domingo, 27 de fevereiro de 2011

Uma pausa que refresca. E recicla.

A partir de hoje e durante os próximos dez dias você não corre risco de receber matéria da minha livra. Nesse período, estarei totalmente fora do ar, longe de tudo o que possa parecer computador e internet.
Nada de dramático: desde há muito havia fixado essa data para uma reciclagem e uma profunda reflexão.
Afinal, em março estarei completando 68 anos e o peso da idade maximiza o peso da responsabilidade.
Sou um homem livre sob todos os aspectos. Livre e desimpedido. E essa conquista rara, que me faz olhar para as pencas de dependentes químicos de um patronato sem escrúpulos, é uma faca de dois gumes.
Esse despojamento que uma natureza rebelde me incutiu tanto me cobre de coragem desmesurada, como pode me conduzir para o mais fundo dos abismos, eis que a sociedade se degenerou, perdeu o recato moral e decaiu ao nível de um lodaçal de interesses mesquinhos, imediatistas, míopes, egoístas, acríticos e demasiado tolerantes.
O sistema capitalista se fez selvagem e produziu subprodutos destituídos de valores elementares. O mundo todo entrou nessa pilha. Os que seriam seus críticos dão-se às mesmas práticas abomináveis, corrompem e são corrompidos por ação e omissão, operando o controle da boa fé e das limitações pueris que foram capciosamente amestradas.
Tenho estado em cancha com a consciência da mais dramática solidão. Tenho brandido minha pena como se num mero exercício da catarse. Muitas vezes me vejo a criticar-me cabisbaixo, afetado pela péssima idéia da inutilidade e da inconveniência.
Sozinho não estou, recupero-me na avaliação. Não e não. Há outros entes na liça, talvez com mais sentimento de pugna e maior envolvimento no bom combate.
Mas não consegui estabelecer o elo com muitas outras almas infensas ao canto torpe das sereias desses podres poderes. Eu e os que partilham da mesma indignação continuada parecemos soldados de uma tropa perdida no tempo e no espaço.
Durante esses anos infinitos de escritos amargurados tenho buscado aproximações com outros contendores. Aqui e ali, alcanço uma alma perdida, disposta a afrontar a obscena conspiração da pouca vergonha, do cinismo, do jogo de cena, da mistificação profissionalizada.
Não me queixo, aliás. Escolhi as armas de uma guerra desigual sabendo do que isso pode representar o próprio isolamento. Os farsantes de todas as trupes querem me ver moribundo, estigmatizado, desacreditado.
Sinto, no entanto, uma energia inesgotável, que é alimentada e reciclada a cada manifestação parceira, a cada comentário sobre meus escritos. Mesmo as vozes discordantes nutrem-me o cérebro nervoso na construção da lucidez necessária, de um pensamento lapidado também pelo contraditório.
Que eu não vou mergulhar nas trevas do conformismo e do desespero, isso é garantido. Os mares nunca dantes navegados, ao contrário, são fontes da mais luminosa inspiração.
Mas esses dias longe do computador, portanto desarmado, sob a inspiração do alto mar, envolvido tão somente com o carinho familiar tão presente em meu cotidiano, me servirão de uma bendita lavagem cerebral.
Eu preciso acreditar que ninguém no mundo depende de mim, reformular essa mania de grandeza, mesmo envolta na mais mimosa generosidade. Preciso recondicionar-me no embalo de um horizonte perdido. Preciso acordar uns dias sem a aflição da caça às notícias, essa viagem ao mundo que faço diariamente em busca de informações nem sempre inteiras, acreditando piamente que a cada palavra do meu acervo de boas intenções vou influir decisivamente na percepção de alguns e, assim, vou produzir o contraponto libertador.
Enfim, nesses dias de trégua a que me impus quase que por intuição saneadora, na tarefa de relaxar copiosamente, espero reoxigenar meu pensamento a partir da alienação temporária de curto prazo.
Espero que o mundo não acabe nesses dias. E que, livre dos meus sermões, cada um dos meus parceiros, cada leitor, cada crítico, enfim, cada um que põe os olhos em meus teores tire o máximo de proveito dessa pausa que refresca.
E recicla. Não é longa a minha jornada de férias; é pequena, mas resolve.
Quando a esta trilha retornar, apesar do tempo exíguo, espero ter descoberto novos segredos para nutrir meu sentimento de intervenção honesta no universo das informações: afinal, o som das águas tem vocábulos passionais que o próprio coração desconhece. E tem mananciais de lucidez que a própria razão não alcança.
Espero estar melhor, mais digno de sua acolhida e de seus comentários.
Até breve.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Será que está acontecendo mesmo na Líbia o que a mídia diz que está acontecendo?

Pela postura panfletária dos jornalistas ocidentais, é difícil acreditar em qualquer coisa que digam
“A única coisa que não acontecerá em caso de remoção de Khadafi do poder é a democracia, não agora, e não por um longo tempo”.
Benjamin R. Barber, membro do Conselho Internacional da Fundação Internacional Gaddafi para a Caridade e o Desenvolvimento, do qual se demitiu esta semana.


“A Líbia é um país com muito potencial, que já está sendo realizado e vai continuar a ser. O país está na contramão da crise mundial, acumulou muitas reservas e não está endividado”.,
 Daniel Villar, Executivo da Construtora Odebrecht em Trípoli.


Obra da Odebrecht brasileira ba construção de dois novos terminas no Aeroporto de Trípoli
Foto de manifestação pró-Kadhafi  divulgada no Ocidente como de opositores
Desculpem-me, preclaros leitores, mas esse noticiário sobre a Líbia não está me cheirando bem. Faz lembrar aquele bombardeio midiático de 16 a 18 de abril de 1961, quando a nossa ínclita FOLHA DE SÃO PAULO noticiava, eufórica, a “vitoriosa” invasão de Playa Giron, em Cuba, por mercenários armados e treinados pela CIA.

Naquele então,o jornal detalhava os avanços triunfais de um certo exército que seria derrotado e humilhado em não mais de 72 horas.
“José Miró Cardona, presidente do Conselho Revolucionario Cubano, chegou à Provincia de Oriente para reunir-se com as forças contra-revolucionarias que desembarcaram esta manhã na ilha, anunciou a Frente Revolucionaria Democrática do México, referindo-se a informações recebidas de Miami e Cuba. Ao que parece, Miró Cardona já se encontra em Santiago de Cuba, cidade que caiu em poder dos contra-revolucionários. Segundo indicam na mesma fonte, a cidade de Revellanos, na Província de Matanzas, a 135 km de Havana, teria caído em poder dos invasores.
Por outra parte, acredita-se que forças anticastristas desembarcaram igualmente na ilha de Los Pinos, onde está a penitenciaria para a qual o governo castrista enviava seus prisioneiros politicos. Todos estes prisioneiros lograram, ao que parece, depois de lutar com seus guardas, unir-se às forças invasoras”.

Tremendas “barrigas”, como se diz na gíria jornalística, destinavam-se a dar suporte a uma esperada intervenção direta dos fuzileiros navais norte-americanos, o que só não aconteceu porque o presidente John Fitzgerald Kennedy teve um repentino ataque de lucidez e pisou no freio ao saber que era tudo mentira: Miró Cardona não havia saído nem do banheiro de sua mansão em Miami Beach, devido a uma disenteria incontrolável.

CLIQUE AQUI e leia a matéria da FOLHA, hoje em seus anais.

Os sócios brasileiros de Kadhafi

Não, não estou querendo criar miragens nas mediterrâneas terras líbias. Não quero nem tomar partido, embora o mais fácil, de assimilação mais confortável, seria engrossar o cordão dos que estão bancando a revanche ao débâcle no Egito e na Tunísia.

Ou então partilhar da angústia das grandes empreiteiras brasileiras, que se fizeram “sócias de Kadhafi” em vultosos empreendimentos, que, entre outros contratos, prevêem a construção de 1 milhão de casas num país de pouco mais de 6 milhões e 300 mil habitantes. Nossas grandes construtoras encontraram lá seu oásis de bons negócios, graças, reconheça-se, ao espírito mascate e ao gosto por viagens do ex-presidente Luiz Inácio, certamente inspirado nos passos internacionais de João Paulo II, que tirou a Igreja Católica da redoma do Vaticano.

Ou você não sabe da corrida ao ouro que envolve Odebrecht, Queiróz Galvão, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa em canteiros de obras que podem faturar mais de 3 bilhões de euros? Só a Odebrecht orçou em 950 milhões de euros a construção de dois terminais no aeroporto de Trípoli e em 250 milhões o terceiro anel rodoviário dessa cidade de 1 milhão e 800 mil habitantes.

Manipulação a preço de ouro

Matéria de Khatarina Garcia e Peter Blair, despachada de Washington e Cairo, publicada em vários jornais do mundo, no dia 20 de fevereiro próximo passado, mostra foto de uma manifestação de partidárias do líder líbio que foi apresentada ao mundo como sendo de seus opositores.

Os dois jornalistas afirmam com todas as letras que os Estados Unidos culpam Líbia e Irã pelas agitações que deram na queda de dois aliados incondicionais. “Em entrevista coletiva de imprensa, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Philip Crowley reafirmou as palavras do Presidente Barak Obama em que sugeriu apoio à oposição a Ahmednejad e a Kadhafi, em represália á derrota política sofrida por Washington nestas últimas semanas e pela queda dos governos do Egito e Tunísia”.

E mais declaram os referidos jornalistas:
“O Congresso dos Estados Unidos autorizou a Casa Branca a dobrar os valores aprovados no orçamento de 2011 para gastos relativos a propaganda e meios de comunicação contra líderes que contrariam os interesses dos EUA no mundo, como é o caso de Muammar Khadhafi, Mahmoud Ahmednejad, Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa, Raul Castro, Daniel Ortega, Cristina Krischner, Fernando Lugo, Kim Jo II. Os recursos devem ser usados na compra de espaço na mídia dos países governados por estes líderes em jornais, rádios, revistas e redes de televisão, que devem sempre se referi aos mesmos como ditadores e receberem sempre orientação dos Adidos de Imprensa nos respectivos países ou senão houver relações diplomática com estes, pelos agentes da CIA no país.

O orçamento total do projeto é de um bilhão de dólares e só para o Brasil foram destinados 120 milhões para esse tipo de ação.

Semana passada, uma reunião conjunta entre representantes da CIA, a Agencia Central de Inteligência, Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, ficou acertado que além do financiamento de ações contra Kadhafi e Ahmednejad nos seus respectivos países, repassando milhões de dólares aos opositores para que possam organizar manifestações, deve se iniciar uma campanha na mídia mundial contra os dois e ainda procurar envolver seus parceiros latino-americanos para que façam aliados dos partidos de oposição a apoiarem as posições dos EUA”.

Pior foi o bombardeio de Trípoli

Um momumento lembra o bombardeio do prédio onde morreu a filha de Kadhafi
Bom, isso tudo é relativo. Pode ser que Kadhafi, com o desgaste de 42 anos no poder, vá mal das pernas. Todo poder enferruja com o tempo. Mas ele já superou situações mais medonhas, como em 15 de abril de 1986, quando uma esquadrilha com 77 aviões norte-americanos bombardeou Trípoli, por ordem pessoal do presidente Ronald Reagan.

O ataque aéreo tinha como objetivo declarado matar ou derrubar Muammar Kadhafi, conforme declaração explícita, assinalando que aquilo era apenas uma amostra do que poderia cair sobre a Líbia no futuro. Os aviões que riscaram os céus de Trípoli mataram cerca de 600 civis, entre as quais uma filha de Kadhafi. Foi do prédio onde ela morreu, ainda semi-destruído, que ele fez seu segundo pronunciamento neste fevereiro quente.

Admitindo que Kadhafi esteja no fim da linha, quem poderá dizer o que será desse país que tem a oitava maior reserva de petróleo do mundo? Ele denunciou o envolvimento de Bin Laden e do Al-Qaeda teocrático na manipulação da revolta do leste. Para o cidadão brasileiro, isso parece surpreendente, na medida em que ambos são tidos e havidos, no mesmo patamar, como inimigos mortais dos Estados Unidos. E, como se diz, o inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Mas há uma situação peculiar: A Líbia é talvez o país árabe mais laico, onde o clero islâmico tem menor influência. Em sua quase totalidade, os líbios são sunitas tranquiklos. Lá as questões tribais pesam mais do que a religião. Depoimento de Benjamin R. Barber, em artigo noThe Huffingston Post do dia 24, não deixa dúvida: se Kadhafi cair, “um eventual aparecimento de um novo regime autocrático é inevitável. Provavelmente não é um regime islâmico, porque a revolução de Khadafi habituou o povo a um país secular e anti-teocrático; lá o tribalismo é mais importante do que a religião”.

Benjamin R. Barber afirmou que o levante acabou afetando o trabalho do filho Seif Al Islam Khadafi, presidente da fundação que pugnava por um liberalização do regime. Segundo Barber, a natureza do levante, que fermentou no leste, levou a reunificação do clã Qadaffa, que tem origem no oeste do país.

As quase 140  tribos que conservam suas identidades e  seriam as únicas estruturas capazes de substituí-lo, segundo especialistas ocidentais. Mas os chefes tribais não teriam um quadro com poder de aceitação de todos.

Moncef Djaziri, da Universidade de Lausanne, Suíça, sintetizou essa percepção: "as tribos são mais apegadas à terra do que à nação líbia, uma idéia abstrata para elas. Há tribos no leste que se solidarizaram com os manifestantes e outras, a oeste e no sul, que continuam leais a Kadhafi. Em caso de vácuo político, esses grupos podem entrar em conflito por causa do petróleo".

Djaziri acredita que uma guerra aberta entre tribos de regiões diferentes poderia levar a uma "anarquia generalizada" e até à divisão do território nacional em diferentes zonas de poder.

Já os jornalistas Khatarina Garcia e Peter Blair insistem em que na raiz do descontentamento há manipulação externa: “Nesta quinta (17), Ashur Shamis, um ativista líbio de oposição residente em Londres e recrutado pelos serviços de inteligência britânico (MI6) e norte americano (CIA) dava informações repassadas pela embaixada dos EUA no Reino Unido e admitiu, ainda que de forma constrangedora, o uso de imagens dos protestos no Barhen e no Yemem como se fossem realizadas em Trípoli e Bengazi, principais cidades líbias, o que desmascarou a ação montada pelos órgãos de informação e comunicação que trabalham juntos contra a Líbia e o Irã”.

De qualquer forma, ainda com a pulga atrás da orelha sobre a revolta em três cidades do Leste, onde se concentram os jornalistas do Ocidente, acho que Benjamin R. Barber tem razão quando diz que não há semelhança entre os cenários políticos e os personagens da Líbia, Egito e Tunísia:

“Se a resistência de Kadhafi falhar, é provável que ele morra como um mártir. Não seria confortável para ele um exílio em Caracas. Lembremos que Kadhafi não é Mubarak ou Bashar al-Assad, herdeiros de segunda ou terceira geração das ditaduras revolucionárias. Ele é de um corte de natureza revolucionária, do mesmo tecido como Nasser e Castro, e sua retórica nacionalista, se aparentemente incoerente e irrelevante para o mundo moderno, é autêntica e enraizada em seu povo”.

Finalmente, ao afirmar que a sorte da Líbia será decidida nas próximas 48 horas, lamento que os jornalistas ocidentais tenham trocado a responsabilidade da informação pelo panfleto. Exemplo disso é o artigo “Não vamos ficar de braços cruzados”, assinado no GLOBO de hoje por Nikolas D. Kristof, do New York Times. Por essa e outras matérias é que fico com o pé atrás: será que está acontecendo mesmo na Líbia o que a mídia diz que está acontecendo?

Em tempo: a Líbia é um país esquisito: segundo agências ocidentais, tem uma taxa de desemprego de 30%, mas acolhe 1 milhão e meio de egípcios e outros 300 mil trabalhadores estrangeiros de países vizinhos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Alvíssaras: Hélio Fernandes está de volta

Como não podia deixar de ser, a voz dos leitores falou mais alto.

Bombardeado por apelos de todos os lados, Hélio Fernandes, o mais antigo  (e indomável) combatente do nosso jornalismo, mestre de todos nós, com 70 anos de redação, reavaliou sua posição e decidiu voltar a escrever, apesar das dificuldades que seu blog enfrenta. E voltou com a idéia de convertê-lo num site ainda mais amplo, o que não seria necessário. Sua palavra atenta é indispensável nos dias de hoje, concordemos ou não com cada uma de suas opiniões, sempre muito  bem fundamentadas.

Foi com muita alegria que recebi seu telefonema ao meio dia de hoje. Ele relatou que ficou impressionado com a quantidade de manifestações para que  permanecesse escrevendo, levando-o à convicção de que esse ato profissional se tornou um dever de consciência, do qual não poderá se furtar, a não ser por absoluta impossibilidade, o que não é o caso: aos 90 anos, continua com a garra de um jovem, oferecendo a força de sua inquietação à legião de leitores de todo o país que tanto o admiram.

No seu blog, escreveu, com a emoção de sempre:

"quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
12:48

Não é a volta e sim a revolta contra mim mesmo. É o agradecimento emocionado, que todos sabiam que existia, mas não podia ficar silencioso. Depois de mais de 70 anos, não posso deixar de escrever. É possível que esteja aqui diariamente, a partir do Carnaval.
Helio Fernandes

A todos os milhares, neste blog e fora dele, se expressando de todas as maneiras, exercendo o direito legítimo que sempre foi respeitado aqui, de exigir que não parasse de escrever, respondo afirmativamente.

Desculpem, sensibilizado com todas as afirmações que foram feitas, meu respeito a todos, mas principalmente a reafirmação de uma obrigação e de uma necessidade de me comunicar, de informar, de opinar, de participar. Por isso, na abertura deste blog, fiz questão de colocar, “INFORMAÇÃO e OPINIÃO”, que mais do que uma frase ou slogan, é a continuação de tudo o que a Tribuna da Imprensa representou em quase 60 anos. Sem interrupção. Sem concessão. Sem qualquer parada até mesmo para reabastecimento. O que seria necessário, obrigatório, indispensável, mas jamais soube exercer o jogo do troca-troca, o que “peemedebistas”, “petistas” e “peessedebistas” (além dos outros) fazem maravilhosamente.

Sobrevivi quando existia o MDB, que não era o “mais que perfeito”, pelo menos era o domínio do melhor grupo político dos últimos tempos, os “AUTÊNTICOS”, todos cassados, perseguidos, afastados, desaparecidos.

Assim como o golpe de 64 não deixou que a melhor Constituição brasileira completasse 18 anos, também não permitiram que a Tribuna impressa completasse 60 anos de História, de resistência, de luta pela convicção, pela Liberdade de Expressão. Esta que está na PRIMEIRA EMENDA da Constituição dos EUA, e não as outras, que circulam pelo mundo, se fingindo de democráticas.

Uma vez, em plena ditadura, cercado por todos os lados, soterrado, emparedado, seqüestrado, desterrado por “mares nunca navegados”, escrevi: “O último artigo será escrito enquanto meu corpo for transportado da gloriosa Rua do Lavradio para ser cremado no Caju. Depois de aproveitados todos os órgãos, já doados antecipadamente”.

Embora convencido de que a Tribuna da Imprensa de papel jamais voltará a existir (é uma convicção seguríssima, que não está em discussão, é o único fator para o qual eu peço e exijo exclusividade, pois isso é conclusão, análise e sumário), posso garantir para dentro de algum tempo, não um simples blog, mas um verdadeiro site. Amplo, abrangente, livre, que o cidadão poderá digerir satisfatoriamente todas as manhãs, completo.

E o repórter continuando aqui, não sei a partir de QUANDO nem até outro QUANDO. Estas são as designações minhas, estão acima de considerações. Mas uma coisa posso afirmar, avaliar e referendar: minhas últimas palavras escritas, serão postadas, que palavra, aqui mesmo".

Para saber mais sobre Hélio Fernandes, clique aqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um trincheira que cai: Hélio Fernandes parou de escrever

Essa notícia é um verdadeiro golpe na mídia independente.  Hélio é único e,  aos 90 anos, ainda é  uma referência para milhares de brasileiros.

Veja o seu comunicado no site do blog http://www.tribunadaimprensa.com.br/

"segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 11:06

COMUNICADO IMPORTANTE
Helio Fernandes

A partir de hoje, este blog não tem mais nada a ver com Helio Fernandes ou Tribuna da Imprensa. Foi bom enquanto durou, mas as coisas não duram para sempre. Vários fatores contribuíram para a decisão, que é exclusivamente minha, pessoal, pensada e decidida. Algumas pessoas que souberam, antecipadamente, fizeram apelos, desculpem, não posso atender.

Agradeço aos comentaristas que participaram livre e desassombradamente. Ao Carlos Newton, que perdeu dias de sono e dias de trabalho para que as matérias saíssem. Um dia, na distância dos tempos, é possível que jornalisticamente nos encontremos. Mas não como financiadores ou financiados. Isso jamais existiu na minha vida e não existirá. O lamento é de não escrever, o que fiz a vida inteira. Mas lamentar faz parte da vida".

O jornalista Carlos Newton, que editava o blog, ainda tenta uma fórmula de mantê-lo. Mas sem Hélio Fernandes será muito difícil. TRIBUNA E HÉLIO se completam.

Colunista da TRIBUNA desde 1968 (com as interrupções obrigatórias, como no ano e meio de prisão e nos anos seguintes, em que estava totalmente proibido e marginalizado pela ditadura) considero que devemos fazer alguma coisa para convencer Hélio a voltar a escrever. Já me coloquei à sua disposição.

Se você também acha que devemos trazer HÉLIO FERNANDES de volta ao seu blog, escreva-me ou diretamente para o blog da TRIBUNA.  Vou reunir os comentários que receber e fazer chegar a ele.

O Brasíl sem a presença crítica de HF  na mídia não será o mesmo.

Clique aqui e saiba mais sobre Hélio Fernandes

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

No falso duelo do mínimo, a ópera bufa dos papéis trocados

Depois do desgaste na votasção do
mínimo, Lupi foi ao banquete
dos empresários na FIESP
Nessa encenação parlamentar, a oposição ajudou o governo a saber quem é quem em sua base de dependentes fisiológicos.
“São tão simples os homens e obedecem tanto às necessidades presentes, que quem engana encontrará sempre alguém que se deixa enganar”.
Nicolau Maquiavel (cientista político florentino, 1469-1527)

Estão redondamente enganados os que imaginam ter havido um duelo na Câmara Federal em torno do salário mínimo. Antes pelo contrário: o objeto da votação e os 47 milhões de potenciais interessados entraram naquela maçante discurseira como Pilatos entrou no credo. O meio milhar de bem remunerados deputados foi ali, sob as câmeras de um legislativo assumidamente gaiato, apenas para representar mais uma ópera bufa de papéis trocados, exibindo à distinta platéia o espetáculo surrealista de canastrões feitos excelências.

Nada me pareceu mais fora de propósito do que ver os partidos patronais chorarem pela sorte dos desafortunados assalariados do mínimo, para os quais, na contracena, seus hipotéticos representantes, titulares de suas franquias, lhes viraram as costas, privilegiando o comprometimento das núpcias com o poder.

Todo mundo sabe que a inexistência de ganho real no reajuste do salário mínimo aprovado representa a verdadeira quebra do acordo alegado na sustentação de uma correção que a nada corrigiu. A alegação da referência ao PIB negativo em 2009 veio a calhar. O governo entrante está morrendo de medo de bombas de retardo e, como no começo tudo são festas, aproveitou a deixa para segurar as pontas de um processo que tantos dividendos políticos forjou junto à plebe ignara.

Como em 2010 houve uma certa recuperação do crescimento e como o referencial de perdas é a inflação desse ano, não custava nada ter antecipado alguma coisa do próximo aumento: não custava nada, mesmo. Era, aliás, até uma demonstração de bom senso.

Jogo de cartas marcadas

Mas a ribalta fora tomada pelos coadjuvantes na busca de alguns minutos de glória. O governo se apegou a um valor e seus adversários, repetindo velhas práticas dos rivais, alardearam que queriam dar mais ao proletariado de cordas no pescoço e mãos atadas. Queriam mesmo? Claro que não. Queriam, sim, fazer média com a platéia e causar embaraços para a turma que se comprime, ávida, insaciável, na cata de qualquer vantagem por ser da base governante.

Não havia sinceridade na encenação mal ensaiada. Havia, sim, infelizmente, o sentimento de impunidade ante uma massa tomada de analfabetos políticos, vulnerável a qualquer mistificação, conformada com a pirâmide que sustenta o dorso de uma sociedade sedimentada na injustiça e na atávica exploração do homem pelo homem.

O pomo da discórdia era outro, portanto. Tratava-se de explicitar quem era quem no jogo do poder. O governo da senhora Dilma Rousseff precisava fazer um laboratório, saber de seu poder de sedução dos parlamentares, que usam enferrujadas picaretas para abocanhar o máximo de minas possível, e que andavam arregalando os dentes atrás da carne seca.

Para testar o nível de dependência de cada deputado o governo contou com a colaboração graciosa da oposição, que bancou propostas mais generosas na convicção de que jamais poderiam sair vitoriosas. Ou teria mudado o ultra-reacionário Ronaldo Caiado, latifundiário de pai e mãe, para quem a simples existência de direitos trabalhistas se afigura uma peça jurássica da era Vargas, que ele e seus parceiros desejam enterrar?

O embate de fancaria mostrou exatamente o que já se sabia: o entorno do poder desfigura personalidades e as nivela a encabulados bobos da corte, enfileirados em pálidos cordões de dependentes químicos do seu aroma.

Rebelião no PDT ainda vai render

Mas revelou igualmente que nem tudo são flores nos jardins da corte. A divisão no PDT serviu para revelar a insatisfação dos seus mais importantes parlamentares com o seu presidente licenciado, reconduzido triunfalmente ao Ministério do Trabalho, este sobrevivente de uma farsa em que abriu mão do passado institucional e virou mero distribuidor da grana do Fundo de Amparo a Trabalhador – FAT.

O governo não é só aritmético. Viu que do PDT ficou no seu coro apenas a banda amorfa de sua bancada. Os expoentes mais visíveis, que são respeitados e pesam no debate parlamentar, deixaram o ministro Carlos Lupi pendurado no pincel e votaram contra o governo. Assim foi com Antônio Reguffe, o deputado proporcionalmente mais votado do Brasil, tendo merecido o sufrágio de um em cada 5 eleitores de Brasília.

Na mesma postura dissidente estavam também Vieira da Cunha, combativo parlamentar do Rio Grande do Sul, o paraense Giovanni Queiróz, líder da bancada; Miro Teixeira, um dos mais respeitados congressistas, e Paulo Pereira da Silva, que carregou os três votos do PDT paulista na mesma posição.

Mas os próximos dias mostrarão que a rebeldia de alguns pedetistas não afetará a permanência de Lupi no Ministério do Trabalho. Seria um erro de cálculo do palácio punir um fiel escudeiro, útil como coveiro da outrora rival fortaleza brizolista, que já exerce um cargo simbólico, excluído de todas as pendências trabalhistas, inclusive essa última com as centrais sindicais chapas brancas.

Ao contrário, pelo tom da balada palaciana, ele deverá ser mais prestigiado ainda, até como forma de desautorizar os dissidentes. Se não for isso, então o governo terá sucumbido à arrogância de trogloditas autoritários, que só confiam na truculência como método de relacionamento, que imaginam os aliados como hordas de obedientes capachos.

Já o PDT poderá ser sacudido pela rebelião em marcha, de consequências imprevisíveis. Não é todo mundo que se agacha em troca das sobras do banquete. Quem tem biografia a preservar – não é o caso do ministro – pensa duas vezes antes de deixar-se aviltar por ofertas de ocasião.

Para nós, de cá, fica a sensação do triunfo do óbvio. O governo tem argumentos de sobra para fazer valer suas decisões: que o diga a penca de cargos atrativos disponibilizados na máquina estatal, a que se junta o enorme poder multiplicador de um estado gigante e avassalador.

Fica ainda a sensação de que essa classe política – de um lado e de outro - não tem o menor respeito pela verdade, nem acredita no potencial crítico dos cidadãos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Blog DILMA PRESIDENTE reproduz nossa opinião sobre a hiporcrisia semântica

Informado por um leitor, acessei o blog Dilma Presidente e encontrei lá a reprodução na íntegra da minha coluna sobre a queda de Hosni Mubarak e minhas reflexões sobre o desserviço que a grande mídia presta no cultivo do que chamei de hipocrisia semântica.

A mesma matéria foi reproduzida também no site Dilma na Rede, que se define como Rede Social que ajudou a eleger Dilma Rousseff Presidenta do Brasil!


Lembrava no texto que até outro dia o governante egípcio era apresentado como o presidente eleito e reeleito daquele país árabe. Nunca como ditador. Foi só a turba descobrir a força da praça para conhecermos uma nova referência a ele: agora, todo o noticiário passava a tratá-lo como ditador.

A coluna, que você poderá ver aqui, em PORFÍRIO LIVRE, focaliza com ênfase a parcialidade da imprensa, algo que muito me incomoda, pelos efeitos negativos que essa postura produz a curto, médio e lomgo prazos. Afinal, neste dia 18 de fevereiro, estou completando MEIO SÉCULO de carteira assinada como jornalista e convivi  esse tempo todo com essa manipulação desonesta, estando dos dois lados da mesa.

Independente e crítico, encarei a reprodução da minha coluna nos blogs ligados à presidente Dilma Rousseff como algo muito positivo. De um lado, mostra como minhas reflexões a respeito dessa questão tiveram importância para ponderáveis segmentos de opinião. De outro, revela a existência de critérios decentes na seleção de matérias que são levados a leitores como sentimentos políticos definidos e cristalizados. Os editores dos blogs não tiveram medo de abrir seus espaços para alguém que não tem compromissos com suas lideranças e que, pelo contrário, tem sido crítico, embora sempre recusando a assimilar agressões gratuitas, de baixo nível, que se espalham pela internet e pela grande mídia.

Nem sei se outros artigos meus foram também publicados nos blogs dos admiradores da presidente Dilma. Ou em outros, de outras tendências políticas e partidárias. O que sei, e reafirmo, é que meu compromisso essencial é honrar a minha própria biografia, fiel à ética, à análise honesta, impulsionado pelas causas do povo brasileiro por justiça social e pela soberania nacional.

Às vésperas de completar 68 anos (18 de março) me considero um brasileiro realizado e LIVRE sob todos os aspectos, pelo que tenho colocado essa LIBERDADE na trincheira do bem comum, em favor da nossa e das futuras gerações.

Artigo ganhou a internet

Aproveitei então e resolvi pesquisar no Google quem poderia ter reproduzido aquela matéria, que mereceu muitos comentários no blog e através de e-mails. Vi que foram muitos os espaços que se abriram para essa reflexão, demonstrando quão oportuna foi. Entre eles, além do blog Dilma Presidente, pude anotar:

Blog do Instituto João Goulart, dirigido por seu filho, João Vicente Goulart
http://www.institutojoaogoulart.org.br/noticia.php?id=2723

Estou procurando o que fazer, blog da jornalista Jane Nunes, de Campos, que já tem vários comentários.
http://www.estouprocurandooquefazer.com/2011/02/sexta-feira-11-de-fevereiro-de-2011caiu.html

Média Brasileira
http://mediabrasileiro.com.br/?p=36816

Blog do Briguinho
http://blogdobriguilino.blogspot.com/2011/02/caiu-o-ditador.html

Revista Veja Brasil

http://revistavejabrasil.com/?p=25902

Central de Blogs
http://outros.centralblogs.com.br/post.php?href=caiu+o+ditador&KEYWORD=13315&POST=3943921

Consciência da Mata, observatório diário dos acontecimentos, mantido por Franklin Ferreira Neto, a partir da cidade mineira de Visconde do Rio Branco.
http://www.conscienciadamata.com.br/agenda/home_noticia.php

Blog do Petrônio Souza Gonçalves, escritor e jornalista de Minas Gerais
http://petroniogoncalves.blogspot.com/2011/02/caiu-o-ditador-ue-mubarak-era-ditador.html

Pode ser  que a matéria esteja em outros espaços. Nunca me opous à sua reprodução, antes pelo contrário. Há também parceiros que repassam meus escritos para suas listas, o que me deixa igualmente honrado.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Caiu o ditador. Ué, Mubarak era ditador? A mídia não dizia isso até outro dia.

Barricada dos egípcios desmascara a hipocrisia semântica que manipula nossos corações e mentes.
Eles se amavam tanto e Obama e tinha como PRESIDENTE amigo
(Isso antes da massa tomar a praça e revelar que o amigo era ditador)
“A corrupção ao estilo americano pode resultar em "prendas" de trilhões de dólares para companhias farmacêuticas, a compra de eleições com maciças contribuições de campanha e redução de impostos para milionários, enquanto a assistência médica aos mais pobres é cortada".
Joseph Eugene Stiglitz, economista norte-americano, analisando “o catalisador tunisiano”.

Antes de especular sobre o amanhã egípcio, gostaria de lhe fazer uma pergunta: desde quando você sabia que Muhammad Hosni Said Mubarak era um ditador? Isto mesmo, concito-o a revirar os jornais de dois meses atrás (ou um mês, talvez): como o governante de 30 anos no poder era chamado pela mídia que lhe embasbaca diariamente em doses cavalares?
Até agora, aqui e além-mar, nas ocidentais usinas de desinformação, Mubarak era tratado como presidente eleito e reeleito, um líder legítimo, incontestável, lúcido e tudo o mais que o jargão colonial exala. Ditador, não.
Ditador, para essa indústria de mentiras e hipocrisias, é quem contraria os interesses dos trustes, quem cai no desagrado dos Estados Unidos da América.
Hugo Rafael Chávez Frias foi eleito e reeleito nos moldes formatados pelos engenheiros da democracia representativa. No pleito de 2006, ninguém me contou: eu estava lá e vi com os próprios olhos que a terra há de comer adversários poderosos, mídia majoritariamente contrária, urnas muito mais confiáveis do que as nossas, com impressão do voto, controle biométrico dos eleitores, enfim, tecnologia de última geração para garantir a vontade dos cidadãos venezuelanos.
No entanto, essa imprensa que até ontem chamavam Mubarak de senhor presidente, usa e abusa da má fé, referindo-se a Hugo Chávez como um ditador, dizendo a você, um descuidado inocente útil, que há uma ditadura na Venezuela, embora a grande mídia reacionária deite e role.
Não me venha de lorotas que eu o desminto na lata. Se quer tirar os noves foras, vá na internet e acesse os sites dos jornais El Nacional  e El Universal, os dois maiores jornalões da Venezuela.
Eu fui "agente do Al-Fatah" e não sabia
Pode ser que você esteja mais ansioso num palpite sobre o novo Egito. Como não sou leviano, nem metido a pitonisa, prefiro pegar a deixa para fazer minha própria manifestação sobre a hipocrisia semântica que faz diariamente a lavagem cerebral dos cidadãos de boa fé, como você.
E não preciso ir muito longe, não: nossa grande mídia fala hoje que houve uma ditadura militar no Brasil. E esconde que colaborava apaixonadamente com ela: sem seu nada a opor, ou o seu tudo a ver, provavelmente a ditadura teria durado menos e feito menor número de vítimas.
Mas, não: em 27 de junho de 1969, quando era o CHEFE DE REDAÇÃO da censuradíssima  TRIBUNA DA IMPRENSA, fui seqüestrado de madrugada e levado para lugar ignorado. Todo mundo sabia que estavam me metendo o cacete, mas nem a notícia da minha “prisão”. No dia 16 de julho, o Cenimar (Servilço secreto da Marinha) exibiu 38 prisioneiros - eu, inclusive - apresentando-nos como os terroristas que queriam derrubar a ditadura de 180 mil soldados das três armas.
Samuel Wainer, que já estava de volta mediante negociações com os generais, pôs a minha foto na primeira página da ÚLTIMA HORA, o jornal onde dei os primeiros passos profissionais, com a legenda: AGENTE DO AL-FATAH”. Isso mesmo, para agradar os senhores do poder, o ex-exilado não fez por menos. Arranjou-me um epíteto de agente internacional de organização revolucionária, por minhas simpatias à causa palestina. Pior: entre os subordinados do patrão oportunista havia ex-colegas meus, que, bem, cala-te boca....
Aqui, tivemos ditadura, mas não se fala em ditador
Aliás, há algo muito despropositado na nossa mídia. Ela agora se refere à ditadura militar, via de regra a criminaliza, mas de forma original: não vi em nenhum órgão da imprensa escrita, falada ou televisada alguém se referir aos generais d’antão como ditadores. Concito-o a achar nessa mídia uma referência ao ditador Castelo Branco ou ao ditador Figueiredo, ou aos outros. Registra-se que tivemos ditadura, mas não se nomina nenhum general como ditador.
Afinal, quem é e quem não é ditador?
Insisto: quem é e quem não é ditador no mundo? Onde realmente se pode falar em democracia, no sentido original do termo, umbilicalmente ligado à idéia de liberdade, patrimônio existencial da humanidade?
Liberdade é o quê, caro parceiro? É essa pirâmide social desumana em que 10% dos brasileiros detêm 75,4% de toda a riqueza? Pobre goza doexercício da liberdade? Como? Pendurando-se nas migalhas dos programas sociais compensatórios? Se tem liberdade, o pobre é burro? Sim, porque 80% dos parlamentares eleitos não têm nada de pobre. Fazem parte, paradoxalmente, do topo da pirâmide, daqueles 10% que estão por cima da carne seca.
Segundo Márcio Pochmann, presidente do IPEA, órgão do governo federal, o Brasil, a despeito das mudanças políticas, continua sem alterações nas desigualdades estruturais. O rico continua pagando pouco imposto.
Democracia das elites é uma mentira
Trocando em miúdos, quem paga a conta nesta democracia onde reina a minoria é a maioria que vive com a corda nos pescoço. Dizer que um país socialmente piramidal vive numa democracia é uma grosseira fraude semântica.
Ou então a democracia é um regime de aparências, fundado na desigualdade e na lei do (bolso) mais forte.
Mas não é só nestas praias que a ressaca da realidade desautoriza o palavreado hipócrita. Joseph Eugene Stiglitz, badalado economista dos EUA (foi chefe da equipe econômica de Clinton), escreveu esta semana sobre o catalisador tunisiano”:
“Apesar das virtudes da democracia - e a Tunísia mostrou que ela é muito melhor que a alternativa - não devemos esquecer das falhas daqueles que reivindicam seu manto, e que há muito mais na democracia do que eleições periódicas, mesmo quando conduzidas limpamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, a democracia foi acompanhada por uma desigualdade crescente, a tal ponto que os que estão entre os 1% mais ricos abocanham cerca de 25% da renda nacional”.
Bem, perguntar-me-ão os parceiros, e o Egito, como é que fica? Já que se descobriu agora que estava mergulhado numa ditadura há 30 anos, o que virá com a renúncia de Mubarak, finalmente apontado no dicionário midiático como ditador?
O que quer afinal a multidão egípcia que ganhou a praça, inspirada talvez por Castro Alves? Que lição o mundo tirará desse levante dos cidadãos desarmados que em 18 dias derrubaram no grito um governante armado e cheirado pelos EUA há exatos 10 mil 950 dias?
Qual será o próximo “presidente” a sucumbir à jihad que devasta os tentáculos da corrupção, da cumplicidade e da hipocrisia?
É certo que essa unanimidade festiva sobre a queda de hoje é da boca pra fora. Todo mundo está na maior saia justa, porque, como os 10 milhões de tunisianos se livraram do “presidente” Bem Alli, o véu de mistério cobre as mil e uma noites dos 80 milhões de egípcios e pode transmitir outras novidades mágicas ao mundo, além dessa barricada que desmascarou a hipocrisia semântica e pôs alguns pingos nos is.
É esse amanhã que vai sinalizar uma nova referência para o mundo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Enquanto você corre atrás do crucifixo, a corte faz o que o diabo gosta

A próxima punga é o voto em lista, que nos privará do direito de escolher candidatos.
Esta é a sociedade dos donos do poder. Fora disso, é ilusão
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio, dependem das decisões políticas.
O Analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais. "
O Analfabeto Político
Bertold Brecht, dramaturgo, poeta e humanista alemão (1898-1956)

Ironia do destino: enquanto os egípcios comunicam ao mundo que são mais do que o país das múmias, cá entre nós a mumificação da turba materializa a alma do bestialógico cúmplice.
A máquina sórdida que a todos manipula envolve os desavisados na polêmica de quinquilharias e qualquer um se apraz em festejar fumacinhas dispersas sobre cabeças baixas, enquanto a caravana trôpega atravessa incólume conduzindo arfantes mestres da mistificação milenar.
No momento, o clamor geral foi formatado para a cruzada pelo crucifixo que Lula levou do Palácio. A frenética exaltação mobiliza a todos numa torrente de exigências para que ele devolva a peça sacra. E o estresse da gente fica por aí.
Tenho a sensação do convívio com um parque de diversões em que a cada um é garantido o acesso a um vídeo game de movimentos inebriantes. Há até os discordantes, mas difícil é saber onde querem chegar.
Pelo andar da carruagem vê-se que a insatisfação cessa se lhes facilitam a carona. Não é séria a controvérsia, a nada leva além de um show diversionista. É mesmo deprimente o bate-boca estéril, restrito a uma superfície canhestra.
Tanto que fizeram agora um acordo diabólico: de comum acordo, vão nos cassar o direito de escolher nossos parlamentares, como escrevo nas últimas linhas desta coluna.
Ir fundo, tratar da patologia do crime continuado, isso não. Ou se crê na predominância do submundo mental já arraigado no populacho ou se pensa no oposto: se extrapolar a informação para além das doses homeopáticas o risco do despertar das massas é real.
Na pauta, comparar presidentes – ela e ele. Na sutileza de um olhar de soslaio percebe-se o emergir de uma nova personalidade. Um gesto milagroso, como esse inevitável vômito de um ladrão de carteirinha e sua corja de chantagistas, já se festeja como sinal de novos tempos.
Mas, em verdade vos digo: ela não será diferente dele, como ele não foi do outro, que seguiu a agenda anterior, conforme seu mestre mandou.
Trocando seis por meia dúzia
Quem lê jornal viu o filme dos assaltos às furnas das nossas luzes. Coisa de fazer inveja ao Fernandinho Beira-Mar. E aos fernandões. R$ 73 milhões de uma só tacada, na mão grande,  com direito ao mais arrogante escárnio.
Manter essa quadrilha depois de tantos delitos explícitos seria dar prova de fraqueza e covardia. Mas a pergunta que não quer calar permanece no ar: e aí? Vão pegar de volta o dinheiro surrupiado na negociata?
Isso não. Há um jogo de cartas marcadas. A impunidade reina como a mãe de todos os canalhas. Pego com a mão na massa, o delinquente ameaçou abrir a boca e dar o nome da boiada. Silêncio sepulcral.
Na fortaleza inexpugnável da corrupção vão-se os dedos, ficam os anéis. Não acredito que um amiguinho do capo timbira, do todo poderoso de todos os governos, seja melhor do que os cúmplices do trombadinha. Na prática, ali, naquela furna eletrostática trocaram seis por meia dúzia.
E ainda se celebra tal como um gesto heróico, digno de todos os encômios.
Banqueiros num céu de brigadeiros
Enquanto isso, a fina flor da banca trilionária oferece cérebros para áreas nunca dantes navegadas. A ida do presidente do Banco Safra para comandar a Secretaria de Aviação Civil, com status de ministro (outra blindagem própria para banqueiros) passou a jato pelo radar do observatório político.
Por que ele vai trocar mais de R$ 200 mil de salários (fora isso e aquilo) pela gestão de 67 aeroportos embolsando menos de R$ 20 mil por mês? Você não acha que tem truta nisso?
Na verdade, a agenda prioritária é a privatização do filé mignon do espectro aeroportuário. Coisa que povoa os sonhos coloridos de um certo governador, especialista nas nuvens que banham as noites de Paris. Dele e de um certo dileto amigo, obcecado pelo pódio dos mais afortunados.
E um banqueiro olímpico
Coisa de doido: como teve de engolir o ministro dos Esportes, correto até prova em contrário, apesar de gastar muito com tapioca, a corte surrupiou-lhe a gestão dos jogos olímpicos, confiada agora a nada mais, nada menos, do que outro da cepa usurária. Temos agora um banqueiro olímpico, um tal que a gente já conhece de frente e de perfil.
O que é isso, companheira? Não há sinceridade na grita dos príncipes sindicais, todo mundo percebe, mas que história é essa de apegar-se a um trato que o tempo enferrujou no caso do salário mínimo? Se três bancos podem somar um lucro de R$ 30 bilhões num ano (você tem idéia do que seja essa fortuna?), por que negar mais alguns trocados àqueles que têm mais de 40 anos de renda defasada pelos casuísmos e pela fraude?
Isto é: para os banqueiros, o banquete. Para os assalariados, a (quase) lei....
Quem tem olho na China
Se você quer entender o segredo da esfinge tupiniquim, ligue-se mais nas areias do além-mar. A corte empavonada se espelha no salão oval da  branca casa de todos os poderes. Não é o mesmo quem ditava as ordens há oito anos. Nem branco é, diferença desapercebida na prática. Agora, há um discurso mais afrescalhado pairando no ar. Mas a faca amolada é a mesma.
Eles lá estão á beira do precipício. Caíram no negócio da China e acordaram tarde. São séculos de sabedoria e circunspecta esperteza sofisticados pela moldura dos tempos modernos. Agora querem nos envolver nos fracassos e nos temores do império. É uma agenda diferente.
Mas não se poe fazer nada. Entre nós, sacrificamos nossa proposta industrial que agrega valores e voltamos ao tempo do Chateaubriand (lobista dos ingleses) para favorecer a Vale e os exportadores de soja. Você não está me entendendo: se os chineses pararem de comprar minérios brutos, a mega privatizada a preço de banana vai para o beleléu. Idem com a soja que enche as burras  do agronegócio latifundiário.
Aí você fica dizendo bobagens, como se fizéssemos favores ao tigrão amarelo nessas transações em que temos saldo na balança.
O golpe do voto em lista na ponta da agulha
Há nas alcovas da Brasília desvairada notícias de um bacanal a vinte mãos. Os espertos da corte preparam o maior golpe político da história, golpe que nem os militares, desde a época de Deodoro, nem o Estado Novo do professor Francisco Campos ousaram sequer imaginar.
Sabe o que? Já está apalavrada entre os donos dos partidos (gregos e troianos) a emasculação do voto, única ilusão de que estamos numa democracia. Não vai demorar muito, estarão votando uma “reforma política” ao gosto dos cabecilhas de todos os valhacoutos.
Com ela, nos privarão de votar em nossos candidatos ao parlamento. O voto será no partido, cuja cúpula fará uma fila interna ao sabor de suas conveniências. Será considerado eleito quem estiver na cabeça da lista partidária, tenha sido sufragado ou não.
Assim, desaparecerá a última possibilidade de se eleger alguém com liberdade e pensamento crítico. O compadrio servirá para afortunar os chefes dos picaretas e ao povo só restará esperar em Deus respostas para suas desventuras.
Porque, no fundo, no fundo, o país dos faraós e das múmias é aqui.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Porque estou fazendo MEIO SÉCULO como jornalista de carteira assinada

Naquele tempo, não havia faculdade de comunicação e os profissionais eram pinçados por sua vocação


"Se é justo fazer as leis com maturidade, para fazer bem a guerra serve o entusiasmo... Audácia, ainda audácia e sempre audácia”.
Georges Jacques DANTON, advogado e revolucionário francês (1759-1794)

Lembrei-me que no próximo dia 16 de fevereiro estarei completando 50 anos de carteira assinada como jornalista.
Minha carteira foi assinada em fevereiro.
Mas já em junho estava partindo para
trabalhar na Rádio Havana, em Cuba
Isto mesmo, meio século desde aquele dia em que a ÚLTIMA HORA, um trincheira daqueles idos, decidiu formalizar o contrato de trabalho. Fazia tempo, aliás, que eu trabalhava como estagiário, fazendo tudo o que um repórter faz. E quando digo repórter, falo de uma geração para a qual o jornalismo investigativo não era uma especialidade rara. Era a própria rotina.Para minha alegria, estão aí, ativos e lúcidos, os dois profissionais que me abriram as portas de uma redação-escola: Milton Coelho da Graça, hoje com 84 anos, que me pegou pelo braço e me levou ao jornal de Samuel Wainer, na Rua Sotero dos Reis, junto à Praça da Bandeira. E Pinheiro Junior, meu primeiro chefe de Reportagem, que sabia tudo de jornal e mais alguma coisa.
A data de 16 de fevereiro apenas formalizava um contrato, quando eu ainda não havia completado 18 anos (nasci em 18 de março de 1943).
A bem da verdade, como cearense inquieto, sentei à máquina de escrever de um jornal, pela primeira vez, quando tinha 13 anos. Foi lá em Fortaleza, na TRIBUNA DO CEARÁ, que ainda usava máquinas planas de impressão. Na época, as primeiras referências naquela redação eram Tarcísio Holanda, hoje na TV em Brasília, e Osmar Alves de Melo. Eu escrevia dia sim, dia não, uma coluna chamada TRIBUNA DO ESTUDANTE.
Ao mesmo tempo, colaborava no Departamento de Esportes da Rádio Verdes Mares, então dirigido por Blanchard Girão, uma legenda do jornalismo cearense.
Preocupada com esse envolvimento precoce com o trabalho, minha família optou por internar-me no Ginásio Salesiano de Baturité, que outro dia fui ver, numa visita sentimental.
Não adiantou. Lá, indignado com o sistema repressivo e com as simpatias dos padres pelo integralismo de Plínio Salgado ( só se lia o semanário A MARCHA e o mensário católico do comendador Arruda), juntei uma meia dúzia de três ou quatro colegas e fiz do giz ferramenta de comunicação rebelde. Dei trabalho ao padre Antônio Melo, diretor do colégio, ao padre Nazareno, o “prefeito” e a todos os que se surpreendiam com minhas pichações irreverentes e minhas blasfêmias.
No ano seguinte, em 1958, me levaram de volta à Fortaleza. E aí fui trabalhar, primeiro, no Departamento de Esporte da Rádio Iracema, com Francisco Alves Maia. Passei pela Gazeta de Notícias, com Dorian Sampaio, e voltei ao convívio com Blanchard Girão, agora no jornalismo político da Rádio Dragão do Mar.
Finalmente, antes de viajar sozinho para o Rio de Janeiro, pouco depois de completar 16 anos, mantive a COLUNA DO TRABALHADOR, no matutino UNITÁRIO, dos Diários Associados, indicado ao secretário João Montalverne pelo amigo Carlos Jereissati, então deputado e presidente do PTB cearense.
No Rio, depois de passar um ano como secretário de Intercâmbio da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, fui levado pelo Milton Coelho da Graça para a ÚLTIMA HORA.
Foi passagem rápida. Já em junho de 1961 fui convidado para implantar o Departamento de Língua Portuguesa da Rádio Havana, em Cuba. O convite, quando eu ainda tinha 18 anos, pegou de surpresa os comunistas brasileiros do velho “partidão”, que se consideravam mais aptos a indicar quem deveria trabalhar na ilha, que tinha apenas dois anos de regime revolucionário.
Mal sabiam eles que a lembrança do meu nome saiu de uma conversa entre Che Guevara e Carlos Olivares Sanchez, este, então, vice-ministro de Relações Exteriores.
É o que legendário guerrilheiro ficara impressionado com meus discursos no I Congresso Latino-Americano de Juventudes, realizado em Havana, em julho de 1960. Então, eu representava a UBES, juntamente com seu presidente, o maranhense Raimundo Nonato Cruz. A UNE era representada pelo vice-presidente Arnaldo Mourhté, mineiro, e Silvio Lins, da UEE de Pernambuco.
Já então, eu também não aceitava a tutela dos “camaradas” do partidão, que queriam me dizer o que devia dizer naquele plenário. Também não era pra menos: os representantes do PCB eram o Salomão Malina, combatente da guerra civil espanhola em 1936, e Lindolfo Silva, presidente da ULTAB, União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil, fundada por ele em 1954. Ambos podiam ser figuras respeitáveis, mas já tinham passado da idade de participar de um congresso juvenil.
Voltei de Cuba um ano depois com a ilusão de que Francisco Julião iria promover a reforma agrária no Brasil “na lei ou na marra”. Troquei o Hotel Havana Livre (antigo Hilton) pelas choupanas de Itereré, onde havia algumas usinas de açúcar, das quais a mais importante era a Santa Cruz, do inglês Mister Pitmann.
Ali também passei a desenvolver um sistema de comunicação ao nível dos camponeses e virei um colaborador do jornal O SEMANÁRIO, de Otávio Costa, patrimônio das lutas nacionalistas daquela época.
Era muito sonhador, acho. Ao organizar uma liga camponesa na região, fiz um discurso em que citava a frase de Danton: "Se é justo fazer as leis com maturidade, para fazer bem a guerra serve o entusiasmo... Audácia, ainda audácia e sempre audácia”.
Mandei essa frase na mateéria publicada pelo SEMANÁRIO. Resultado: quando fui submetido a sessões de tortura a Ilha das Flores, em 1969, o torturador Solimar, mais sádico do que investigador, com o recorte do jornal na mão, me fazia repetir a frase do Danton. E cada vez que pronunciava a palavra AUDÁCIA, levava uma chapuletada que me fazia ver estrelas.
Quando estava organizando camponeses no Mato Grosso, houve uma crise entre os editores do jornal LIGA e o comando da organização – Julião e Clodomir Morais. O semanário ia bem, nas mãos de intelectuais respeitadíssimos, como Wanderley Guilherme dos Santos e Luciano Martins, contado com colaboradores como Zuenir Ventura, Ferreira Gullar e outras estrelas que não me lembro agora.
Até hoje não sei o porque do racha. Mas aceitei a tarefa de não deixar o jornal parar. Para isso, contei com a ajuda de colegas da UH, como Victor Cavangnari, Vinicius Paulo Seixas, do diagramdor Jorge Brandão (depois artista plástico famoso) e daquele Osmar Alves de Melo, que me viu de calças curtas na TRIBUNA DO CEARÁ.
Em 1963, deixei a LIGA porque resolvi casar da noite para o dia e a “organização”, já rachada, achava aquilo uma maluqice. O coração falou mais alto, quando tina 20 anos, e voltei para a ÚLTIMA HORA, dessa vez convidado pelo Teodoro Barros, outro excelente caráter, por muitos anos professor da UFF.
Por falar em racha nas ligas camponesas, uma curiosidade: no grupo dissidente estava o já advogado Carlos Franklin Paixão de Araújo juntamente com seu pai, também advogado. Era uma figura admirada por sua integridade e por sua coragem. Carlos Araújo veio a ser mais tarde marido de DILMA VANIA ROUSSEFF LINHARES, que conheceu durante sua militância na luta armada. Ambos, depois da anistia, aliás, seguiram o mesmo caminho que escolhi – o PDT (e não o PT), mas essa é outra história.
O golpe de 64 me pegou em duas redações: na ÚLTIMA HORA, que apoiava (e se apoiava em) João Goulart; e no CORREIO DA MANHÃ, cujos editoriais BASTA e FORA, pesaram na deposição do presidente constitucional. Isto é, trabalhava para gregos e troianos.
Já no dia 24 de abril de 1964, com Samuel Wainer e Bocaiúva Cunha asilados em duas embaixadas, 22 jornalistas de UH foram sacrificados, numa limpa destinada a garantir a sobrevivência do jornal. Entre eles, lá estava eu, juntamente com João Saldanha, o Barão de Itararé, Otávio Malta e outros menos cotados.
Em compensação, o CORREIO DA MANHÃ se arrependeu do apoio ao golpe e passou a ser a trincheira contra os abusos dos militares. Aí tiveram liberdade de escrever contra o regime nomes como Carlos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Márcio Moreira Alves, Hermano Alves, Maurício Gomes Leite, Paulo de Castro, Antônio Houaiss e José Louzeiro. Incorporaram-se à resistência do CORREIO e pagaram caro por isso nomes como Artur Poerner (cassado porque seria eleito deputado em 1966), Alberto Rajão, Fabiano Vilanova (este dois cassados como deputados estaduais, juntamente com Márcio e Hermano Alves, federais).
Bem, eu só queria escrever para dizer que me sinto muito feliz em completar MEIO SÉCULO de carteira assinada como jornalista sempre fiel aos meus sonhos daqueles idos. Nada me fez mudar. Nem as perseguições, as demissões políticas nos jornais, nem a tortura de 16 dias, nem o ano e meio de cárcere, nem a marginalização profissional depois da libertação.
Não me fizeram mudar, nem mesmo e principalmente, o convívio com o poder, os cargos que exerci na administração pública e os mandatos eletivos.
Nada. Continuo sonhando com o mundo melhor, que, para ser melhor, tem que ser justo com dirigentes livres de todo e qualquer desvio de conduta, principalmente a corrupção, a enganação e a hipocrisia.
Para registrar a passagem desse meio século de jornalismo, estou oferecendo meu livro CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA aos amigos que me escreverem manifestando interesse por ele. Uma certa vez, já fiz chegar o livro a muitos amigos. Tenho agora poucos exemplares: por isso, darei prioridade aos que escreverem por ordem de chegada.
No mais, devo dizer que, às vésperas dos 68 anos, ofereço como legado a mesma frase de Danton, que me custou tantos pescoções. E a certeza de que o sentimento rebelde, (a rejeição da inércia, do fato consumado, do arrivismo canalha), é o verdadeiro elixir da juventude.
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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.