com tão pouco se revelou a podridão de um reino de faz-de-conta, o que contrasta com o quanto foi necessário para liquidar uma mulher só.


Um Poder sem força, sem visão, sem preparo; um setor do serviço público que se transformou, em verdade, num a grande empreiteira; quando não em um balcão de negócios (quebre-se o silêncio!).


É inacreditável que a mais alta autoridade judicial do Estado sequer ruborize ao dizer que a proteção de uma juíza comprovadamente listada como alvo da milícia dependia de um pedido escrito. A declaração do magistrado-mor revela aos interessados em seguir matando juízes que o “Poder” por ele administrado não tem a menor idéia da realidade enfrentada pelos julgadores de primeira instância. Precisa ser provocado, cutucado, instado. O pleito de auxílio aos que dele carecem deve passar por um processo, um crivo que, como se viu, é muito eficiente, se o resultado perseguido for a eliminação daquele que precisa ser protegido. O Judiciário não realiza, por sua conta, qualquer controle, não mantém investigação permanente, não monitora seus inimigos: é um Poder-banana.


Os juízes de direito, de agora em diante, se transformaram na versão nacional do dad man walking (expressão gritada pelos guardas quando acompanham os sentenciados até o local da execução, nos presídios com corredor-da-morte, nos EUA). Os próximos serão os promotores, os delegados de polícia (os agentes penitenciários já são eliminados de há muito, assim como os jornalistas), os homens de confiança do Secretário de Segurança e este mesmo. Governador, tremei. Quem há-de impedir que isso ocorra?


A temporada de caça está aberta. A porta do Judiciário era sem trinco e agora não adianta colocá-lo. Tarde demais. Até que a Justiça se mova e organize um sistema de autodefesa pró-ativo (e não movido à base de papeluchos), muitos perderão a vida. O crime não precisa se organizar. Basta conhecer o endereço do juiz, discando 102.


Pior: doravante, será mais do que suficiente um olhar de soslaio do réu para que o juiz assine – trêmulo, mas de pronto – o alvará de soltura. Eu, no lugar de qualquer deles, assinaria. Você não?


Bem-vindos à terra sem lei, sem vergonha e sem senso de ridículo.
Não se esqueçam de Patrícia Accioli!"

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Os Estados Unidos estão falindo e nós vamos pagar o pato

Como disse Delfim Neto, essa crise é mais uma obra dos bandidos do Wall Street

“Com um déficit orçamentário perpétuo impulsionado pelo desejo de lucros do complexo militar e de segurança, a causa real do enorme déficit do orçamento dos EUA está fora de discussão”.

Paul Craig Roberts, ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro no governo de Ronald Reagan

 Timothy Geithner, Christina Romer, Obama e Lawrence Summers. Uma equipe econômica sob medida para servir aos interesses dos especuladores do Wall Stret


Em entrevista no Canal Livre da Tv Bandeirantes deste domingo, dia 7 de agosto de 2011, o ex-ministro Delfim Neto, que não é nenhum esquerdista, antes pelo contrário, afirmou categoricamente que essa crise nos Estados Unidos é obra de bandidos – os mesmos que forjaram a débâcle de 1929.

Antes, no dia 25 de julho, o economista norte-americano Paul Krugman escrevera no New York Times: “Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, o que está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que alimentou a Grande Depressão”.

Na segunda-feira, dia 8, enquanto as bolsas de todo mundo despencavam, os “investidores” compravam adoidados os títulos do Tesouro norte-americanos, cujo rebaixamento, por uma agência de risco demoníaca, elevara a taxa de adrenalina dos acionistas à beira de um AVC. Dá para entender?

Crise conjuntural e política, conversa para boi dormir

Diz-se que o mais recente reboliço made in USA é conjuntural e político. O bate-boca no Congresso por conta da necessidade de elevar o teto da dívida teria engendrado a overdose da insegurança que pôs o mundo inteiro com as barbas de molho. Será?

Já em 2008 foi aquela pasmaceira, que se irradiou pelos quatro cantos do mundo em ventos uivantes e fez a fina flor amarelar. Obama assumiu na tempestade e, apesar da retórica envolvente, acabou dando o dito pelo não dito. Preferiu surfar na onda a dar um chega pra lá, limitando-se a algumas encenações, segundo o receituário do Wall Street, o covil da mais refinada bandidagem, e empurrou a tudo com a barriga.

Paul Krugman, proeminência de sua torcida organizada no mundo acadêmico, diz agora que ele se perdeu na selva de pedra. “O foco da política econômica foi desviado da criação de empregos e do crescimento para o problema da redução do déficit. Mas a economia não estava saindo do buraco. É verdade que a recessão chegou ao fim dois anos atrás e a economia escapou de uma derrapada assustadora. Mas em nenhum momento o crescimento se mostrou adequado levando-se em consideração a profundidade do mergulho inicial. Quando o desemprego aumenta tanto quanto o que vimos de 2007 a 2009, é preciso criar muitos empregos para compensar. E isso não ocorreu” – escreveu.

Estamos, portanto, diante apenas de erros de enfoque? O jornalista Matt Hartley, do diário canadense “National Post”, fez uma constatação esquisita, mas sintomática: ele notou que o Tesouro teve um saldo de US$ 73,768 bilhões no balanço operacional do dia 27 de julho, enquanto a Apple, segundo os dados mais recentes, tem US$ 75,876 bilhões em caixa. Claro que o próprio descobridor da pólvora fez uma comparação despropositada. Mas, de fato, o governo norte-americano está na pindaíba.

O rabo preso com a indústria de guerra

E não se manca, porque tem rabo preso com a indústria da guerra. Essa, sim, deita e rola e o mundo que se dane. Ela tem necessidade de dar saída aos seus foguetes de 1 milhão e meio de dólares e a Casa Branca não lhe nega fogo, independente de quem esteja fazendo suas traquinagens no salão oval.

Isso não se fala, como de hábito. Sem os “aditivos de emergência” o orçamento do Pentágono de 2011/12 vai fisgar 19,27% ou US$ 712,7 bilhões do total de US 3,699 trilhões, isso sem falar nos U$ 120,5 bilhões só em gastos com os veteranos de guerra. Não é pouca coisa, não.

Deduzidos os R$ 678,5 bilhões para a rolagem da dívida pública, o orçamento efetivo do Brasil para este ano, é de R$ 1,39 trilhão. Somando investimentos e custeio, incluídas as despesas da seguridade social e os investimentos das estatais. Convertendo as moedas, veremos que os gastos de guerra dos Estados Unidos equivalem quase a todo o orçamento brasileiro.

No início de março, antes das agressões com foguetes Tomahawk (que custam US$ 1,5 milhão de dólares cada) disparados contra a Líbia (106 só no primeiro dia), Amy Goodman dizia no programa Democracy Now, retransmitido por 900 emissoras norte-americanas: “Enquanto o noticiário internacional se concentra nas revoltas no Oriente Médio e no norte da África, os Estados Unidos seguem alimentando suas duas guerras prioritárias no Iraque e no Afeganistão. Os custos para sustentá-las estão afetando diretamente os orçamentos dos estados e da União. Os EUA gastam cerca de 2 bilhões de dólares por semana somente no Afeganistão, o que representa cerca de 104 bilhões de dólares ao ano – isso sem incluir o Iraque. Cerca de 45 estados mais o distrito de Columbia projetam déficits orçamentários de um total de 125 bilhões de dólares para o ano fiscal de 2012. As contas são simples: o dinheiro deveria ir para os estados, em lugar de ser gasto em um estado de guerra”.

Quem dá as cartas quer ver o circo pegar fogo

Ainda em março, Paul Craig Roberts disse poucas e boas sobre os gastos militares dos EUA. Roberts não é qualquer um: ex-editor do Wall Street Journal, foi secretário assistente do Tesouro no governo de Ronald Reagan.

Com a verve de quem entende do riscado, espinafrou: “As oligarquias dominantes atacaram novamente, desta vez através do orçamento federal. O governo dos EUA tem um enorme orçamento militar e de segurança. Ele é tão grande quanto os orçamentos do resto do mundo somados. Os orçamentos do Pentágono, da CIA e da Segurança Interna representam US$ 1,1 trilhão do déficit federal que a administração Obama prevê para o ano fiscal de 2012. Este gasto deficitário maciço serve apenas a um único propósito – o enriquecimento das companhias privadas que servem o complexo militar e de segurança. Estas companhias, juntamente com aquelas de Wall Street, são quem elegem o governo dos EUA”.

Desde que, na década de 50, o general-presidente Dwight David Eisenhower detectou os poderes fulminantes do complexo industrial-militar, o predomínio dos interesses bélicos ganhou sofisticação e mesclou-se com a meia dúzia de três ou quatro que controla o Wall Street – gente que tem ligações remotas com a mais longa das guerras, a que garante a expansão do Estado sionista no propósito estratégico de apoderar-se do petróleo árabe e exercitar o delírio do “povo eleito”.

Essa gente não tem pátria, não tem pai, nem mãe. Banca as bilionárias campanhas eleitorais e ganha como bônus a hegemonia dos governos dos dois partidões de lá, vide a equipe de Obama. Essa gente tem metas que extrapolam a fronteira norte-americana, é coisa de raiz milenar.

Com base em suas panacéias, os Estados Unidos estão fechando suas fábricas e indo produzir em países que dominam ou pretendem dominar, sob a alegação de que é mais vantajoso explorar a mão de obra local. Curiosamente, só não transferem a indústria de guerra.

O que enerva o mundo nestes dias é apenas mais uma ferida que sangra numa economia combalida, que para conservar as aparências tem de recorrer a golpes sequenciais, aproveitando-se da plataforma em que ainda se encontra, tendo a maior parte dos países do mundo a seus pés.

Mas não se iluda: de ferida em ferida, mais dia, menos dia, o império vai desabar. Justo, na nossa cabeça, com a conta amarga assumida por quem vive para pagar o pato.
Para ver a entrevista de Delfim Neto, CLIQUE AQUI

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Na troca de Jobim por Amorim, muitos coelhos numa só cajadada

Ministro arrogante e grosseiro não gostou da suspensão da compra dos caças franceses. E vinha se excedendo no  acordo militar com Israel.

- “É muita trapalhada. A Ideli é muito fraquinha e a Gleisi nem sequer conhece Brasília”.
Nelson Jobim, referindo-se a duas ministras nomeadas por Dilma em entrevista à revista “Piauí” .
- “Só faltava essa”.
Dilma Rousseff, reagindo à mais essa provocação do seu ministro, horas antes de demiti-lo.

Ao demitir Jobim, Dilma mostrou que não tem medo de bicho papão
Com a demissão do “intocável” Nelson Jobim e a nomeação do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa, a presidente Dilma Rousseff matou uma porção de coelhos de uma só cajadada.

O significado mais profundo desses atos ainda há de ser vasculhado pelos raros analistas íntegros que ainda sobrevivem, apesar dessa epidemia de penas de aluguel mesclada com o domínio midiático pela insuficiência mental.

Mas é preciso deixar claro, desde já, que a primeira presidente mulher do Brasil, credora de uma surpreendente confiança “ampliada” dos cidadãos, mostrou que não tem medo de bicho papão – e que é muito mais corajosa do que a penca de machos que fez da arte de engolir sapos a fórmula viciada de garantir a governabilidade.

O grandalhão Nelson Jobim, ministro nos governos de FHC e Lula, que se confessou responsável por artigos na Constituição de 88 enxertados por baixos dos panos, vinha se dedicando a todo tipo de provocação com o objetivo explícito de desautorizar a presidente da República, em atitudes grosseiras, mas programadas, que passavam dos limites, como se ele fosse uma reedição caricata dos outrora poderosos generais treinados nos Estados Unidos.

Contrariado pela suspensão da compra dos caças franceses

E não se prestava a essa escalada agressiva por acaso. Ele começou a minar o governo a partir da decisão da presidente Dilma, em fevereiro passado, de suspender a compra de 36 caças franceses, um negócio de R$ 11 bilhões, no qual, por influência sua, o governo brasileiro optara pelos aviões mais caros, desprezando a melhor oferta da Suécia.

Por vaidade ou por outras razões que a própria razão desconhece, ele perdeu a serenidade diante da decisão da presidente, que se considerava constrangida a fechar o negócio numa hora em que determinava o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento.

Essa contrariedade de Jobim é deliberadamente escamoteada das análises sobre seus conflitos com Dilma. Mas o pessoal da corte sabe muito bem que ele nunca digeriu a determinação da presidente, que o deixou mal na fita: O presidente Sarkozi fora informado que sua permanência no Ministério da Defesa era a garantia pétrea de que a francesa Dassault já havia papado essa venda com os seus caças “Rafale”.

No dia 19 de novembro passado, já depois da eleição de Dilma, Jobim teve uma conversa reservada com a então ministra da Economia da França, Christine Lagarde, na qual afiançou que o compromisso assumido por Lula, sob sua influência, ia ser cumprido ao pé da letra.

Os dois participaram de uma jantar na Câmara de Comércio Brasil-França em homenagem ao ex-presidente. Em público, Jobim foi peremptório, ao justificar a preferência pelo avião mais caro: “Não estamos comprando caças, mas um pacote tecnológico. Esse é o fator principal. Estamos comprando conhecimento, sem conhecimento não tem negócio”. Já Christine Lagarde não se fez de rogada: “Faremos tudo que for possível para ganhar (a venda)”.

Mesmo depois do anúncio da suspensão da compra, este ano, Jobim manteve os franceses confiantes, apesar do relatório da Aeronáutica, de 27 mil páginas, ter concluído pelo modelo sueco, que não só é mais barato, como também tem um custo de manutenção muito mais baixo. Na cotação de preços, o pacote francês saia por U$ 6,2 bilhões (o preço original era de U$ 8,2 bilhões), enquanto o modelo sueco Gripen NG saia por US$ 4,5 bilhões(e ainda podia baixar mais), e o norte-americano F-18 Super Hornet custaria US$ 5,7 bilhões.

Apesar disso, Jobim empenhou sua palavra aos franceses. Dilma tomou a decisão final de suspender o negócio quando soube de uma reunião promovida pela Dassault em São José dos Campos, no início de fevereiro, na qual a francesa já estava montando suas parcerias com empresários brasileiras. Então,  ela  assinou pré-acordos com dez empresas. No total, já havia firmado 49 pré-acordos com companhias do país.

Jobim ficou realmente sem jeito e não teve outra saída senão ir a Paris, na segunda semana de julho, explicar a mudança pessoalmente ao presidente Sarkozi e aos executivos da Dassault. Ele alegou que até o final do ano a presidente daria prioridade a “assuntos internos do Ministério da Defesa”, mas em 2012, o processo original seria resgatado. Em maio, a própria Dilma havia informado ao governo sueco da sua disposição de reavaliar os trâmites, o que significava dizer de sua disposição de priorizar a opinião da área técnica da Aeronáutica.

Celso Amorim, a resposta que embarreira certos acordos

Ao contrário do que especulava a mídia – e nessa caíram até certos escribas independentes – o substituto de Jobim será o ex-ministro Celso Amorim e não o ex-governador Moreira Franco, que envolveu o seu amigo Michel Temer e outros poderosos da corte uma frenética articulação em seu favor.

É cedo para entender a escolha, mas é provável que Dilma queira com Celso Amorim   dar um freio na postura inconveniente do Ministério da Defesa, a partir da assinatura do acordo militar com Israel, em novembro de 2010.

Por conta desse acordo, o Brasil passou fazer todos os gostos da indústria bélica israelense, como escreveu Laerte Braga: “autoridades militares brasileiras declararam publicamente ter ajudado empresas israelenses de armas a entrar em contato com as forças armadas de outros países latino-americanos”.

E foi mais longe em seu relato:
“Três empresas brasileiras de armas foram compradas por Israel, a AEL, a ARES AEROESPECIAL E DEFESA S/A e PERISCÓPIO EQUIPAMENTOS OPTRÔNICOS S/A. São inúmeros contratos com as forças armadas brasileiras, envolvendo o PROJETO GUARANI e espera – Israel – conquistar contratos para os Jogos Olímpicos e Copa do Mundo – segurança, o que no caso de Israel significa barbárie.

Israel Aircraft Industries (IAI) formou uma joint venture (espécie de parceria, associação) denominada EAE com o grupo Synergy. Uma subsidiária da IAI, a Bedek, usa os centros de manutenção e de produção da TAP M & BRAZIL (notem que já está com “Z”), nos aeroportos do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Estas informações podem ser encontradas no STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. (Veja íntegra do artigo de Laerte Braga  no blog da Rede Castorphoto) .

Há que se observar a reação imediata dos sionistas à indicação de Celso Amorim. O jornal Estadão já iniciou a temporada de intrigas, ao se referir a um suposto mal-estar, sem identificar suas supostas fontes: “A indicação do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa já está provocando reações contrárias em Brasília. Militares dos altos comandos das Forças Armadas consultados pela reportagem consideraram esta "a pior escolha possível" que a presidente poderia ter feito”.

E disse mais, numa redação que cheira a encomenda: “Segundo esses interlocutores, Amorim contrariou "princípios e valores" dos militares nos últimos anos quando esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores e até ex-ministro Nelson Jobim contornava as polêmicas causadas por decisões "completamente ideologizadas" de Amorim”.

Seja o que for, com suas escolhas recentes, a presidente Dilma Rousseff vem ganhando a admiração até dos seus não-eleitores por conta de suas decisões desassombradas, capazes de revelar um modelo de governança à prova de bala e de outras coisitas mais.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.