terça-feira, 21 de junho de 2011

Se estivesse vivo, com quem estaria hoje Leonel Brizola?

Pelo que sei de sua natureza, ele faria de tudo para evitar uma marcha à ré no Brasil

“Cá para nós. Um político de antigamente, o senador Pinheiro Machado, dizia que a política é a arte de engolir sapo. Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, sapo barbudo?”
Leonel Brizola, 1989

Neste 21 de junho, data do sétimo aniversário da morte surpreendente (e um tanto inexplicável) de Leonel de Moura Brizola, varei a madrugada com uma pergunta na cabeça e uma redobrada disposição para a prospecção dos alvos que escolho para comentar: qual seria a posição do caudilho o hoje, diante de um jogo de poder grosseiro, cuja marca mais realçada é a tentativa das raposas de apoderarem-se do governo da primeira presidente mulher?


É claro que os elementos reunidos para as minhas ilações não são incontestáveis, mas você há de reconhecer o enorme esforço que faço para imprimir exclusivamente com as tintas da honestidade e lisura as expressões do meu pensamento.

Se não fosse pela dogmática busca do que é correto, pelo menos à luz da minha percepção, que presumo aguda, estaria falando sozinho, exposto ao ridículo e ao descrédito.

Pelas manifestações que recebo a cada opinião omitida, pela recente pesquisa que realizei e pelas conversas pessoais com alguns dos meus destinatários, posso dizer sem medo de errar que o meu “índice de credibilidade” é altamente positivo, perdoe-me a “imodéstia”.

Por isso, não me acanho em oferecer minhas opiniões, mesmo quando elas são motivadas por explícitas demonstrações de admiração e simpatia. Essa transparência, aliás, a meu ver, é a chave do respeito granjeado.

Isto é, não escondo minha inabalável crença em idéias que me alcançaram ainda de calças curtas. E exatamente em nome delas procuro demonstrar meu respeito por quem pensa diferente, até mesmo por quem está cronicamente em postura diametralmente oposta.

Lembro ainda, nestas premissas, que sempre estive envolvido dentro dos acontecimentos. Não sou desses que se limitam ao camarote da observação e posam de analistas restritos ao ofício, escondendo suas preferências e suas conveniências sob o manto esfarrapado de compromissos profissionais com a imparcialidade.

Ser honesto é ser visível, é expor o verniz do seu pensamento, mesmo quando se expressa uma conclusão diferente de sua vontade. É, igualmente, nortear-se pelo indispensável distanciamento crítico: nem sempre os meus preferidos estão certos; nem sempre os meus “adversários” estão errados.

Pelo que sei, Brizola estaria com Dilma


Dito isso, posso afirmar com todas as letras que se vivo estivesse, neste momento, Leonel de Moura Brizola tomaria uma posição muito apaixonada em defesa da presidente Dilma Rousseff, diante dos enormes desafios que enfrenta, assim como se aliou ao “sapo barbudo” depois da rasteira que o tirou do segundo turno, em 1989.

Eu mesmo não posso esconder minhas preocupações, decorridos seis meses da posse da primeira mulher a comandar o país. As condições em que ela chegou à Presidência, os interesses econômicos e a hipertrofia das ambições insaciáveis dos políticos brasileiros, para a maioria dos quais o mandato é uma poderosa ferramenta da causa própria, impõem-me uma atitude serena e consequente, focando principalmente o “depois”.

Leonel de Moura Brizola tinha o domínio da hierarquia do processo e não se fazia de rogado nas horas decisivas, mesmo a contragosto. Tentava conviver com o mundo cosmopolita, frio e calculista com enorme dificuldade. Deixava-se dominar pelo emocional em muitas situações, perdia a batalha da vaidade ferida principalmente ante a traições que sofria, mas sempre se posicionava com a lucidez devida nos momentos fatais de nossa história.

Posso dizer isso de conversas pessoais com ele e testemunhos de corpo presente. Ninguém poderia esperar dele uma indignidade, uma atitude movida pela mesquinharia ou pelo cálculo ardiloso dos interesses de sua carreira política.

O Brizola que conheci, com quem mantive ao longo dos anos uma relação crítica em público, tinha como ponto de partida e como referencial exclusivo sua identificação com o povo trabalhador e com a soberania nacional.

Houvesse ameaça em relação a esses postulados, não era difícil saber onde encontrá-lo. Em mais de uma fez, abriu mão de mágoas pessoais, de sentimentos feridos para se apresentar como soldado daqueles que mais próximos estivessem de suas grandes causas. Isso sem pedir nada em troca, até porque lhe repugnava o convívio com a boçalidade fisiológica.

Contra a cobiça insaciável das raposas

Neste momento, Leonel de Moura Brizola, que conhecia Dilma muito bem, que em várias situações conviveu com Carlos Araújo, ex-marido dela e militante íntegro, estaria detectando com sua intuição inigualável a terrível trama das velhas raposas, da abominável “correlação de forças” para acanhá-la na furna do poder, tentando fazer dela uma espécie de rainha da Inglaterra tropical, que se veria forçada a ceder as rédeas a um “premier” virtual saído do pior cruzamento da política e dos grandes interesses econômicos.

É o que eu estou vendo nessa feira de lobbies espúrios, que vêem fraqueza e insegurança no modo cerimonioso da presidente Dilma. É o que percebo com enorme preocupação, inclusive em relação à sua capacidade de resistir, tais os espantalhos que rondam sua cabeça e podem penetrar em seus recônditos, fragilizando seu inconsciente, algo que se explicaria melhor recorrendo à mescla das interpretações políticas e existenciais.

Leonel de Moura Brizola, que desconfiava da análise científica e desprezava currículos, guiando-se tão somente por sua intuição aguda, não teria dúvida e estaria oferecendo a Dilma toda a sua experiência, incluindo o reconhecimento de alguns erros e fracassos, como lições oportunas para que afirme sua condição de presidente legitimamente eleita no mar de esperanças que a fez quebrar todo tipo de tabu: ela não foi apenas a primeira mulher presidente, mas foi igualmente alguém que tinha na disputa presidencial sua primeira pugna e, mais significativo ainda, era assimilada por um partido ao qual se juntou no meio do caminho por acidente de percurso.

Tem muito dono da verdade em seu entorno e uma quadrilha de políticos sem menor recato insistindo em fazer do rateio das prebendas e da distribuição de verbas carimbadas (as tais emendas parlamentares) a condição de governabilidade indispensável para o nível de suas responsabilidades.

Tem gente tão canalha e tão sem escrúpulo que joga até com suas condições de saúde como forma de implementar um terrorismo do mais baixo nível, tudo para que seu governo seja fatiado de todas as formas, levando-a a concessões e a retrocessos dramáticos.

Se vivo fosse, insisto, Leonel de Moura Brizola estaria oferecendo o melhor de sua grandeza para nutrir sua ex-correligionária (e fã de carteirinha) das energias necessárias, antes que aconteça aqui o pior, antes que o redemoinho em que tentam sufocá-la abra caminho para a volta ao que há de pior na atividade política brasileira.

Isso eu digo com toda segurança, porque também não gostaria de ver o Brasil dando marcha à ré, não interessa pelas mãos de quem. Principalmente da presidente que um dia se entregou de corpo e alma ao mais generoso dos sonhos juvenis.
Pedro Porfírio

Permitida a publicação e repasse desta matéria, desde que identificada sua autoria

12 comentários:

  1. Meu caro Porfírio, levando em conta sua experiência e vivência junto ao caudilho, sou levado a concordar contigo. Apesar do PT, creio que Brizola estaria com Dilma, mesmo porque, não posso imaginá-lo ao lado de Serra, Aecinho e Cia Ltda.
    Um abraço.
    Hideraldo S. Cardoso
    Divinópolis-MG

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  2. ary pires4:26 PM

    Caríssimo Porfírio
    Velho que estou, retrocedo a 1979, quando sorvíamos, quando possível era, as falas de Brizola em Lisboa.Eram o refúgio de nossas derradeiras esperanças em um país melhor.Ao gaúcho,então, foi oferecida a anistia e ele voltou,envolvido na mais lídima de nossas esperanças. Desceu no Galeão e, para nossa desgraça, nem sequer uma palavra proferiu sobre o que ocorria em S. Bernardo, onde o bispo apanhava. A este silêncio correspondeu sua vitória no pleito para governo do Rio, em 1982. Cambiamo-nos, os jóvens ingênuos, para o Partido dos Trabalhadores,basicamente pela decepção que a abstinência de Brizola nos causou naquela hora no Galeão. E supondo-o, àquele partido, a verdadeira expressão dos ideais do povo sofrido e explorado.Aguardamos. Apanhamos. Collor, FH, FH. Finalmente, em 2002, Lula assumiu e, apesar de toda a propaganda oficial, julgamos seu governo tremenda farsa e engodo.Tremendo retrocesso.Como não mais podia continuar no cargo, inventou Dilma. Preparada, forte, dura, brizolista e doente, reúne predicados raros para realizar belo governo.Outra vez, no entanto, tem que se curvar ao velho Imperialismo para sobreviver. Ou então, não governa.A menos que os ingênuos, como nosoutros, a ajudem e aconselhem. Disponha-se, caro Porfírio, a escrever a ela; a ela visitar e aconselhar. A ela mostrar enfim que ainda é possível, com boa vontade e puras intenções,transformar este país e ao povo sofrido socorrer.
    Ary Pires.

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  3. Compaheiro, também acho que nosso lider maior estaria com a Presidenta Dilma, mas, também acho que teria uma oposição dos caciques do PT, principalmente o Palocci e o Zé Dirceu.
    Mas, contudo sua analise é perfeita.Saudações Socialista! Brizola Vive! Elmo Evangelista - Rio, fundador do PDT da 11ªZ.e.

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  4. Norma Braga Fontes12:05 AM

    Eu também acho que o grande Leonel Brizola estaria do lado da Dilma. Mas por motivos diferentes do pessoal atual do PDT, que está com ela no governo federal, mas faz parte do governo de Aécio Neves em Minas Gerais. Todo mundo vê que esses falsos brizolistas não são coerentes, querem é fazer parte do governo, qualquer governo.

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  5. Anônimo10:52 AM

    Lamento ter votado no LULA (e não no "Caudilho" BRIZOLA), no primeiro turno das eleições que elegeram o COLLOR.

    É bem provável que o Brizola estivesse apoiando a DILMA, por falta de opções melhores.

    Pelo menos, a turna da DILMA/LULA/ETC é "APENAS" 70% ENTREGUISTA e nós vamos vivendo com os 30% que restam.

    A turna do AÉCIO/SERRA/FHC/MARINA/ETC é 100% ENTREGUISTA ....

    Com 70% do PIB do BRASIL, já nas mãos de estrangeiros, em quem votar em 2012 ??????????????

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  6. Anônimo5:14 PM

    Olá amigo Porfirio, sua análise está corretíssima, também não tenho dúvida que Leonel Brizola estaria do lado da presidente Dilma.Pela primeira vez vejo uma análise sentida pelo coração, pois você conhecia muito bem Brizola e se vivo estivesse estaria ajudando e orientando Dilma para se livrar das raposas velhas e corruptas que rodeiam o poder esperando o momento para abocalhar o dinheiro público. Às vezes fico imaginando uma mulher de muita fibra mas cercada por todos lados de políticos de seu próprio partido e de aliados que só visam interesses pessoais para si e para seus familiares. Me lembro agora da última conversa do Presidente Jango com o comandante do 1o exército Gal Cruel que´era seu compadre e pedia já no dia 1o de abril de 1964 para que Jango abandonasse os sindicatos e Jango disse : Cruel, não posso me afastar dessa gente que me deu o poder e então o Gal disse pois a partir de agora não mais lhe obedeço e aderiu ao golpe militar de 1o de abril de 64. A presidente Dilva se encontra nessa situação, foi esses "políticos" que lhe deram o poder com as alianças e com os votos de seus partidos. Será que ela teria coragem de romper com esses corruptos, contrariando seus partidos ? Não sei. Se ela tivesse o apoio popular tanto quanto lula poderia ficar ao lado do povo mas é arriscado, ela vai continuar sendo uma presidente que governa de acordo com o interesse do grande capital e dos políticos corruptos que a tem na mão pelos acordos politicos.Obs: não sei se o nome do gal é Cruel, mas essa conversa está no livro Idos de Março. Um abraço e continuo admirando sua mente prodigiosa e sua visão acurada parabens.

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  7. Prezado Porfírio, Sim, saudade do parlamento combatente com Leonel Brizola, Jeferson Peres, Enéias hoje... não perco o meu tempo em assistir as sessões; parlamentares ventrículos, omissos, que ganham fortunas, para dizer sim, e beneficiar as classes dominantes. Veja:

    BOPE R$ 2.260,00 p/ arriscar a vida;
    BOMBEIROS R$ 960,00 p/ salvar vida;.
    PROFESSOR R$ 728,00 p/ preparar p/ a vida;
    MÉDICO R$ 1.260,00 p/ manter a vida;
    E o DEPUTADO FEDERAL?
    Ganhar R$ 26,799,00 P/ FERRAR A VIDA DE TODO MUNDO.
    É BRASIL...mas NÓS, somente NÓS, podemos mudar isso!!!

    Brizola estaria hoje com Dilma...Sim, PORQUE? A presidente está cortando aos poucos o cordão umbilical que a prendia ao DITADOR LULA DA SILVA.

    Porfírio, digo mais; a mentira tem perna curta, veja o Cabral se ausentou do RJ em plena segunda feira, utilizando o jatinho do pervertido Eike/Elieser/Batista para comemorações particular com os construtores das faraônicas obras: maracanã, PAC, e outras...aconteceu o acidente e veio a público ; até o MPF está questionando o uso dos jatos e [.] para resolver assuntos particulares do Cabral, custeado com o dinheiro do cidadão.
    Nas sessões, nenhum parlamentar condena tais atitudes... por estes motivos que sentimos saudade de Brizola e dos combatentes parlamentares que citei acima.
    Saudações,

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.