quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A tragédia se repete, como as desculpas esfarrapadas de governantes levianos

“Tenho visto tanta coisa
Nesse mundo de meu Deus
Coisas que prum cearense
Não existe explicação
Qualquer pinguinho de chuva
Fazer uma inundação”
Da música NO CEARÁ NÃO TEM DISSO NÃO,  gravada por Luiz Gonzaga, em 1950.
“Os administradores públicos, de forma consciente ou não, sempre governaram o Brasil como uma sociedade fundamentada na exclusão, na diferença e na indiferença. Nunca valorizaram o trabalho, base de tudo, e enxergaram nos homens e mulheres dos bairros dos subúrbios e das favelas brasileiras apenas uma fonte de mão-de-obra barata, a ser explorada diariamente, bem como um manancial de votos para a confirmação da ordem política”.
Jorge Rubem Folena, advogado, membro do IAB, em artigo postado no blog da TRIBUNA DA IMPRENSA, em 1 de janeiro de 2011.

É profundamente lamentável que estejamos condenados ao convívio com governantes sem caráter, que não se envergonham de tripudiar sobre o sofrimento alheio.
A catástrofe da região serrana do Rio de Janeiro está acontecendo neste momento, no quinto ano do governo Sérgio Cabral. E mais uma vez no mês de janeiro, historicamente mais vulnerável aos caprichos da natureza. Ainda permanece vivo em nossa memória o desastre do  janeiro passado, que fez 257 vítimas fatais em Angra dos Reis, na Ilha Grande e no Morro do Bumba, em Niterói.
Acontece mais uma vez, aliás, diga-se com ênfase, quando o governador está sempre perambulando do outro lar do Atlântico, servindo-se do seu precioso passaporte diplomático e dos seus familiares para o desfrute de um gáudio recorrente (para usar um clichê adequado a vera nesse caso). Um gáudio que parece rigorosamente prioritário e do qual o governador não abre mão, como se preso a um dogma lascivo.
Como a presidente Dilma Rousseff veio sobrevoar o os cenários da tragédia, o governador interrompeu sua viagem de passeio (paga por quem?) e voltou, repetindo sua velha e surrada desculpa, ao responsabilizar governos passados pela ocupação de áreas de riscos. Só não culpou o presidente Prudente de Moraes (em cujo período os retornados da Guerra de Canudos começaram a subir o Morro da Favela) porque nem sabe disso: isso não se ensina na noite de Paris.
A verdade do mau uso das verbas e da omissão criminosa
Antes de mais nada, veja o cinismo das autoridades, em todos os níveis: no ano passado, o governo federal disponibilizou em seu Orçamento para prevenção de enchentes exatos R$ 425 milhões para todo o país. Isso corresponde a menos do que os mais de R$ 490 milhões gastos somente no Complexo do Alemão – dos quais quase R$ 285 milhões só na implantação de um TELEFÉRICO que ninguém pediu.
Mais grave ainda: dos R$ 425 milhões disponibilizados, o governo federal SÓ LIBEROU R$ 280 milhões -R$ 167 milhões para as prefeituras.
De todo esse dinheiro NENHUM TOSTÃO foi destinado às cidades serranas do Estado do Rio, cenários da maior tragédia do país, onde, obviamente, alguma coisa poderia ter sido feita em caráter preventivo.
Anote aí outra informação: para as obras de marketing concentradas em três favelas do Rio – Rocinha, Manguinhos e Complexo do Alemão – o PAC destinou mais de R$ 1 bilhão, isto é, mais do que as receitas orçamentárias de cidades como Niterói e Natal.
Em 2009, O Estado do Rio recebeu apenas R$ 1 milhão e 600 mil reais, ou 1% das verbas do Ministério da Integração Nacional destinadas ao Programa de Prevenção e Preparação para Desastres. Em 2010, conforme o "Contas Abertas", essa verba foi de R$ 1 milhão redondo.
Segundo o mesmo site, o governo gastou em 2010 com reconstrução ou emergências pós-tragédias 14 vezes mais do que com obras de prevenção.
Também não é para menos. Tanto na prevenção, como na recuperação, os governantes aproveitam para gastarem os tubos. Na emergência, recorrem à dispensa de licitação e pagam preços superfaturados.
Um plano preventivo de remoção de 100 barracos em área de risco em um morro custaria hoje R$ 4 milhões, segundo cálculos da Defesa Civil do Rio. Isto quer dizer R$ 40 mil por família.
O prefeito Eduardo Paes informou que há 18 mil famílias morando em áreas de alto risco na cidade do Rio de Janeiro. Considerando os custos previstos por família, com R$ 720 milhões teríamos procedido a realocação dessas famílias. Isso representa R$ 300 milhões a menos do que os gastos concentrados em 3 favelas.
Por culpa de um bando de incompetentes
É muito fácil culpar as vítimas pela desgraça – “quem manda serem pobres e terem renda miserável?” dirão os canalhas. Mas só um boçal empedernido acha que alguém vai morar numa encosta ou na beira do rio por bel prazer.
Quando assumi a secretaria de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro, em 1989, o prefeito Saturnino Braga havia declarado a falência da Prefeitura e deixado 5 mil famílias que perderam suas casas nas enchentes de 1988 em barracos de madeira e lona, em escolas e CIEPs inacabados.
Sem contar com um tostão do governo federal, reassentamos todo mundo em moradias simples, tipo embriões, mas seguras e com boa rede de drenagem, gastando menos de R$ 5 mil por habitação. Isso em menos de 2 anos, embora tenhamos reassentado também no conjunto Nelson Mandela, 470 famílias que viviam há muitos anos, encima da tubulação de uma adutora da CEDAE, em Manguinhos.
Para não dizer que não agimos tão solitariamente, apenas a LBA, que tinha como superindente aqui  Solange Amaral, nos deu uma mão, cedendo um terreno na Boiúna, em Jacarepaguá e pagando cem casas pré-fabricadas, construídas a custo baixíssimo pela Fundação Vale do Rio Doce na Cidade de Deus.
Se Sérgio Cabral e a sua turma de incompetentes tivessem o mínimo de apreço pela verdade, diriam que casas afetadas agora na região serrana são de ocupações antigas, anteriores a 1980, e que as chuvas de 4 horas não pouparam nem muitas mansões de milionários, em bairros como Itaipava, em Petrópolis, e Kaleme, em Teresópolis. Até um ex-prefeito de Nova Friburgo morreu com o filho em sua casa. O centro dessa cidade também foi pesadamente castigado. E não consta que estivesse em área de risco.
O grande problema deste país é que as pessoas galgam cargos sem ter o menor preparo para tal. São indicações políticas em que só conta a força dos seus padrinhos e dos seus esquemas. Chegam ao poder de olho nas vantagens inerentes e são incapazes de uma mirada estratégica sobre as áreas de suas responsabilidades.
Esse problema é maximizado por uma mídia apressada, exposta ao óbvio, que não costuma consultar o Diário Oficial, não pesquisa fundo, não busca conhecimento amplo dos casos e se perde em perguntas cosméticas.
E por uma porção de “técnicos” entrevistados aleatoriamente, muitos dos quais querem aproveitar para se apresentarem às autoridades e posarem de sabichões.
Para agravar, o povo também perdeu o seu critério crítico e virou papagaio, repetindo o que a televisão esparge de forma espetaculosa, gratuita, superficial, na confusão dos acontecimentos.
Se fosse o contrário, não seria tão difícil sacar que na nascente dessas calamidades está um conjunto de fatores quase seculares, que vão desde a inexistência de um plano de macro-drenagem até o tratamento do lixo, que se acumula nas áreas mais vulneráveis, passando pela ausência de uma ação em relação ao uso do solo. Mas nada tão insolúvel, que o emprego criterioso e competente das verbas públicas não possa enfrentar.

13 comentários:

  1. Parabéns, Pedro Porfírio,

    Continue mostrando às pessoas coisas que elas precisam saber. Guardei suas informações. Gostaria de observar que o desastre que você descreve bem como muitos outros vão prosseguir crescendo, enquanto a economia estiver concentrada nas mãos dos grandes bancos e empresas, principalmente transnacionais. Isso porque o poder econômico concentrado implica que a grande maioria dos "escolhidos" nas eleições não se interessa pelas reais necessidades da sociedade. Sem remover a corrupção sistêmica, lutar contra a de varejo é quase como enxugar gelo.
    Adriano Benayon

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  2. Sua crítica é perfeita. Também concordo com a opinião do Adriano, mas acho que isso sempre irá acontecer no Brasil. Enquanto não mudarmos o sistema brasileiro e a forma de gestão pública dessse país nada vai mudar! O modelo econômico e o modelo de poder estão completamente defasados e corrompidos! Algo novo precisa acontecer: http://vqv.me/0OQ

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  3. Anônimo5:40 PM

    Pedro, não acho fácil comentar seus textos nesse seu blog. Mas, é isso aí... concordo com tudo que escreveu sobre a última e repetitiva tragédia de verão no estado do Rio de Janeiro. Rpetitivo, também, e super enfadonho é o cinismo dos governantes nas suas explicações para fugir ao centro do problema: falta de perícia e seriedade política na administração pública dos estados e cidades (e país também). Na entrevista coletiva de ontem ficou claro que os governantes estavam ali por obrigação. A Dilma só se solidarizou com as famílias em luto e vítimas de políticas das quais a Dilma tem sido cúmplice (o seu passado de "esquerda" não passa de retórica populista)depois que (isso ficou tão claro!) mandaram um recadinho para ela dizendo que ela se manifestasse sobre a emoção da dor e não somente da de ser governo dona de recursos capazes de bla´,blá,blá.

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  4. É preciso que tenhamos a lucidez necessária para concordar com a afirmaçãlo do professor Adriano Benayon:o "desastre que você descreve bem como muitos outros vão prosseguir crescendo, enquanto a economia estiver concentrada nas mãos dos grandes bancos e empresas, principalmente transnacionais".

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  5. Anônimo12:33 PM

    Decreto Lei: Ficam terminantemente proibidas as chuvas fortes.

    Ou:

    Enquanto a humanidade for escrava das suas emoções (sinapses cerebrais), principalmente, a "GANÂNCIA", nada será resolvido.

    Ou:

    Se os governantes fossem honestos (eleitos por pessoas também honestas), os problemas seriam muito menores.

    Ou:

    FELIZ 4011 !!!

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.