sábado, 2 de abril de 2011

Explodiu mais um bueiro da Light privada. Copacabana, meu amor, pergunta: qual será a próxima explosão?

Na maior cara de pau, o próprio presidente da empresa admite novas tragédias

‘‘Não há como negar que, nos últimos anos, o Brasil destruiu sua política energética’’.
Liliana Yang, analista da área de energia do Bear Stearns, banco de investimentos de Nova York.
Na foto do jornal EXTRA, o quadro da destruição que poderia ter sido mais grave

A explosão de mais um bueiro da Light em Copacabana tem pelo menos dois méritos: 1. Oferece ao nosso mais excitante cartão postal a sensação privilegiada de uma bomba, como essa que a “coalizão” colonialista está despejando sobre a Líbia. 2. Faz saltar aos olhos dos desavisados que essa empresa, como, aliás, toda e qualquer concessionária de serviços públicos essenciais, jamais poderia ter sido privatizada, jamais poderia ter escapado ao controle social dos usuários.

Claro que essas explosões são pintos diante de um míssil Tomahawk, despejado às centenas sobre Trípoli, causando mortes de dezenas de civis, como denunciou o bispo católico Giovanni Innocenzo Martinelli. Mas as pessoas que viram uma placa de aço de 4 metros por dois subir a uma altura de cinco metros e destruir um táxi, seguida de chamas que alcançaram o segundo andar dos prédios pensaram que estavam diante de um inusitado ataque terrorista. (Clique aqui e veja filme de morador postado no You Tube)

Não é a primeira vez que o bairro mais internacional do Rio de Janeiro passa por susto dessa natureza. No dia 29 de junho do ano passado, a explosão de um bueiro na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com República do Peru arremessou a norte-americana Sara Nicole Lowry, com as roupas em chamas, a uma distância de 8 metros: ela passou um bom tempo internada com queimaduras em 80% do corpo, enquanto seu marido David James Mclughlin, também atingido, teve 35% do corpo queimado.

Uma semana depois, outro bueiro explodiu na Rua Figueiredo Magalhães, danificando o táxi de Anderson Oliveira Campbel. Depois, foi na esquina da Hilário de Gouveia. O Centro da cidade também não escapou à sanha dos bueiros da Light: duas explosões levaram pânico aos transeuntes em plena Avenida Rio Branco. Levantamento superficial indica que pelo menos 30 bueiros da Light explodiram nos últimos meses e o próprio presidente da empresa admite que tragédias semelhantes poderão acontecer ainda.

Na explosão de ontem, o prefeito Eduardo Paes deixou cair a ficha, assustado com a existência de 4 mil estações subterrâneas da Light, das quais duas mil em petição de miséria, como a que poderia ter causado um verdadeiro morticínio, se o sinal não estivesse fechado para a travessia de pedestres: “É o fim das desculpas bobas. Precisamos saber o que a Light realmente está fazendo. O que vimos aqui hoje é uma cena de terrorismo. Ano passado quase tivemos uma turista morta e ontem também tivemos gente ferida. Vamos fiscalizar com mais rigor, com punições mais severas, já que se trata de concessão de utilização de solo do município. Falhas técnicas como esta não podemos mais aceitar”.

Uma farra com o dinheiro dos consumidores

Não tenho a menor dúvida: uma concessionária de energia elétrica mal administrada pelo Estado ainda é menos nociva do que uma privatizada - a Light que o diga. No primeiro caso, ela é mais sujeita ao descontentamento da população. No segundo, seu foco deixa de ser a prestação de serviços para entrar na cirando da caça ao lucro a qualquer preço, no que isso significa de mais rasteiro – corrupção de autoridades fiscalizadoras e uma boa articulação na Justiça através de advogados topes de linha.

Em matéria de péssimos serviços e extorsão dos consumidores a Light não detém a exclusividade da prática, até porque são bons amigos das concessionárias – alguns ex-funcionários – os gestores da tal Agência Nacional de Energia Elétrica.

Maior exemplo disso foi dado agora em janeiro, quando, apesar das evidências constatadas pelo Tribunal de Contas da União e por uma CPI da Câmara Federal, a ANEEL legitimou a punga de quase 10 bilhões de reais de que foram vítimas desde 2002 os consumidores de todo o país, e se negou a determinar a devolução de cobranças a maior.

Ao contrário, além de livrar as caras das concessionárias, a ANEEL está autorizando para este ano aumentos que vão até 12% - e já há um indicativo que até 2014, ano da Copa, a majoração chegará a mais 30%.

Tarifa  nas nuvens – serviços no fundo do poço

Para se ter uma idéia da farra, veja: A Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia Elétrica mostrou que de 2001 a 2010 os reajustes da tarifa de luz foram de 186%, o dobro da inflação no período, que foi de 89,94% (IPC-A).

Há dados ainda mais enlouquecedores: desde a privatização da Light, em 1996, os aumentos das tarifas subiram à estratosfera: só de 1998 a 2005, chegaram a 256%, segundo o Comitê de Indústrias da Associação Comercial do Rio de Janeiro. Só no primeiro ano da Light privada, em 1996, segundo o IDEC, a tarifa subiu 40%. Levantamento do DIESE/Sinergia vai mais além: Entre 1997 e 2007, enquanto o acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, atingiu 93,53%, na região Sudeste o reajuste médio de energia elétrica totalizou 327%.

Em 1998, auge do programa de privatização brasileiro, uma família de classe média, formada por quatro pessoas e com renda mensal de R$ 2 mil, gastava entre 1% e 2% de seu orçamento com a conta de luz. Cinco anos depois, esta mesma família, com o mesmo salário, desembolsava entre 8% e 11% dos rendimentos com o serviço.

Quando vale tudo na caça ao lucro selvagem

Ao ser docilmente privatizada por US$ 2,26 bilhões (30% em moeda podre), a Light mandou embora de cara 3 mil e 800 dos seus 9 mil empregados, a grande maioria na área de reparos e manutenção, conforme denúncia do presidente do Sindicato dos Urbanitários à época, Luiz Carlos de Oliveira.

Isso porque a empresa mudou seu foco, passando a priorizar o valor de suas ações e os negócios na Bolsa, com a "otimização dos custos". Tanto que já andou de mão em mão desde que foi arrematada em conluio pela estatal francesa Électricité de France (EDF, que ficou com 34% das ações) e as norte-americanas Houston Industries Energy e AES Corporation (11,35%, cada), juntando-se aí aportes da CSN já privatizada e do BNDES.

Em 2002, através de manobras, a EDF já tinha 94,5% das ações. Em março de 2006, a EDF Internacional, até então controladora do Grupo Light, vendeu 79,57% das ações da Companhia para a RME – Rio Minas Energia Participações S.A., empresa controlada pela Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG, com a participação da Andrade Gutierrez Concessões S.A., Pactual Energia Participações S.A. e Luce Brasil Fundo de Investimento em Participações (“Luce”).

Nessa ciranda, rolou muito dinheiro, muita gente ganhou comissões, enquanto a empresa, agora sob hegemonia da CEMIG continuou se deteriorando, num corpo de delito indisfarçável sobre o balaio de distorções decorrentes da privatização. Resultado: hoje não podemos dizer que temos empresas de eletricidade, mas balcões de negócios que também distribuem energia a preços exorbitantes, como mostrei acima.

O resultado é que, ao contemplar os estragos da explosão dessa sexta-feira, dia 1 de abril, os moradores do Rio de Janeiro se perguntam: qual será a próxima? Preocupada somente com o lucro saboroso, a Light esqueceu de investir nos seus equipamentos e reduziu seu pessoal, ao contrário do que constava de suas metas. Agora, admite oficialmente que 2 mil transformadores subterrâneas precisam ser trocados.
Essas explosões cada vez mais assustadoras são apenas uma faceta dos péssimos serviços de uma concessionária, focada no mercado financeiro e sem qualquer compromisso com a população.

Onde moro, infelizmente, toda vez que cai uma chuva mais braba, a luz vai embora e nos deixa nas trevas por horas a fio. Trevas que são a marca indelével da criminosa cerimônia de privatização-doação do patrimônio público brasileiro. Algo que jamais poderia ter acontecido se o Brasil tivesse à sua frente homens públicos realmente vocacionados.

6 comentários:

  1. D´ARTAGNAN3:54 PM

    A culpa do acidente deve ser dividida entre a LIGHT "PRIVADA" e o "ABESTADO" do prefeito Eduardo Paes que permitiu o asfalto sobre os respiradores do BUEIRO. Espero que o deputado TIRIRICA faça u´a música bem engraçada misturando a LIGHT "PRIVADA" e o PREFEITO " ABESTADO" Ha ! Ha ! Ha ! Ha !

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  2. A PRIVATIZAÇÃO PROMOVIDA PELO SOCIOLOGO DE QUE - FHC E SEUS SEGUIDORE FOI UM DESASTRE PARA O POVO BRASILEIRO
    JA MUDEI DE COPA PELO MEDO DE ANDAR NAS RUAS.
    O ESTADO E O NOSSO REPRESENTANTE PORTANTO DE RETOMAR A LIGHT E TODAS AS EMPRESAS QUE ESTÃO NAS MAOS DE ESTRANJEIROS.
    QUEREMOS PARCEIROS NÃO PATROES
    O PATRÃO E FEDERAÇÃO
    BRASILEIRO ACORDEM - PRIMAREGATTIERI

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  3. Luciana Mascarenhas9:58 AM

    Moro em Copacabana e estou apavorada. Não tnho esperança de que tomem alguma providência. Sua matéria mostra que as concessionárias é que mndam. E amigo?

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  4. Anônimo2:09 AM

    Eu não entendo pq se responsabilizar FHC e seus seguidores dos deserviços prestados a Nação a serviço exclusivo do interesse internacionais. A imprensa o considera um verdadeiro DEUS... Elogios rasgados de ponta a ponta, tanto da ala considerada inteligente e culta do país. Não sei por qual motivo devemos cobrar da ANAEEL se ela como a ANATEL que claro só pode ter o mesmo pai e vir da mesma mãe porque até ANA é também. Não acho que devamos esperar que sejam apuradas responsabilidades. O Brasil esta entregue as baratas, estamos a pé desde que os Fernandos tomaram conta do nosso País. O ESTADO não tem que cobrar tem que agir e retomar o que foi nos foi surrupiado, prender FHC e quadrilha e acabar com esses desmandos.

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  5. Raimundo Nonato Cruz10:57 AM

    Poucos brasileiros sabem dos aumentos exagrados da luz. Também não sabem desse dinheiro cobrado mais. Eu mesmo nõ sabia. Acho que a falta de informação facilita as maracutais. Já repassei essa reportagen para minha lista.

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  6. Os bueiros continuarao a explodir enquanto se mantiver a configuraçao da rede sem qualquer proteçao aos fios de baixa tensao - a chamada "queima-livre". Isto nao eh privilegio da Light, pois em S. Paulo, Belo Horizonte e em outras cidades em outros paises tambem jah explodiram bueiros. Nao se iludam, os bueiros explodem desde sempre. Podem pesquisar no Acervo Digital do O Globo, que sempre tivemos estas explosoes. O especialista eng. Estellito Jr. jah mostrou tanto no jornal - http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/08/20/especialista-diz-que-light-nao-investiga-explosoes-925172517.asp - quanto na televisao - http://www.youtube.com/watch?v=0hKshf_TGRk - que o problema eh antigo e a ANEEL faz vista grossa. As concessionarias apos a explosao trocam os cabos, mas como o sistema continua o mesmo, tempos depois novas explosoes ocorrem.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.