domingo, 4 de setembro de 2011

Achando na prática do futebol explicações para os murros em pontas de facas

Coluna de crônicas sobre peladeiros me leva a refletir sobre a própria personalidade quixotesca

“Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, por isso se deve aprender algo; mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.”
Arthur Schopenhauer (1788-1860) filósofo alemão.

Minha última postagem foi na sexta-feira, 26 de agosto. Isso quer dizer que estou atrasado com você. Faz parte. Dependendo da repercussão do escrito, deixo fluir para tirar o máximo de ensinamentos das respostas. E naquela reflexão sobre a possibilidade de estarmos mortos enquanto cidadãos choveram comentários. Como aprendi.

Os fatos dignos de opiniões sucederam-se impunemente. Fui dando tempo ao tempo e o tempo é cruel, devia saber disso. Dar tempo ao tempo é uma temeridade.

Logo no sábado, dia 27, li um artigo primoroso do senador Cristovam Buarque sobre a saúde pública no Brasil, tomando por ponto de partida as experiências do médico Aloysio Campos da Paz à frente do Hospital Sarah. Era para ter comentado na bucha, mas vacilei. Estava na agenda geral a discussão sobre a Emenda 29, que estabelece parâmetros de gastos públicos com a saúde. Quis fundir os dois assuntos. Mas fui derrotado outra vez pela idéia de dar um tempo ao tempo, de deixar tudo para quando setembro viesse.

A reação da mídia e da maioria da “oposição” contra a redução da Taxa Selic pelo Banco Central causou-me perplexidade e torpor. Aquilo foi de lascar o cano. Pagamos os juros mais altos do mundo, mas essa turma da pesada acha pouco. “Culpou” a Dilma pelo ato do Banco Central, que tirou R$ 6 bilhões dos especuladores ao promover a redução em meio ponto. Quanta mesquinharia mal contada.

No episódio,  esses embusteiros deixaram cair a última camada de uma máscara desbotada e sairam em defesa da agiotagem. Sabem que juros altos fazem a festa dos bancos. E, como pensam mais nos banqueiros do que na gente, rodaram a baiana. Peço tempo, pouco tempo, mas peço. Vou falar mais a respeito de tal insolência com números.

Falaria também sobre as trapaças bélicas das potências decadentes, que estão tirando a Líbia do mapa. De país soberano, só uma nesga de resistência tribal. Daqui para frente, será um cassino disputado a propinas pelas petrolíferas, que querem continuar lá, sem ter que deixar a maior parte do lucro, como impunha Kadhafi.

Meu lado de peladeiro como referência

O que me leva a ensaiar as primeiras palavras neste setembro que se inicia frio é a alegria do espelho mágico. Graças ao talento privilegiado de Sérgio Pugliese, um desses raros jornalistas que sabem dar trato às letras, dei-me conta de mais uma razão de ser carne de pescoço; localizei mais uma explicação para a luta, a resistência epidérmica que está no cerne de minha personalidade.

Explico: Pugliese é um profissional de comunicação vitorioso em todas as suas vertentes. Não o conhecia pessoalmente, mas sabia dele, atraído que fora pela inusitada opção pelo periférico no futebol: enquanto os coleguinhas correm atrás dos ronaldos, das estrelas, dos manos, dos teixeiras, ele abriu espaço para os peladeiros, numa coluna que faz o caderno de esporte do GLOBO ser lido de trás para frente aos sábados – sua crônica ocupa metade da última página e tem um título sinalizador, “a pelada como ela é”, variável de “a vida como ela é”, que imortalizou Nelson Rodrigues.

Um certo dia, o programa da Ana Maria Braga exibiu matéria sobre o palavrão nas peladas. Por mero acaso, lá aparecia eu, com essa barriga toda, batendo minha bolinha, como quem não quer nada. Pugliese viu e decidiu ir conferir.

Uma espécie de “sociólogo do futebol” esse jornalista atento estava lá,  numa terça-feira, dia em que posso ser flagrado sempre esperando um passe amigo na banheira do adversário, ali, no campo da Península.

E não foi sozinho: levou a respeitada nutricionista Ana Cristina Teixeira, responsável por muitos milagres na causa da boa forma, valendo-se também do preparador físico Adriano Vargas, que já joga com a gente e tem um trabalho à parte na preparação de garotos para a carreira futebolística,  trabalho que faz sem qualquer ajuda oficial, pois nem ONG quis criar.

Da sua ida brotou a matéria “Fome de Bola”, que saiu publicada na coluna deste sábado e no seu blog, cujo teor transcrevo abaixo.

Foi preciso que essa matéria ganhasse as páginas de esporte de um jornal da mídia diária, num relato enriquecido pelos pendores literários do autor, para que eu parasse para refletir sobre essa insistência em jogar futebol até hoje, no único exercício físico que faço – se é que posso chamar de exercício  essa participação localizada na zona do agrião.

Filosofando sobre a prática do futebol alternativo

Creio com segurança de que isso tem muito a ver com minha teimosia e minha coerência na resistência pétrea e minha tendência aos desafios quixotescos. Às terças-feiras, o jogo é restrito a maiores de 40 anos. Mas costumo também frequentar as peladas de sábados e domingos pela manhã, sem restrições de idade, onde há mais parceiros generosos, até mesmo craques profissionais, como oTuta (quando não está sob contrato, como agora) , que só sossegam quando me vêem empurrar a bola para o fundo da rede.

Considero a pelada a forma mais natural de  aproximar e agregar  pessoas. E vejo no exercício de uma atividade que depende do coletivo um sinalizador exemplar para tudo o que nos diz respeito em nosso cotidiano. Posso dizer, aliás, que foi o envolvimento com os times que meu irmão Manoel encabeçava que me fez brotar o gosto pela organização social.

Os textos muito bem escritos pelo Sérgio Pugliese reforçam o entendimento sobre o efeito humano benéfico das práticas amadoras do futebol. Outro dia mesmo, li uma matéria sobre o Capri, primeiro campeão das peladas do Parque do Flamengo, há décadas, cujo grupo se mantém unido até hoje. E não há maior patrimônio para nossas vidas do que a amizade conservada anos a fio.

Foto que ilustra a matéria de Sérgio Pugliese em "A pelada como ela é"
Para você que me conhece de trincheiras encrespadas e dos murros em pontas de faca, vale a pena ver essa outra faceta através da matéria assinada pelo brilhante profissional, cuja opção pela cobertura da pelada é uma atitude corajosa de quem se garante pela beleza dos seus textos.

FOME DE BOLA

Lei Gorda flagra atletas que passam mais tempo na resenha do que no campo de futebol

- Tchau, amor, vou dar uma corridinha!
Casada há 28 anos com o jornalista Pedro Porfírio, Dona Fátima desistiu de entender os benefícios dessa tal corridinha. Pelo contrário. Para ela, o exercício noturno, às terças, na Barra da Tijuca, tinha efeito contrário e vinha causando estragos consideráveis na silhueta do maridão. Para desvendar esse mistério, a equipe do A Pelada Como Ela É convidou a nutricionista Ana Cristina Teixeira e o preparador físico Adriano Vargas para uma visita surpresa ao campo da Associação dos Amigos do Condomínio Península (ASSAPE). A pelada estava marcada para às 21h e chegamos meia hora antes. Do portão, o cheirinho de churrasco despertou nossos estômagos. Eram Afonso e Nasil, o Sadam, do time de fora, iniciando os trabalhos com aquela suculenta costelinha do Outback. Discretamente, Adriano Vargas filou um pedaço e foi repreendido pela colega.

- Gente, gordura demais entope as artérias! – alertou.

Ninguém entendeu nada. Quem seria aquela médica de jaleco branco dando conselhos em plena resenha? Explicamos o motivo da “Lei Gorda” e vários peladeiros a cercaram para tirar dúvidas. Enquanto isso, a primeira partida seguia em câmera lenta e o preparador físico bocejava. Neide Moura, do barzinho, vendia amendoim, cerveja e Doritos aos que chegavam atrasados do trabalho. Ana Cristina olhava atravessado. Neide, há seis meses comandando o espaço, revelou que os hambúrgueres são os campeões de audiência.

- Doutora, não queria nos encontrar comendo salmão, né? – questionou o craque Kiko, para gargalhada geral.

Mas Kiko tinha motivo especial para comprar essa briga. É dono de um quiosque, no condomínio Barra Sul, especializado em cachorro-quente e sandubas radicais. O lateral Leandro, chef de cozinha, saiu em defesa da alimentação saudável e o dentista Vitor Monteiro Novaes garantiu: durante os churrascos consome apenas duas fatias de picanha e uma latinha de cerveja.

- Desse jeito, ele zela por uma boa digestão - elogiou a nutricionista.

Mas não é tarefa fácil saciar o apetite dos peladeiros. Em novembro de 2010, mostramos aqui as habilidades culinárias de João Barba e a turma do Show de Bola, de São Cristóvão, onde o cardápio das resenhas nunca é repetido. Fala, Paulão! Fala, Márcio Ricardo! E também tem a pelada de terça-feira no LCR Esporte, em Quintino, liderada pelo securitário Sergio Rodrigues. Ali, a ideia seria correr para eliminar a cerveja do fim de semana, mas os dotes gastronômicos de Beto impedem qualquer tentativa de dieta. Reza a lenda que nesse ano a rapaziada consumiu 103 quilos de carne, maionese e farofa, mas o objetivo é alcançar meia tonelada até dezembro. Boa sorte, Seu Carlos!

Enquanto isso, no Península.....

- Chegou Pedro Porfírio, o Montinho Artilheiro! – gritou o engenheiro João.

Velho conhecido de Adriano Vargas, as curvas do cearense gente boa impressionaram Ana Cristina: 105 quilos espremidos em apenas 1,53cm.

- Ele desafia qualquer lei da Física – brincou Luiz Albuquerque, o Pinóquio.

Trocou de roupa e entrou em campo. Foi ovacionado! Diabético, pressão alta e em tratamento de esteatose hepática (gordura no fígado), Porfírio, de 68 anos, é goleador. Mas ao tentar um chute perdeu o equilíbrio na grande área, caiu e não conseguiu levantar-se sozinho.

- Chamem o Carvalhão, esse só com guindaste – sugeriu o goleiro Roberto.

O centroavante estaca, como definiu Adriano Vargas, caminhou mais alguns minutos até ser fisgado pelo cheiro da costelinha. Difícil resistir! Se lambuzou e matou a sede com algumas geladas. Na avaliação, os profissionais o reprovaram sem dó nem piedade, afinal não produziu uma gotinha de suor sequer e consumiu vorazmente. A mulher, Dona Fátima, estava certa, a corridinha era lenda. Mas rodeado de amigos, sentia-se o homem mais feliz do planeta: “A pelada me faz vivo!”. A nutricionista alertou sobre os riscos e a importância de uma guinada radical na alimentação. Deixou o cartão e partiu preocupada. O craque culpou a formação anárquica, indisciplinada, para tanto descuido. Pesado, tudo fica mais complicado, o ar falta, os joelhos latejam, o coração dispara. Mas nas noites de terça-feira ele vira criança, chuta o balde, olha o abismo do alto e se joga nos braços da galera.

6 comentários:

  1. Parabéns, Porfírio. Com 68 anos e 105 quilos, e com essa disposição para o futebol, é de dar inveja a muita gente que se acomoda cedo.
    O que você disse é uma verdade, a gente no campo de futebol se sente muito feliz e esquece o mundo.
    Para nossa saúde mental precisamos de algum momento desligado de tudo o que acontece na área da notícia.
    Embora tenhamos paixão por escrever, os fatos dominantes são deprimentes.
    Estes momentos de desligamento de tudo são a "pausa que refresca".
    No meio de tanta coisa de baixar o astral, a pelada é uma boa notícia.
    Franklin

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  2. Mesmo assim, apesar de tudo, escrever é preciso. Em algum lugar do mundo haverá alguém precisando de nossa voz livre, do nosso grito de indignação.

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  3. Ademir klein8:52 PM

    Senhor Pedro Porfírio.
    Fiquei feliz pela bela crônica. Estes meninos ensinam a gente a escrever; lendo e relendo.
    Fiquei feliz pela sua sensatez futebolística, afinal estando entre amigos não se morre, se corre. Dona Fátima, com certeza, agora sabe, que o marido não morrerá solitário, muito menos de fome. O Senhor, como disse, fica feliz e sendo continua escrevendo para o nosso deleite. Saúde.

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  4. Anônimo12:36 PM

    Sem querer ser chato, mas já sendo:

    Porfírio, controle o seu peso; a NATUREZA não perdoa...

    Tente perder, pelo menos, uns 30 quilos. Basta andar, moderadamente, 4 a 6 km por dia e comer menos.

    Ou não ???

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.