terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Enquanto você corre atrás do crucifixo, a corte faz o que o diabo gosta

A próxima punga é o voto em lista, que nos privará do direito de escolher candidatos.
Esta é a sociedade dos donos do poder. Fora disso, é ilusão
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio, dependem das decisões políticas.
O Analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais. "
O Analfabeto Político
Bertold Brecht, dramaturgo, poeta e humanista alemão (1898-1956)

Ironia do destino: enquanto os egípcios comunicam ao mundo que são mais do que o país das múmias, cá entre nós a mumificação da turba materializa a alma do bestialógico cúmplice.
A máquina sórdida que a todos manipula envolve os desavisados na polêmica de quinquilharias e qualquer um se apraz em festejar fumacinhas dispersas sobre cabeças baixas, enquanto a caravana trôpega atravessa incólume conduzindo arfantes mestres da mistificação milenar.
No momento, o clamor geral foi formatado para a cruzada pelo crucifixo que Lula levou do Palácio. A frenética exaltação mobiliza a todos numa torrente de exigências para que ele devolva a peça sacra. E o estresse da gente fica por aí.
Tenho a sensação do convívio com um parque de diversões em que a cada um é garantido o acesso a um vídeo game de movimentos inebriantes. Há até os discordantes, mas difícil é saber onde querem chegar.
Pelo andar da carruagem vê-se que a insatisfação cessa se lhes facilitam a carona. Não é séria a controvérsia, a nada leva além de um show diversionista. É mesmo deprimente o bate-boca estéril, restrito a uma superfície canhestra.
Tanto que fizeram agora um acordo diabólico: de comum acordo, vão nos cassar o direito de escolher nossos parlamentares, como escrevo nas últimas linhas desta coluna.
Ir fundo, tratar da patologia do crime continuado, isso não. Ou se crê na predominância do submundo mental já arraigado no populacho ou se pensa no oposto: se extrapolar a informação para além das doses homeopáticas o risco do despertar das massas é real.
Na pauta, comparar presidentes – ela e ele. Na sutileza de um olhar de soslaio percebe-se o emergir de uma nova personalidade. Um gesto milagroso, como esse inevitável vômito de um ladrão de carteirinha e sua corja de chantagistas, já se festeja como sinal de novos tempos.
Mas, em verdade vos digo: ela não será diferente dele, como ele não foi do outro, que seguiu a agenda anterior, conforme seu mestre mandou.
Trocando seis por meia dúzia
Quem lê jornal viu o filme dos assaltos às furnas das nossas luzes. Coisa de fazer inveja ao Fernandinho Beira-Mar. E aos fernandões. R$ 73 milhões de uma só tacada, na mão grande,  com direito ao mais arrogante escárnio.
Manter essa quadrilha depois de tantos delitos explícitos seria dar prova de fraqueza e covardia. Mas a pergunta que não quer calar permanece no ar: e aí? Vão pegar de volta o dinheiro surrupiado na negociata?
Isso não. Há um jogo de cartas marcadas. A impunidade reina como a mãe de todos os canalhas. Pego com a mão na massa, o delinquente ameaçou abrir a boca e dar o nome da boiada. Silêncio sepulcral.
Na fortaleza inexpugnável da corrupção vão-se os dedos, ficam os anéis. Não acredito que um amiguinho do capo timbira, do todo poderoso de todos os governos, seja melhor do que os cúmplices do trombadinha. Na prática, ali, naquela furna eletrostática trocaram seis por meia dúzia.
E ainda se celebra tal como um gesto heróico, digno de todos os encômios.
Banqueiros num céu de brigadeiros
Enquanto isso, a fina flor da banca trilionária oferece cérebros para áreas nunca dantes navegadas. A ida do presidente do Banco Safra para comandar a Secretaria de Aviação Civil, com status de ministro (outra blindagem própria para banqueiros) passou a jato pelo radar do observatório político.
Por que ele vai trocar mais de R$ 200 mil de salários (fora isso e aquilo) pela gestão de 67 aeroportos embolsando menos de R$ 20 mil por mês? Você não acha que tem truta nisso?
Na verdade, a agenda prioritária é a privatização do filé mignon do espectro aeroportuário. Coisa que povoa os sonhos coloridos de um certo governador, especialista nas nuvens que banham as noites de Paris. Dele e de um certo dileto amigo, obcecado pelo pódio dos mais afortunados.
E um banqueiro olímpico
Coisa de doido: como teve de engolir o ministro dos Esportes, correto até prova em contrário, apesar de gastar muito com tapioca, a corte surrupiou-lhe a gestão dos jogos olímpicos, confiada agora a nada mais, nada menos, do que outro da cepa usurária. Temos agora um banqueiro olímpico, um tal que a gente já conhece de frente e de perfil.
O que é isso, companheira? Não há sinceridade na grita dos príncipes sindicais, todo mundo percebe, mas que história é essa de apegar-se a um trato que o tempo enferrujou no caso do salário mínimo? Se três bancos podem somar um lucro de R$ 30 bilhões num ano (você tem idéia do que seja essa fortuna?), por que negar mais alguns trocados àqueles que têm mais de 40 anos de renda defasada pelos casuísmos e pela fraude?
Isto é: para os banqueiros, o banquete. Para os assalariados, a (quase) lei....
Quem tem olho na China
Se você quer entender o segredo da esfinge tupiniquim, ligue-se mais nas areias do além-mar. A corte empavonada se espelha no salão oval da  branca casa de todos os poderes. Não é o mesmo quem ditava as ordens há oito anos. Nem branco é, diferença desapercebida na prática. Agora, há um discurso mais afrescalhado pairando no ar. Mas a faca amolada é a mesma.
Eles lá estão á beira do precipício. Caíram no negócio da China e acordaram tarde. São séculos de sabedoria e circunspecta esperteza sofisticados pela moldura dos tempos modernos. Agora querem nos envolver nos fracassos e nos temores do império. É uma agenda diferente.
Mas não se poe fazer nada. Entre nós, sacrificamos nossa proposta industrial que agrega valores e voltamos ao tempo do Chateaubriand (lobista dos ingleses) para favorecer a Vale e os exportadores de soja. Você não está me entendendo: se os chineses pararem de comprar minérios brutos, a mega privatizada a preço de banana vai para o beleléu. Idem com a soja que enche as burras  do agronegócio latifundiário.
Aí você fica dizendo bobagens, como se fizéssemos favores ao tigrão amarelo nessas transações em que temos saldo na balança.
O golpe do voto em lista na ponta da agulha
Há nas alcovas da Brasília desvairada notícias de um bacanal a vinte mãos. Os espertos da corte preparam o maior golpe político da história, golpe que nem os militares, desde a época de Deodoro, nem o Estado Novo do professor Francisco Campos ousaram sequer imaginar.
Sabe o que? Já está apalavrada entre os donos dos partidos (gregos e troianos) a emasculação do voto, única ilusão de que estamos numa democracia. Não vai demorar muito, estarão votando uma “reforma política” ao gosto dos cabecilhas de todos os valhacoutos.
Com ela, nos privarão de votar em nossos candidatos ao parlamento. O voto será no partido, cuja cúpula fará uma fila interna ao sabor de suas conveniências. Será considerado eleito quem estiver na cabeça da lista partidária, tenha sido sufragado ou não.
Assim, desaparecerá a última possibilidade de se eleger alguém com liberdade e pensamento crítico. O compadrio servirá para afortunar os chefes dos picaretas e ao povo só restará esperar em Deus respostas para suas desventuras.
Porque, no fundo, no fundo, o país dos faraós e das múmias é aqui.

5 comentários:

  1. Carla Pinheiro10:54 PM

    Gente, vamos pensar mais antes de entrar na pilha dos outros. Acho que o Pedro Porfírio está cheio de razão.

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  2. José Arimatéia Freire12:55 PM

    Se aprovarem esse projeto de voto em lista, botando tudo nas mãos dos caciques dos partidos, melhor rasgar o título eleitoral.

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  3. O que você quer? Você apoiou esse pessoal. Eu votei para Marina, e no 2º turno votei para Serra.

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  4. Prezado Porfírio,

    Nesta você se superou, em análises e informações. O Brasil só sai desta quando conseguirmos mandar Sarney et caterva para o Egito. Chega de múmia, e candidatos a múmia.
    Parabéns, e muito obrigado.

    José Netto

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.