sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

No falso duelo do mínimo, a ópera bufa dos papéis trocados

Depois do desgaste na votasção do
mínimo, Lupi foi ao banquete
dos empresários na FIESP
Nessa encenação parlamentar, a oposição ajudou o governo a saber quem é quem em sua base de dependentes fisiológicos.
“São tão simples os homens e obedecem tanto às necessidades presentes, que quem engana encontrará sempre alguém que se deixa enganar”.
Nicolau Maquiavel (cientista político florentino, 1469-1527)

Estão redondamente enganados os que imaginam ter havido um duelo na Câmara Federal em torno do salário mínimo. Antes pelo contrário: o objeto da votação e os 47 milhões de potenciais interessados entraram naquela maçante discurseira como Pilatos entrou no credo. O meio milhar de bem remunerados deputados foi ali, sob as câmeras de um legislativo assumidamente gaiato, apenas para representar mais uma ópera bufa de papéis trocados, exibindo à distinta platéia o espetáculo surrealista de canastrões feitos excelências.

Nada me pareceu mais fora de propósito do que ver os partidos patronais chorarem pela sorte dos desafortunados assalariados do mínimo, para os quais, na contracena, seus hipotéticos representantes, titulares de suas franquias, lhes viraram as costas, privilegiando o comprometimento das núpcias com o poder.

Todo mundo sabe que a inexistência de ganho real no reajuste do salário mínimo aprovado representa a verdadeira quebra do acordo alegado na sustentação de uma correção que a nada corrigiu. A alegação da referência ao PIB negativo em 2009 veio a calhar. O governo entrante está morrendo de medo de bombas de retardo e, como no começo tudo são festas, aproveitou a deixa para segurar as pontas de um processo que tantos dividendos políticos forjou junto à plebe ignara.

Como em 2010 houve uma certa recuperação do crescimento e como o referencial de perdas é a inflação desse ano, não custava nada ter antecipado alguma coisa do próximo aumento: não custava nada, mesmo. Era, aliás, até uma demonstração de bom senso.

Jogo de cartas marcadas

Mas a ribalta fora tomada pelos coadjuvantes na busca de alguns minutos de glória. O governo se apegou a um valor e seus adversários, repetindo velhas práticas dos rivais, alardearam que queriam dar mais ao proletariado de cordas no pescoço e mãos atadas. Queriam mesmo? Claro que não. Queriam, sim, fazer média com a platéia e causar embaraços para a turma que se comprime, ávida, insaciável, na cata de qualquer vantagem por ser da base governante.

Não havia sinceridade na encenação mal ensaiada. Havia, sim, infelizmente, o sentimento de impunidade ante uma massa tomada de analfabetos políticos, vulnerável a qualquer mistificação, conformada com a pirâmide que sustenta o dorso de uma sociedade sedimentada na injustiça e na atávica exploração do homem pelo homem.

O pomo da discórdia era outro, portanto. Tratava-se de explicitar quem era quem no jogo do poder. O governo da senhora Dilma Rousseff precisava fazer um laboratório, saber de seu poder de sedução dos parlamentares, que usam enferrujadas picaretas para abocanhar o máximo de minas possível, e que andavam arregalando os dentes atrás da carne seca.

Para testar o nível de dependência de cada deputado o governo contou com a colaboração graciosa da oposição, que bancou propostas mais generosas na convicção de que jamais poderiam sair vitoriosas. Ou teria mudado o ultra-reacionário Ronaldo Caiado, latifundiário de pai e mãe, para quem a simples existência de direitos trabalhistas se afigura uma peça jurássica da era Vargas, que ele e seus parceiros desejam enterrar?

O embate de fancaria mostrou exatamente o que já se sabia: o entorno do poder desfigura personalidades e as nivela a encabulados bobos da corte, enfileirados em pálidos cordões de dependentes químicos do seu aroma.

Rebelião no PDT ainda vai render

Mas revelou igualmente que nem tudo são flores nos jardins da corte. A divisão no PDT serviu para revelar a insatisfação dos seus mais importantes parlamentares com o seu presidente licenciado, reconduzido triunfalmente ao Ministério do Trabalho, este sobrevivente de uma farsa em que abriu mão do passado institucional e virou mero distribuidor da grana do Fundo de Amparo a Trabalhador – FAT.

O governo não é só aritmético. Viu que do PDT ficou no seu coro apenas a banda amorfa de sua bancada. Os expoentes mais visíveis, que são respeitados e pesam no debate parlamentar, deixaram o ministro Carlos Lupi pendurado no pincel e votaram contra o governo. Assim foi com Antônio Reguffe, o deputado proporcionalmente mais votado do Brasil, tendo merecido o sufrágio de um em cada 5 eleitores de Brasília.

Na mesma postura dissidente estavam também Vieira da Cunha, combativo parlamentar do Rio Grande do Sul, o paraense Giovanni Queiróz, líder da bancada; Miro Teixeira, um dos mais respeitados congressistas, e Paulo Pereira da Silva, que carregou os três votos do PDT paulista na mesma posição.

Mas os próximos dias mostrarão que a rebeldia de alguns pedetistas não afetará a permanência de Lupi no Ministério do Trabalho. Seria um erro de cálculo do palácio punir um fiel escudeiro, útil como coveiro da outrora rival fortaleza brizolista, que já exerce um cargo simbólico, excluído de todas as pendências trabalhistas, inclusive essa última com as centrais sindicais chapas brancas.

Ao contrário, pelo tom da balada palaciana, ele deverá ser mais prestigiado ainda, até como forma de desautorizar os dissidentes. Se não for isso, então o governo terá sucumbido à arrogância de trogloditas autoritários, que só confiam na truculência como método de relacionamento, que imaginam os aliados como hordas de obedientes capachos.

Já o PDT poderá ser sacudido pela rebelião em marcha, de consequências imprevisíveis. Não é todo mundo que se agacha em troca das sobras do banquete. Quem tem biografia a preservar – não é o caso do ministro – pensa duas vezes antes de deixar-se aviltar por ofertas de ocasião.

Para nós, de cá, fica a sensação do triunfo do óbvio. O governo tem argumentos de sobra para fazer valer suas decisões: que o diga a penca de cargos atrativos disponibilizados na máquina estatal, a que se junta o enorme poder multiplicador de um estado gigante e avassalador.

Fica ainda a sensação de que essa classe política – de um lado e de outro - não tem o menor respeito pela verdade, nem acredita no potencial crítico dos cidadãos.

10 comentários:

  1. Porfírio, Brasil, que o seu povo assiste ao circo montado no Congresso Nacional participando como palhaços senadores e deputados federais, brincando de fazer alguma coisa... que coisa... ué! 545,00 ou 545,00 ai, ai, ai, um pergunta ao outro o que os Rothschild querem? há... é que fique nos 545,00 então bata o martelo o povo que se f...

    QUEM GANHA COM ISSO? É claro! os banqueiros sionistas.

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  2. Isolda Silveira Alencar10:21 PM

    Eu também tive a mesma sensação de que não se casava muito ver o PSDB e o DEM defendendo salário maior, enquano o PT, o PSB e o PC do B fechavam com o salário menor. Mas o Brasil é isso mesmo. Não se pode esperar lógica nesses políticos aproveitadores.

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  3. Anônimo12:45 AM

    Porfírio
    Dia 15 de maio de 2009, Cristovam Buarque recebeu um telefonema do Carlos Lupi determinando que ele retirasse sua assinatura da CPI da Petrobrás.
    Fiquei decepcionadíssimo quando vi um senador, naquela época, respeitadíssimo no meu conceito, retirar uma assinatura de um documento. E independente do ato político que significava a CPI da Petrobrás,eu lhe disse: Cristovam agora você já assinou, não se volta atrás num ato desses, eu não me conformei com a atitude de bundão e falta de firmeza de caráter que ele teve:
    ELE RETIROU A ASSINATURA POR ORDEM DO MINISTRO.

    Agora foi tudo combinado. Foram todos com o falso discurso de defender o trabalhismo. Como você pode crer que o Lupi e o Paulinho estão rachados se os dois dividem a grana do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) ??!!Foi tudo combinado, e determinado que o discurso econômico ficasse para os economistas e banqueiros.
    Foram se auto-promover e ferrar a mulher mesmo.

    E essa história de migalhas trocadas? não é bem assim não. estão todos muito bem servidos, quantas superintendências do Trabalho existem por esse Brasil inteiro, tudo preenchido por protegidos do Lupi e pessoas do PDT. PDT o patido da boquinha.
    O trabalhador que se dane.

    lamento muito se a Dilma não estiver vendo isso e não tomar uma atitude.
    A estratégia é traí-la se não assentar agora aquele bando de vagabundos e incompetentes que ainda estão sem cargo. É isso que as Centrais querem. E da próxima vez vai ser bem pior!
    BANDO DE TRAIDORES!MERCENÁRIOS!VENDILHÕES DA PÁTRIA! TODOS ESSES AÍ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR EM TRABALHISMO E LEONEL BRIZOLA.
    Quero ver falar como você fala. Sem cargos.
    Desculpe o desabafo.

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  4. Anônimo12:50 AM

    É inadmissível que uma briga interna do PDT faça com que sua bancada vá conversar com o PSDB e com o DEM.
    ISSO É IMPERDOÁVEL!

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  5. Sávio Moreira2:53 AM

    Eu não confio no Paulinho, nem nos outros deputados do PDT, que agem macomunados com o Lupi. São tudo farinha do mesmo saco. O PDT pra mim ainda é pior do que os outros, porque faz de conta que não concorda, mas é tudo combinado. Aqui em Brasília dá pra gente ver como eles agem, enganando os pobres brizolistas.

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  6. A "máxima" da ciência política moderna diz o seguinte: "O atual é, sempre, pior que o anterior".
    Quem viver, verá ! ! (Isto é, já estamos vendo e assistindo...)

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  7. Anônimo6:04 PM

    Para os "ESPERTOS", 60% de aumento; para os "TROUXAS", 6% de aumento....

    Ao PAREDÃO, já!!!

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  8. Anônimo11:38 PM

    A diagramação da coluna está bem melhor. O texto, além de bem escrito, agora respira.
    Weber

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.