domingo, 17 de julho de 2011

O que você não sacou ainda: as UPPs protegem os traficantes de “invasão inimiga”

Com seus chefes poupados, eles não precisam mais exibir armas para vender drogas no “sapatinho”

Mesmo com a presença do Exército, ONG foi assaltada no Complexo do Alemão. Na foto de O GLOBO aparecem acima bondinhos do teleférico.

A nossa meta lá dentro (da UPP) não é acabar com o tráfico de drogas. Onde tiver viciado e renda, vai ter drogas. Tem aqui, em Paris, em Londres. O que não dá é para isso ocorrer aos olhos do Estado”.
José Maria Beltrame, secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro.

“Crimes típicos do asfalto e que antes não aconteciam no Morro do Adeus, em Ramos - em razão da ditadura imposta pelos traficantes -, ameaçam agora os moradores da comunidade, ocupada pela PM desde novembro. Na manhã de sexta-feira, três homens armados de revólveres invadiram a sede da ONG Raízes em Movimento , na Rua Diogo de Brito, renderam três pessoas que estavam trabalhando, incluindo uma francesa, amarraram as vítimas e as trancaram numa sala, enquanto saqueavam o lugar. Os criminosos roubaram computadores, telefones, quatro máquinas fotográficas e objetos pessoais dos funcionários, além de dinheiro. Segundo diretores da ONG, que oferece cursos a moradores, o prejuízo foi de cerca de R$ 40 mil”.

Essa notícia, publicada em O GLOBO deste sábado, é apenas um mostra da grande farsa montada pelo governador Sérgio Cabral Filho, numa operação de marketing político bem sucedida, que engabelou a maioria da população fluminense e teve repercussão internacional. A idéia de irradiar uma SENSAÇÃO DE SEGURANÇA vingou com a instalação de “Unidades de Polícia Pacificadora” em comunidades por si criminalizadas no inconsciente coletivo.

De algum forma, os cidadãos do asfalto sentiram um certo alívio, imaginando que o governador fluminense havia cravado uma lança mortal no coração da violência urbana. Houve até elevação dos preços de imóveis nas áreas próximas às comunidades pacificadas e a mídia se encarregou de vender a idéia de que os traficantes bateram em retirada, indo buscar cobertura nas áreas “não libertadas”.

Isto porque, em todas as ocupações, sem exceção, a polícia não prendeu ninguém da hierarquia do tráfico. No Complexo do Alemão, onde se deu a intervenção mais rocambolesca, descobriu-se que a própria polícia facilitou a evasão dos bandidos. Alguns saíram das áreas ocupadas a bordo caveirões, conforme denúncia levada à Corregedoria da PM: esses veículos blindados teriam feito o traslado em mais de uma viagem entre o Complexo do Alemão e o Morro do Chapadão, em Costa Barros, a 30 Km dali.

Não é pequeno o número de pessoas “bem informadas” que acreditam num acordo tácito entre o governo do Estado e os chefes das áreas “pacificadas”, que trocam o exibicionismo de seu armamento pela venda discreta das drogas.

Protegidos pela presença policial

Os traficantes postam suas armas junto às suas “bocas de fumo” para impedir que “alemães” de outras facções ou quadrilhas tentem apoderar-se dos seus pontos. Com a “Polícia Pacificadora”, ganham uma proteção de “responsa”, porque essa presença militar vira uma barreira protetora do próprio poder público.

Em outras palavras, sem exagero: o efeito colateral mais visível da permanência de centenas de policiais nas 17 comunidades “pacificadas” é a prestação de proteção aos bandos locais, que compensam com o bom comportamento e sabe Deus mais o quê.

Já os usuários correm risco de serem traídos pelos próprios traficantes. Na quarta-feira, 18 de maio, dois editores de imagem da Tv Record aproveitaram um intervalo no seu trabalho nos estúdios de Vargem Grande e foram comprar cocaína na Cidade de Deus, 12 km distantes. Na volta, por alguma razão, já perto da emissora, foram parados e revistados por uma patrulha da PM, que encontrou a droga em pequenos tubos plásticos transportados por eles.

Em dezembro passado, o repórter Arthur Guimarães, enviado do site UOL, constatou que na Cidade de Deus o mercado de drogas mantém-se nos becos, sob o comando dos chefes Carlos Henrique dos Santos, o Carlinhos Cocaína, e Julio César dos Santos, o Julinho CDD.

“Ao circular pelas ruas da apelidada CDD (Cidade de Deus), é difícil encontrar um morador que não afirme que a venda de entorpecentes ainda aconteça nas vielas ou nas regiões dos conjuntos habitacionais erguidos na década de 60.

O próprio comandante da UPP local, o capitão da Polícia Militar José Luiz de Medeiros, 30, admite que o trabalho iniciado com instalação da unidade ainda não conseguiu acabar o tráfico gerido pelo Comando Vermelho (CV). “Microtraficantes a gente prende quase todo dia”, disse ele” – escreveu.

Moradores reféns e criminalizados

Para os moradores dessas áreas ocupadas por tropas policiais o clima de reféns parece mais evidente, na medida em que perderam o gozo de certas normas, que impediam assaltos para “evitar sujeira” e manter a comunidade “sob proteção” e ainda passam um tremendo perrengue porque, de fato, a “rapaziada” continua em atividade.

Na manhã do dia 4 de maio, um comerciante da favela Nova Brasília, uma das mais populosas do Complexo do Alemão, foi executado por traficantes por reclamar da venda de drogas na porta do seu estabelecimento. Apesar da presença ostensiva de militares do Exército, seus familiares ainda foram obrigados a sumirem de lá.

Nessa farsa da “polícia pacificadora” a população do asfalto não sabe da missa um terço, até porque a mídia, com raras exceções, sempre abraça a versão dos policiais e, na prática, não chega nem na vizinhança dessas comunidades, ao ponto de confundirem como favelas conjuntos habitacionais como Cidade de Deus, Antares e Nelson Mandela – os dois primeiros construídos pelo Estado e o último pela Prefeitura.

Sensação de Segurança” e lavagem cerebral

A SENSAÇÃO DE SEGURANÇA é de fato uma bolha que se alimenta da própria idealização negativa das favelas – onde milhares de trabalhadores moram porque os míseros salários não dão para pagar moradia, luz e água, despesas que abatem ao se refugiarem nesses guetos.

O cidadão do asfalto levou uma verdadeira lavagem cerebral de criminalização da comunidade pobre como um todo. Daí achar que encurralar seus moradores é a garantia de que o Estado estanca as ações criminosas. Esse cidadão não perdoa Brizola por ter exigido que a polícia respeitasse a dignidade dos moradores do morro, adotando em relação a eles os mesmos procedimentos conferidos aos demais.

Além disso, Brizola ainda teve a audácia de tentar regularizar a posse dos barracos nas favelas, onde implantou mais de 70 CIEPs (outrora escolas de tempo integral).

Para esse cidadão envenenado “favelado bom é favelado encurralado”, mesmo que sua empregada, seu porteiro, 25% dos empregados de carteira assinada e trabalhadores informais ou a massa da construção do seu futuro prédio venham da favela.

Numa concepção estratégica, as UPPs são um desastre na política de segurança. Só não vê quem não para refletir. Esses 12 mil policiais que o governador Cabral Filho pretende instalar em 40 comunidades até 2014 seriam muito mais úteis se usados na proteção dos cidadãos nas ruas, onde realmente é vulnerável: para combater o tráfico de verdade, qualquer palpiteiro sabe que o melhor caminho é o dos serviços de inteligência, chegando às bocas de fumo quando menos se espera.

As UPPs são meras peças do ilusionismo governamental, utilizando uma sigla que se afigura a panacéia da segurança. Tal é esse verniz que agora o Estado fala em implantar uma no Complexo da Maré, para onde em 2003 transferiu o quartel do 22º Batalhão da PM, com 800 oficiais e praças “treinados para atuar na comunidade, que abriga cerca de 132 mil habitantes” – segundo release distribuídos à época pelo comando da corporação.

Como as UPPs caíram na simpatia desatenta da população, ninguém se arrisca a mostrar sua verdadeira face. A paranóia geral fragiliza a capacidade de raciocínio de quem acompanha o noticiário diário da violência urbana na grande cidade: ou já foi vítima ou teme ser a próxima vítima da roda viva da bandidagem.

Segundo estudo da Secretaria Estadual da Fazenda, o tráfico movimenta por ano  na cidade do Rio de Janeiro até R$ 630 milhões e o consumo chega a 90 toneladas de maconha, 8,8 toneladas de cocaína e 4,2 toneladas de crack.

Um comentário:

  1. Paulo Gondim3:14 PM

    Quem mora em comunidade "pacificada" sabe que o tráfico continua, agora protegido. Resta saber até quando a população vai continuar acreditando nessa conversa.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.