quinta-feira, 21 de julho de 2011

Os alienígenas estão chegando pelos ares muito antes navegados

Movimentos orquestrados levam à desnacionalização das companhias aéreas e à invasão estrangeira

Em menos de um minuto um leilão deu a partida para a
desnacionalização da aviação comercial brasileira
“A nossa aviação civil, que já estava no buraco, agora recebeu a pá de cal – como aconteceu com a navegação de cabotagem, hoje na mão de estrangeiros. É claro que os EUA querem os céus abertos: as suas empresas são gigantescas e só uma delas tem mais que o triplo de aeronaves de grande porte que todo o Brasil junto. Resultado, dentro da receita operacional delas, o que é gerado no Brasil é percentualmente muito pequeno (3% a 5%) e isto vai permitir que elas, inicialmente, façam dumping até dando passagens grátis em nosso país. As empresas nacionais, se é que ainda existem, não conseguirão competir”
Comandante Marcelo Duarte, ex-vice-presidente da Associação dos Pilotos da Varig.

Porque hoje é 20 de julho, as nuvens pesadas que escondem nossas constelações me levam de volta a bordo do mais longo dos vôos, o que revela a rendição programada, em meio a turbulências que tantas vítimas inocentes vêm causando, como se nada mais houvesse disponível, nem mesmo um velho pára-quedas em farrapos. Uma rendição que submete nossos céus ao domínio de invasores alienígenas.

Hoje seria o dia do orgulho aéreo, pois lembra o nascimento do visionário Alberto Santos Dumont, nascido em 1873 nas Minas Gerais e admirado por suas façanhas plasmadas na mesma têmpera de Leonardo Da Vince. O desafio o fascinava e foi sob esse ímpeto que se jogou por inteiro na arte de fazer subir o mais pesado do que o ar.
Mas para o desdouro da efeméride, 20 de julho também foi sangrado há 5 anos pela maior vilania já perpetrada na história de nossa aviação, como ele jamais imaginaria: o leilão-relâmpago, a preço de banana, da mundialmente respeitada Varig, a que me referi antes, tendo por cenário tétrico um hangar do aeroporto batizado com seu nome legendário.
 O pior ainda se esconde nessas nuvens impudicas: como consequência direta da desmontagem da nossa octogenária companhia aérea, esta data ainda vai ser lembrada por um certo acerto já negociado, que levará à desnacionalização de nosso espaço aéreo doméstico, coisa que se consumará em questão de dias, quando o Senado da República sacramentar a reforma do Código Brasileiro de Aeronáutica para facilitar a maior participação do capital estrangeiro em nossas empesas, removendo os óbices à macro “fusão” da TAM com a LAN chilena e criando condições até para a contratação de pilotos estrangeiros, o que levará a um aviltamento ainda maior dessa profissão.

A votação do projeto de lei 6716/09, oriundo da Câmara, faz parte de uma operação casada que envolve também as privatizações dos aeroportos rentáveis e a remodelagem de todo o sistema de transportes aéreos, inspirada tão somente em interesses de grupos cobertos por “consultores” com trânsito livre nos centros desses podres poderes.
Com a mudança do artigo 181 do Código Aeronáutico, a participação do capital estrangeiro em nossa aviação comercial salta de 20 para 49%. Isso significa “entregar o ouro ao bandido”, estimulando movimentos correlatos que facilitarão a invasão dos nossos céus, como se o transporte aéreo fosse perder seu escopo estratégico, abrindo-se em leque à sanha de um mercado cuja única lei é a do ganho a qualquer preço. Um deles é a adesão do Brasil ao "open skies", sistema pelo qual os mais poderosos do mundo ganham entrada franco em nosso espaço aéreo.

Nichos dominados pelo duopólio

Para que fosse possível agora a desfiguração das empresas nacionais, engendrou-se um plano estratégico, que começou pelo sucateamento da Varig, a aérea mais tradicional e de maior inserção internacional, e ganhou corpo com a oligopolização do setor, que, por si, torna irrespirável a presença de terceiros nos aeroportos brasileiros.

Com a compra da Webjet (5% do mercado) a Gol passará a concentrar 61,4% das operações domésticas no aeroporto do Galeão (RJ); 57,8% em Confins (MG) e 51,2% em Curitiba (PR). O alto nível de concentração para o qual o mercado se direciona fica ainda mais evidente somando-se as participações da Gol e da TAM. As duas responderão por mais de 98% das operações no aeroporto internacional do Rio; 93,4% no de Brasília; e 92,9% em Congonhas.

Esse quadro monopolista aparece agora como pretexto para o franqueamento do setor ao capital estrangeiro. Quem considera esta única saída esquece que é a própria TAM, através de figuras conhecidas da corte, quem está movendo céus e terras para a aprovação da reforma desnacionalizante do Código.

Nossos céus mais vulneráveis
Em paralelo, o Brasil cedeu finalmente ao sistema "open skies" - ou céus abertos. A partir de março, com decorrência da visita de Obama, não existe mais exigência de reciprocidade nos vôos com destino aos Estados Unidos. No final do semestre, acordo semelhante foi fechado com os 27 países da União Européia.
Na prática, quem tiver mais bala na agulha vai voar mais. Por enquanto, essa abertura acontecerá apenas nas rotas internacionais. A exclusividade dos trajetos domésticos pelas empresas do próprio país é uma tradição em todo o mundo, com exceção da Europa, que vive um processo de integração continental.

Nos dias de hoje, porém, o Brasil é visto como um dos melhores mercados do mundo, dando vazão ao excesso de ofertas das aéreas estrangeiras. A portuguesa TAP que o diga. Com vôos diretos de Lisboa para Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Natal, Recife, Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte e Brasília, quase 30% do total de passageiros transportados pela companhia no mundo têm o Brasil como origem ou destino. Com a inauguração da linha Porto Alegre-Lisboa, a empresa chega à região Sul, onde ainda não atuava. Serão quatro frequências semanais, e cerca de 20 mil pessoas já fizeram reserva para a nova rota.

As empresas adotam políticas tarifárias atraentes, recorrendo ao dumping e redirecionando os destinos turísticos para fora do país. Uma passagem de ida e volta na TAPm de Porto Alegre a Lisboa, foi vendida até junho por R$ 1.714,00, menos do que de Porto Alegre para Fortaleza. Ao inaugurar sua linha Brasília-Montevidéu, em junho passado, a Pluma uruguaia lançou preços promocionais de R$ 480,00 – ida e volta.

Serviços baixa qualidade favorecem a desnacionalização

Com o duopólio das companhias brasileiras e a baixa qualidade dos seus serviços, o espaço aéreo está totalmente disponibilizado para as estrangeiras.

Revela-se agora, assim, o que movia a omissão dos governos na crise que levou à lona nossa maior transportadora: desde o destroço da Varig, com o que ela representava em padrão de serviços, pontualidade e atendimento, a aviação comercial brasileira embiocou nuvens abaixo, perdendo sua personalidade competitiva.

Com a privatização dos aeroportos em regimes de concessão,  não precisa ser especialista para antever a ampla desnacionalização de todos os segmentos dos transportes aéreos.

Aos poucos, desenha-se no horizonte o passo a passo macabro que levou ao sacrifício e humilhação de milhares de profissionais, com a irresponsável insolvência de um fundo de pensão e a consequente descrédito de todo o sistema em que se insere.

Esse horizonte, com certeza, não tem nada com a alma intrépida de Alberto Santos Dumont.

Um comentário:

  1. http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/07/20/american-vai-comprar-260-avioes-da-airbus-200-da-boeing-924944769.asp

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.