segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ainda sobre a intervenção estrangeira na Líbia, a morte de Kadhafi e o retorno ao fundamentalismo

São tantas as ignomínias que um artigo só é pouco para expor o jogo sujo das potências agressoras

Mandela e o CNA não teriam derrotado o regime do apartheid se não fosse o apoio de Kadhafi. Por isso, o líder sul-africano dseu a um neto o nome do grande aliado.

“Eu estou orgulhosa da bravura do meu marido, Muamar Kadhafi o guerreiro santo, e meus filhos que enfrentaram a agressão de 40 países ao longo dos últimos seis meses”.
Safiya Kadhafi, viúva e mãe de seis dos sete filhos do líder executado.

Bem que queria falar de outro assunto, mas o sangue quente dos indignados ainda corre em minhas veias e não me tira da cabeça que é preciso clamar aos sete mundos, antes que a sinfonia macabra irradiada por uma súcia de boçais faça do seu epílogo a consagração do “direito de agressão” das potências decadentes que, como em toda a história, vão sugar as riquezas alheias para safar-se de suas crises.

Foram muitas as manifestações de apoio aos meus primeiros comentários sobre a chacina que eliminou o líder de um país por ordem expressa de Obama e Sarkozi. Estes mesmo disputam o butim como abutres desesperados, afirmando que foram os seus os aviões que bombardearam o comboio em que o Moujahid Kadhafi era conduzido prisioneiro, sob insultos e humilhações de vândalos em crise existencial: como a consciência apontava para a terrível traição ao país, aqueles monstrinhos precisavam agredir o homem cuja cabeça valia uma fortuna para os prepostos do complexo industrial-militar-financeiro do Ocidente.

Mas também uns dois ou três, de boa fé – creio – escreveram-me para festejar a morte, sempre repetindo a imagem surrada que a mídia financiada pelos grandes conglomerados pintou, usando com cinismo as tintas da mentira e da manipulação dos fatos.

Sob o signo do fundamentalismo mais atrasado

Os imbecis que vibram com essa “vitória militar” não sabem que estão fiando o atraso. Graças a seu carisma, Kadhafi havia tido a ousadia de bancar uma república virtualmente laica, sem deixar de reconhecer que o seu povo era muçulmano e que o alcorão ainda é o principal elemento de identidade e unidade dos povos árabes.

É o velho truque: como não vão querer manter as conquistas sociais do povo, que não paga aluguel, tem os melhores hospitais da região e outros benefícios, vão recorrer à cortina de fumaça dos primórdios do islamismo, e assim manter os cidadãos sob o domínio teocrático que pode até restaurar a monarquia.

Isto porque na sua “ditadura” de Kadhafi o líbio conheceu a verdadeira cidadania: as mulheres ganharam espaço que não existe em nenhum outro país árabe, nem mesmo na Palestina, na Argélia e na Síria; o analfabetismo, que em 1969 era de 90% da população, inverteu: neste 2011, 90% dos líbios estão livres desta arma do obscurantismo.

E mais, ressalto para a sua avaliação: números de organismos internacionais confirmam que 10% dos jovens líbios em idade universitária ganhavam bolsas do governo para estudarem na Europa e Estados Unidos.

Vamos, ponha a cabeça para refletir: que regime ditatorial teria coragem de pagar a seus futuros doutores para ir em busca de conhecimentos em países sabidamente hostis?

Ao declarar a Líbia libertada, Mustafa Abdel Jalil, ministro da Justiça de Kadhafi até fevereiro, cooptado pela CIA e feito chefe dos “insurgentes”, foi logo declarando que cederá aos fundamentalistas muçulmanos que vinham tentando derrubar o governo há mais de 20 anos. Já anunciou que revogará as leis que deram cidadania às mulheres, inclusive a que estimula a monogamia.

Isso levou Rokaya Elbadri, uma ginecologista de Trípoli, 53 anos, a desabafar: “Coloque a religião fora disso! Não transforme religião numa arma. Não, não quero nada como Dubai (nos Emirados Árabes Unidos, ditado pela religião). Com eles no poder, é sempre assim: todas as regras que mudam são contra mulheres. Não proíbem nada para eles mesmos! É sempre: "mulher tem que fazer isso, não pode fazer aquilo. Não quero isso”.

A África perdeu seu grande irmão

Falei pouco sobre a abrangência do golpe, alcançando a África, que teve em Kadhafi o seu grande amigo, desde o tempo em que Nelson Mandela, agora assimilado pela mídia Ocidental, estava encarcerado e contava com a sua ajuda para enfrentar o apartheid.

A propósito, veja o que escreveu na Gazeta de Luanda - Jean-Paul Pougala, um escritor de origem camaronesa, diretor do Instituto de Estudos Geoestratégicos e professor de sociologia na Universidade de Diplomacia de Genebra, na Suíça:

“Para a maioria dos africanos, Kadhafi é um homem generoso, um humanista, conhecido pelo apoio incondicional à luta contra o regime racista na África do Sul. Se ele tivesse agido de forma egoísta, ele não teria corrido o risco de sentir a ira ocidental ao apoiar o Congresso Nacional Africano (CNA) tanto militarmente quanto financeiramente, na sua luta contra o apartheid.

Foi por isso que Mandela, logo após a sua libertação depois de passar 27 anos na cadeia, decidiu visitar a Líbia em 23 de Outubro de 1997, quebrando o embargo da ONU.

Por cinco longos anos, nenhum avião estava autorizado a aterrissar na Líbia. Era necessário ir de avião até à cidade tunisiana de Jerba, e prosseguir por uma estrada que cruza o deserto durante cinco horas, até chegar a Ben Gardane, depois atravessar a fronteira, e continuar por outra estrada através do deserto durante mais três horas, antes de chegar finalmente a Trípoli.

Mandela não mediu palavras quando o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, disse que a visita era “mal vista”. “Nenhum país pode reclamar para si o policiamento do mundo, e nenhum estado pode ditar o que outro deve fazer”, disse Mandela. E acrescentou, “aqueles que ontem eram amigos dos nossos inimigos e têm a ousadia de dizer, hoje, que eu não devo visitar o meu irmão Kadhafi, estão pedindo que sejamos ingratos e esqueçamos os nossos amigos do passado.”

Em seu artigo, Jean-Paul Pougala faz comparações, citando Jean Jacques Rousseau:

“A questão, que até alguém com o mínimo de inteligência não pode evitar de colocar, é a seguinte: países como a França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Noruega, Dinamarca, Polônia, que defendem o seu direito de bombardear a Líbia fundamentados pelo seu auto proclamado estatuto democrático, serão esses países realmente democráticos? Se sim, serão eles mais democráticos do que a Líbia de Kadafi? A resposta, na verdade, é um retumbante NÃO”.

Esse raciocínio pode ser complementado com o texto do blog que publica o primeiro testamento de Kadhafi, datado de abril.


“Sob a liderança de Muammar Kadafi, a Líbia obteve o melhor padrão de vida na África. Em um artigo de 2007 da African Executive Magazine, Norah Owaraga nota que a Líbia, “diferente de outros países produtores de petróleo como Nigéria e Arábia Saudita, utilizou a renda do petróleo para desenvolver o país.” Isso é algo muito marcante pois em 1951 era oficialmente um dos países mais pobres do mundo.

David Blundy e Andrew Lycett, jornalistas da Two Fleet Street que não são defensores da Revolução líbia de 1969, dizem-nos:

“Os jovens são bem vestidos, alimentados e educados. Os líbios possuem agora uma renda per capita maior que a dos britânicos. A disparidade das rendas anuais são menores que a de muitos países. A riqueza foi consideravelmente espalhada na sociedade. Todo líbio tem direito a educação e serviços dentários e de saúde gratuitos e geralmente de excelente qualidade. Novas faculdades e hospitais são impressionantes em qualquer padrão internacional. Todos os líbios possuem uma casa ou um flat, um carro e muitos possuem televisores, gravadores de vídeo e telefones.”

O Estado buscou dar moradia a todos os seus cidadãos, sem cobrar aluguel. O Livro Verde de Kadafi diz: “A casa é uma necessidade básica tanto do indivíduo quanto da família, portanto outras pessoas não podem possuí-la.” Esse ditado se tornou uma realidade para o povo líbio.

Grandes projetos agrícolas foram implementados na tentativa de “fazer o deserto florescer” e atingir a auto-suficiência em produção de comida. Qualquer cidadão líbio que queria se tornar um agricultor tem uso livre da terra, uma casa, equipamentos, um pouco de criação e sementes”.

Vou ficar por aqui, por hoje. Mas publico no meu blog também os dois “testamentos” de Kadhafi, o de abril, que me foi enviado por Thomas Fendel, e o mais recente, publicado em trechos na Gazeta de Luanda

3 comentários:

  1. Anônimo7:07 PM

    Realmente, não há o que festejar com este episódio, não há dúvida que ele foi assassinado. Ainda mais alegam que o pegaram num esgoto, como afirmam e essa mídia nojenta e corrupta que temos. Alguns idiotas aqui regozijam com tal macabra ação criminosa. Um país em que é voltada toda a riqueza que consegue com o ouro negro e oferece todas as facilidades aos seus habitantes, saúde estudo, moradia e alimentação, não pode de modo algum ser odiado por seu povo, e certamente Kadafi não o era com certeza. Agora se distribuía chicotadas nos malfeitores que por lá andavam a soldo dos abutres estava correto. Um país que oferecia abrigo e trabalho aos demais africanos dos arredores, jamais poderia estar sendo odiado. Agora muitas montagens e mentiras estão sendo ditas para justificar tamanha atrocidade contra o povo líbio.
    Sem deixar de falar que o Obama, deu ordens de ataque aqui dentro do Brasil, num flagrante desrespeito a todos nós brasileiros, como se aqui fosse o quinal deles, aliás é o que eles consideram.
    É bom essa turma se precaver de que aqui podemos também sofrer as mesmas agruras, e olha que não temos somente petróleo de pré sal, a amazônia tem muito, temos muito mais coisas. É bom que se coloque as barbas de molho por essas bandas de cá.
    Wagner

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  2. Nossa "civilizaçao"está mesmo muito perto do fim.A bestialidade agora é a tônica dos paises , que simplesmente nao mais se envergonham de atitudes as mais repugnantes sem nenhuma consulta a sua populaçao.Nao acreditei quando li que a messalina internacional Carla Bruni é quem dirigia a politica externa de seu marido, quando em chas com amigos do jet set internacional era orientada a pedir que o marido atacasse isso ou aquilo.Os obsoletos avióes Rafale fizeram seu trabalho sujo na líbia, certamente matando milhares de inocentes.Agora, os partidários e militares libios devem estar sendo massacrados, mas quem se importa?O interessante que nossa midia brasileira é tao subserviente e pobre que já existem campanhas para ajudar a Libia ....ELES QUE PEÇAM AO SARKOZY!!!

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.