terça-feira, 29 de março de 2011

Atentado a um blogueiro e o silêncio de quem nunca calou

Um crime em plena luz do dia, numa rua movimentada de Copacabana, ainda não tem resposta da polícia 7 dias depois.

"Não interessa se Ricardo Gama é advogado e não jornalista formado. A atividade dele é claramente jornalística. Onde estão a OAB, a ABI, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e o próprio Sindicato dos Jornalistas, mesmo ele não sendo associado, mas que sempre se posicionaram em casos semelhantes? Todo mundo vai continuar ignorando a ameaça que paira sobre o Rio de Janeiro?".

Anthony Garotinho, deputado federal (PR-RJ).

Esta é a última página de Ricardo Gama, vítima de atentado à bala
Às onze horas da manhã, a rua Santa Clara, que liga o Bairro Peixoto à Copacabana, tem sempre um grande movimento. Nesses dias de sol quente, esse movimento dobra. Quem vem de Botafogo para a praia pelo Túnel Velho tende a usá-la, tornando o seu trânsito meio lento.

Pois foi ali, naquele burburinho, que o advogado e blogueiro Ricardo Gama foi vítima de um atentado na quarta-feira, 23 de março. Um homem que dirigia um Ford K prata disparou três vezes contra ele, na cabeça e no peito.

Ricardo Gama foi socorrido na hora e levado para um hospital particular, ali perto. Submetido a duas operações, sobrevive e aparentemente está fora de perigo: segundo informação do hospital Copa D’or, Ricardo está lúcido e caminha com o auxílio de fisioterapeutas.

Primeiro atentado conta blogueiro

Esta é talvez a primeira tentativa de assassinato no Rio de Janeiro de alguém que mantém um blog na internet. É um crime bárbaro e covarde, e, no entanto, a nossa mídia tem falado muito pouco ou quase nada a respeito. Reclamado, pedido apuração rigorosa, nem pensar.Por alguma razão que só Deus sabe, o máximo que faz é dar notinha de pé de página, quando dá.

Quem acompanha o corajoso trabalho do blogueiro não tem dúvida: trata-se de um crime político. Sua atuação, que põe muitos jornalistas de carteirinha no chinelo, tem incomodado muita gente, principalmente o governador Sérgio Cabral e os policiais corruptos, frequentemente denunciados em seu blog.

Com uma pequena câmera, Ricardo Gama vinha documentando abusos de poder. É seu o vídeo que circulou por toda a internet, quando Lula veio visitar as obras do PAC em Manguinhos e Sérgio Cabral bateu boca com um garoto, a quem chamou de otário, deixando de considerar suas queixas em nome da comunidade.

Quando fecharam os acessos de Copacabana para o show de Roberto Carlos, no fim do ano passado, ele foi ouvir os moradores prejudicados, que não podiam chegar às suas casas, exatamente no bairro onde foi baleado e onde mora.

Na visita de Obama, postou um vídeo em que apontava com arbitrária a prisão de 13 manifestantes, que participaram de um protesto em frente ao Consulado dos Estados Unidos, Na sua fala, fez também uma pesada carga contra a Justiça, que manteve os manifestantes presos até que o presidente dos Estados Unidos fosse embora.

A polícia já admite que identificou o dono do veículo de onde fizeram os disparos, a partir das gravações dos prédios próximos. Essa foi a única informação liberada até agora. Mas pelo cenário do crime, com a quantidade de pessoas na rua movimentada, era de se esperar notícias mais concretas.

O silêncio da OAB e da ABI que nunca calaram

Havendo uma vontade real de chegar logo ao autor dos disparos, a polícia fluminense tem meios técnicos para apresentá-lo rapidamente.

Só não entendi até agora a omissão da OAB em relação a um atentado a um advogado. Esse crime não atinge somente a pessoa de Ricardo Gama. Antes, é uma ameaça que alcança a todos os cidadãos, ao sagrado instituto da liberdade de expressão.

Da mesma forma, esperava que a ABI tomasse a frente de alguma iniciativa no sentido do rápido esclarecimento do caso, até porque seu presidente, Maurício Azedo, sempre foi um atento defensor da liberdade e da integridade dos profissionais de comunicação e dos cidadãos. 

O blogueiro é hoje um comunicador, integra a mídia com uma ferramenta que é a sua mais plural e democrática novidade. Logo no início, o atentado foi um dos dez assuntos mais comentados no twiter, segundo a jornalista Berenice Seara, do EXTRA.No entanto, a única entidade que se manifestou claramente foi a Repórteres sem Fronteiras.

Hoje há milhões de comunicadores que chegam até a opinião pública através de sites, blogs e redes sociais. Eles encarnam a liberdade de expressão no seu alcance mais amplo e mais pujante, rompendo com a ditadura de uma mídia cada vez mais concentrada.

Será que os blogueiros terão de se organizar em entidades próprias, estabelecendo medidas de defesa dos seus direitos à liberdade com uma linguagem específica?

No Brasil, a internet ainda não chegou a um estágio de influir e mobilizar como em outros países do mundo. No entanto, já começa a registrar casos de intolerância a níveis mortíferos. Isso que aconteceu com Ricardo Gama, não tenha dúvida, pode virar moda. Principalmente se a sociedade civil organizada não agir a tempo de punir exemplarmente os autores de um atentado tão covarde – quem atirou e, se for o caso, seus possíveis mandantes.

O deputado Garotinho chegou a pedir uma comissão externa da Câmara Federal para acompanhar o caso. Mas não me consta que aqui na Assembléia Legislativa tenha sido tomada qualquer iniciativa para levar ao rápido esclarecimento do atentado.

Até que isso aconteça, provavelmente milhares de blogueiros estão se sentindo inseguros, como aconteceu com as rádios comunitárias.

Daí, de imediato, a convocação de uma manifestação para esta quarta-feira, dia 30, às 7 da noite, na praça do Bairro Peixoto, junto ao local onde aconteceu o atentado.

Quem sabe se ali não surge o embrião de uma organização própria em defesa da liberdade de expressão dos milhares de blogs e sites da internet?

Para conhecer o blog de Ricardo Gama clique em http://ricardo-gama.blogspot.com/

domingo, 27 de março de 2011

Para além da fraude que encobriu a intervenção estrangeira na Líbia

O Brasil entrou de gaiato ao fazer da abstenção um “nada opor”  
à agressão encabeçada pelos EUA

“Kadhafi representa o controle dos recursos da Líbia por líbios e para líbios. Quando ele chegou ao poder dez por cento da população sabia ler e escrever. Hoje, é cerca de 90 por cento a taxa de alfabetização. As mulheres, hoje, têm direitos e podem ir à escola e conseguir um emprego. A qualidade de vida é de cerca de 100 vezes maior do que existia sob o domínio do rei Idris I”.

Timothy Bancroft-Hinchey, em “Líbia, toda a verdade”, publicado no Pravda, da Rússia.
Só no primeiro dia, 110 mísseis Tomahawk (que custam US$ 1,5 milhão de  dólares cada) foram disparados por navios e submarinos americanos, matando 42 civis líbios.
Essas incursões mortíferas das grandes potências à Líbia compõem uma requintada farsa que cristaliza um perigoso procedimento de múltiplas facetas. O mais acintoso é a leitura de conveniência que fazem de uma resolução mal acabada do Conselho de Segurança da ONU, graças à qual bombardeios de aviões e mísseis, violando o prescrito, operam  uma verdadeira intervenção estrangeira, visando a derrubada do líder Muamar Kadhafi e usando os bandos sediciosos como suas colunas em terra.

É uma fraude calculada que só foi possível devido à colaboração, pela omissão, de países que sabiam claramente da falácia dessa impostura, chamada zona de exclusão aérea. Sabiam, disseram que ia dar no que deu, mas preferiram fugir da raia, chancelando a agressão.

A resolução da ONU é um primor de cinismo direcionado, ao abrir brechas para manipulações ao gosto dos agressores, o que, diga-se de passagem, pelo menos no que diz respeito à França, foi só um tapa-buraco burocrático. Seus aviões já estavam agindo mesmo antes da formalização da carta branca.

O resultado concreto desse conluio é a recomposição dos grupos revoltosos, que iam ser derrotados no sábado em que começaram as incursões estrangeiras. Não se pode dizer que essa ofensiva atípica esteja predestinada a uma vitória, nos termos sonhados pela chamada “coalizão”. No entanto, haja o que houver, a Líbia sairá totalmente fragilizada desses episódios, tornando-se vulnerável à saciedade das potências coloniais.

Insegurança para todos

Essa fraude remete a muitas reflexões. Que país pode se sentir seguro diante de um quadro tão farsesco? Tudo o que se alegava era que uma força internacional seria necessária para proteger civis dos ataques do exército regular. A primeira mentira aí é que não há civis nas praças, como aconteceu no Egito. Há, sim, grupos fortemente armados no exercício de ataques com armas pesadas. Grupos que têm em suas fileiras muitos militares desertores, inclusive de artilharia.

Isso a mídia mercenária não pôde esconder. Ao contrário, toda hora exibe “rebeldes” dando tiros à toa como se tivessem munição de sobra.

Pior ainda é o próprio estatuto casuístico de que se serviu o Conselho de Segurança. O direito internacional terá de presumir sua interferência em conflitos entre países ou em missões de paz, desde que solicitadas por governos constituídos. Não é o caso da Líbia.

Nas matanças de Gaza, nada se fez

Foi, sim, o caso do morticínio promovido em Gaza pela aviação e por foguetes israelenses do dia 28 de dezembro de 2008 a 18 de janeiro de 2009, 21 dias de atrocidades, com um total de 1.412 palestinos mortos. Nesse longo período, o Conselho de Segurança babou e os EUA usaram seu poder de veto para impedir todo e qualquer ato que freasse a ação ensandecida promovida por Israel. A lixeira de Jerusalém, aliás, coleciona dezenas de resoluções da ONU em todos os níveis, e não aparece uma viva alma para chamar seu governo às falas. E a mídia não fala mais nisso.

A fraude que está ensejando matanças indiscriminadas na Líbia também assinala com ênfase a falência do instituto da soberania nacional. Você estará sendo levianamente irresponsável se considerar que o bombardeio em outro país, para favorecer insurretos, tem algum escopo moral.

No caso específico, autoridades mais lúcidas já vinham antevendo as intenções das potências ocidentais em embarcar na onda de descontentamentos em alguns países árabes para alvejar aquele que ia melhor das pernas na consecução de um projeto social de grande alcance: Kadhafi inverteu as taxas de analfabetismo – de 90 para 10%, registra o mais alto IDH da África, (0,755,em 53° lugar no mundo, comparável aos 0,699 do Brasil, em 73°) e está num processo de modernização que prevê grandes investimentos, incluindo a construção de 1 milhão de casas em dez anos para uma população total de 6,5 milhões.

A Líbia de Kadhafi administrava com equilíbrio as rivalidades tribais atávicas e ainda oferecia refúgio para 1 milhão e meio de egípcios e outros milhares de africanos. Com a sedição de Benghazi, reacenderam-se feridas a partir de algumas tribos da região da Cirenaica, uma das três províncias do país.

Obama despontou até seus correligionários

A fraude que deu na agressão à Líbia aconteceu quando Barack Obama visitava à América Latina, de olho no petróleo do pré-sal brasileiro e na transformação da China no principal comprador do Brasil, Chile e Argentina. Essa visita foi tão burlesca que, depois dela, o governo anunciou a importação de álcool dos Estados Unidos, algo jamais pensado, mas causado pela ganância dos usineiros brasileiros (isso ainda vou comentar).

O títere da ditadura invisível quer porque quer criar fatos sensacionais para recuperar a imagem desbotada, e está tomando atitudes tão desesperadas que conseguiu irritar até os aliados: em geral, decisões dessa natureza são previamente submetidas ao Congresso.

O deputado Dennis Kucinich, do seu partido, aventou a possibilidade de pedir o seu impeachment por conta de sua atitude irresponsável sob todos os aspectos. Com o apoio dos também democratas Barbara Lee, Mike Honda, Lynn Woolsey e Raúl Grijalva ele acusou Obama de "mergulhar outra vez os Estados Unidos numa guerra que não podemos financiar". O grupo foi mais além ao afirmar que o deslumbrado presidente entrou numa “guerra precipitadamente com um conhecimento limitado da situação no terreno e sem uma estratégia de saída".

Até mesmo na mídia norte-americano houve restrições a essa ordem de agressão. O analista político Michael Walzer questionou: “O objetivo é resgatar uma rebelião fracassada, que as tropas ocidentais façam o que os rebeldes não puderam fazer sozinhos: derrubar Kadafi? Ou é apenas mantê-los lutando pelo maior tempo possível, com a esperança de que a rebelião pegue fogo e os líbios dêem cabo em Kadafi por si mesmos? Ou é apenas chegar a um cessar-fogo? Parece que nem os envolvidos no ataque são capazes de responder a essas questões”.

Apesar da boa vontade de alguns jornalistas, quem realmente ordenou a primeira carga pesada de mísseis foi Obama. Só que sua atitude foi tão indigna que ele tenta dar a entender que está tirando o corpo fora -  mais uma grosseira lorota que quem tem o mínino de tutano  não pode engolir.

Já Nicolas Sarkozi amarga uma sucessão de derrotas em eleições locais e dificilmente será reeleito, conforme as tendências registradas hoje. Ele apela e tenta reacender nos franceses de centro e da direita o velho gosto colonial compensatório, em meio aos escândalos de corrupção, favorecimentos e subtração de direitos sociais. Não é diferente a atitude do premier britânico, David Cameron, que neste sábado foi alvo de umas das maiores manifestações de rua em Londres, em protesto contra os cortes orçamentários, que afetarão a vida dos ingleses.

A vacilação que pode custar caro ao Brasil

Essa fraude também arranhou a política externa brasileira, que  nos últimos anos havia resgatado  o sonho iniciado com Jânio Quadros, João Goulart, Afonso Arinos e Santiago Dantas. Graças a uma ostensiva priorização dos nossos interesses, o Brasil vinha sendo uma referência obrigatória juntamente com seus parceiros do BRIC (Rússia, Índia e China).

Só se pode atribuir a vacilação no Conselho de Segurança à inexperiência da presidente Dilma Rousseff e a incompetência do seu chanceler Antônio Patriota, um diplomata medíocre, que parece saído do “orfanato” - como o ex-chanceler Azeredo da Silveira definia o Itamarati acuado no tempo da ditadura.

Junto com essa decisão, o Brasil também entrou na pilha das manobras contra o governo do Irã, embarcando na velha tática de brandir a questão dos “direitos humanos”,como fenda para forjar a intervenção externa nesse país. O governo Dilma não pode cair numa esparrela: por que também não votam uma investigação sobre as bárbaras violações na prisão de Guantánamo, que o próprio Obama prometeu desativar e deixou o dito pelo não dito? E no Iraque? E O tratamento perverso dispensado aos palestinos e árabes em geral pela polícia política de Israel? Eles podem barbarizar? O Brasil nada faz contra tais perversidades, apesar do acúmulo de denúncias?

Visto para além dessas agressões moralmente insustentáveis contra a Líbia, o mundo que acredita na soberania dos povos está perigosamente vulnerável. Nós já vivemos ameaça semelhante, em 1964, só que não foi preciso o apoio da frota norte-americana estacionada de frente para o nosso litoral. Aqui, derrubaram o governo no grito.

PALANQUE LIVRE BLOQUEADO
Dessa vez, tiraram do ar o  site do Palanque Livre, por onde enviava o JORNAL ELETÔNICO POR CORRESPONDÊNCIA. Fiquei imobilizado até que o preparadíssimo  Ruben Albuqueque, cobra em informática,  viesse em meu socorro e procedesse a transferência do programa de e-mail para o domínio pedroporfirio.com.
Graças a esse jovem, da boa safra da UFRJ, você está recebendo minha matéria por outro endereço. No entanto, ainda vou depender de algumas providências para recuperar os e-mails que estavam no pop.palanquelivre.com. Se isso não for possível, comunicaei aos amigos, pois em alguns há material para novas colunas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O bem e o mal na decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa

Por ironia, João e Janete Capiberibe, íntegros, haviam sido atingidos pela Lei da Ficha Limpa, enquanto Maluf  foi empossado como se não tivesse ficha suja.
Não me surpreende a decisão do Supremo Tribunal Federal de tornar sem efeito, agora, a chamada Lei da Ficha Limpa.  Aliás, nada me surpreende nessa corte, cujos ministros são indicados pelo Presidente da República e chancelados pelo Senado Federal.

Isto quer dizer: ao contrário do que se exige de um candidato a juiz de primeira instância, não é necessário nenhuma prova de mérito. A escolha é política. Quem tentar dizer o contrário estará querendo nos fazer de trouxas.

Esse meu preâmbulo não presume censura diante da decisão. Independente da frustração assinalada, a seriedade impõe o reconhecimento de que, nesse caso, o Supremo observou literalmente o previsto no artigo 16 da Constituição Federal:

“A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”.

Como a Lei Complementar 135 foi sancionada em 4 de junho de 2010, sua aplicação no pleito realizado 4 meses depois afigurou-se um ato exclusivamente político, sem o amparo jurídico indispensável.

Confusão armada

Da mesma forma, o reconhecimento de que a decisão foi “tecnicamente” correta não absolve o Judiciário da tremenda confusão que armou a partir das várias situações na interpretação e aplicação da nova Lei, produto de uma mobilização popular que colheu quase dois milhões de assinaturas.

Pode-se dizer que a aplicação da Lei da Ficha Limpa não foi nem um pouco coerente. Atingiu o senador João Capiberibe, um dos homens públicos mais íntegros deste país, mas não mexeu com Paulo Maluf, uma das fichas mais sujas, que inclui passagem pela cadeia por apropriação de dinheiro público.

No caso do senador socialista do Amapá, ele foi atingido pela segunda vez, graças à pressão do todo poderoso José Sarney, que forçou a posse do seu aliado Gilvan Borges.

Nas eleições de 2002, depois de realizar o melhor governo que o Amapá já teve, Capiberibe foi alvejado juntamente com sua mulher Janete, eleita deputada federal, sob a acusação de terem comprado dois votos por 26 reais, num processo com testemunhas compradas, como revelou recentemente um ex-funcionário da tv do senador derrotado Gilvan Borges.

Em 2006, Janete foi eleita novamente e tomou posse. Em 8 de dezembro passado, depois de consagrar-se como a deputada mais votada do seu Estado, a ministra Carmen Lúcia, do TSE e do STF, determinou à Justiça Eleitoral do Amapá que excluísse o seu nome e o do senador eleito João Capiberibe da lista dos candidatos diplomados em dezembro, abrindo caminho para o candidato derrotado pela segunda vez e para uma suplente de deputada.

Ironicamente, nesse caso, a derrubada de uma Lei que teve objetivos moralizadores acabou desfazendo uma grande imoralidade em seu nome. Resta saber, agora, o que o todo poderoso José Sarney (manda-chuva desde 1964) vai fazer para cassar João e Janete Capiberibe mais uma vez. A liderança de ambos foi consagrada, aliás, com a eleição do filho Camilo, de 38 anos, para o cargo de governador do Estado.

Essa confusão jurídica foi muito mais grave. No caso do Amapá, como da Paraíba, Tocantins e Pará, os candidatos não diplomados disputaram eleição e tiveram seus votos contatos. Mas houve lugares em que a aplicação da Lei da ficha limpa levou a retirada de candidaturas, como aconteceu em Brasília, com Joaquim Roriz. Acho até que ele renunciou porque sabia que ia perder, mas o fez sob a alegação de que estava impedido por decisão judicial de disputar eleição.

Maluf ficha limpa, é mole ou quer mais?

Já no caso de Paulo Maluf, não houve lei que impedisse a sua posse. Por que? Ele concorreu sem registro, teve 497.203 votos e seu recurso foi arquivado pelo ministro Marco Aurélio, no TSE, por perda de prazo. Para virar a mesa, conseguiu que no dia 13 de dezembro passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulasse uma condenação por ato doloso de improbidade administrativa na compra superfaturada de frangos para a Prefeitura de São Paulo. No dia 16 do mesmo mês, o próprio ministro Marco Aurélio reconsiderou a perda de prazo e mandou empossá-lo, com base na revogação da condenação pelo TJ-SP. Nesse caso emblemático, a Lei da Ficha Limpa virou letra morta.

Se o Judiciário tivesse sido mais ágil, responsável e menos confuso, não teríamos agora uma nova situação complicada. Como é que ficam os parlamentares empossados, que voltarão para casa? Vão devolver o dinheiro que receberam nesses meses de mandato?

Há ainda quem ache que até 2012 a Lei vai cair por terra e ninguém deixará de ser empossado por conta do que ela determina. Foi o que escreveu Fernando Rodrigues no seu blog da FOLHA DE SÃO PAULO: “É que a regra determina que quem é condenado por uma instância judicial colegiada (por exemplo, por um grupo de juízes), já será considerado um Ficha Suja. Não pode disputar a eleição.

Só que na Constituição há o princípio da presunção da inocência. Só se pode ser considerado culpado por um crime, condenado em definitivo, quem perder em todas as instâncias possíveis. Ou seja, haveria um conflito entre a Lei da Ficha Limpa e o texto constitucional”.

Pelo amor de Deus, não pense que estou aqui para festejar a queda da Lei de tão boas intenções. O que lamento é a sua manipulação direcionada, a parcialidade da Justiça e a inconsistência dos textos legais, que deixam brechas para bons advogados e para advogados bem relacionados jogarem pesado na defesa de suas partes.

A própria definição da ficha suja precisa ser revista para alcançar realmente os corruptos, que são a grande maioria de nossos políticos.

E mais do que isso: o povo precisa ser mais bem esclarecido sobre cada um dos candidatos. Com todo mundo sabendo que Paulo Maluf tem uma folha corrida comprometida desde os tempos da ditadura, ele obteve a quarta maior votação para deputado federal no Brasil.

Todo mundo sabe no Amapá que João e Janete Capiberibe são políticos íntegros, sérios,  inatacáveis. No entanto, venceram mais não levaram, por conta do uso indevido dessa Lei que o povo deseja ver aplicada para nos livrar de maus elementos. E não de homens de bem.

Espero que se faça uma releitura da Lei Complementar 135, antes que ela caia até para as eleições de 2012, devido às contradições em seu teor.

Caso da Varig deixa STF mal na fita

Hoje, dia 24 de março, completam-se dois anos desde quando a ministra Carmen Lúcia retirou da pauta o julgamento do STF sobre a dívida da União com a Varig, dando 60 dias para que as partes chegassem a um acordo.

A considerar decisão do mesmo teor, adotada em 1997, no caso da Transbrasil, seria quase impossível que a corte negasse essa causa à empresa, afetada pela política tarifária do Plano Cruzado, que entrou na Justiça em 1992 e até hoje está a ver navios.

A Varig deve a metade do que receberia ao Aerus, o fundo de pensão dos seus empregados, que passam necessidade desde 2006, quando da estranha decisão de um juiz da Vara Empresarial do Rio de Janeiro pelo seu leilão, em nome da Lei 11.101/05 (a nova lei de falências), livrando a empresa de todos as obrigações trabalhistas, inclusive o pagamento dos salários atrasados.

Havia um compromisso que, vencendo a batalha judicial de 19 anos, a Varig daria prioridade aos pagamentos dos pensionistas, como aliás, poderia constar da própria decisão do Supremo.

Os 60 dias se passaram e hoje já completam dois anos. A ministra Carmen Lúcia ficou mal na fita porque não respeitaram prazo nenhum e ela não faz nada: nem exige que respeitem seu encaminhamento por um acordo logo, nem leva a matéria de volta para a pauta do STF.

Enquanto isso, demitidos e pensionistas do Aerus amargam dias de sofrimento, correm para um lado e para outro, são enganados por uns e por outros, numa sinfonia do mais perverso massacre. Mais doloroso: há informação de que mais de um centena de beneficiários já morreram sem que a justiça lhes fosse feita.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Crônica de duas farsas que se entrelaçam no cinismo e na covardia

“Eu não sei o que será da Líbia nas próximas horas. Mas lamento profundamente que os governos pusilânimes com assento no Conselho de Segurança da ONU tenham cedido às pressões da França, Inglaterra e Estados Unidos, aprovando uma resolução que permite tudo, inclusive a intervenção militar, para o gáudio dos senhores das armas desse ocidente decadente e sem pudor.

Falar de zona de exclusão aérea é balela, é eufemismo típico de quem não tem o menor recato e acha que tem algum mandato divino para meter o bedelho no país dos outros, sobretudo quando esse país dos outros é um reservatório incomensurável de petróleo”.
Da minha coluna de 17 de março de 2011


Confesso que estou em dúvida sobre qual farsa comentar: se a representação burlesca protagonizada pelo preposto do grande ditador invisível, que destacou a renúncia gaiata de nossa soberania, estuprada pelo FBI por dois dias; ou essa macabra tragédia que configura a mais pérfida agressão estrangeira de alguns países sob batuta da fina flor do crime oficial.

Os dois embustes se entrelaçam até fisicamente: Barack Obama deu a entender que determinou os bombardeios da Líbia (já decidido antes mesmo da resolução do Conselho de Segurança) quando trocava figurinhas com nossa surpreendente presidente Dilma. Em ambos os casos, que consagram o cinismo e a covardia, nossa mídia deu mostras da sua essência irresponsavelmente mercenária e irremediavelmente comprometida, ao ponto de noticiar o massacre de inocentes em Trípoli como ações para proteger civis.

Desde o sábado, dia 19 de março, mergulhei numa profunda crise existencial provocada pela mais dramática impotência. Quarenta e oito horas antes havia escrito que aquela resolução da ONU era uma carta branca para dar um verniz “legal” à agressão tramada desde as primeiras agitações no mundo árabe. Diss e que a agressão estava em marcha.

Tinha razão e isso me abalou. Mergulhei numa terrível depressão ao constatar que nada podia fazer para mudar o rumo dos acontecimentos. Entre uma data e outra fiz aniversário, sem festas, como seria aconselhável. Mas a folhinha andou. E mostrou que hoje o mundo está mais degenerado do que antes. O desrespeito pela verdade campeia como uma massa envenenada irradiada aos quatro ventos. A vida humana se animalizou na renúncia dos valores essenciais que sempre serviram de bússolas.

Tudo o que vi e ouvi nesses dias me provocou torturantes sensações de vômito. Teve um certo momento em que tive vontade de chorar. Não podia imaginar jamais que o nosso governo se agachasse a tanto. Um vexame. Policiais alienígenas revistando ministros de Estado brasileiros, aqui, onde se crêem autoridades.


O histrião foi recebido num ritual da mais flagrante insolência. Exibiu-se e foi-se sem dizer a que veio. Não disse ele, nem disseram igualmente seus anfitriões. Mas a gente conseguiu ler nas entrelinhas o grande golpe que armou e que só explicitou entre quatro paredes no secreto colóquio com a nossa inexperiente chefa do Estado brasileiro.

Ele veio aqui em busca do ouro e faz qualquer negócio para dele se apoderar, inclusive brindar algumas vantagens pessoais para os que facilitarem a cobiça. Está mal na fita por lá e conta com uma reviravolta às nossas custas. Faz bico com as nossas pretensões e joga pesado com a idiotia que grassa.

Já nossa chefia parece que bebeu e ainda está de porre. Quer por que quer um apoio a algo que decididamente significa COISA NENHUMA. Ou você vê algum ganho significativo em sentar como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU?

Se souber, pelo amor de Deus, me informe. Até prova em contrário, essa parece uma tremenda conversa fiada, uma cortina de fumaça, um desejo diversionista absolutamente despropositado. Mas que é usado com a chancela até de professores de relações internacionais, que, igualmente, não explicam patavina, revelando as fábricas de encher linguiças em que se transformaram nossas universidades.

Mesmo se fosse top de linha, o Conselho de Segurança da ONU não confere a nenhum país permanente poderes capazes de melhorar a vida dos seus cidadãos. Não tem serventia conforme sua carta e ainda só serve para dar uma casca protetora ao decidido no complexo de poder das grandes corporações, representadas por indignos chefes de Estado, sempre de olho no alheio e no mar das propinas em dólares.

Agora mesmo, esse Conselho de Segurança, com o Brasil presente e acovardado, chancelou a fraude bélica que está tentando o que uma súcia de mercenários não conseguiu: afastar os obstáculos à conquista dos poços de petróleo líbios, instalando naquele país um governo títere e manso, como no Iraque e nesses sultanatos de nababos devassos e opressores.

Não adianta aqui repetir o óbvio sobre o cinismo que reveste a violação da soberania de um Estado constituído. Todo mundo sabe que a gana do Ocidente é a Líbia, que estava reconquistando uma posição proeminente no mundo do petróleo, graças a investimentos consideráveis em sua infra-estrutura, na educação e nas áreas sociais.

A derrubada de Muamar Kadhafi e a implantação de um regime fantoche têm preocupações mais qualitativas do que quantitativas. Obtém-se com o milionário bombardeio (cada míssil custa um milhão e meio de dólares) o repeteco da “legitimação” do “direito de agressão internacional”, conferido aos Estados Unidos e associados.

A próxima bola da vez, se essa agressão vingar, será a Síria e, no embalo, o Irã. Por estas paragens, a Venezuela está na mira, tanto como Cuba, que nunca teve paz e sossego e vive até hoje sob o mais criminoso bloqueio econômico. Tenho medo de estar certo mais uma vez. Infelizmente, porém, a voracidade dos poderosos não tem freio.

Enquanto isso, uma corriola de imbecis encastelados continuará possuindo o controle da mídia e inundando de sandices as descuidadas mentes cidadãs.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Antes que as potências ocidentais invadam a Líbia e se apossem do seu petróleo

Governantes pusilânimes e graneiros abrem caminho para a intervenção estrangeira, já que o levante fracassou

Os "civis" servis aos donos do mundo exibem seus tanques "inofensivos".
 Como eles fracassaram, as grandes potências vão mandar bala

Eu não sei o que será da Líbia nas próximas horas. Mas lamento profundamente que os governos pusilânimes com assento no Conselho de Segurança da ONU tenham cedido às pressões da França, Inglaterra e Estados Unidos, aprovando uma resolução que permite tudo, inclusive a intervenção militar, para o gáudio dos senhores das armas desse ocidente decadente e sem pudor.


Falar de zona de exclusão aérea é balela, é eufemismo típico de quem não tem o menor recato e acha que tem algum mandato divino para meter o bedelho no país dos outros, sobretudo quando esse país dos outros é um reservatório incomensurável de petróleo.


Petróleo maldito que subiu mais ainda à cabeça dos donos do mundo com esse fiasco da energia atômica no Japão, em função do qual governantes volúveis estão aterrerizados e anunciando um brake em seus programas nucleares.


A triste verdade é que o mundo está nas mãos de  medíocres incompetentes, reles prepostos de interesses econômicos, figuras sem vergonha, sem compromissos com seus povos, sem o mínimo de espírito público e de patriotismo.


Esses títeres da ditadura invisível de matriz sionista são de tal forma levianos que tratam das coisas do mundo como se tratassem de suas ambições pessoais, representando uma farsa grosseira e de curto prazo, da qual querem sair com a conta bancária recheada de ouro em pó, garantindo vida mansa para suas próximas gerações e para o entorno corrupto de devassidão, segundo o modelo do dono da Itália, o premier tarado que não livra a cara nem das menininhas.


É muito fácil para os governantes desses países  decidir jogar suas máquinas mortíferas sobre os povos mais fracos.  Difícil será saber quanto cada governante embolsou para endossar a intervenção bélica na Líbia.


Essa agressão é o cúmulo da manipulação desonesta do que há de verdade lá, no norte árabe da África. População civil é quem? O magote de generais e coronéis que desertaram com seus arsenais de armas pesadas, tanques, aviões e tudo o mais que um exército tem direito, os buchas de canhão armados que foram seduzidos pelas promessas pecuniárias das potências ocidentais? Quer conferir, vai ao Google e pede imagens dos "rebeldes" líbios.


Por que esse mesmo Conselho de Segurança não deu um pio sobre as matanças no Bahrein e no Iêmen? Nesses dois países, como no Egito e na Tunísia, os opositores não estão armados. Lá, sim, massacram civis indefesos com a ajuda de tropas estrangeiras. E, no entanto, como a monarquia do Bahrein e o governante do Iêmen são propinados pelos maiorais do petróleo, nem a mídia, nem os governantes do Ocidente hipócrita, moveram uma palha em socorro dos civis de lá.


Quando Bin Laden mandou derrubar as torres gêmeas, os branquelos de olhos azuis tremeram nas pernas e passaram algumas semanas tão traumatizados que as casas de coito deram férias coletivas a suas coitadeiras, enquanto os lares passaram a ter um índice de disfunção erétil jamais registrado.


Esses governantes que agora se aliam ao mesmo Bin Laden para pôr a mão no petróleo líbio e depois meter um pé nas nádegas dele, sabem que são fortuitos. E que precisam se arrumar, mas se arrumar com tanta grana suja que deixam no chinelo nossos meliantes conhecidos.


Não sabem que, com isso, estão levando ainda mais ao descrédito e desnudando o decantado modelo “democrático”. Democracia é o quê? É a alternância no poder de prepostos dos mesmos interesses privados insaciáveis, todos a serviço da manutenção dessa pirâmide social perversa, dessa sujeição do mundo à hegemonia sionista que está no cerne da ditadura invisível que manda no mundo?


Que faz do mulato Barack Obama o expoente de última geração do cinismo e do estelionato político? Que faz de Nicolas Sarkozi, matador de emigrantes, um doidivanas que pegou grana de Kadhafi para fazer sua milionária campanha presidencial e agora está empenhado numa desesperada queima de arquivo?


Pode ser que você esteja irremediavelmente envenenado por essa mídia abutre, que recorre a epítetos diversionistas. Que desvia o foco das realidades, para imobilizar o mundo diante da pirataria colonialista. É possível que você não perceba a gravidade de países poderosos atacarem outros mais fracos  para apropriarem-se de suas riquezas, como aconteceu no Iraque, com aquela história mentirosa de que Saddan Hussein estava produzindo armas químicas.


A essa altura, aviões de alto poder letal devem estar enfileirados na base italiana da Cecília, se é que já não começaram a castigar a Líbia. É o que sobra para os interesses coloniais que bancaram o levante fracassado e agora deixarão cair a máscara junto com suas bombas mortais.


Mesmo assim, acho que não será moleza a conquista das jazidas petrolíferas da Líbia. Digam o que disserem, mas o coronel Muamar Kadhafi tem demonstrado incrível liderança sobre seu povo, coragem, competência militar e, quem sabe, resistirá vitorioso à intervenção estrangeira e com seus amiguinhos internos.


Porque a vitória militar estrangeira lá é um golpe que afeta a todos os países soberanos, em especial, os que têm petróleo, como o Brasil, que Obama agora que capturar na maciota.

terça-feira, 15 de março de 2011

Festa para um rei negro fazer barba, cabelo e bigode

Só quero ver a militância pegando no ganzá e agitando as bandeirinhas de 50 estrelas

 “Nosso rei veio de longe
Pra poder nos visitar,
Que beleza
A nobreza que visita o gongá.

Ô-lê-lê, ô-lá-lá,
Pega no ganzê,
Pega no ganzá.
Senhora dona-de-casa,

Traz seu filho pra cantar
Para o rei que vem de longe
Pra poder nos visitar.
Essa noite ninguém chora, ninguém pode chorar”.

Do samba-enredo do Salgueiro, que ganhou o carnaval carioca em1971.
(Versões completas da obra, na voz Clara Nunes, em www.porfiriolivre.info )

Era só o que faltava: vão fechar o “Amarelinho”, reduto da boemia,  no último domingo de verão, privando-nos do melhor chope da praça, e profanar o templo da “Brizolândia” para franquear um  emblemático recanto carioca ao exibicionismo do companheiro Obama, no mais insólito programa de índio já concebido pelas mentes degeneradas dos marqueteiros políticos daqui e d’além-mar.

O impetuoso ponta-de-lança do império decadente, que engabelou o mundo inteiro (e não apenas meio mundo) com o conto do “black brother”, baixará o santo de salvador da pátria (deles) no cenário cavilosamente urdido para envolver nossos voláteis corações e mentes no oba-oba do venha a nós o vosso reino, que se seguirá às tratativas de Brasília, guardadas a sete chaves do Wikeleaks e dos jurássicos patriotas brasileiros, que, aliás, ressalte-se, não têm parentesco de grau nenhum com atual cabeça de bagre do Itamarati.

Antes, para revestir da mais burlesca espetaculosidade a farsa supranacional, o companheiro Obama pegará uma criancinha no colo, beijará seu rosto negrinho e afagará suas bochechas na cerimônia dos coitadinhos, que terá como palco a Cidade de Deus, o conjunto proletário, construído no portal de Jacarepaguá por Carlos Lacerda na década de sessenta, que a mídia meia sola cognomina de favela.

Uma coisa há que registrar em tudo isso com admiração até: essa representação é absolutamente inédita e diz do quanto se inovou no mundo dos negócios e no breviário do socialismo do Século XXI, com a introjeção da idéia de responsabilidade social, essa mesma alquimia que faz do bolsa-família a esperta extrema-unção da plebe ignara.

E esse ineditismo é o bicho. Imagine a Cinelândia púrpura na fila do beija-mão daquele que representa a fina flor de um império punguista, dado a práticas sangrentas na expansão inescrupulosa dos seus maus hábitos coloniais.

Quem vai agitar as bandeirinhas multiestelares e fará o coro do “welcome, comrade”, ingredientes indispensáveis ao balacobaco da festa para o rei negro? Quem vai pegar no ganzê, quem vai pegar no ganzá?

Putis gril, muita gente vai ficar na maior saia justa, a começar pela própria companheira Dilma, que, certamente,  não contava com essa astúcia. (Escolado, Lula não teria caído nessa trama, que bobo nunca foi). A coisa escapou à liturgia da efeméride. É sempre assim: o brasileiro dá o pé, a gringolândia já quer as mãos, o corpo e a alma. Que batismo de fogo mais herege. , não precisava curvar-se a tanto.

De bola murcha e mal na fita vem se virar aqui
O companheiro Obama está de bola murcha, todo mundo sabe. Desdisse tudo o que de hipnótico proclamou nas passadas de sua zebra: para o gáudio da indústria bélica, no mês seguinte à posse, contrariando seu palanque, embarcou mais 30 mil soldados para o Afeganistão e, em 2010, destinou US$ 130 bilhões para as guerras no país dos talibãs e no Iraque.

Nesses dias, depois de se informar por pesquisa que o povo norte-americano já se sente também no prejuízo com o bloqueio a Cuba, pediu ao Congresso mais US$ 63 milhões para ações contra  Fidel vizinho, embora tenha falado de paz e amor com a vizinhança.
Internamente, nem se fala: no calote dos banqueiros, em 2009, transferiu sua crise para o mundo e abriu os cofres para socorrer os plutos, enquanto o coronel Hugo Rafael Chávez Frias, quem diria, implementava um programa de socorro a 500 mil norte-americanos pobres, conforme reportagem de Luiz Carlos Azenha na Rede Record.

Sem credibilidade, reabriu passagem para os intolerantes republicanos da ultra-direita, que retomaram o controle da Câmara nas eleições do ano passado. Seu governo, cá entre nós, tem sido a alegria do centenário DITADOR INVISÍVEL que, à sombra, manipula os cordéis da White House.

O mau olhado do olho gordo dos donos do mundo

Fosse só para dar uma mãozinha a ele na tentativa da volta por cima, o prejuízo seria menor. Mas o friend quer casa, comida e roupa lavada. Dou minha cara a tapa se essa rearticulação de mais uma punga nas aposentadorias e pensões não estiver associada à sua vinda. O filé da previdência privada é tudo de bom para os dólares caloteiros que estão cada vez chegando mais.

Tem o superpoço de Libra, no pré-sal de Santos, com 15 bilhões de barris - mais petróleo do que toda a nossa reserva conhecida até agora de 14 bilhões - que vai a leilão neste semestre, gerando o efeito “viagra” nas petrolíferas alienígenas, agora mais brochas do que nunca com o tufão árabe.

Eu mesmo disse aqui que faz parte do protocolo oficial um almoço com o melhor de nossa culinária a visitantes importantes. Mas, tenha paciência, profanar a Cinelândia de histórias mil com um comício policiado pelo FBI é genuflexão servil. Nem no “we like Ike” de JK descemos a tanto. Não vai ser essa encenação burlesca que ajudará a lembrar aos norte-americanos que eles estão secularmente no lucro em nossas costas e que, agora, por imperativo impostergável, a caça quer ver a sua vez.

Vou-me sentir ofendido se me submeterem a constrangimentos na praça que, desde Castro Alves, é do povo, como o céu é do condor. O mais desatento dos brasileiros achará uma grande forçação de barra a montagem de um espetáculo circense na Cidade de Deus para o governante polêmico, como se ele fosse repetir a façanha do Papa, um líder religioso, na favela do Vidigal.

Essa palhaçada toda só vai servir para acanhar a militância habituada a outros carnavais, confundindo as cabeças do alunado e da velharia assediados pela estupidez.

Só falta chamarem o Tiririca, deputado da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, para as loas ao companheiro Obama, que quer fazer aqui barba, cabelo e bigode para compensar seu fracasso lá. Só falta distribuírem brioches a platéia famélica que o Serginho e Pezão deverão recrutar na periferia com a ajuda midiática. Só falta mesmo montarem aquelas catracas que nos mostram o corpo nu para garantir a segurança de um convidado que pode ser do governo, mas, com certeza, não é da massa que nem sabia desse filme.

Decididamente, a gente não merecia isso, empurrado goela a dentro só porque não temos tsunamis.

Encenação por encenação, sou mais o filme UM POBRETÃO NA CASA BRANCA, de 2003, com Chris Rock  no papel de primeiro presidente negro dos EUA (Obama era ainda um ilustre desconhecido do grande público)
E mais: veja em Porfírio Livre cenas que a mídia não mostra: a execução de soldados líbios prisioneiros dos insurgentes que se apresentam como a inocente população civil.

domingo, 13 de março de 2011

A bala de prata de Kadhafi que acertou no Ocidente ingrato e na mídia zonza

Tropas e tribos leais ao governo  avançam sobre os buchas que já cantavam vitória
"Vemos com clareza que a preocupação fundamental dos Estados Unidos e da OTAN não é a Líbia, mas sim a onda revolucionária desatada no mundo árabe que desejam impedir a qualquer preço. É um fato irrefutável que as relações entre Estados Unidos e seus aliados da OTAN com a Líbia, nos últimos anos, eram excelentes, antes que surgisse a rebelião no Egito e na Tunísia”.
Fidel Alejandro Castro Ruz, em artigo no jornal Granma de Havana.
Anes das rebeliões nos países árabes, Sarkozi havia estado
 mais de uma vez com Khadafi

Baerias antiaéreas dos adversários de Kadhafi. Armamento não suportou
 marcha das tropas leais com apoio de tribos locais.

E a Líbia, einh? Sumiu na poeira do terremoto nipônico. Nossa ínclita imprensa escrita, falada, televisada e internetizada, sem um grão de caráter, encontrou uma saída para muar de assunto  na nova tragédia samurai.

Primeiro, porque, há três dias, conta centenas de mortos e feridos. E essa contagem macabra dá Ibope. Vende ainda mais jornais pelo elemento novo, o risco nuclear das usinas de que só agora ouvimos falar. Lembremos que nosso afetuoso Japão tem no histórico o trauma contaminante da terrível experiência atômica: as criminosas e desnecessárias bombas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Segundo porque, com a fartura de imagens de uma tragédia injusta pela própria natureza, não se fala mais nos confrontos em que o coronel beduíno resiste “surpreendentemente”, retoma posições e, pelo que premoniza o general James Clapper, principal conselheiro militar de Barack Obama, vai ganhar essa intempestiva batalha, renascendo do caos cheio de si.

E olha que Kadhafi virou paz e amor

Bem feito. Bem que eu disse da outra vez que quando a mídia toma partido é um desastre à parte. Quando, não. Ela sempre toma partido e, em havendo petróleo e outras minas, estará sempre pautada pelos donos do mundo, eis que, petrolíferas e banqueiros são duas faces da mesma moeda sangrenta. (Até a Wikipédia, imagina, entrou na pilha e pôs no seu cadastro que a Líbia hoje está sem governo definido).

Pois veja o que arrumaram, na cauda dos sismos que abalaram Egito e Tunísia, onde, aliás, por enquanto, trocaram seis por meia dúzia. Embora as potências decadentes já tivessem se acertado com Kadhafi na intermediação da British Petroleum, seus mandantes viram na efervescência inédita que sacode até o decantado Bahrein dos sultões afrodisíacos e suntuosos, a oportunidade de livrar-se daquele que um dia foi tido e havido como o super-inimigo da pá virada.

Imbecis de pai e mãe e sabidos mais da conta (afinal guerras significam indústria bélica em alta), os senhores das armas e da mídia deram-se às mãos, e jogaram todas as fichas na ventania que parecia um tufão no deserto.

O Kadhafi do século XXI tinha se auto-enquadrado, mas continuava osso duro de roer. Com ele, as petrolíferas prospectam e exploram, mas não ficam com a parte do leão. Pior, nessa meia volta, o beduíno que aos 27 anos, como oficial teimoso, derrubou o rei servil, estava começando a entender que precisava atacar o cerne da questão: não adianta jorrar petróleo a granel, nem acolher quase dois milhões de egípcios e demais forasteiros, quando sua juventude permanece de mãos abanando, engrossando as estatísticas do desemprego, que, por lá, segundo as consultorias ocidentais, chega a 30%, isto é, um em cada três líbios está a ver navios.

E olha que desde os primórdios diz-se que tinha investido em educação, saúde e programas compensatórios – as prestações sociais e os auxílios para compra de alimentos.

O ponto de equilíbrio tribal

Naquele país tribal, o dito cujo não era bem um verdugo solitário. Filho e neto de brigões, ele tem o cheiro dos camelos e o gosto pela unidade pátria, que ali é questão sine qua non de paz interna.

Se se isolou foi por conta do vírus aromático dos podres poderes. Cercado de bajuladores, entre os quais o picareta que caiu fora do governo achando que ia se dar bem no  saco de gatos adversário, o beduíno perdeu a noção da realidade e resvalou para o mito de si mesmo. Ou seja, pelo que sentia, se achava o próprio pai da pátria.

Estava tão vendido na fita que só um dos seus filhos ousava dizer-lhe as poucas e boas que precisava ouvir. Mas os puxa-sacos de plantão, principalmente os escribas chapas brancas, cuidavam de debitar a divergência a um conflito de poder entre os herdeiros necessários.

Mas até prova em contrário o país desértico dependia dele para safar-se da cobiça de sua riqueza maldita. Para o bem do seu povo, seria melhor dar continuidade ao processo de abertura reclamado pelo filho rebelde e manter o equilíbrio tribal, sua autoridade unificadora, sem a qual as primeiras vítimas foram exatamente os emigrantes das vizinhanças, que tiveram de bater em retirada, com medo do pior nas suas costas, caindo na dependência da ajuda humanitária das lágrimas de crocodilo, protagonizando uma desoladora tragédia periférica.

Buchas de canhão com asas de papel

Além disso, ao contrário do Egito, o conflito se internacionalizou com a alta do petróleo manipulada em todo o mundo, embora o óleo líbio seja quase todo destinado ao mercado europeu.

Agora, a coisa está feia. Os rebeldes ganharam armamentos e, ao contrário dos descontentes do Egito, mandaram bala a torto e a direito. Vários oficiais desertaram de olho no que parecia ser a inevitável contagem dos dias do coronel beduíno (logo no começo, dois pilotos fugiram com seus aviões para Malta) e a mídia lhes deu asas de papel, enquanto governantes irresponsáveis do tipo Nicolas Sarkozi e David Cameron puseram a boca na botija, usando os descontentes como buchas, ávidos pelo ouro negro que naquelas paragens dá que nem chuchu na serra por aqui.

O que começou com um estopim de imitação parecia uma chama invicta. Estabeleceu-se um código midiático segundo o qual os adversários eram do bem: podiam sair atirando e ocupando cidades, mas as tropas fiéis ao governo não tinham direito de dar o troco, sob pena de serem acusadas por massacres da população civil.

De imediato, os insurgentes foram colecionando vitórias maximizadas pela mídia, concentrada especialmente nas cidadelas dominadas por eles. Mustafá Abdel Jalil, serviçal que pulou a cerca ao ver a coisa preta, foi se juntar aos incensados pelo Ocidente e cantou de galo, ao ponto de dar 72 horas para Kadhafi fazer as malas.

Agora veja: esse cara serviu pianinho ao coronel durante anos a fio e só pulou a cerca ao ver que no outro lado não havia liderança, nem organizações, o que lhe permitia virar o chefe da revolta amalucada, com delírios de vitória no grito. No entanto, as petrolíferas e os governos mais dementes do Ocidente passaram a apontá-lo como a salvação da lavoura só por ter virado a casaca em cima do laço. Oh Deus, oh céus.

Nesse momento, os buchas de canhão estão orando mais de quatro vezes ao dia para ver se alguma força estrangeira vem em socorro, se a ONU manda fechar o espaço aéreo, se a Al Qaeda entra em campo com os petardos de Bin Laden para tirá-los do sufoco.

E ainda tramam a invasão da Líbia

Mas parece que os americanos, reis da cocada preta, pressentiram uma tremenda trapalhada e, como não conseguiram nada no susto; como o deslocamento de seus navios pelo Mediterrâneo não surtiu efeito, já arranjaram uma desculpa: no dia 2 de março, Hilary Clinton declamou sua dúvida atroz, o medo de que a emenda fosse pior do que o soneto, com a ascensão da Al Qaeda e a transformação da Líbia numa Somália árabe.

Como quase não se fala mais nisso no momento, estão racionando as informações sobre retomada das cidades pelos soldados, tribos e e brigadas de voluntários de Kadhafi, as “kataeb”. Admitem as fontes ocidentais que suas tropas já tomaram neste domingo a cidade petrolífera de Brega, a 220 km de Benghazi, base principal dos grupos rebelados.

Outros noticiam o início da evacuação de Ajdabiya, principal pólo de comunicação na região e última população importante antes de Benghazi. Em 24 horas, as forças de Kadafi avançaram 150 quilômetros, entre Ras Lanuf e Brega. Na capital da rebelião, segunda maior cidade do país, com um milhão de habitantes, há um clima de tensa expectativa.
Fontes locais disseram que Kadafi pode atacar primeiroa Tobruk, na fronteira com a Tunísia, para cortar as rotas de abastecimento dos grupos rebeldes e então mover-se sobre Benghazi. Se não vier socorro bélico das potências que prometeram tudo de bom aos insurgentes a rebelião acaba em 72 horas.

Por isso, neste exato momento, os chefes das potências ocidentais estão discutindo a possibilidade de invadir a Líbia, como denunciou o chanceler do Equador, Ricardo Patiño. O pretexto seria uma “crise humanitária” – isto é, o caos com a derrota dos adversários de Kadhafi. Com a intervenção estrangeira, pensa-se em matar dois coelhos de uma só cajadada: o coronel beduíno e a Al Qaeda, que apóia a insurreição, facilitando a posse mansa e pacífica das jazidas petrolíferas do país pelos invasores, tal como aconteceu no Iraque.

Para finalizar, por hoje, quero agradecer ao amigo que me enviou artigo inspiradíssimo escrito pelo octogenário Fidel Alejandro Castro Ruz. Lembra desse nome? Você pode até não gostar dele (o que não é meu caso) mas, se quiser realmente entender os acontecimentos da Líbia, tintim por tintim, vai ter que baixar a crista e dar uma lida criteriosa na análise do experiente analista cubano, recheada de informações consistentes e elucidativas.

Só com informações corretas você vai entender melhor o que acontece lá, no fundo, no fundo, por obra e graça de quem está de olho aqui.

sábado, 12 de março de 2011

Obama vem aí. E nós, o que faremos?

Movimento O PETRÓLEO TEM QUE SER NOSSO quer promover ato em defesa de nossa soberania

“Com a visita de Obama, o Brasil passa a ser visto com um parceiro estratégico para os Estados Unidos, e não apenas como um parceiro comercial importante. E isso nunca existiu”.
Gabriel Rico, presidente executivo da Câmara Americana de Comércio.
Lula apresentou Dilma a Obama. Agora ele vem com tudo atrás do nosso petróleo

Daqui a uns dias, Barack (Hussein) Obama estará subindo um morro carioca “pacificado” dentro da mis-em-scene montada a quatro mãos para transformar sua visita de negócios em mais um espetáculo midiático, destinado a esconder a sete chaves os interesses que ele vem apadrinhar em nome do pai, do filho e do espírito santo.

Espessos e reluzentes tapetes vermelhos serão estendidos para dizer ao chefe do império decadente que, se depender dos nossos manda-chuvas, nem tudo está perdido para ele. Aqui, o “mui amigo” será recebido com as honras da corte e com direito a perorar as repetidas ladainhas do reino: até segunda ordem, não haverá ninguém para informar que os tempos mudaram. Porque aqui, em verdade, no fundo, no fundo, no que lhe diz respeito nada mudou.

Com todas as válvulas do pensamento livre devidamente entupidas de prebendas e grana farta, quem ousará levantar a voz para lembrar-lhe que valores como a soberania e a autodeterminação dos povos são irrenunciáveis?

Haverá quem ouse testemunhar da dolorosa frustração que representou para o mundo o cavalo de pau pós sua surpreendente ascensão, como representante da negritude que até outro dia não podia comer no mesmo restaurante dos brancos de olhos azuis?

Nosso petróleo vai à leilão

Nestes dias de burla cultivada, não faltarão mocinhas de uma juventude castrada para oferecer-lhe buquês de rosas vermelhas desidratadas junto com o gingar de nádegas protuberantes das passistas aculturadas. Não faltará nenhum ingrediente que o santo marketing político não tenha incluído no coquetel da mistificação dos papéis trocados que nos mareiam o raciocínio.

Barack (Hussein) Obama vem fazer o quê nestas terras das palmeiras, onde cantava o sabiá? Boa coisa não será. É dos viciados hábitos e costumes que o presidente dos United States Of America não dá ponto sem nó. Não sai do salão oval só para conhecer o Pão de Açúcar com a família.

A ANP já anunciou que levará a leilão, entre outros e já neste semestre, o poço de Libra, a maior descoberta do mundo em 2010. Com uma estimativa de uma média de 7,9 bilhões de barris no reservatório, podendo chegar a 15 bilhões de barris.

O Brasil vive sua própria crise existencial, o “ser ou não ser” que tira o sono de arqueiros encabulados, exibindo seu patético constrangimento na obrigação de conciliar interesses e administrar a opção pelo sistema de total dependência dos negócios externos.

Esse Brasil, porém, sinaliza um futuro de esplendor com a avalanche que pode advir de suas imensas riquezas, sejam a seis mil metros de profundidade, abaixo da camada de sal, sejam nas entranhas preciosas da Amazônia cobiçada.

Esse país do amanhã pode querer ser hoje e essa querência assusta aos estrategistas da potência decadente, que, embora nas últimas, não perde o garbo e conta com o alheio para dar a volta por cima.

Costurando uma certa aliança
Todo mundo sabe que no seu primeiro telefonema à presidente Dilma Rousseff, ao cumprimentá-la, Obama reclamou seu quinhão no pré-sal, que transformará o Brasil em uma dos maiores produtores de petróleo, com inevitáveis mudanças no moral de um povo cansado de ser quintal.

Além disso, os Estados Unidos querem uma mãozinha do governo brasileiro na sua obsessiva guerra contra os países que já escaparam claramente de sua tutela, como Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, e contra Argentina e Uruguai, que também ameaçam correr atrás da alforria.  Além do Brasil, Obama irá ao Chile e a El Salvador, países com quem quer costurar uma certa aliança.

Isso sem falar no imbróglio do Oriente Médio, onde o Pentágono, a Cia e o Departamento de Estado estão mais perdidos do que cego em tiroteio. E sem lembrar, principalmente, o banho que vêm levando dos chineses, que se são hoje nossos maiores e melhores parceiros comerciais (em 2010, tivemos um superávit de US$ 5,5 bilhões nos negócios com a China, enquanto com os EUA o déficit foi de US$ 7,7 bilhões). O presidente norte-americano quer virar esses números no tapetão.

Títere de um ditador invisível

Barack (Hussein) Obama vai mal das pernas nos Estados Unidos, onde seu governo de tantas expectativas ajoelhou-se ao poder avassalador da força oculta que faz de presidentes covardes meras figuras decorativas. Esbarrou e amarelou, como sói acontecer diante de um DITADOR INVISÍVEL, cuja tirania é tão férrea que todos os moradores da Casa Branca a ele se rendem como títeres mansos e submissos. O último mandatário norte-americano que ousou contrariar  esse ditador foi executado em Dallas com um tiro no peito.

Que Barack Obama venha agora vender seu peixe é de ofício. Que o governo constituído o receba segundo o requinte de um cerimonial zeloso, não se poderia esperar comportamento diferente. Relações entre chefes de Estado têm seus protocolos.

Fora disso, não tem sentido que as cúpulas do movimento sindical participem do almoço oficial oferecido a ele, sob o pretexto de levar pedido para melhoria do comércio entre os dois países. Nessa, esses dirigentes abrem mão da “liturgia dos seus cargos”, já que serão apenas comensais perdidos no banquete, como se chancelando a priori qualquer acordo que nos arranhe a soberania.

Pelo menos uma manifestação em defesa da soberania
Até agora, a única cidadela que pretende botar a boca no trombone é o pessoal do movimento O PETRÓEO TEM QUE SER NOSSO, que realizará uma plenária nesta quarta-feira, dia 16, às 18 horas no Sindipetro-RJ (Avenida Passos, 34) para discutir o que fazer diante dessa visita cobiçosa.

O foco dessa mobilização é a defesa do petróleo. O grupo considera que a vinda de Obama e sua recepção pela presidente Dilma simbolizam a opção pela exportação e pelos leilões do petróleo, duas práticas que prejudicam a imensa maioria do povo brasileiro.

Mas tem uma compreensão  ampla dessa visita insólita: “além de energia e petróleo, vários outros temas estarão na pauta das reuniões e encontros de Obama no Brasil, inclusive com a presidente Dilma. Daí a importância de reunirmos os movimentos e organizações de todas as áreas de atuação e não apenas os que já vêm construindo a campanha do petróleo. Nosso manifesto e nosso ato público precisam ser construídos da forma mais ampla e unitária possível, para mostrarmos que a sociedade brasileira não está omissa, nem disposta a apenas bater palmas para os EUA”.

E a UNE, UBES? Ah, como tenho saudades daqueles tempos juvenis em que nos lançamos nas ruas para dizer ao presidente Eisenhower que desaprovávamos sua política de hegemonia imposta ao Continente e de agressões a Cuba, ainda no início da revolução. Nossa intenção era impedir que ele passasse pela frente da sede da UNE, na praia do Flamengo. Como a força da repressão falou mais alto, as diretorias das duas entidades se mudaram provisoriamente para a Avenida Pasteur, até que ele passasse.

De qualquer forma, o que se tentar fazer agora será simbólico. A mídia já se encarregou de adoçar a pílula com essa história de que o Brasil poderá ter seu apoio para uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU – e eu devo ser muito burro, porque não descobri ainda qual a vantagem que isso nos trará, ao ponto de abrirmos nossas comportas no mar.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cassação de anistias na FAB, uma ameaça ao regime de direito

No caso dos aeronautas da Vasp, governo manteve benefício alegando prazo vencido para voltar atrás
“O conteúdo político da mencionada Portaria é induvidoso, pois editada no momento histórico em que se procurava punir os oficiais considerados subversivos, por suas concepções político-ideológicas, através de mascarados atos administrativos”.
Nelson Jobim, quando ministro do STF, no julgamento do Recurso Extraordinário  329.656-6/CE, referindo-se à Portaria 1.104-GM3, baixada pelo ministro da Aeronáutica em 12 de outubro de 1964

Quando, em 19 de outubro de 2009, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça anulou a correção das pensões de 27 aeronautas, inclusive a ex-presidente do Sindicato, Graziella Baggio, o presidente da Comissão, Paulo Abrão, declarou que o correto seria a anulação total do benefício, mas observou que pela Lei nenhum ato administrativo pode ser revisto cinco anos após sua adoção.

Com isso, os anistiados da Vasp, demitidos após uma greve em 1988, tiveram garantidas suas pensões, concedidas no primeiro julgamento, embora a empresa houvesse readmitido-os em 1989. Graziella, à época, abriu mão espontaneamente do retorno ao trabalho, preferindo recorrer à anistia, algo meio fora de lógica.

A mudança de postura da Vasp, que descaracteriza a alegada perseguição, não foi considerada em sua totalidade porque, na decisão de 2009, provocada pelo Tribunal de Contas, já haviam transcorrido mais de 5 anos desde o ato do ministro do Trabalho, que anistiou os aeronautas da Vasp em 1994. A Comissão limitou-se a anular os novos valores estabelecidos em 2004, que garantiam pensões de R$ 23 mil a pilotos e de R$ 7 mil para comissários, restabelecendo os valores menores, arbitrados anteriormente.

No caso, o presidente Paulo Abrão referia-se à Lei 9784/99, que em seu artigo 54 estabelece:
“Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé”.

Esse dispositivo tinha como objetivo consolidar a segurança jurídica, indispensável num Estado de Direito. Assim, ele serviu para limitar a ação saneadora da Comissão de Anistia, embora a ressalva de “comprovada má fé” possa ser usada, sobretudo no caso de quem recusou a reintegração.

Já com os cabos da Aeronáutica...

Por isso, causou surpresa o anúncio do ministro do da Justiça, José Eduardo Cardozo, de instalar comissão para proceder a cassação da anistia dos cabos da FAB atingidos pela Portaria 1.104-GM3, baixada pelo ministro da Aeronáutica em 12 de outubro de 1964 e o parecer lavrado pelo advogado Rafael Figueiredo Fulgênio, da AGU, que daria sustentação à revisão de atos praticados entre 2000 e 2005.

Alguns órgãos chegaram a informar que Cardozo ainda havia determinado a suspensão imediata do pagamento de 2.530 benefícios concedidos aos ex-cabos, isto antes da conclusão dos trabalhos da comissão criada por ele. Isso seria absolutamente inconcebível num governo encabeçado por uma ex-presa política e que teve a antecedê-lo um anistiado, beneficiado por conta da demissão durante uma greve no ABC.

A segurança garantida pela Lei 9784/99 seria até dispensável se considerarmos a interpretação consolidada sobre o caráter político e arbitrário contida na portaria do ministro da ditadura. Por ela, a permanência de um cabo na Força Aérea, após oito anos de serviço, ficou na dependência de juízo pessoal do oficial superior da unidade em que servia.

Isto quer dizer que tal instrumento poderia ser usado, como foi, para um enquadramento político dos cabos, cujas lideranças se destacaram no período anterior ao golpe. Quem não rezou pela cartilha do comandante da base ou foi fazer curso para sargento, ou foi para o olho da rua, em condições precárias de sobrevivência profissional.

Os direitos dos cabos anistiados são inabaláveis e a simples volta ao assunto agride o procedimento adotado pelos mesmos conselheiros que permanecem na Comissão de Anistia. Ao contrário do caso dos aeronautas, que voltou à pauta por pressão do Tribunal de Contas, no caso dos militares parece clara a sujeição aos bolsões da intolerância nos quartéis, que nunca aceitaram a anistia e que conseguiram que o benefício aos oficiais perseguidos viesse com o carimbo que os priva dos direitos dos seus colegas aposentados.

É mais do que pacífica a garantia da anistia e isto está didaticamente explicado pelo por um elenco de razões expostas no site dos cabos atingidos
Resta saber o que há de concessão política aos viúvos da ditadura, como compensação por outras iniciativas de grande importância, como a Comissão da Verdade, que encontra resistências irracionais na cúpula das Forças Armadas.

A retomada da possibilidade de cassação da anistia aos cabos da Aeronáutica é uma obra perversa, que não leva em conta sequer a idade deles hoje - a impossibilidade de reconstituírem suas vidas se perderem as pensões que já recebem, em alguns casos, há mais de 10 anos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A vitória cubana no carnaval de Florianópolis, uma surpresa que sinaliza para enredos engajados

Na capital de melhor IDH, escola de samba caçula fala de Cuba, empolga e ganha  seu primeiro título
Enredo sobre Cuba levou escola de Florianopolis ao seu primeiro tíulo
“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Che Guevara (no enredo da Escola de Samba União da Ilha da Magia, de Florianópolis)



Em 2000, desfilei na Portela e na União da Ilha em alas com temas políticos
 Enquanto o país inteiro, puxado pela grande mídia, concentrava seus olhares nas superproduções carnavalescas do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, fora dessas metrópoles, um fato realmente surpreendente me levou a refletir sobre essa manifestação tão significativa como marco de uma alegre catarse do povo brasileiro.


Em Florianópolis, a capital com melhor Índice de Desenvolvimento Humano, a mais nova escola de samba ganhou o carnaval deste ano com um enredo de exaltação à revolução cubano, que contou com a presença da médica Aleida Guevara, filha do lendário “Che”. Desde a entrada na passarela, o desfilde de "Cuba sim, em nome da verdade" ganhou a torcida espontânea das arquibancadas.

Clique aqui e veja o desfile da escola União da Ilha da Magia

Vale lembrar que em 2006, com o apoio da petrolífera estatal venezuelana, a Unidos de Vila Isabel ganhou o carnaval carioca com o enredo “Soy Loco por ti, America: a Vila canta a latinidade”. Nesse desfile, o carnavalesco Alexandre Louzada exaltou as lutas dos povos latino-americanos, exibindo imagens de Bolívar, Che Guevara e Fidel Castro, mas guardando sempre uma certa reserva para proteger-se das pressões dos donos de um certame voltado para o turismo internacional.

Já em Florianópolis, a escola da Lagoa da Conceição, um bairro de 15 mil moradores em sua maioria de classe média, produziu um enredo com a mais irrestrita identificação com a revolução cubana: sua bateria vestia o uniforme do exército revolucionário e a diretoria exibia paletós com as cores da bandeira cubana, enquanto as alas mostravam o rosto de Che Guevara.

Cuba com referência para os sambistas

A demonstração de simpatia política foi sustentada por um enredo com a apresentação das principais marcas da revolução, como a reforma agrária, o ambiente de busca da igualdade e as conquistas sociais, como enfatizou o carnavalesco Jaime Cezário:

“É claro que Cuba tem os seus problemas e não é nenhum paraíso socialista, ainda mais por conviver há cinco décadas com um bloqueio econômico.

Entretanto, não podemos deixar de ressaltar e, por que não, admirar esse povo que transformou um país com grande índice de analfabetos e miséria em uma nação que hoje é referência mundial nas artes, nos esportes, na medicina, entre outras áreas, e respeitada pela defesa intransigente de sua soberania e que, apesar de todas as dificuldades, não capitulou e permanece firme em seus ideais revolucionários.

Após os avanços e conquistas sociais alcançados nessas últimas cinco décadas, o povo cubano nunca mais será submisso a qualquer interesse externo, tão pouco abrirá mão dessas conquistas, pois os alicerces sociais estão fincados. Um povo alfabetizado e consciente politicamente não se dobra à força das armas, mas sim à dos ideais”.

Clique aqui e leia a sinopse do enredo

Rompendo uma tradição conservadora

Pelo que sei, até mesmo devido ao processo de colonização recente, em que há uma predominância de pequenas propriedades rurais cultivadas por descendentes de alemães, poloneses, italianos e outros países do leste europeu, e uma distribuição pelo interior de pólos econômicos, Santa Catarina sempre foi um Estado de verniz conservadora.

Agora mesmo, elegeu governador o candidato do DEM, juntando a ele um senador do PMDB (ex-governador) e outro do PSDB. O prefeito de Florianópolis é Dário Berger, do PMDB, que em 2008 derrotou Esperidião Amin, do PP, no segundo turno.

No entanto, desde que entrou na Passarela Nego Quirido, a União da Ilha da Magia arrebatou as arquibancadas, com capacidade de 10 mil pessoas, que cantavam o seu samba-enredo e davam vivas a Cuba. A médica cubana Aleida Guevara, filha de Che, arrancou aplausos emocionados ao desfilar num carro alegórico, tendo como destaque um folião que personalizava seu pai.

O envolvimento da platéia foi tão politizado que a tv da rede RBS de Florianópolis (afiliada à Globo) chegou a exibir durante a apresentação em legendas alguns comentários de telespectadores criticando o regime cubano, tentando desfazer a empatia entre o público e Cuba.

Arquibancada ajudou escola a vencer

Mas os jornalistas que cobriram o desfile das cinco grandes escolas coincidiram em observar que o desfile da UIM foi inflado pelo apoio das arquibancadas, que deliravam já na comissão de frente, que apresentava uma colagem de peças com a figura de Che. Essa escola existe há apenas 3 anos e disputava com outros antigas, já populares, como a Embaixada Copa Lord, segunda colocada, cujo fundador dá o nome à passarela, construída em 1989.

Na exposição sobre o enredo, o carnavalesco Jaime Cezário deu o tom da proposta da escola campeã: “O carnaval tem como principal objetivo levar informação através dos seus enredos, assim como divertir e encantar o grande público amante da festa. Nós, da União da Ilha da Magia, a escola de samba mais nova da cidade de Florianópolis, não queremos perder esse foco de utilizar essa grande festa para levar diversão, informação e questionamento.

Nossos caminhos são novos e buscamos aquilo que achamos ser a função principal de uma escola de samba, trabalhar pela cidadania. Pensando assim, nos perguntamos, qual seria o preço da liberdade?”.

Uma comunidade mobilizada

A comunidade da Lagoa da Conceição, berço da União da Ilha da Magia, vive hoje um processo de mobilização em defesa da sua qualidade de vida. Em outubro, o cineasta Eduardo Paredes, que vive lá há mais de 30 anos, divulgou manifesto em apoio ao movimento que tem entre os sambistas os mais atuantes defensores. Segundo ele, a especulação imobiliária pode comprometer a qualidade de vida no local.

O movimento denunciou que o sonhado Parque da Lagoa, na área do Vassourão, está ameaçado: depois de desmatarem parte do terreno, os proprietários da área colocaram placas informando sobre a expedição de licenças ambientais para construção de mais um condomínio.

A região atualmente é utilizada como campo de pouso de vôo livre. Paredes lembrou que 53 entidades assinaram uma representação, encaminhada às autoridades, visando ao tombamento daquela área para formação do Parque da Lagoa. Apenas o Ministério Público Federal deu algum tipo de satisfação.

Uma opção realista que dá certo

Tal como aconteceu na vitória da Vila Isabel, em 2006, a audaciosa escolha da escola de Florianópolis pode sinalizar para uma opção mais engajada e menos etérea  nos enredos carnavalescos.
Eu mesmo vivi essa experiência, no carnaval do quinto centenário, em 2000, quando desfilei por três escolas: Jacarezinho, Portela e União da Ilha. As duas últimas do grupo especial, apresentavam em seus enredos trechos da história do Brasil. Na Portela, estava na ala que falava da Aliança Nacional Libertadora, e na União da Ilha, no carro alegórico denominado A Barca da Volta, com a participação de ex-exilados e perseguidos políticos. Em ambos os casos, a reação do público chegava a emocionar os próprios passistas.

Fica aí mais um elemento para a reflexão de todos.

Fotos de Florianópolis.
Filha de Che Guevara participa do desfile em Florianópolis
Bandeiras de Cuba e líderes da revolução
Carro alegórico destaca personagens cubanos

segunda-feira, 7 de março de 2011

Na liturgia das ondas a benção de energias para embates inevitáveis, como é da minha natureza

Vi no espelho do mar bravio que um dia os pusilânimes serão abatidos pela roda da história
O cair da tarde no mar infinito flagrado por Lívia Santana
“Não somos indispensáveis ao mundo, nem a ninguém no mundo. Mas podemos CONVIR ao mundo, indo ao encontro de sua beleza e até de suas não belezas”.
Paulo Timm, economista, ex-exilado político, companheiro de todas as lutas, em seu comentário sobre meu texto anterior.

Sete dias não são nada na vida de um povo. Não são nada até mesmo em nossas vidas. Mas os sete dias passados em alto mar, já quase setuagenário, me permitiram rever o trajeto percorrido e pontilhar o destino a enfrentar.
Não tinha muito que fazer senão olhar-me através do espelho das águas inquietas. Propus-me a tal desde o cais. E esse olhar maduro e sereno foi fundo, alcançou-me o cérebro e mexeu com todo o estoque de valores, idéias e lembranças. Valeu, digo sem exagerar. Valeu mesmo.
No delírio daqueles instantes solenizados, mergulhei de cabeça nas apoteóticas profundezas de um mar senhorial. Vi o imponderável unir, como duas faces do mesmo infinito, o azul marinho das águas bravias ao vermelho do sol poente, uma imagem singular que só mentes poéticas podem assimilar em toda a sua simbologia.
Vi tudo, então. Vi os semblantes da dúvida espelhados nas ondas enigmáticas de prenúncios indecifráveis. Aprendi a lição. Hipócritas são os cortesões maledicentes que jogam todas as suas fichas na acomodação genuflexa dos caídos nos ciclones da paranóia internalizada.
Vi naquele mar o abismo dos acomodados, mamíferos desfibrados, picados por venenos de efeitos efêmeros, esses soníferos da obsessão egoísta, ilusória, da sedução dos encantos do fausto artificioso, dos devaneios pessoais frívolos, dos prazeres cosméticos forjados na auto-afirmarão, na competição mesquinha inconsciente, nos impulsos da inveja, esse fruir de jóias falsas, mas reluzentes, como elemento de um reles orgasmo banalizado.


Mesmo quando a maré não está pra peixe
No entanto, juro por Deus, pesquei no alto-mar sinais de que o ardiloso aprisionamento dos entes pensantes está com seus dias contados. Dias ou anos, traçados na milenar escrita marinha. Sim e sim. Não é história de pescador. É o que se vê também, olhando bem, nas marcas dos símbolos deixados pela maré, ao cair da tarde, sob o rubro do sol brilhante, nas areias da praia.
Quando a casa vai cair? Esclareço a bem da verdade: isso não me foi possível decifrar, mas é bom que nos preparemos para qualquer coisa, a qualquer momento. Há anos que valem por dias, mas há também dias que valem por anos.
Nós outros, mesmo poucos, poderemos minar os tentáculos da hidra devastadora. Isso predisse e provou Oscar Wilde, naquele 1900 de tantas idéias férteis.
Está bem, admito: hoje, ainda há, sim, é inegável, uma preponderância das células malignas, que submetem o organismo social ao insólito da mais impertinente mediocridade – a rainha do samba e do maracatu.
Na distância do epicentro fratricida, da caótica torre de Babel, a salvo dos sons das cuícas e tamborins, pairando na constelação etérea, é possível construir uma utopia factível, por paradoxal que à primeira vista pareça.


A descoberta de si mesmo
Faça isso, você também, mesmo em terra minada. Pare para pensar, afaste-se do torvelinho, abstraia a pressão do cotidiano, flutue na senda do revelador distanciamento crítico, faça de conta que você não está nem aí, que não tem contas a pagar, que não tem cobranças a honrar, nem a fazer, enfim, incursione acima do cenário terrestre e tente mirar o mundo pelo olho mágico da inocência pétrea.
Um impetuoso sentimento de libertação o impulsionará à descoberta de si mesmo. Esse será o maior de todos os ganhos, o mais consistente de todos os triunfos. De fato, ouso declarar alto e bom som, o primeiro segredo da contemplação dos mares é o espelho em alto relevo que transpassa nossas almas inquietas, que movimenta nossas imagens cravadas nas ondas e nos leva de um lado a outro do arco da busca da própria razão de ser.


Na ignorância, a inércia e a renúncia
Vou fundo nesse clamor porque, longe das arenas e dos proscênios, veremos personagens manipuladas tão somente por conta de sua fragilidade consentida, de sua exuberante ignorância cultivada. Sim, senhoras e senhores, os horrores de uma vida boçal nos cobrem de uma camada espessa de renúncias acovardadas.
Renuncia-se a quase tudo na negociação inconsciente com os espoliadores de nosso trabalho, sagazes ao ponto de obter de cada um o rogo pelo sacrifício impiedoso. A ciência da perpetuação dos domínios, da estratificação social e cultural, essa álgebra feérica nos emascula o hábito de indignar-se e torna fúteis e laterais nossos ímpetos de rejeição, ditando-nos meticulosamente cada vocábulo de nossas exclamações, segundo o programa do cibernético laboratório de formação e individualização do comportamento coletivo, a forja do “hei de vencer a qualquer preço e se dane o mundo”, danem-se até mesmo, se empecilhos forem, os irmãos de fé, camadas.
Os cidadãos que seriam livres e iguais em direitos na democracia proclamada tendem a renunciar à condição de sujeitos dos seus passos, rendendo-se ainda, neste instante que há de passar, à incultura avassaladora, à tirania midiática, à mistificação dos púlpitos, como se milhões de palermas fossem induzidos à autofagia mental.


Mas os pusilânimes sucumbirão
Ainda  vejo esses tolos no manicômio da insanidade prescrita: fieiras de oprimidos esgarçados ainda acham sensato deixar que pensem e decidam por eles, que o exercício da política, das grandes decisões de Estado se torne exclusivo de profissionais de mãos sujas, enriquecidos ironicamente pela população renunciante, perfilada no grande exército de analfabetos políticos.
O mar, misterioso mar, é, no entanto, o espelho convexo mais luminoso das verdades que se alojam nos recônditos adormecidos.
Nesses dias ausentes, inspirado pela água suavemente zangada que não cala um só momento, passei horas a contemplar seu estado de movimento constante, o choque das ondas, o relevo das espumas, o vôo rasante das gaivotas. A linguagem desse mundo tem a carga simbólica de um processo irreversível, que há de atropelar os fracos, os pusilânimes, os pobres de espírito, os canalhas, cedendo aos intrépidos ventos uivantes da transformação inevitável. Uma transformação que penetrará fundo simultaneamente em todos e em cada um de nós.
Por que nem só das arapucas midiáticas se constrói a consciência dos seres. Pelo contrário, há um outro mar  aberto, essa rede internáutica sem fronteiras, permitindo que a palavra livre seja escrita e pronunciada por todos e a todos chegue, mais dia, menos dia, de uma forma ou de outra.
No espelho das águas, ainda que em ondulações frenéticas, pude ver o mundo novo que virá, pude ver a varredura do lixo que a intrepidez de alguns, apenas alguns, se for o caso, haverá de reduzir a desprezíveis detritos, levando em sua torrente a fauna putrefata que, por ora, ainda manipula esses podres poderes.

Firme e forte para o que der e vier
É com a certeza de que a escrita ainda muito pode que retorno ao que se diz ser terra firme.
Firme será ainda mais o meu grito espalhado no ar, ainda mais estridente, mercê da enorme carga de oxigênio contida em tantas mensagens e comentários recebidos. Mercê igualmente do processo abjeto de indignidades com que os vilões desses podres poderes apertam o cerco, tentando me encurralar, para que me cale ou fale sua íngua corrupta e enganadora.
A partir de agora, serei mais assíduo nas minhas colunas, repassarei matérias, indicarei links, estarei mais presente na facebook e no twitter. E, sobretudo, tão logo me estruture, irei para as ruas, pelo menos uma vez por semana, conversar diretamente com quem não posso alcançar pela internet.
Sei que não sou indispensável ao mundo, mas, pelo visto, minha palavra conta. E isso é o que me faz rejuvenescer nas liças a que associei minha própria razão de viver.
Enfim, eis-me inteiro, pronto para o que der e vier.

Sobre o carnaval
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O que penso está aí.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.