sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Caiu o ditador. Ué, Mubarak era ditador? A mídia não dizia isso até outro dia.

Barricada dos egípcios desmascara a hipocrisia semântica que manipula nossos corações e mentes.
Eles se amavam tanto e Obama e tinha como PRESIDENTE amigo
(Isso antes da massa tomar a praça e revelar que o amigo era ditador)
“A corrupção ao estilo americano pode resultar em "prendas" de trilhões de dólares para companhias farmacêuticas, a compra de eleições com maciças contribuições de campanha e redução de impostos para milionários, enquanto a assistência médica aos mais pobres é cortada".
Joseph Eugene Stiglitz, economista norte-americano, analisando “o catalisador tunisiano”.

Antes de especular sobre o amanhã egípcio, gostaria de lhe fazer uma pergunta: desde quando você sabia que Muhammad Hosni Said Mubarak era um ditador? Isto mesmo, concito-o a revirar os jornais de dois meses atrás (ou um mês, talvez): como o governante de 30 anos no poder era chamado pela mídia que lhe embasbaca diariamente em doses cavalares?
Até agora, aqui e além-mar, nas ocidentais usinas de desinformação, Mubarak era tratado como presidente eleito e reeleito, um líder legítimo, incontestável, lúcido e tudo o mais que o jargão colonial exala. Ditador, não.
Ditador, para essa indústria de mentiras e hipocrisias, é quem contraria os interesses dos trustes, quem cai no desagrado dos Estados Unidos da América.
Hugo Rafael Chávez Frias foi eleito e reeleito nos moldes formatados pelos engenheiros da democracia representativa. No pleito de 2006, ninguém me contou: eu estava lá e vi com os próprios olhos que a terra há de comer adversários poderosos, mídia majoritariamente contrária, urnas muito mais confiáveis do que as nossas, com impressão do voto, controle biométrico dos eleitores, enfim, tecnologia de última geração para garantir a vontade dos cidadãos venezuelanos.
No entanto, essa imprensa que até ontem chamavam Mubarak de senhor presidente, usa e abusa da má fé, referindo-se a Hugo Chávez como um ditador, dizendo a você, um descuidado inocente útil, que há uma ditadura na Venezuela, embora a grande mídia reacionária deite e role.
Não me venha de lorotas que eu o desminto na lata. Se quer tirar os noves foras, vá na internet e acesse os sites dos jornais El Nacional  e El Universal, os dois maiores jornalões da Venezuela.
Eu fui "agente do Al-Fatah" e não sabia
Pode ser que você esteja mais ansioso num palpite sobre o novo Egito. Como não sou leviano, nem metido a pitonisa, prefiro pegar a deixa para fazer minha própria manifestação sobre a hipocrisia semântica que faz diariamente a lavagem cerebral dos cidadãos de boa fé, como você.
E não preciso ir muito longe, não: nossa grande mídia fala hoje que houve uma ditadura militar no Brasil. E esconde que colaborava apaixonadamente com ela: sem seu nada a opor, ou o seu tudo a ver, provavelmente a ditadura teria durado menos e feito menor número de vítimas.
Mas, não: em 27 de junho de 1969, quando era o CHEFE DE REDAÇÃO da censuradíssima  TRIBUNA DA IMPRENSA, fui seqüestrado de madrugada e levado para lugar ignorado. Todo mundo sabia que estavam me metendo o cacete, mas nem a notícia da minha “prisão”. No dia 16 de julho, o Cenimar (Servilço secreto da Marinha) exibiu 38 prisioneiros - eu, inclusive - apresentando-nos como os terroristas que queriam derrubar a ditadura de 180 mil soldados das três armas.
Samuel Wainer, que já estava de volta mediante negociações com os generais, pôs a minha foto na primeira página da ÚLTIMA HORA, o jornal onde dei os primeiros passos profissionais, com a legenda: AGENTE DO AL-FATAH”. Isso mesmo, para agradar os senhores do poder, o ex-exilado não fez por menos. Arranjou-me um epíteto de agente internacional de organização revolucionária, por minhas simpatias à causa palestina. Pior: entre os subordinados do patrão oportunista havia ex-colegas meus, que, bem, cala-te boca....
Aqui, tivemos ditadura, mas não se fala em ditador
Aliás, há algo muito despropositado na nossa mídia. Ela agora se refere à ditadura militar, via de regra a criminaliza, mas de forma original: não vi em nenhum órgão da imprensa escrita, falada ou televisada alguém se referir aos generais d’antão como ditadores. Concito-o a achar nessa mídia uma referência ao ditador Castelo Branco ou ao ditador Figueiredo, ou aos outros. Registra-se que tivemos ditadura, mas não se nomina nenhum general como ditador.
Afinal, quem é e quem não é ditador?
Insisto: quem é e quem não é ditador no mundo? Onde realmente se pode falar em democracia, no sentido original do termo, umbilicalmente ligado à idéia de liberdade, patrimônio existencial da humanidade?
Liberdade é o quê, caro parceiro? É essa pirâmide social desumana em que 10% dos brasileiros detêm 75,4% de toda a riqueza? Pobre goza doexercício da liberdade? Como? Pendurando-se nas migalhas dos programas sociais compensatórios? Se tem liberdade, o pobre é burro? Sim, porque 80% dos parlamentares eleitos não têm nada de pobre. Fazem parte, paradoxalmente, do topo da pirâmide, daqueles 10% que estão por cima da carne seca.
Segundo Márcio Pochmann, presidente do IPEA, órgão do governo federal, o Brasil, a despeito das mudanças políticas, continua sem alterações nas desigualdades estruturais. O rico continua pagando pouco imposto.
Democracia das elites é uma mentira
Trocando em miúdos, quem paga a conta nesta democracia onde reina a minoria é a maioria que vive com a corda nos pescoço. Dizer que um país socialmente piramidal vive numa democracia é uma grosseira fraude semântica.
Ou então a democracia é um regime de aparências, fundado na desigualdade e na lei do (bolso) mais forte.
Mas não é só nestas praias que a ressaca da realidade desautoriza o palavreado hipócrita. Joseph Eugene Stiglitz, badalado economista dos EUA (foi chefe da equipe econômica de Clinton), escreveu esta semana sobre o catalisador tunisiano”:
“Apesar das virtudes da democracia - e a Tunísia mostrou que ela é muito melhor que a alternativa - não devemos esquecer das falhas daqueles que reivindicam seu manto, e que há muito mais na democracia do que eleições periódicas, mesmo quando conduzidas limpamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, a democracia foi acompanhada por uma desigualdade crescente, a tal ponto que os que estão entre os 1% mais ricos abocanham cerca de 25% da renda nacional”.
Bem, perguntar-me-ão os parceiros, e o Egito, como é que fica? Já que se descobriu agora que estava mergulhado numa ditadura há 30 anos, o que virá com a renúncia de Mubarak, finalmente apontado no dicionário midiático como ditador?
O que quer afinal a multidão egípcia que ganhou a praça, inspirada talvez por Castro Alves? Que lição o mundo tirará desse levante dos cidadãos desarmados que em 18 dias derrubaram no grito um governante armado e cheirado pelos EUA há exatos 10 mil 950 dias?
Qual será o próximo “presidente” a sucumbir à jihad que devasta os tentáculos da corrupção, da cumplicidade e da hipocrisia?
É certo que essa unanimidade festiva sobre a queda de hoje é da boca pra fora. Todo mundo está na maior saia justa, porque, como os 10 milhões de tunisianos se livraram do “presidente” Bem Alli, o véu de mistério cobre as mil e uma noites dos 80 milhões de egípcios e pode transmitir outras novidades mágicas ao mundo, além dessa barricada que desmascarou a hipocrisia semântica e pôs alguns pingos nos is.
É esse amanhã que vai sinalizar uma nova referência para o mundo.

14 comentários:

  1. Jamil Andrade4:49 AM

    Como perdi o sono, resolvi pesquisar sobre a crise no Egito. Deparei-me com esse comentário e realmente fiquei surpreso. Não havia atentado para a mudança de tratamento do sr. Mubarack na mídia.

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  2. Ótima a matéria. Um abraço.

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  3. carlos nardy8:29 AM

    muito lucida a sua analise .
    Otriste é que nos proximos 6 meses até a eleiçào o Egito continuará a ser tutelado por militares.
    E ainda pelo que consta O Ex- ditador sequer deixou o pais.
    Democracia pero no mucho!!!!

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  4. Victor Medeiros10:40 AM

    É mesmo: aqui no Brasil tivemos ditadura, mas näo golpistas nem ditadores. Pelo contrário: por esse país afora temos montöes de avenidas "Presidente Castelo Branco", "Presidente Costa e Silva" e outros. Temos até uma praca com o nome do torturador Felinto Müller na Lagoa...

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  5. Anônimo10:52 AM

    Ainda falta muito tempo para as sociedades humanas deixarem de ser uma FARSA.

    Primeiro: conheça a si próprio e deixe de ser escravo das suas emoções internas, dos programas pré-instalados no seu cérebro.

    Segundo: deixe de ser um ignorante em política.

    Por curiosidade: O Brasil é uma ditadura-democrática; colônia da Ditadura Mídia-Financeira do G8, com comando Anglo-Americano e sede em Londres.

    E VIVA o BBB !!!

    FELIZ 4011 !!!

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  6. Franklin Ferreira Netto11:49 AM

    O mundo, e, especialmente o povo brasileiro, precisa fazer uma diferença entre Democracia e Plutocracia. Eleições por si só, como está acontecendo, nada representam de 'Governo do povo, pelo povo e para o povo'. Se no resumo elas são realizadas por candidatos de compromissos iguais, espelha-se no que Brizola dizia: "O diabo contra o coisa ruim"
    Dá nisto que estamos vendo. Todos os presidentes "eleitos" depois da Ditadura Militar cumprem um único programa: os 10 princípios básicos do Consenso de Washington. Ex-guerrilheiros, ex-exilados políticos, ex-esquerdistas só têm chances de sair candidatos com chances de vitória depois de visitarem a capital do Império e serem ungidos pelos papas do neoliberalismo. Depois vem a estrutura de campanha com financiamento particular, dos mesmos grupos que vão assumir os serviços públicos de má qualidade, mas que rendem muitos lucros, para cobrirem multiplicadamente os investimentos em campanha.
    O povo votou, mas não tem acesso à saúde, escolas e renda necessária a uma sobrevivência decente.
    A contradição se espelha entre a renda do eleitor e dos eleitos. Quem vota recebe as migalhas do subsalário que mal cobre a quarta parte do necessário para viver. Quem é eleito determina seus próprios rendimentos e vantagens nas sessões espúrias do legislativo que divide seus privilégios com as demais instâncias de poder. Dá no que seu comentário expõe: 10% mais ricos ficam com mais de 75% da renda. Sobram os 25% para a massa de 90% da população disputar entre si. É como 10 pães para 10 pessoas, onde 1 pessoa fica com 7,5. E 9 pessoas vão dividir 2,5 entre si. Assaltos, violência são resultada dessa disputa.
    Isto é governo do povo, pelo povo e para o povo?

    Franklin Ferreira Netto

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  7. Anônimo12:14 PM

    Escreveu Walter Graziano em seu livro Nadie Vio Matrix sobre o receituário político de Leo Strauss, da escola de Chicago: "A base de qualquer Estado e qualquer governo é a existência de um inimigo. A luta contra um inimigo comum serve para aglutinar mais as massas, um perigoso inimigo externo muitas vezes aparece de maneira espontânea ou imprevisível, mas segundo Strauss, e os políticos que têm caído sob sua influência, se este inimigo não existe, é necessário criá-lo. Se não há um à mão, este deve ser fabricado, porque sem um inimigo poderoso se correm riscos de que se dêem as condições para que apareçam importantes níveis de dissenso interno que ponham em risco a condução do Estado e o domínio de um país pelos “eleitos” através do direito natural, ou seja, os mais fortes. Obviamente é necessário entender que em um regime capitalista global, os mais fortes não são outros senão os mais ricos." E você foi parar na Al-Fatah... Lamento pelo que passou, obrigado por nos compartilhar sua vivência.

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  8. Perfeito! Tomei a liberdade de reproduzir no Blog
    http://estouprocurandooquefazer.com com o devido crédito.

    Com minha eterna admiração e respeito, abraços
    Jane

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  9. Muito boa a matéria. parabéns! vou colocar seu blog entre os meus favoritos, mas se entendi bem o Senhor parece querer mitigar os trágico s efeitos da política adotada por Chávez, que deseja se tornar presidente pro tempore, isso eu não entendi!

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  10. Salvador de Farias10:20 PM

    Porfírio,

    Não se engane: o Hugo Chávez é ditador sim! E dos bons!
    Ele tenta habilmente disfarçar essa situação mas não consegue ocultar aquilo que particulariza o ditador: é o governante que legisla.

    Abraços,

    Salvador de Farias

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Porfírio, espero que as forças armadas, os militares no Egito tome a frente na defesa do país e do seu povo, não permitindo que os muçulmanos se aproximem do comando... do contrário, ficará em risco a soberania do Egito.

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  13. Fantástico esse post. O título é um resumo do corpo total do texto nem precisava mais nada. E eu confesso levei um susto, por não ter dedicado pesquisas profundas(dos bastidores) sobre o problema no Egito(digo porque não sou especialista neste assunto). Nem tinha percebido essa mudança "súbita" da opinião da grande mídia controladora(a mandinga cabalista dos rabinos da City e de Manhattan saiu da encruzilhada, perdeu um pouco da força; eles devem estar putos da vida!)rá rá rá...Mas aqui no Brasil essa mandinga por hora se encontra inabalável. Agora não é rá rá rá não, eu vou é chorar mesmo, e de raiva.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.