sábado, 30 de abril de 2011

E por falar em tributos abusivos, veja o que escrevi em 2008 sobre o LAUDÊMIO - ainda na TRIBUNA

Esse imposto é tão extorsivo que não deve contar nem na soma da nossa carga tributária


Como boa parte do Rio de Janeiro ainda morre no laudêmio, uma decisão de primeira instância da Justiça Federal, de março de 2010, me leva a retomar o debate a respeito.

Por ela, foi determinada a suspensão de todo o processo demarcatório e das cobranças de foro, laudêmio e taxa de ocupação dos imóveis localizados em 18 municípios do Estado do Rio:.Niterói (apenas Região Oceânica), Angra dos Reis, Araruama, Armação de Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes, Carapebus, Casimiro de Abreu, Itaguaí, Macaé, Mangaratiba, Marica, Quissamã, Rio das Ostras, São João da Barra, São Pedro da Aldeia e Saquarema.

Os apartamentos do Condomínio Porto Real, em Mangaratiba, foram vendidos em 2010 sem pagamento de laudêmio, graças a uma decisão que beneficiou moradores de 18 municípios fluminenses.

Veja decisão em http://www.jusbrasil.com.br/diarios/4950676/doerj-justica-federal-de-primeiro-grau-05-03-2010-pg-111


Um “imposto invisível” que custa os olhos da cara

MINHA COLUNA NA TRIBUNA DA IMPRENSA DE 4 DE JULHO DE 2008

“Cinco famílias têm direito ao domínio útil de Botafogo, o que é uma loucura”.

Regina Chiaradia, da Associação dos Moradores de Botafogo.



Nestes tempos bicudos em que o brasileiro tem de morrer numa baba em impostos – mais 1/3 da sua renda – gostaria de indagar numa boa, até porque, como consta do ditado, perguntar não ofende: por que até hoje somos penalizados com essas taxas de laudêmios e enfiteuses, entulhos do arco da velha, que sobrevivem a séculos por cima de pau e pedra? Sabe do que estou falando? Coisa da corte portuguesa, dos tempos coloniais, que atravessou independência adentro no primeiro reinado e pegou pesado até hoje, sem que ninguém consiga derrubar, embora todo mundo pense como o advogado tributarista Melhin Chalhub, para quem “a União cobrar isso em pleno século 21 é injustificável, por ser uma invenção da Idade Média”.

A União? Menos. O próprio Chalhub lembra que em Niterói, o Asilo de Santa Leopoldina, por exemplo, ainda recebe laudêmio pela maioria dos imóveis construídos em Icaraí, um dos bairros mais nobres dessa simpática cidade. Pelos cálculos do advogado Francisco Neto, de São Paulo, a União Federal possui e detém apenas 30% das terras aforadas, enquanto a Igreja Católica possui 60%, ficando o restante com particulares e com herdeiros da família imperial brasileira.

Antes que você vire a página e me deixe aqui falando sozinho, vou logo explicando: quem vende imóvel nas áreas onde vigora o laudêmio, paga nada menos de que 5% do seu valor para uma espécie de sócio oculto.

Só no Rio de Janeiro, pelos cálculos da Secretaria Nacional de Patrimônio, 50% do seu território sofrem com essas taxas que enchem as burras da União, da Prefeitura, de ordens religiosas e de famílias que ganharam essa boca desde as sesmarias, quando a cidade foi dividida em lotes no Primeiro Reinado, em 1831.

Isso numa tremenda balbúrdia: primeiro, porque ora cobram pelo valor do solo, ora incluem as construções. Depois, no caso dos terrenos de marinha, ninguém se entende sobre quem está nos 33 metros definidos naquele 1831 como de proteção militar.

Tem imóvel na Av. Lúcio Costa, construído há menos de 10 anos, que não está cadastrado. Outros, na mesma beira mar, por mais antigos, não são peixes, mas caíram na malha.

Em 2006, houve até uma audiência pública na Associação Comercial do Rio de Janeiro, quando alguns deputados federais prometeram mover céus e terras para mudar a Constituição e acabar com esse “imposto invisível”, que nos pega no contrapé. Era ano de eleição para o Congresso e depois ficou por isso mesmo, até porque, como dizem os juristas de fino trato, essa é “matéria infraconstitucional” – isto é, o buraco é mais embaixo - não tem nada a ver com a dourada Carta Magna.

Os donos de Botafogo

No bairro de Botafogo, a Associação de Moradores entrou com uma ação civil pública para livrar 30 mil proprietários da São Clemente e adjacências do pagamento dessa taxa à família Silva Porto, que tem o direito real adquirido pelo sistema de sesmarias feito na época do Primeiro Reinado.

A presidente da associação, Regina Chiaradia, constatou que a taxação levou muitos aposentados a venderem os imóveis para quitar as dívidas com os Silva Porto, considerados enfiteutas (pessoas que recebem o valor do domínio útil de um prédio). -

"Acredito que cerca de 50 a 60 mil pessoas pagam essas taxas seculares no bairro todo, algumas delas sem saber direito o que é" – disse Regina ao JB em 2006.
 
E o governo federal, o que tem a dizer? Como sempre, esse, como qualquer outro, se puder nos arranca o olho da cara e nos deixa a ver navios na beira da praia.
 
Em todas as ações contra a cobrança dessa grana, a Advocacia Geral da União questiona até sua autoria. Porque é dinheiro que não entra no catálogo das reclamações com impacto político. E leva milhares de pessoas à rendição incondicional.

Afinal, neste país, o senso crítico foi substituído pelo jeitinho brasileiro: no lugar de reagir contra a extorsão, o cidadão procura uma forma de burlá-la e fica tudo por isso mesmo. Uma prática do tempo que os portugueses estavam por cima da carne seca foi sacramentada no primeiro reinado, mantida no Código Civil republicano de 1916 ( artigos 678 e 680) e ainda ganhou forma de “regulamentação” com os Decretos-Leis 2490, de 1940 e 2398, de 1987.

Pelo artigo 26, parágrafo 1° do decreto do Doutor Getúlio, “todas as transferências onerosas, quaisquer que sejam suas modalidades, estão sujeitas ao pagamento de laudêmio”. Pelo artigo 3º do Decreto de 1987, assinado pelo Doutor Sarney, “dependerá de prévio recolhimento do laudêmio, em quantia correspondente a 5% do valor atualizado do domínio pleno e das benfeitorias, a transferência onerosa, ntre vivos, do domínio útil”.
E a farra continua
 
A cobrança– mais do dobro do ITBI municipal - foi calorosamente debatida na última Constituinte, que abriu caminho para o seu fim através do artigo 49 de suas Disposições Transitórias: "A lei disporá sobre o instituto da enfiteuse em imóveis urbanos, sendo facultada aos foreiros, no caso de sua extinção, a remição dos aforamentos mediante aquisição do domínio direto, na conformidade do que dispuserem os respectivos contratos."
 
Com a aprovação do atual Código Civil, que passou a vigorar em 11 de janeiro de 2003, a enfiteuse deixou de ser disciplinada e foi substituída pelo “direito de superfície”. O seu artigo 2.038 proibe a constituição de novas enfiteuses e subenfiteuses, subordinando-se as existentes, até sua extinção, aos princípios do Código Civil de 1916. Nada mudou até hoje, no entanto.

Que o digam os moradores da Urca à Sepetiba, do Flamengo à Ilha do Governador, que pagam à União 5% do valor do imóvel a cada venda ou do Castelo (no Centro), que são “sócios” da Ordem Terceira da Penitência.

Ou os proprietários dos prédios do Pátio do Colégio, em São Paulo, de toda a cidade de Petrópolis (nas mãos dos herdeiros do imperador) ou da cidade de Tombos, em Minas Gerais, que são “devedores” da Igreja. E olha que poucas são as legislações no mundo que ainda abrigam esse arcaísmo histórico.
Não sei quantos estão interessados em entrar nessa briga contra laudêmios, enfiteuses, foros e outros bichos que corroem nossos orçamentos. Mas eu acho que esta é uma boa oportunidade para questionar, até porque estamos às vésperas de eleições municipais e precisamos modernizar a legislação sobre o uso do solo, sob pena de produzir uma crise de moradia igual a que levou os norte-americanos à lona.





sexta-feira, 29 de abril de 2011

Esse leão parece que só tem olhos para os calcanhares da classe média

Com a defasagem na tabela, que perde de goleada da inflação, quem era isento em 96 hoje está no topo dos contribuintes e paga 27,5% de IR


“Como a classe média sendo massacrada com os impostos, é mais do que oportuno iniciar uma grande mobilização nacional para ter uma verdadeira reforma tributária, começando pelo imposto de renda da pessoa física”.
Roberto Rodrigues de Morais, especialista em Direito Tributário.

Nesses dias fatídicos, em que a imagem sinistra e ameaçadora de um leão faminto e implacável nos acossa por todos os lados, impondo-nos o exercício pormenorizado da memória e da matemática, eu me pergunto por que ninguém questiona com a firmeza necessária esse pleonasmo tributário, que leva boa parte de 24 milhões de assalariados – quem ganha mais de R$ 3,9 mil por mês - a pagar quase um terço do que recebe a título de imposto de renda, enquanto é igualmente tributada em tudo o que paga, o que leva os brasileiros a morrerem hoje em impostos ao equivalente a 37% de suas remunerações.

Tem sido voz corrente – e recorrente, para repetir o jargão da moda – o questionamento da carga tributária que faz o brasileiro trabalhar em média 148 dias só para alimentar o fisco. Isto neste Século XXI, como resultado de um avanço progressivo e insaciável sobre seu bolso.

Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, na década de 70, o Fisco se bastava com 76 dias de trabalho dos assalariados; na de 80, subiu para 77 e, na de 90 já nos tomava 102 dias. Nesse quesito, só perdemos para os 185 dias da Suécia, onde, ao contrário daqui, esse tributo aparece em serviços públicos compensadores, e para os 149 dias da França, onde a corrupção é moda. Mas superamos a Espanha, que se apropria de 137 dias dos seus cidadãos; Estados Unidos, 102; Argentina, 97; Chile, 92 e México, 91.

O que mais se ouve é a crônica de tratativas sobre reforma tributária, que teria por objetivo reduzir a carga. No entanto, os articuladores da mudança não tocam no imposto sobre a renda. Ao contrário, advogam um modelo que diminua a tributação do consumo e avance ainda mais sobre a renda, isto é, sobre os salários, uma vez que, na prática, quem paga mesmo, quem é descontado rigorosamente na fonte é quem recebe por seu trabalho.

Assalariado paga mais do que banqueiros

O imposto de renda da pessoa física é um tributo permeado por variáveis e representa uma carga tão pesada para os assalariados que a soma de sua arrecadação é três vezes maior do que a de todo o sistema financeiro. Isso agora: no início da década, chegou a representar cinco vezes a contribuição dos bancos, que continuam esbanjando lucros exuberantes, fazendo inveja a seus congêneres em outros países.

Segundo o Unafisco – sindicato dos auditores fiscais - os bancos recolheram em Imposto de Renda cerca de R$ 7,5 bilhões em 2005. No total, somando o montante de tributos pagos pelas instituições financeiras, o valor atingiu R$ 18 bilhões. Esse número foi cerca de um terço do total pago pelos trabalhadores em IR (R$ 52 bilhões) no mesmo período.

Em 2002, os trabalhadores assalariados pagaram quase cinco vezes mais Imposto de Renda do que as instituições financeiras. Levantamento feito pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) mostrou que nesse ano os trabalhadores, que são tributados diretamente na fonte, pagaram R$ 26,94 bilhões em Imposto de Renda. No mesmo ano, o IR dos bancos --os campeões de lucratividade no Brasil-- totalizou R$ 5,70 bilhões. Em valores nominais, a diferença é de 372,63%.

A tributação dos contribuintes teve um salto ainda maior com o congelamento por 9 anos da Tabela do IR-Fonte e IRPF, (6 anos no Governo FHC e 3 anos no Governo Lula). Em 1996 quem ganhava 8,3 salários mínimos estava isento do IRPF. Hoje, quem ganhou em 2010 o equivalente a 3,10 salários mínimos já está na faixa de tributação. Aqueles que eram isentos em 1996 hoje já estão na maior faixa, pagando 27,5% do que recebem.

Já em 2009, um estudo assinado por Roberto Rodrigues de Moura, publicado em JUS NAVIGANDI mostrou que de 1996 a 2008, o Imposto de Renda subiu 451% contra 84% de inflação.

Por essa pesquisa, se a tabela do IR não tivesse sido congelada, a faixa da isenção em 2009 deveria beneficiar a quem ganhava por mês R$ 4.000,00. Pela tabela aplicada agora, na declaração atual, quem ganhou por mês em 2010 acima de R$ 3.915,00 já está na maior faixa, isto é, já tem de pagar 27,5% de sua remuneração em IR.

Já o levantamento da consultoria Ernst & Young Terco divulgado em fevereiro passado pela repórter Fabiana Ribeiro, de O GLOBO mostra que o contribuinte brasileiro paga o IR com uma defasagem - quando o reajuste da tabela do IR perde para a inflação - que chega a 44,35% no acumulado dos últimos 15 anos.

“Isso porque a inflação brasileira avançou 97,85% e o reajuste da tabela ficou em 53,50%. Caso a presidente Dilma Rousseff repita o padrão usado desde 2007 e corrija novamente em 4,5% a tabela do IR este ano (como aconteceu) a defasagem subirá para 45,60%, considerando uma estimativa de inflação de 5,75% para 2011”.

Na mesma matéria, Fabiana Ribeiro cita outros números: “na era Lula, essa defasagem foi de 10,31%, contra 56,45% do governo Fernando Henrique Cardoso”.

Descontos fortalecem bancos e planos de saúde

Nas variáveis que levam a algum desconto do imposto de renda da pessoa física, fica clara a renúncia fiscal em favor do setor privado. Assim, você pode reduzir até 12% do seu imposto se aplicar no sistema de aposentaria operado pelos bancos – o PGBL. O dinheiro resultante desse desconto tem de ficar no banco: se você precisar dele, morre na taxação de 27,5% sobre o seu montante.

E mais: é possível deduzir R$ 2.592,29 de cada dependente por ano com despesas com escolas e todas os gastos com a saúde privada, incluindo médicos, dentistas, planos de saúde e outros profissionais da área. Isso é, de fato, um atestado de falência do sistema público e um incentivo a mais que leva quase 38 milhões de brasileiros a morrerem nos preços extorsivos dos planos de saúde privados.

Aposentadoria não é renda, mas paga

Dentro da discussão sobre imposto de renda da pessoa física, ouso dizer que a taxação das aposentadorias é outra redundância. Aposentadoria não é renda: é, sim, a utilização daquilo que foi descontado ao longo dos anos de trabalho produtivo, quando o cidadão já foi tributado. Em tese, o dinheiro do desconto vai para um fundo, em paralelo com a tributação do assalariado, e este poderá ter acesso a ele ao deixar de gerar renda. O que passa a receber a título de aposentadoria ou pensão já sofreu tributação anteriormente.

Mas a espoliação dos aposentados e pensionistas é uma das marcas da modernidade, em função de uma leitura manipulada da contabilidade previdenciária e da percepção negativa do aumento da expectativa de vida. Hoje, paradoxalmente, além de ser retributado, o aposentado ainda é descontado em 11% desse dinheiro resgatado, como se ainda estivesse produzindo e sendo remunerado por seu trabalho. O dinheiro desse novo desconto ele não verá jamais, o que é uma baita extorsão legalizada.

Todas essas evidências de clamorosas injustiças não contam na pauta da pleiteada reforma tributária. O que querem mesmo os senhores dos anéis, que são majoritários no Congresso, é “desoneração da folha”, e até mesmo a mudança no modelo de desconto previdenciário, vinculando-o ao faturamento e não aos salários, favorecendo e ampliando as margens de lucro das empresas.

É dentro de um arcabouço tributário injusto que 24 milhões de brasileiros estão entregando suas declarações de renda pelo trabalho assalariado. Isso numa atmosfera de tensão, procurando fazer as contas no fio da navalha, com receio da temível malha fina.

Enquanto isso, as discussões sobre reforma tributária se cingem à queda de braço entre União, Estados e municípios para saber quem vai cobrar mais o quê dos cidadãos que andam na linha.

Porque os grandalhões, os caixas 2 e os informais não estão nem aí para a cara enfezada do leão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Nossos filhos, nossos netos, nossas escolas e nosso mundo

A alienação cultivada criou um jovem ensimesmado  e prisioneiro da busca individualizada

Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor.

Agora que a tragédia da Escola Pública de Realengo vai sumindo da mídia, como soe acontecer no minguar de fatos novos e na indigência das últimas cenas, cabe-nos abrir a grande angular para alcançar esse universo vazio em que nossos filhos e nossos netos patinam ensimesmados na angústia de resolverem suas vidas sozinhos, na fogueira dos conflitos inflados pela individualização do triunfo.

Deploro do fundo d’alma que essas gerações imaturas tenham sido jogadas na modernidade mais farta em liberdades, em descontração e em conquistas tecnológicas sem que, ao mesmo tempo, salvaguardassem os valores mais nobres da natureza humana.

Ao contrário, a força potencializadora emanada dos incomensuráveis avanços no plano da informação e a liberalização saudável do corpo e da mente parece ter sido usada na determinação estratégica da bestialização imobilizadora dos focos susceptíveis à indignação e repulsa.

Mesmo admitindo que historicamente o envolvimento de jovens nas causas humanitárias, distantes do seu interesse pessoal,  e na despojada contestação dos desatinos limitou-se a uma minoria mais esclarecida, é difícil hoje ver jovens mobilizados por puro idealismo, tal como naqueles idos em que se alçavam alguns até para condenar a câmera de gás que executou em 1960 Caryl Chessman, o bandido que se fizera escritor brilhante no corredor da morte de San Quentin, na Califórnia.

A grosso modo, é deprimente constatar uma insolente inversão dos papéis: é mais fácil ouvir o esperneio dos avós premidos nos limites de sua capacidade física do que o grito sonoro dos peitos juvenis.

O bullyng das agressões interpessoais

Esse processo insidioso de redirecionamento dos ímpetos de uma idade ainda não contaminada pelo pragmatismo arrivista está dando na formação de hordas de solitários ególatras, confinados num ambiente em que cada um deve tratar exclusivamente de si, sem qualquer elo com seus iguais: antes, aliás, mais propensos a tratarem de serem mais desiguais possíveis, sob pressão da idéia de que não há espaço para todos.

Isso leva inevitavelmente a descobrir futuros competidores no seu meio e a buscar a própria afirmação na exploração da eventual deficiência e na timidez dos outros. Essa síndrome de uma “agressividade competitiva inconsciente”, que se manifesta nas escolas de primeiro grau com maior frequência, com o nome importado de BULLYNG por repetir práticas da matriz cultural, está intrinsecamente ligada ao processo de recanalização do potencial rebelde dos jovens,  sujeitos a perfis degenerativos.

Sabem as autoridades educacionais da proliferação de grupos de alto teor de agressividade, verdadeiras gangues, que impõem suas vontades com tal petulância que chegam a encurralar professores, sujeitando-os ao seu comando, inclusive na imposição de notas.

Gangues nas escolas e o silêncio dos mestres

Se o morticínio de Realengo expôs uma personalidade esquizofrênica e conscientemente envolvida na gestão de um ato brutal, seriam honestas a direções das escolas, sobretudo, infelizmente as públicas de áreas conflagradas, se tivessem coragem de coibir abusos de gangues, algumas auto-proclamadas como sob a proteção de bandidos de suas áreas.

De um modo geral, sem esperança de que um gesto possa produzir efeitos positivos, os professores calam mesmo quando são afrontados em plena sala de aula. Mas nenhum deles pode negar a existência de uma cultura de violência banalizada, coisa que não é exclusiva das periferias pobres.  Em escolas de ricos é comum professores serem alvos de bolinhas de papel quando estão de costas para a turna.

  Ali mesmo na capital federal não é rara a exibição de meninos de classe média na prática de atos perversos e nos conflitos intergrupais. Lá a proliferação de gangues de condomínios e de certas escolas é pública e notória.

Até uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro mostrou o grau de insuficiência no trato com o bullyng. O Instituto INFORMA revelou, em matéria publicada com destaque por O GLOBO, um grande percentual de vítimas dessas práticas entre os 830 estudantes ouvidos. Curiosamente, nenhum dos entrevistados admitiu ter praticado ele próprio esse tipo de violência cada vez mais perversa.

Não seria forçado associar tais práticas aos trotes que ainda fazem parte da crônica juvenil. A única diferença é que esses parecem integrados ao currículo escolar, no processo de iniciação dos novos alunos, tal como acontece em algumas seitas e sociedades fechadas.

Jovens no descaminho manipulado
De fora do ambiente escolar, o progresso tecnológico da mídia e dos games se encarrega de oferecer insumos à substituição dos impulsos motivacionais, levando em última instância à forja de um jovem moderno “sem saco” para os atos que afetam o sistema de castas cristalizado através da pirâmide social intocável.

Em troca, os anabolizantes mentais oferecem a esse mesmo jovem sensações compensatórias, primeiro no plano da afirmação de um egoísmo hipertrofiado; num segundo momento, na indução a atitudes mais radicais, como o uso de drogas cada vez mais facilitado até mesmo por seus preços popularizados.

Os jovens se movem a pilhas novas, com cargas em excesso. Ao exacerbarem seus fins pessoais, correm o risco do próprio curto circuito. Assuntos pessoais, inclusive de ordem sentimental, são maximizados e viram torturantes cavalos de batalha. Há uma grande possibilidade de que o vírus narcisista se volte contra eles próprios, na medida em que seu egocentrismo não se realize em toda a sua plenitude.

Novas formas seletivas
O sistema opera igualmente a seleção prévia dos seus nerds, seus meninos prodígios que escapam às conturbações angustiantes da idade para ingressar na nova elite dirigente. Isso em função de um elemento excludente de natureza existencial, tão influente como os limites de classe.

Aí entra outra frustração construída. O acesso à Universidade se tornou mais fácil com as ofertas de um varejão escolar, mas isso não significa necessariamente emprego na área de formação.

Há uma irresponsabilidade visível na proliferação de faculdades de baixo rendimento, em condições de oferecer não mais do que o diploma. Só na área do Direito, mais de mil cursos. Comunicação Social, um segmento que se desvaloriza e se estreita de ano para ano, atrai milhares de garotos cheios de sonhos, tendo como referência, em especial, os espaços televisivos, fomentadores de expectativas de ordem profissional e existencial, e o endeusamento de alguns raros “gênios” da propaganda.

O arco midiático reproduz de tal forma o modelo da matriz norte-americana que até os hábitos alimentares foram incorporados, com previsões pessimistas das autoridades de saúde: em 13 anos teremos o mesmo percentual populacional de obesos dos Estados Unidos.

As televisões incrementam a dependência cultural com a massificação de enlatados norte-americanos. Quase todos os quase cem canais a cabo são dos Estados Unidos e refletem seu modo de vida, seus problemas típicos, suas idiossincrasias recheadas de hipocrisias. Dos 2.150 filmes em média  exibidos mensalmente, mais de 70%,  realçam cenas de violência e de crimes, muitos com formatos didáticos.

A família perdida na mudança de hábitos

O conflito de gerações tem novas conotações e não se limita ao culto da rejeição aos discursos “ultrapassados”. Há inversão de hábitos. Antes, o neto ia buscar o chinelo da avó. Agora é a pobre velhinha que se sujeita à tirania de uma garotada prenhe de auto-afirmação e de prazer personalíssimo.

A pressão do cotidiano eliminou a ceia em família. Já não se faz consulta aos velhos: a garotada já “nasce sabendo” ou prefere se informar na feira da internet. Suas relações ocorrem agora com maior intensidade no Orkut e no faceboock.

Pode-se dizer que os filhos passaram a pautar os pais ou a cultivarem suas agendas paralelas, infensas a qualquer palpite paternal.

A alienação que exacerbou o individualismo

Os jovens que um dia foram contestadores dos estados atrabiliários tendem agora ao choque familiar, mesmo sem a explicitação dos atritos. A carga de informação recebida dos meios eletrônicos substitui tudo, do pai ao pároco. Os antigos valores tornam-se jurássicos, a cultura nativa cede à hegemonia dos metaleiros e dos roqueiros que entram em suas veias no bojo de uma excessiva bateria de clipes alucinógenos, acolitados pela facilidade com que se pode baixar qualquer música do mundo pela internet.

Tudo isso decompôs o ideal juvenil, extirpou aquela velha premissa de que o sucesso pessoal dependia do avanço conjunto da sociedade. Alastra-se como axioma a compreensão de que é cada um por si e nada mais.

No mesmo diapasão, gerações aflitas de pais apegados ao ganha-pão, qualquer ganha-pão, vão deixando de ser referência na “concorrência” desleal dos mitos massificados, heróis de laboratório que são mais poderosos do que a figura paterna, modelares em um passado esquecido.

Em suma, para ficar por aqui, é plausível admitir que o sistema venceu no seu projeto alienante. Mas tudo que diz respeito à espécie humana carrega em si o seu contrário, a possibilidade de um desdobramento fora da programação.

Nossos filhos, nossos netos e nossas escolas já não incomodam o Estado das elites dominantes. Mas suas energias subsistem e se voltarão contra os seus, os parceiros e até mesmo contra os próprios. É aí que reside o núcleo de aberrações traumáticas, como que gerou a tragédia da Escola Pública de Realengo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Porque a espetacularização e a manipulação inescrupulosa das tragédias não têm limites

Exclusividade garante o uso seletivo de gravações encontradas pela polícia no caso de Realengo

“Em seu sentido literal, Islã significa fazer a paz, Islã é a religião e o modo de vida da construção da paz. Fazer a paz, exatamente como o nome sugere, é o objetivo do Islã”.
Conselho Internacional para a Informação Islâmica.

Aconteceu o pior: ao invés da reflexão serena, profunda e abrangente; ao invés da autocrítica honesta, aconselhável e pertinente, as mercenárias penas tratam de tingir a tragédia da escola pública de Realengo com as cores berrantes da espetacularidade, insinuando até envolvimentos sem nexos, numa sequência de impropérios e leviandades irresponsáveis, como forma astuciosa de redirecionar e industrializar o crime, por si tormentoso.

Agindo como por encomenda, como se a soldo de interesses inconfessáveis, escribas de aluguel se deleitam numa torpe e pueril teoria da conspiração, a que se juntam vozes amargas dos porões da intolerância empedernida, espargindo veneno e ódio no organismo frágil de uma sociedade já afetada por uma disfunção cerebral monitorada por aparelhos.

Esses senhores dedicam-se a um jogo sujo de cartas viciadas, ao ponto de criminalizarem o Alcorão, a Bíblia do islamismo – uma religião com mais de um bilhão de adeptos - como se fosse um manual de terrorismo e violência. E sugere que o Islã seria uma fonte de inspiração mortífera, quando ao contrário, a própria tradução do termo significa “fazer a paz”, como define didaticamente o Conselho Internacional de Informação Islâmica.

O ato criminoso de Wellington Menezes de Oliveira já foi a erupção de um tumor numa sociedade infectada pela hipocrisia e a mistificação, como escrevi antes. Por seu caráter inusitado, pela inocência de suas vítimas na flor da idade, causou torpor e revolta, desencadeando uma sucessão de reações em cadeia, algumas em decorrência dos melhores sentimentos solidários, outras, porém, impulsionadas pelo exibicionismo compensatório e ou forjadas pela rede de intrigas e sensacionalismo, onde o escrúpulo é palavra proibida.

Pais e professores das escolas de todo o país – e além-fronteiras – se sentiram igualmente feridos pelas 60 balas disparadas na escola onde odiosas práticas comuns e toleradas levaram o filho adotivo de uma “testemunha de Jeová” a gestar uma personalidade macabra e megalomaníaca, tendo como ingredientes axiomas rígidos e hábitos irracionalizados, marcas de crentes tão fanáticos que se recusam à transfusão de sangue, para preservar a pureza dos seus corpos.
Só mesmo a ânsia de aparecer levou esse jovem a se pendurar numa cruz em frente a escola da tragédia
Diferenças entre evangélicos

Ao apontar a influência do fundamentalismo cristão no contexto desse ato insano e ao reclamar maior discrição na prática pastoral, quis chamar à responsabilidade os caçadores de rebanhos, que competem entre si para ampliar seus domínios, fazendo uso da massa angustiada para todos os fins, sejam econômicos ou políticos.

Os poderes excepcionais de que se acham dotados certos pastores e práticas fanatizadas atraem pessoas sem respostas para suas angústias. Essa atração leva milhares de jovens a uma busca fantasiosa, em meio à falta de perspectivas pessoais e a humilhações repetidas.  
Entre os evangélicos, porém,  há igrejas sérias, sobretudo as tradicionais, que se recusam à conquista de adeptos pela exibição da “graça”, essa encenação grotesca da cura a granel. Insisto em que o recato impõe os limites dos templos para o exercício dos cultos e não essa escandalosa utilização da televisão e do rádio em shows caricatos,  marcados pelo mais leviano charlatanismo.

Não há, portanto, aproveitamento capcioso com segundas intenções na constatação da influência produzida pela interpretação do óbvio.


Já em relação ao alegado “fascínio” do assassino pelo 11 de setembro dos seguidores do Al Qaeda, devidamente conectados com a CIA (como hoje demonstra farta documentação) ah, aí temos uma forçação de barra no pior estilo, sugerindo o dedo sempre ativo dos atuais usurpadores das terras árabes.

Exclusividade que manipula os fatos
Há toda uma clara manipulação com objetivos igualmente visíveis. Essa manipulação passa, mais uma vez, pelo enorme poder de exclusividade que a rede Globo tem sobre as investigações policiais, dispondo segundo seu interesse e na forma que lhe aprouver a divulgação “editada” do material descoberto.

Ficamos sabendo que a polícia achou três discos rígidos que o assassino teria tentado destruir – um deles ainda sem condição de leitura, nos quais a Globo, e somente ela, pinçou duas gravações feitas pelo assassino.

A partir daí, acumulam-se dúvidas: ele tinha três computadores? Seu computador tinha três hds? Por que destruiria a gravação em que tenta justificar sua monstruosidade? Por que a Globo publicou parte das gravações, exibindo apenas alguns trechos? O que há nos outros que não vem a público?

Mesmo em meio a tanta má fé, há uma percepção claríssima: fossem políticos os impulsos criminosos, o jovem assassino teria procurado alvos políticos, como nossas casas parlamentares e nossos governantes. Nesse caso, provavelmente, apareceria muita gente para justificar o eventual massacre que provocasse. Mas seu gesto, insito, foi de natureza existencial, procurando embasamento na leitura equivocada dos textos bíblicos, assimilados por sua mente já em estado de decomposição.

Os anátemas sobre os árabes e muçulmanos

Por interesse do sionismo, que hoje prepondera no complexo financeiro, político e midiático das grandes potências ocidentais, o povo brasileiro vem sofrendo sistematicamente descargas de informações cavilosas para criar uma imagem negativa da causa de libertação da palestina, do povo árabe e do islamismo.

Essas práticas insidiosas tentam encobrir o papel de cabeça de ponte que Israel joga na estratégia de estender-se do Eufrates ao Nilo para apoderar-se do petróleo e das riquezas naturais de todo o Oriente Médio, em parceria com as grandes empresas multinacionais.

Há bastante tempo, pintam como sob impulso religioso as ações destinadas a resgatar a dignidade do povo palestino, sob ocupação estrangeira há 61 anos, com a violação brutal dos seus direitos às suas terras e das próprias resoluções da ONU. Omitem deliberadamente que milhares de palestinos tiveram suas propriedades confiscadas e hoje vivem em condições subumanas, abaixo de todas as linhas de referência social, não lhes restando senão lutarem pela sobrevivência mínima a custa do sacrifício das próprias vidas. Tais práticas, sem prejuízo da fé religiosa, são de natureza essencialmente política.

Quanto à exploração de correntes religiosas do islamismo para fins bélicos, é bom que você saiba que foi a CIA quem “descobriu esse filão” ao armar e treinar os afegãos que se insurgiram contra a influência soviética em seu governo. Até os idos de 1987, Osama Bin Laden era um bilionário saudita de forte pendor anticomunista e hábitos exóticos. Foram os americanos que lhe puseram a primeira arma na mão.

Ligações fantasiosas e novos riscos

Nesse episódio trágico de Realengo os manipuladores contumazes viram a oportunidade de associar seu protagonista a “grupos extremistas islâmicos”, que não existem em hipótese alguma entre nós, brasileiros. E se existissem assim, ao alcance de um esquizofrênico, nossas forças de segurança estariam comendo mosca e passando recibo da mais comprometedora incompetência.

Para isso, os manipuladores contam com a vulnerabilidade da opinião pública. Pois se há carradas de exemplos terroristas em escolas eles estão nos Estados Unidos da América, onde pelo menos 41 jovens participaram nos últimos anos de 37 atentados em recintos juvenis. Num deles, no dia 16 de abril de 2007, Cho Seng-hui, de 23 anos, matou 32 pessoas e feriu outras 25 no Instituto Politécnico da Universidade de Virgínia, gravando antes um vídeo em que declarava: "morri como Jesus, para inspirar fracos e indefesos".

A falta de seriedade no trato midiático do episódio de Realengo, a sua espetacularização a níveis incomensuráveis e a tentativa de alguns políticos aparecerem com os salva-vidas da pátria sinalizam, infelizmente, para probabilidades de ações com o mesmo impulso macabro.

O canto do desarmamento e o umbigo da sociedade

Só mesmo um decrépito sem escrúpulos como o senhor Sarney seria capaz de tirar casquinha na dor alheia, oferecendo a cortina de fumaça do plebiscito inócuo para retomar o debate sobre a proibição da venda de armas, como se o assassino de Realengo não tivesse condição de comprar revólveres se tal providência estivesse em vigor.

É claro que essa suposta panacéia voltará à tona até porque a sociedade humana é capaz de tudo, menos de olhar para seu umbigo. Refiro-me aos seres de todo mundo, que escorregam no desvalor da vida, exasperando ambições e sonhos individuais, numa guerra interpessoal alimentada por elementos mesquinhos cada dia mais perversos.

A tragédia na Escola Pública de Realengo infelizmente não será considerada como um alerta sobre os descaminhos de um mundo impregnado de sentimentos menores, de desejos insaciáveis, de sonhos de consumo doentios.

É da índole dos senhores dos cérebros buscar tirar proveito das tragédias humanas, pois é nessa hora que a mentira cai como uma luva, incorporando-se mansamente ao imaginário coletivo.

Mesmo que amanhã seja oficialmente proclamada a óbvia inexistência de vínculos entre o gesto tresloucado do jovem evangélico e o Alcorão, a massa já está embriagada pela primeira versão, disseminada repetidas vezes pela mídia num contexto de permanente massacre midiático: os muçulmanos vão penar como bodes expiatórios, com gente torcendo para que padeçam sofrimento semelhante aos das famílias dos 12 meninos de Realengo. Manifestações de intolerância em relação a eles já estão acontecendo, como o diabo gosta.



Leia também no blog PODRES PODERES:
Submissão ao império latrogenocida
Artigo oportuno do professor Adriano Benayron com análise da visita de Obama ao Brasil, com seus desdobramentos desfarováveis ao país.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Contribuição para entender a genealogia do massacre na escola pública em Realengo

Assassino pode ter assimilado a Bíblia a seu modo, tornando-se o algoz dos fornicadores e dos impuros

“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão”

Wellington Menezes de Oliveira, em sua carta escrita antes do massacre dos meninos da escola pública de Realengo.

Sejamos razoáveis: esse inusitado massacre numa escola pública do bairro proletário de Realengo é a erupção de um tumor nesse organismo social fragilizado por uma metástase de hipocrisia e mistificação.
Desde o infausto acontecimento, infelizmente, toda a mídia e as autoridades bóiam na superfície do torpor causado, contando para isso com palpites de "especialistas" contingenciados no limite dos seus focos profissionais e na precipitação de suas vaidades manipuláveis pelos holofotes.
Há de se reconhecer que o massacre dos meninos de Realengo impôs um excitado estado de choque em todo o país, cada pessoa olhando para seus entes queridos com a idéia de que tragédia fora de nosso catálogo c riminal poderá ser converter numa incontrolável bola de neve.
No próprio dia 7, outro rapaz foi detido na Escola Grécia, Vila da Penha, e levado para a 38º DP, sob suspeita de tentar outro massacre, conforme noticiou a Rádio Tupi. Daqui para frente, por algum tempo, uma espécie de síndrome de Realengo rondará os nervos em pandarecos dos pais, sobretudo nas escolas públicas mais distantes.
Autoridades, professores, "especialistas" pais e mídia, no entanto, permanecerão impregnados pela crença de que tudo não passou de um gesto tresloucado de um psicopata, sobre cuja patologia individual especularam durante todo o dia de ontem.
As vítimas serão sepultadas por conta da Prefeitura, com o país oficialmente de luto, e já se fala numa assistência psicológica para os sobreviventes. Aqueles meninos cheios de sonho não se livrarão tão cedo do pesadelo provocado por um tipo de violência que parecia exclusiva dos Estados Unidos e de alguns outros países ricos, onde as aberrações dessa magnitude substituem preocupações elementares de sobrevivência, exacerbam as idiossincrasias individuais e enfatizam a irresponsabilidade social, a ausência dos sentimentos e a decadência dos valores matrizes da vida.
Para a mídia, a novidade criminosa acen tuou a concorrência entre os veículos, cada um em busca de informações e análises exclusivas. Alguns canais de televisão e algumas rádios se concentraram na repercussão do morticínio, motivados por impulsos naturais de um jornalismo que se esgota em si.
O inteligente depoimento da menina Jade Ramos, de 12 anos, com um relato frio e detalhado dos momentos de tensão vividos, foi repetido muitas vezes. Também ganhou destaque a ação do sargento Márcio Alves, de 38 anos, acionado por uma menina ferida quando participava de um blitz de trânsito a duas quadras da escola, já que ninguém se lembrou de recorrer ao 190 da PM.
Mas ninguém quis ou soube descer às profundezas de um contexto que fez do jovem Wellington Menezes Oliveira, filho que havia perdido os pais adotivos, um verdadeiro monstro, responsável por mortes tão perversas que levou a presidente Dilma Rousseff às lágrimas.
Pelo menos por agora , é pobre e medíocre o rol das causas do gesto assassino. Dizer que o rapaz solitário era um psicopata é fácil. Tratar do seu gesto nos limites de uma escrizofenia qualquer acadêmico de medicina o faria. Mas ir muito além, como fez Mike Moore, o inquieto cineasta norte-americano, no caso da matança em Columbine, isso vai levar um tempo para que caia a ficha.
No caso do filme-dcoumentário Tiros em Columbine, ele expôs as entranhas de um ambiente em que se juntavam a obrigatoriedade do armamento de cada cidadão, conforme a Segunda Emenda da Constituição dos EUA, e as incoerências de uma sociedade falsamente puritana, sob governos pródigos em se envolverem em guerras e no patrocínio da violência desumana em terras alheias.
Mas aqui, embora a superexposição do noticiário sobre massacres em escolas americanas tenha um peso como modelo para o massacre de Realengo, há outros fatores tão graves que justificam a paranóia disseminada a partir de ontem.

Na carta do assassino, a influência bíblica mal-assimilada

A semiologia da carta digitada e assinada pelo assassino permite conhecer elementos determinantes de sua atitude megalomaníaca. Ele usa palavras extraídas da Bíblia, como FORNICADOR, sobre a qual se lê em Apocalipse 21:8: "Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte".
No Deuteronômio, do Velho Testamento, está escrito em 22:20-21: "Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, 21 Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti".
Não há dúvida que, pressionado pela condição de filho ad otivo provavelmente discriminado pelos irmãos, cuja mãe biológica tinha problemas mentais, e possuído de um certo complexo de rejeição, ele acabou sofrendo influências da pregação evangélica, que ocupa grandes espaços na televisão e no rádio, oferecendo todo tipo de cura para todo tipo de problema.
A forma irresponsável como pastores sem escrúpulos arrecadam dinheiro para suas igrejas em troca de uma panacéia salvadora tem produzido inconsequentes espetáculos midiáticos que atraem multidões de seres humanos desenganados por si e em bsuca de uma tábua de salvação.
O poder dessas igrejas se lastra em encenações transmitidas para todo o país, em tevês abertas, enfatizando o espetáculo da salvação e da cura. Paralíticos voltam a caminhar, cegos a ver e doenças incuráveis são resolvidas com a simples intervenção do Senhor Jesus, do qual esses profissionais da fé se acham legítimos intermediários.
Daí para levar um jovem tímido e complexado a assimilar poderes excepcionais emanados do fundamentalismo bíblico é um passo. Toda a carga negativa se converte em dotes geradores de atitudes que refletem temporariamente a condição superior, acima do bem e do mal.
No contexto mais amplo, o vasto noticiário sobre delitos do colarinho branco e sobre o comportamento imoral de pessoas públicas influentes serve de condimento à forja de um personagem que se "liberta" do sofrimento racional e ganha armadura onírica.
Valores como a vida dos outros somem do juízo e passam a co mpor a fórmula purificadora que a mente, transtornada por lavagens cerebrais constantes, desenvolve como elementos explosivos irrefreáveis.
Eu diria que a utilização da grande mídia como transmissora de pregações religiosas extravagantes pode estimular desatinos como o que custou tantas vidas inocentes. A religião não pode se valer de um exibicionismo espetaculoso sem limites para ampliar o rebanho. Por sua natureza sacra, extrapolar o portal do templo, do consultório espiritual discreto favorece a todo tipo de interpretação da mensagem de Deus, tão importante como bálsamo para pessoas carentes de práticas religiosas compensatórias.
Por enquanto, vou ficando por aqui. Mas com certeza há ainda muitos ingredientes na raiz do gesto assassino que a tantas vidas meninas ceifou.

sábado, 2 de abril de 2011

Explodiu mais um bueiro da Light privada. Copacabana, meu amor, pergunta: qual será a próxima explosão?

Na maior cara de pau, o próprio presidente da empresa admite novas tragédias

‘‘Não há como negar que, nos últimos anos, o Brasil destruiu sua política energética’’.
Liliana Yang, analista da área de energia do Bear Stearns, banco de investimentos de Nova York.
Na foto do jornal EXTRA, o quadro da destruição que poderia ter sido mais grave

A explosão de mais um bueiro da Light em Copacabana tem pelo menos dois méritos: 1. Oferece ao nosso mais excitante cartão postal a sensação privilegiada de uma bomba, como essa que a “coalizão” colonialista está despejando sobre a Líbia. 2. Faz saltar aos olhos dos desavisados que essa empresa, como, aliás, toda e qualquer concessionária de serviços públicos essenciais, jamais poderia ter sido privatizada, jamais poderia ter escapado ao controle social dos usuários.

Claro que essas explosões são pintos diante de um míssil Tomahawk, despejado às centenas sobre Trípoli, causando mortes de dezenas de civis, como denunciou o bispo católico Giovanni Innocenzo Martinelli. Mas as pessoas que viram uma placa de aço de 4 metros por dois subir a uma altura de cinco metros e destruir um táxi, seguida de chamas que alcançaram o segundo andar dos prédios pensaram que estavam diante de um inusitado ataque terrorista. (Clique aqui e veja filme de morador postado no You Tube)

Não é a primeira vez que o bairro mais internacional do Rio de Janeiro passa por susto dessa natureza. No dia 29 de junho do ano passado, a explosão de um bueiro na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com República do Peru arremessou a norte-americana Sara Nicole Lowry, com as roupas em chamas, a uma distância de 8 metros: ela passou um bom tempo internada com queimaduras em 80% do corpo, enquanto seu marido David James Mclughlin, também atingido, teve 35% do corpo queimado.

Uma semana depois, outro bueiro explodiu na Rua Figueiredo Magalhães, danificando o táxi de Anderson Oliveira Campbel. Depois, foi na esquina da Hilário de Gouveia. O Centro da cidade também não escapou à sanha dos bueiros da Light: duas explosões levaram pânico aos transeuntes em plena Avenida Rio Branco. Levantamento superficial indica que pelo menos 30 bueiros da Light explodiram nos últimos meses e o próprio presidente da empresa admite que tragédias semelhantes poderão acontecer ainda.

Na explosão de ontem, o prefeito Eduardo Paes deixou cair a ficha, assustado com a existência de 4 mil estações subterrâneas da Light, das quais duas mil em petição de miséria, como a que poderia ter causado um verdadeiro morticínio, se o sinal não estivesse fechado para a travessia de pedestres: “É o fim das desculpas bobas. Precisamos saber o que a Light realmente está fazendo. O que vimos aqui hoje é uma cena de terrorismo. Ano passado quase tivemos uma turista morta e ontem também tivemos gente ferida. Vamos fiscalizar com mais rigor, com punições mais severas, já que se trata de concessão de utilização de solo do município. Falhas técnicas como esta não podemos mais aceitar”.

Uma farra com o dinheiro dos consumidores

Não tenho a menor dúvida: uma concessionária de energia elétrica mal administrada pelo Estado ainda é menos nociva do que uma privatizada - a Light que o diga. No primeiro caso, ela é mais sujeita ao descontentamento da população. No segundo, seu foco deixa de ser a prestação de serviços para entrar na cirando da caça ao lucro a qualquer preço, no que isso significa de mais rasteiro – corrupção de autoridades fiscalizadoras e uma boa articulação na Justiça através de advogados topes de linha.

Em matéria de péssimos serviços e extorsão dos consumidores a Light não detém a exclusividade da prática, até porque são bons amigos das concessionárias – alguns ex-funcionários – os gestores da tal Agência Nacional de Energia Elétrica.

Maior exemplo disso foi dado agora em janeiro, quando, apesar das evidências constatadas pelo Tribunal de Contas da União e por uma CPI da Câmara Federal, a ANEEL legitimou a punga de quase 10 bilhões de reais de que foram vítimas desde 2002 os consumidores de todo o país, e se negou a determinar a devolução de cobranças a maior.

Ao contrário, além de livrar as caras das concessionárias, a ANEEL está autorizando para este ano aumentos que vão até 12% - e já há um indicativo que até 2014, ano da Copa, a majoração chegará a mais 30%.

Tarifa  nas nuvens – serviços no fundo do poço

Para se ter uma idéia da farra, veja: A Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia Elétrica mostrou que de 2001 a 2010 os reajustes da tarifa de luz foram de 186%, o dobro da inflação no período, que foi de 89,94% (IPC-A).

Há dados ainda mais enlouquecedores: desde a privatização da Light, em 1996, os aumentos das tarifas subiram à estratosfera: só de 1998 a 2005, chegaram a 256%, segundo o Comitê de Indústrias da Associação Comercial do Rio de Janeiro. Só no primeiro ano da Light privada, em 1996, segundo o IDEC, a tarifa subiu 40%. Levantamento do DIESE/Sinergia vai mais além: Entre 1997 e 2007, enquanto o acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, atingiu 93,53%, na região Sudeste o reajuste médio de energia elétrica totalizou 327%.

Em 1998, auge do programa de privatização brasileiro, uma família de classe média, formada por quatro pessoas e com renda mensal de R$ 2 mil, gastava entre 1% e 2% de seu orçamento com a conta de luz. Cinco anos depois, esta mesma família, com o mesmo salário, desembolsava entre 8% e 11% dos rendimentos com o serviço.

Quando vale tudo na caça ao lucro selvagem

Ao ser docilmente privatizada por US$ 2,26 bilhões (30% em moeda podre), a Light mandou embora de cara 3 mil e 800 dos seus 9 mil empregados, a grande maioria na área de reparos e manutenção, conforme denúncia do presidente do Sindicato dos Urbanitários à época, Luiz Carlos de Oliveira.

Isso porque a empresa mudou seu foco, passando a priorizar o valor de suas ações e os negócios na Bolsa, com a "otimização dos custos". Tanto que já andou de mão em mão desde que foi arrematada em conluio pela estatal francesa Électricité de France (EDF, que ficou com 34% das ações) e as norte-americanas Houston Industries Energy e AES Corporation (11,35%, cada), juntando-se aí aportes da CSN já privatizada e do BNDES.

Em 2002, através de manobras, a EDF já tinha 94,5% das ações. Em março de 2006, a EDF Internacional, até então controladora do Grupo Light, vendeu 79,57% das ações da Companhia para a RME – Rio Minas Energia Participações S.A., empresa controlada pela Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG, com a participação da Andrade Gutierrez Concessões S.A., Pactual Energia Participações S.A. e Luce Brasil Fundo de Investimento em Participações (“Luce”).

Nessa ciranda, rolou muito dinheiro, muita gente ganhou comissões, enquanto a empresa, agora sob hegemonia da CEMIG continuou se deteriorando, num corpo de delito indisfarçável sobre o balaio de distorções decorrentes da privatização. Resultado: hoje não podemos dizer que temos empresas de eletricidade, mas balcões de negócios que também distribuem energia a preços exorbitantes, como mostrei acima.

O resultado é que, ao contemplar os estragos da explosão dessa sexta-feira, dia 1 de abril, os moradores do Rio de Janeiro se perguntam: qual será a próxima? Preocupada somente com o lucro saboroso, a Light esqueceu de investir nos seus equipamentos e reduziu seu pessoal, ao contrário do que constava de suas metas. Agora, admite oficialmente que 2 mil transformadores subterrâneas precisam ser trocados.
Essas explosões cada vez mais assustadoras são apenas uma faceta dos péssimos serviços de uma concessionária, focada no mercado financeiro e sem qualquer compromisso com a população.

Onde moro, infelizmente, toda vez que cai uma chuva mais braba, a luz vai embora e nos deixa nas trevas por horas a fio. Trevas que são a marca indelével da criminosa cerimônia de privatização-doação do patrimônio público brasileiro. Algo que jamais poderia ter acontecido se o Brasil tivesse à sua frente homens públicos realmente vocacionados.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Com a CIA por trás dos “rebeldes líbios”, cai mais uma máscara da cobiça ao petróleo alheio

Como os “rebeldes” perdem terreno,  a "coalizão" agressora já está buscando mercenários das empresas militares que operam no Iraque

"Países muçulmanos, incluindo a Arábia Saudita, Iraque, Irão, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Iêmen, Líbia, Egito, Nigéria, Argélia, Cazaquistão, Azerbaijão, Malásia, Indonésia, Brunei, possuem de 66,2 a 75,9 por cento do total das reservas de petróleo, conforme a fonte e a metodologia da estimativa"

Michel Chossudovsky, The "Demonization" of Muslims and the Battle for Oil, Global Research, 04/01/2007

No bombardeio ao bairro de
 Kadhafi 40 civis foram mortos
Agora, que toda mentira foi desnudada, que Barack Obama, tutelado por Hillary Clinton, porta-estandarte da elite de olhos azuis, deixou cair na lama o charme charlatão, agora que ele jogou no ventilador o capcioso prêmio Nobel da paz, assumindo o personagem do mau caráter que despachou agentes para incendiar a Líbia, gostaria de saber o que fará a diplomacia brasileira para consertar a própria trapalhada no Conselho de Segurança da ONU, naquele infausto 17 de março em que alguns países deram uma carta suja para uma agressão estrangeira a um país que não está em guerra com outro e que apenas tenta manter a unidade nacional e o controle sobre suas riquezas.

Sim, porque agora a própria resolução fatídica é lixo só: não tem uma única cláusula de valia, não tem serventia para mais nada. A qualquer melodramático diplomata abstêmio fica difícil explicar à distinta platéia como países vividos comeram mosca numa manobra tão reles com o papelucho que foi usado para sacramentar a cobiça ensandecida dos céus, terras e mares de toda a África do Norte e adjacências, do Oriente Médio e de todos os países muçulmanos.

Agora, o próprio presidente dos Estados Unidos da América confessa na maior cara de pau que seu sonho de consumo é derrubar o governo constituído da Líbia, introduzindo na área, por baixo dos panos, agentes e mercenários da CIA, juntamente com farto arsenal de armas e munições, já que nem os bombardeios mortíferos, nem a guerra midiática encomendada meteram medo em Kadhafi e no seu povo que, como demonstram os fatos reais, parecem decididos a resistir, não importa o sacrifício e as perdas de inocentes atingidos pelos mísseis made in USA de última geração, conforme denúncia endossada pelo insuspeito bispo católico de Trípoli, Giovanni

CIA contrata empresas militares

Agora, a mídia se vê obrigada a revelar, como o NEW YORK TIMES e a Reuters, que desde muitos dias atrás, antes, portanto, da chancela da ONU, os agentes da CIA abarrotados de dólares já estavam infiltrados em Benghazi, em manobras cavilosas para incensar rivalidades tribais e manipular a justa ansiedade de jovens desempregados, com o objetivo de dar um bote que garanta no epílogo das escaramuças o terreno livre para a conquista mansa e inercial das jazidas petrolíferas que somam mais do dobro de todo o estoque do pomposo império decadente, de olho no vasto manancial dos países muçulmanos - mais de dois terços das reservas mundiais conhecidas.

Agora, não tem mais ONU, não tem mais desculpas, não tem mais cortinas de fumaça, não tem mais conversa pra boi dormir. Os Estados Unidos e seus sócios – especialmente França e Inglaterra – estão bancando a contratação das modernas legiões estrangeiras, os mercenários (contractors) das private military company (PMC), montadas pela Halliburton e pela Blackwater, que já terceirizam a matança no Iraque e no Afeganistão. E já submeteram os “rebeldes” ao comando de Khalifah Hifle, agente da CIA, conforme revelou Pepe Escobar do Asia Times, em matéria publicada no site da redecastorphoto” -
Já o comando da OTAN desistiu de enviar mais armas aos adversários de Kadhafi, além das que estão entrando pela fronteira do Egito, com ajuda financeira da CIA, França e do Katar. Com informações privilegiadas, teme que esse armamento caia nas mãos das tropas leais ao líder líbio. Na reconquista de posições no Leste, já acercando-se de novo de Benghazi, o Exército e as milícias populares usaram menos a artilharia e surpreenderam com a ajuda da população das cidades reconquistadas.

Na guerra do petróleo, querem excluir a China

O ditador invisível que manipula os cordéis de Barack Obama não gostou de saber que a Chevron e a Occidental Petroleum (Oxy) decidiram em outubro passado fazer as malas da Líbia, abrindo espaço para a China National Petroleum Corp (CNPC), que já participa da exploração em vários países da África do Norte e compra 11% do petróleo líbio, com possibilidade de triplicar a encomenda tão logo haja disponibilidade. Até o levante de fevereiro, 30 mil chineses trabalhavam na Líbia a serviço da CNPC.

Isto porque importar petróleo que ajuda a extrair da Líbia é o melhor negócio da China. Com o preço do barril a mais de US$ 100, o custo da extração não passa de US$ 1,00 por barril. Desse óleo de altíssimo rendimento, 80% vêm do Golfo de Sirte, no leste do país, onde ficam Benghazi e Lanuf Ra's, e alguns chefes tribais que sonham com a boa vida monárquica de paxás.

Trocando em miúdos, os alcunhados rebeldes líbios, mesmo já subordinados aos agentes da CIA, vão começar a ser substituídos por contratados dessas empresas militares, que são a última moda em guerra de agressão, com mestrado em Abu Ghraib e Guantánamo, e serão enviados para algum campo de treinamento de país "amigo" para voltarem em outra fasedo conflito, que os senhores das armas desejam demorado.

O orfanato do Itamarati conhece muito bem o Relatório 200 do Project of the New American Century (PNAC) intitulado "Rebuilding Americas Defenses", que cristaliza a teoria das “guerras simultâneas de conquista” e serve de base para a política externa que Obama assinou embaixo. Uma política externa ao gosto do complexo industrial-militar-financeiro e de outros interesses escusos, maliciosamente manipulados pelo sionismo e pelo “Opus Dei”.

Ou o Brasil se mexe ou fica mal na fita

A ironia do destino pôs para dar o cavalo de pau na nossa política externa um cara chamado Antônio Patriota, que tem no seu prontuário dois anos como embaixador do Brasil em Washington (2007 a 2009), de onde saltou para a Secretaria Geral do Itamarati já com a encomenda de desmontar o trabalho do embaixador Samuel Guimarães, o grande formulador da doutrina soberana. Daí para virar titular foi mole: o que não faltou foi “QI”.

O governo brasileiro tem a obrigação de reverter esse mico que pagou ao abster-se diante de uma resolução que desrespeita a própria Carta da ONU, forjada exclusivamente para embasar um projeto de pirataria de desdobramentos imprevisíveis, até porque os países associados também não se entendem e Obama está em maus lençóis: pesquisa da Associated Press-GfK mostrou que os norte-americanos não apóiam a aventura, enquanto congressistas temem que milhões de dólares saiam pelo ralo e não tenham retorno.

Se quiser fazer alguma coisa de útil, além de declarações lançadas ao vento, a Chancelaria brasileira dispõe de grandes espaços de articulação. A maioria dos países árabes viu que amarrou seu camelo no tronco errado e agora está sem saber o que dizer em casa. Dos 24 integrantes da Liga Árabe, só 6 foram à reunião de Londres, convocada nessa quarta-feira para discutir a hipotética Líbia pós-Kadhafi: Iraque, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Tunísia e Líbano. Nem a Arábia Saudita deu as caras por lá.

O questionamento da intervenção estrangeira com o objetivo agora mais explícito de implantar um governo títere para tomar conta do petróleo alheio é responsabilidade também dos nossos deputados e senadores, das entidades da sociedade civil e dos defensores da soberania brasileira. Com essa crise indisfarçável nas “potências” ocidentais ninguém pode se sentir seguro no domínio de suas riquezas. Pode parecer exagero, mas não me surpreenderia se esses países já não listaram o Brasil em seus projetos coloniais.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.