quarta-feira, 9 de março de 2011

A vitória cubana no carnaval de Florianópolis, uma surpresa que sinaliza para enredos engajados

Na capital de melhor IDH, escola de samba caçula fala de Cuba, empolga e ganha  seu primeiro título
Enredo sobre Cuba levou escola de Florianopolis ao seu primeiro tíulo
“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Che Guevara (no enredo da Escola de Samba União da Ilha da Magia, de Florianópolis)



Em 2000, desfilei na Portela e na União da Ilha em alas com temas políticos
 Enquanto o país inteiro, puxado pela grande mídia, concentrava seus olhares nas superproduções carnavalescas do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, fora dessas metrópoles, um fato realmente surpreendente me levou a refletir sobre essa manifestação tão significativa como marco de uma alegre catarse do povo brasileiro.


Em Florianópolis, a capital com melhor Índice de Desenvolvimento Humano, a mais nova escola de samba ganhou o carnaval deste ano com um enredo de exaltação à revolução cubano, que contou com a presença da médica Aleida Guevara, filha do lendário “Che”. Desde a entrada na passarela, o desfilde de "Cuba sim, em nome da verdade" ganhou a torcida espontânea das arquibancadas.

Clique aqui e veja o desfile da escola União da Ilha da Magia

Vale lembrar que em 2006, com o apoio da petrolífera estatal venezuelana, a Unidos de Vila Isabel ganhou o carnaval carioca com o enredo “Soy Loco por ti, America: a Vila canta a latinidade”. Nesse desfile, o carnavalesco Alexandre Louzada exaltou as lutas dos povos latino-americanos, exibindo imagens de Bolívar, Che Guevara e Fidel Castro, mas guardando sempre uma certa reserva para proteger-se das pressões dos donos de um certame voltado para o turismo internacional.

Já em Florianópolis, a escola da Lagoa da Conceição, um bairro de 15 mil moradores em sua maioria de classe média, produziu um enredo com a mais irrestrita identificação com a revolução cubana: sua bateria vestia o uniforme do exército revolucionário e a diretoria exibia paletós com as cores da bandeira cubana, enquanto as alas mostravam o rosto de Che Guevara.

Cuba com referência para os sambistas

A demonstração de simpatia política foi sustentada por um enredo com a apresentação das principais marcas da revolução, como a reforma agrária, o ambiente de busca da igualdade e as conquistas sociais, como enfatizou o carnavalesco Jaime Cezário:

“É claro que Cuba tem os seus problemas e não é nenhum paraíso socialista, ainda mais por conviver há cinco décadas com um bloqueio econômico.

Entretanto, não podemos deixar de ressaltar e, por que não, admirar esse povo que transformou um país com grande índice de analfabetos e miséria em uma nação que hoje é referência mundial nas artes, nos esportes, na medicina, entre outras áreas, e respeitada pela defesa intransigente de sua soberania e que, apesar de todas as dificuldades, não capitulou e permanece firme em seus ideais revolucionários.

Após os avanços e conquistas sociais alcançados nessas últimas cinco décadas, o povo cubano nunca mais será submisso a qualquer interesse externo, tão pouco abrirá mão dessas conquistas, pois os alicerces sociais estão fincados. Um povo alfabetizado e consciente politicamente não se dobra à força das armas, mas sim à dos ideais”.

Clique aqui e leia a sinopse do enredo

Rompendo uma tradição conservadora

Pelo que sei, até mesmo devido ao processo de colonização recente, em que há uma predominância de pequenas propriedades rurais cultivadas por descendentes de alemães, poloneses, italianos e outros países do leste europeu, e uma distribuição pelo interior de pólos econômicos, Santa Catarina sempre foi um Estado de verniz conservadora.

Agora mesmo, elegeu governador o candidato do DEM, juntando a ele um senador do PMDB (ex-governador) e outro do PSDB. O prefeito de Florianópolis é Dário Berger, do PMDB, que em 2008 derrotou Esperidião Amin, do PP, no segundo turno.

No entanto, desde que entrou na Passarela Nego Quirido, a União da Ilha da Magia arrebatou as arquibancadas, com capacidade de 10 mil pessoas, que cantavam o seu samba-enredo e davam vivas a Cuba. A médica cubana Aleida Guevara, filha de Che, arrancou aplausos emocionados ao desfilar num carro alegórico, tendo como destaque um folião que personalizava seu pai.

O envolvimento da platéia foi tão politizado que a tv da rede RBS de Florianópolis (afiliada à Globo) chegou a exibir durante a apresentação em legendas alguns comentários de telespectadores criticando o regime cubano, tentando desfazer a empatia entre o público e Cuba.

Arquibancada ajudou escola a vencer

Mas os jornalistas que cobriram o desfile das cinco grandes escolas coincidiram em observar que o desfile da UIM foi inflado pelo apoio das arquibancadas, que deliravam já na comissão de frente, que apresentava uma colagem de peças com a figura de Che. Essa escola existe há apenas 3 anos e disputava com outros antigas, já populares, como a Embaixada Copa Lord, segunda colocada, cujo fundador dá o nome à passarela, construída em 1989.

Na exposição sobre o enredo, o carnavalesco Jaime Cezário deu o tom da proposta da escola campeã: “O carnaval tem como principal objetivo levar informação através dos seus enredos, assim como divertir e encantar o grande público amante da festa. Nós, da União da Ilha da Magia, a escola de samba mais nova da cidade de Florianópolis, não queremos perder esse foco de utilizar essa grande festa para levar diversão, informação e questionamento.

Nossos caminhos são novos e buscamos aquilo que achamos ser a função principal de uma escola de samba, trabalhar pela cidadania. Pensando assim, nos perguntamos, qual seria o preço da liberdade?”.

Uma comunidade mobilizada

A comunidade da Lagoa da Conceição, berço da União da Ilha da Magia, vive hoje um processo de mobilização em defesa da sua qualidade de vida. Em outubro, o cineasta Eduardo Paredes, que vive lá há mais de 30 anos, divulgou manifesto em apoio ao movimento que tem entre os sambistas os mais atuantes defensores. Segundo ele, a especulação imobiliária pode comprometer a qualidade de vida no local.

O movimento denunciou que o sonhado Parque da Lagoa, na área do Vassourão, está ameaçado: depois de desmatarem parte do terreno, os proprietários da área colocaram placas informando sobre a expedição de licenças ambientais para construção de mais um condomínio.

A região atualmente é utilizada como campo de pouso de vôo livre. Paredes lembrou que 53 entidades assinaram uma representação, encaminhada às autoridades, visando ao tombamento daquela área para formação do Parque da Lagoa. Apenas o Ministério Público Federal deu algum tipo de satisfação.

Uma opção realista que dá certo

Tal como aconteceu na vitória da Vila Isabel, em 2006, a audaciosa escolha da escola de Florianópolis pode sinalizar para uma opção mais engajada e menos etérea  nos enredos carnavalescos.
Eu mesmo vivi essa experiência, no carnaval do quinto centenário, em 2000, quando desfilei por três escolas: Jacarezinho, Portela e União da Ilha. As duas últimas do grupo especial, apresentavam em seus enredos trechos da história do Brasil. Na Portela, estava na ala que falava da Aliança Nacional Libertadora, e na União da Ilha, no carro alegórico denominado A Barca da Volta, com a participação de ex-exilados e perseguidos políticos. Em ambos os casos, a reação do público chegava a emocionar os próprios passistas.

Fica aí mais um elemento para a reflexão de todos.

Fotos de Florianópolis.
Filha de Che Guevara participa do desfile em Florianópolis
Bandeiras de Cuba e líderes da revolução
Carro alegórico destaca personagens cubanos

9 comentários:

  1. Ludmila Rossi6:07 PM

    Quem viu o desfile, mesmo pela tv, não teria dúvida, porque o desfile foi impecável e há em todos nós uma paixão inconsciente pela revolução cubana, principalmente por Che Guevara. Pra mim, cultura, samba e política estão juntas.

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  2. Salvador de Farias1:00 PM

    Enaltecer o regime cubano é como afagar um Tiranossauro.

    Mas está desculpado porque foi um evidente caso de falta de uma idéia melhor.

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  3. Anônimo2:27 PM

    Obviamente que a emissora rainha da ditadura, o panfleto sionista veja e os jornalões não deram destaque ao referido desfile de Floripa. Afinal se 50 anos de sabotagem da maior "potência" do mundo contra a Ilha não tiveram sucesso, imagine se o povo tivesse acesso à informação isenta e pudesse julgar o que lhe agrada mais em cada sistema.

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  4. Anônimo12:38 PM

    1- Cuba não é um paraíso, mas está melhor do que se estivesse sob o domínio do "DEMÔNIO/Escorpião" dos USA.

    2- Os enredos das "Escolas de Samba" nos desfiles de carnaval, geralmente, são bons, mas ficam diluídos na bagunça geral.

    3- Enquanto isto, no PATROPÍ, os governantes/espertos recebem 62% de aumento, e, a população/trouxa recebe 6%.....AO PAREDÃO, JÁ !!!

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    Obrigado,
    Ministério da Saúde

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  6. PORFÍRIO MUITO LHE AGRADECEMOS POR
    NOTICIAR E EXIBIR O DESFILE DA UNIÃO DA ILHA DE FLORIPA HOMENAGEANDO CUBA. FIQUEI EMOCIONADÍSSIMO,POIS,CUBA
    MERECE E JAMAIS FIDEL E CHE SERÃO
    ESQUECIDOS PELO POVO CUBANO E POR
    TODOS NÓS.VIVA E VIVA CUBA.
    UM ABRAÇÃO DE SEU ASSÍDUO LEITOR
    OSWALDO CATAN

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.