quarta-feira, 1 de junho de 2011

Volta de Fujimori no Peru, o sonho de consumo da direita golpista

Para impedir a vitória de Ollanta Humala ,  o sistema não se constrange em apoiar a filha de um ditador condenado
"A eleição da candidata da direita, Keiko Fujimori, à presidência do Peru seria o pior resultado possível, pois significaria o mesmo que atribuir o poder novamente a seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, preso por violações dos direitos humanos e corrupção"
Manifesto assinado por 99 intelectuais peruanos de várias tendências.

A direita latino-americana  faz qualquer coisa para imnpedir a vitória de Ollanta Humala, símbolo dos sonhos incas
Essa disputa no Peru, com segundo turno no próximo dia 5, mostra o nível de insensatez que envolve políticos e jornalistas brasileiros amargos, provavelmente em busca de compensações psicológicas para seus fracassos entre nós.

Torcer pela vitória da filha do ex-ditador Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de cadeia por roubo, corrupção e violação dos direitos humanos, é identificar-se com o que houve de pior em nosso país naqueles anos que poucos têm coragem de defender e ainda tratam de escamotear, com a pressão para que não se apure nada das atrocidades cometidas.

Mas há quem sonhe com o retorno do “fujimorismo” no Peru como uma revanche diante das seguidas derrotas acumuladas aqui. Essa postura irresponsável e passional me lembra o torturador Solimar, que transformava cada interrogatório na Ilha das Flores em espetáculo de puro sadismo – um sadismo que acabava sendo mais importante do que a inquirição em si, como contei no meu livro CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA.

Campanha com dinheiro sujo

A comparação me ocorreu exatamente por conta da simbologia dessa candidatura, alicerçada em muita grana roubada no tempo em que seu pai prendia e arrebentava, e no apoio de uma elite empedernida, que conserva sua condição de minoria aversa à civilização inca, ainda identificada com Francisco Pizarro, o exterminador de milhares de nativos. Há muito dinheiro numa campanha em que o expediente do “clientelismo” encobre uma compra de votos em massa.

Essa cruzada que recorre a todos os expedientes imagináveis tenta prioritariamente impedir a vitória de Ollanta Humala, - o guerreiro que tudo olha, na linguagem inca - um oficial nacionalista que encarna hoje os sonhos do general Juan Velasco Alvarado, líder de um governo militar que desafiou os interesses internacionais em plena farra das ditaduras forjadas pelos EUA – de 1968 a 1975. E cujo legado inspira as idéias de soberania, tal como aconteceu com o general Omar Torrijos, líder nacionalista do Panamá, morto em acidente aéreo provocado pela CIA, em 1981, conforme relato do seu ex-agente John Perkins.

A pressão contra Ollanta Humala decorre principalmente do que ele representa no contexto de uma América Latina em que muitos militares assumem posições distantes da School of the Americas (hoje, Western Hemisphere Institute for Security Cooperation) o centro de lavagem cerebral que desde 1946 fez a cabeça de mais de 80 mil oficiais do continente, induzindo-os a participarem da “guerra fria”, como aliados incondicionais dos Estados Unidos.

Quer dizer: essa paixão doentia da direita brasileira pela filha de Fujimori, que tem como principal preocupação tirar da cadeia o pai e seus cúmplices condenados, sinaliza a rearticulação de um retrocesso perigoso, que ganhou fôlego (mas não vingou totalmente) com a vitória do milionário Sebatián Piñera para a presidência do Chile.

Não é, portanto, uma opção de natureza política dentro das regras do jogo democrático, tão decantado por esses grupos. Porque figuras da direita peruana que não querem a volta da ditadura, ao contrário da nossa direita, consideram a candidatura da sra. Fujimori uma afronta a todos os valores democráticos peruanos.

Até o escritor Mário Vargas Llosa, obstinado defensor das idéias mais reacionárias no Peru, assinou o manifesto de 99 intelectuais advertindo para o retrocesso que seria uma vitória de Keiko Fumori. Com o mesmo raciocínio ex-presidente Alejandro Toledo, que ficou fora do segundo turno de domingo, formalizou seu apoio a Ollanta Humala, dentro da mesma preocupação dos intelectuais peruanos.

Um ditador condenado e na cadeia

Alberto Fujimori foi condenado a 25 anos de cadeia no Peru por acusações muito graves:
Violação de direitos humanos: 1.- Homicídio qualificado, lesões graves e desaparecimento forçado nos massacres de Barrios Altos (1991), onde morreram 15 pessoas que participavam de uma festa, e da Universidade La Cantuta (1992), cujas vítimas foram um professor e nove alunos. Estes crimes foram cometidos pelo grupo paramilitar Colina, comandado pelo então assessor presidencial Vladimiro Montesinos, também condenado.

2.- Homicídio qualificado, desaparecimento forçado e torturas praticadas nos porões do Serviço de Inteligência do Exército (SIE) a agentes do organismo, crimes denunciados desde 1997.

Por corrupção: 3.- Desvio de dinheiro público, atentado contra a fé pública e formação de quadrilha por pagar US$ 15 milhões a Montesinos por seus dez anos de serviço ao Governo de Fujimori. Após receber o pagamento, o ex-assessor fugiu para o Panamá.

4.- Formação de quadrilha e corrupção ativa por pagamentos a parlamentares de outros partidos para apoiarem a reeleição no ano 2000, como foi comprovado em uma série de vídeos gravados pelo próprio Montesinos.

5.- Ocultação de provas, usurpação de funções e abuso de autoridade por ordenar a invasão ilegal da residência de Montesinos para apreensão de vídeos e documentos incriminatórios.

6.- Violação do segredo das comunicações, desvio de fundos públicos e formação de quadrilha por espionagem telefônica de dezenas de políticos, empresários, jornalistas e funcionários ordenado por Montesinos.

7- Crime contra a administração pública, usurpação de funções e desvio de fundos públicos pela compra da linha editorial de diversos meios de comunicação.

A filha do retrocesso e da trama

Keiko Fujimori chegou ao segundo turno por uma manobra solerte do atual presidente Alan Garcia, que não pode disputar a reeleição e agora trabalha para desestabilizar a candidatura de Humala, esperando criar uma crise institucional, no caso de uma vitória dela, quando poderia ser chamado a “permanecer no poder” para garantir a ordem no país.

Estamos, pois, diante de um pleito que engorda a coletânea de tramas golpistas da direita continental, para a qual a existência de governos alheios à influência da grande potência colonial tem de ser solapada, mesmo que tenha que se servir da pior escumalha política.

A única garantia de estabilidade democrática nesse país vizinho de quase 29 milhões de cidadãos é a vitória de Ollanta Humala. O contrário seria uma perigosa senha para os golpistas incorrigíveis de todo o Continente latino-americano.

3 comentários:

  1. José Helder Monteiro4:08 AM

    Eu não estava dando a menor atenção a essa eleição no Peru. Seu artigo abriu meus olhos. Querer a volta de Fujimorí é no mínimo uma irresponsabilidade. Ele, sim, deveria ter sido levado ao Tribunal de Haia, por crimes contra a humanidade.

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  2. Anônimo12:18 PM

    É a ETERNA luta do BEM contra o MAL, de "DEUS" contra o "DIABO", do "LADO BOM DA FORÇA" contra o "LADO MAU DESTA MESMA FORÇA", do CONHECIMENTO contra a IGNORÂNCIA, do ALTRUÍSMO contra a GANÂNCIA, neste JOGO DA VIDA, onde é muito mais fácil ERRAR do que ACERTAR.

    Enquanto nós humanos formos ESCRAVOS das nossas EMOÇÕES, principalmente da GANÂNCIA, nossas sociedades serão INJUSTAS, CÍNICAS e HIPÓCRITAS.

    Espero que a "Fujimori Filha" perca, assim como espero que o Collor não volte, que o Sarney não volte, que o FHC não volte, que o Serra não volte, que o Aécio não volte, que o Palocci não volte, que a Dilma não volte, que o Lula não volte, que o Bush não volte, que o Obama não volte, que "quase todos" não voltem........!!!!!!

    Como sou otimista, espero que em 4011(dC) nossas sociedades já tenham evoluido !

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  3. Anônimo3:18 PM

    Complementando as "bobagens" anteriores:

    Como, para chegarmos em 4011, é preciso passar por 2011, só nos resta continuar "regando o deserto" até ele ficar, pelo menos, "ÚMIDO".

    Ou não ???

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.