domingo, 5 de junho de 2011

Quem camufla negócios privados não serve para a vida pública

“Palocci sonegou a informação à Presidenta da República e ao povo brasileiro.Palocci não tem o direito de ocupar um cargo público”.
Paulo Henrique Amorim, no seu site Conversa Afiada.

Na entrevista exclusiva, negócios privados são escondidos
Tinha decidido não meter meu bedelho nesse caso do ministro Antônio Palocci devido à má fé como conhecidos negocistas estavam se posicionando, querendo fazer do limão uma limonada muito mais por ser ele ministro da sra. Dilma Rousseff e muito menos por um suposto arrepio diante das revelações sobre o meteórico crescimento de seu patrimônio, graças aos clientes confidenciais que encheram sua pança.

Não reconheço autoridade em quem se locupletou por tantos anos, principalmente na farra das privatizações-doações, sobre as quais o próprio governo Lula fechou os olhos, negando-se a proceder a indispensável devassa de todos os perniciosos negócios transados em prejuízo do Brasil.

Vi desde o primeiro momento um discurso com a amargura de quem é capaz de qualquer expediente para sair da pindaíba política, para ressuscitar de três pauladas plebiscitárias seguidas.

Nessas horas, não falta quem saia atirando, como se estivesse diante de um enriquecimento inédito, como se essa não fosse a macabra rotina de um Estado onde já existe há décadas uma deletéria parceria “público-privada”, na qual meter a mão na massa é quase um dever de ofício.

Vi do meu jeito que os interessados na queimação de Palocci não eram apenas os adversários oposicionistas. Sinais de fogo amigo espargiram-se na atmosfera pesada de um ambiente por si poluído. Infelizmente, é cada vez mais raro encontrar na corte e no seu entorno figuras com espírito público.

Não exagero em afirmar com todas as letras que a privatização do Estado se dá de forma sórdida, pela ação vampiresca de quem faz de sua própria ambição pessoal, até mesmo de suas vaidades, a mola do processo: o que é bom para cada um, individualmente, nem sempre é bom para o Estado como um todo.

Mas a história é implacável com a imprudência e o desprezo pelo recato. Pessoalmente, já havia me perguntado por que um médico sanitarista, de militância comunista na juventude, tenha se aburguesado ao ponto de comprar um apartamento de R$ 6 milhões (o declarado, e a gente sabe que se manipula muito com preços de imóveis) para oferecer à sua família uma vida de fausto, exclusiva de uma elite espoliadora, que contrasta com sua retórica juvenil e com o próprio discurso de hoje, quando vai ao encontro das massas sofridas prometendo dedicar seu mandato exclusivamente a elas.

Isso por si já demonstra uma atitude cínica e hipócrita: os verdadeiros próceres das causas populares não podem se enredar na extravagância de delirantes sonhos de consumo, através dos quais viram a casaca e perdem a noção do relacionamento crítico com o capitalismo selvagem que sustenta uma degradante pirâmide social.

Esse aburguesamento desvairado, essa opção por uma vida de casta, que só a alguns o sistema permite, teria que ter uma origem nada moral. É a velha sina: o dinheiro que entra fácil sai fácil.

Ao contrário do seu colega José Dirceu, que foi cassado, Antônio Palocci retornou ao Congresso em 2006 com 152.246, a sua maior votação pessoal em todas as eleições que disputou, desde a primeira, em 1988, quando ganhou o mandato de vereador em Ribeirão Preto, aos 28 anos.

Esses votos por si deveriam ter servido para reabilitar sua auto-estima e sacramentar seu compromisso com a vida pública, sem precisar de montar uma empresa com atividades que nada têm com o seu saber acadêmico. Afinal, ele tinha caído do Ministério da Fazenda após episódios desgastantes, um dos quais chocou a nação inteira – a quebra do sigilo bancário de um caseiro que presenciara alguns dos seus deprimentes desvios de conduta.

A história tem sido rica na revelação da mudança de comportamento de muitos supostos idealistas ao se verem com a faca e o queijo na mão. Mas tem se mostrado igualmente mais implacável com os novos corruptos, com aqueles que cresceram na exibição de uma honestidade de palanque, volatizada ao assomar o poder.

Os mais engajados não poderão perder de vista a queda da União Soviética, 72 anos depois da revolução que triunfou em nome de um mundo novo de justiça social, austeridade e trato decente da coisa pública. Mas que se desmanchou quando uma nova classe de apaniguados ficou à vista aos sacrificados.

Esses mesmos engajados têm um exemplo oposto: apesar do bloqueio econômico perverso e de todas as conspirações da grande potência imperialista, a revolução cubana sobreviveu, em alguns momentos a pão e água, porque o povo daquela ilha nunca teve dúvida quanto à lisura e a modéstia dos seus dirigentes. Sofria a massa, mas nunca se soube de que qualquer um dos líderes cubanos levasse uma vida de lorde.

Essa entrevista do ministro Palocci e mais novas revelações a seu respeito me levam agora a uma convicção, construída de forma imparcial, como simples observador de cabelos brancos: quanto mais dias ele permanecer no governo da presidente Dilma Rousseff, pior para ela.

Primeiro, porque continuará no foco da desconstrução desse governo, que é bem diferente do seu antecessor, na própria dessemelhança de histórias pessoais e políticas, de temperamentos e de personalidades. Certas coisas que o carisma de Lula permitia não cabem na figura da primeira mulher a presidir o Brasil.

Depois, pelo precedente que encerra. É fato que não se pode inferir do enriquecimento meteórico antes de estar no governo a razão automática para que o ministro seja descartado. Mas a avaliação a ser feita tem de considerar o pesado ônus que sua permanência à frente da Casa Civil acarreta, na medida em que ele sustenta segredos profissionais que a toda ilação se oferecem.

Até a escolha de um único jornalista e de uma única televisão para a difusão de suas explicações acabou gerando mais suspeitas. É difícil à massa média da opinião pública descartar um acordo de perguntas de cartas marcadas, às quais respondeu de forma burocrática e cosmética, sem convencer nem aos correligionários.

Onde quer que vá consultar nos compêndios da história, a presidente da República vai encontrar exemplos fatais daqueles que não souberam entender as entrelinhas do jogo político e não cortaram os males pela raiz.

Nesse ponto, têm razão os que dizem que Palocci jamais poderia ter assumido um papel tão importante no governo, pois de há muito ele descobriu sua vocação para “consultorias” que rendem muito mais do que os vencimentos de ministro, com os quais jamais poderia sonhar em comprar o super-apartamento de declarados R$ 6 milhões.

Palocci se nivelou aos que priorizam seus interesses e seu gozo pessoal no exercício da vida pública e isso ele fez questão de assumir, ao lembrar outros exemplos que justificariam a prestação de serviço que fez a clientes camuflados a sete chaves, como se essa relação clandestina encobrisse mais do que práticas normais no mundo empresarial.

Ele é um péssimo exemplo de novo rico, de emergente dedicado a ganhos por baixo do pano, à sombra, algo mais adequado à guerra suja, à espionagem industrial. Deixou de ser um homem público para se converter num promissor homem de negócios, independente da armadura legal de sua avassaladora “consultoria”. Não será surpresa se já não tiver seu iate, seu dinheirinho nos paraísos fiscais, tudo como manda o figurino de uma elite magnetizada pelo orgasmo pecuniário, pelo prazer sem limites morais, como diria o outro, até mesmo pelo ganho exagerado sem qualquer responsabilidade social, esse revestimento que está muito em moda hoje em dia.

A presidente Dilma Rousseff, que declarou um patrimônio de R$ 1 milhão, e que demonstra um grande apreço pelos valores morais que nos embalaram na juventude, não tem porque tê-lo a seu lado, como se fosse o novo “bom burguês”.

A menos que tenha vocação suicida. Ruim para ela e para as instituições democráticas.

7 comentários:

  1. Lamento que tenhamos que nos manifestar e acompanhar mais essa desatenção do Palocci.

    Mas já dizia nosso Chico:
    "E qualquer desatenção, faça não!
    Pode ser a gota d´água!"

    Estamos fartos de mediocridade, ganância, corrupção. Poupe-nos!

    Pensar que estamos aqui para deglutir qualquer "petisco" é um grande desrespeito com os brasileiros!

    Faça não!!!!

    Eliana Vinhaes

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  2. Jose Netto3:30 PM

    Esta história tem todos os ingredientes de uma grande chantagem aplicada sobre um sujeito de caráter fraco que seria próximo à presidenta. Não dava para o Palocci desconfiar que aqueles R$ 10 milhões que lhe deram, entre a eleição e a posse da Dilma, era sinal de um ataque à Dilma? Não dá pra desconfiar que o objetivo era colocar de joelhos a presidenta de gênio quase indomável?

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  3. Aníbal Araújo12:00 AM

    O enriquecimento mágico do ministro Palocci,é a ponta do iceberg petista.
    Onde estão os outros petistas que num passe de mágica estão ricos, e não são poucos, o que me entristece é o comportamento discriminatório da receita federal, para o pobre trabalhador que ganha seu dinheirinho laborando honestamente, de prontidão estão seus super computadores para empurra-los para malha fina, quando é os figurões não acontece nada, pobre Brasil.Os petistas assumiram o poder com muita fome e tenham certeza de que este não será o último caso envolvendo figurões da elite petista do campo partidario e do campo sindical, se estivessemos num pais sério onde a justiça fosse linear os palocci estaria na cadeia!

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  4. O artigo contém algumas inverdades quando afirma que há lisura no regime ditatorial cubano. Tal como aconteceu com as outras ditaduras comunistas do Leste europeu, no dia em que a ditadura dos irmãos Castros cair também vai cair o véu da corrupção e da bandalheira dentro do governo da inditoda ilha.
    Outra inverdade, é afirmar que a tual presidente da República teve um passado honesto, coerente com o seu passado, que se dizia comunista. Pelo contrário, ela participou do assalto ao ao cofre de uma amante de Adhemar de Barros, de onde levaram milhões de cruzeiros.Até hoje não se sabe o distino desse dinheiro. Informações da época dão conta que ela e o grupo terrorista da qual ela participava, gastaram, em sua grande parte, com atividades burguesas. Ela vem de família rica de origem européia do Leste. Conhecida por usar bolsas de mais de 10 mil reais. O principal financiador da campanha dela à presidente da República foi o maior capitalista desse país, o Elke Batista.

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  5. Joelson Vasconcellos10:05 AM

    Caro companheiro Porfírio,

    Concordo com quase tudo que vc escreveu neste artigo.
    DISCORDO apenas do 2o. parágrafo que reproduzo abaixo:

    "Não reconheço autoridade em quem se locupletou por tantos anos, principalmente na farra das privatizações-doações, sobre as quais o próprio governo Lula fechou os olhos, negando-se a proceder a indispensável devassa de todos os perniciosos negócios transados em prejuízo do Brasil."

    Se não me falha a memória, logo após a saída do PDT, há poucos anos, vc informou, através de artigo, que estava filiando-se ao PSDB, o partido que iniciou as vergonhosas e criminosas privatizações às quais vc se refere (e que o PT, que prometera pelo menos rever, “esqueceu” e agora retoma, através da privatização dos aeroportos).
    Caro mestre, para um velho militante como vc, a coerência é fundamental. Tenho um imenso respeito pelos anos de lutas que vc carrega. Mas, na nossa profissão coerência é fundamental. Lembro inclusive que em seu artigo, justificando a ida para o PSDB (não sei hoje qual é o seu partido), vc elogiou Marcelo Alencar. Que, quando Governador, foi mais realista que o rei. Privatizou barcas, trens e metrô, enquanto o governo do PSDB em São Paulo mantém até hoje os trens e metrô como estatais, confirmando, pela eficiência mostrada, que estes serviços, como em todos os principais países capitalistas, são estatais. Pesquise e divulgue que será altamente esclarecedor para os seus leitores, já que considero vc um formador de opiniões.

    Perdoe-me pela sinceridade. Continua o respeito por vc.

    Este post também está sendo enviado a alguns amigos comuns como o Sérgio Caldieri, Jesus Chediak e outros, que também compartilham da mesma opinião.

    Saudações socialistas,

    Joelson.

    Obs. Ótimo o trecho sobre a URSS. Só faltou informar que é muito exigir de uma forma de organização social que teve apenas 70 anos para mostrar a que veio e consertar os erros existentes.

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  6. Anônimo12:40 PM

    O "PODER" INEBRIA e CORROMPE !!!

    SOU, mas quem NÃO É ???

    O importante é roubar SEM SER DESCOBERTO !!!

    Quando o Palocci foi escolhido, pela "Dilma", ele já era uma grandeza conhecida, assim como tantos outros, também escolhidos.

    Se quiser, e puder, a "Dilma" pode trocar por outro "mais competente"....

    PS.:

    O PSDB/SP está privatizando (para pior) o METRÔ da cidade de São Paulo:

    - A Linha Amarela está "em teste" faz mais de 6 meses e durante as obras houveram inúmeros desabamentos, com várias mortes, motivados pela GANÂNCIA das empreiteiras.

    O PT (e aliados) é RUIM, mas o PSDB (e aliados) é muito PIOR.

    Enquanto formos ESCRAVOS das nossas próprias EMOÇÕES, principalmente da GANÂNCIA, continuaremos nesta RODA REPETITIVA.

    O problema está na nossa CPU, no nosso CÉREBRO !

    Ou não ???

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  7. Anônimo6:07 PM

    E o JOBIM, pooode ???

    E o SARNEY, pooode ???

    E o DANTAS, pooode ???

    E o GILMAR, pooode ???

    E o "QUASE TODOS", pooode ???

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.