domingo, 16 de janeiro de 2011

Os abutres estão chegando

Gastos calculados no chute mostram o caráter
 leviano dos nossos governantes

O centro de Friburgo  certamente não era "área de risco"
“Não é apenas mais uma tragédia, essa de proporções inimagináveis, já considerada até por respeitáveis órgãos internacionais, como “a maior da nossa História”. É a catástrofe da imprudência oficial, do descaso, da desatenção, do descuido e da cumplicidade”.
Hélio Fernandes
Teresópolis ainda nem havia enterrado seus mortos e o prefeito Jorge Mario Sedlacek (PT) já calculava em R$ 590 milhões o dinheiro federal necessário para “reconstruir” a cidade.
De onde essa soma? Em três dias, quando muitas áreas atingidas ainda não haviam sido alcançadas, nenhum gênio seria capaz de fazer estimativas. Mas o prefeito Jorge Mário Sedlacek já tinha os números na ponta da língua.
Por quê? Quem acompanhou a reunião da presidente Dilma Rousseff com as autoridades locais, inclusive o governador, noticiou que ela se sentiu incomodada pela insistência com que esse prefeito e o colega Paulo Mustrangi, de Petrópolis, seus correligionários, falavam em dinheiro rápido para gastar na emergência.
A hora da onça beber água
Os dois estimam que somente nos seus municípios e em Friburgo, serão necessários de cara R$ 2 bilhões, ou quatro vezes mais do que havia no Orçamento Federal em 2010 para obras preventivas em todo o país.
Para facilitar a apropriação de recursos, autorizando seu uso sem controle ou restrição, o governador oficial, Sérgio Cabral, decretou estado de calamidade em sete municípios afetados pela chuva.
Daqui para frente, como é do script, os governantes procurarão inventariar “o que pode ser feito para resolver a situação das pessoas atingidas”, como declarou Luiz Fernando Pezão, governador de fato, espelhando o mais explícito improviso, marca da incompetência ampla, geral e irrestrita que campeia em nosso país.
Haverá uma guerra de políticos lobistas para colocarem na fita as empreiteiras que contribuíram para suas campanhas – por dentro e por fora. A rede de interesses escusos já deve estar dando as cartas, como é de lei.
Não foi por falta de aviso
Há farta documentação sobre o descaso das autoridades, em todos os níveis, apesar das informações repassadas sobre os riscos existentes em toda a região serrana do Estado do Rio.
Um estudo encomendado pelo próprio governo fluminense já alertava, desde novembro de 2008, sobre o risco de uma tragédia na região serrana - como a que ocorreu na última segunda-feira e que já deixou mais de 600 mortos. A situação mais grave, segundo o relatório, era exatamente em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo.
Essas cidades tiveram, historicamente, o maior número de deslizamentos de terra. O estudo apontou a necessidade do mapeamento de áreas de risco e sugeriu medidas como a recuperação da vegetação, principalmente em Nova Friburgo, que tem maior extensão de florestas.
É claro que o levantamento foi superado pela verdade nua e crua da tragédia. Com certeza, não constavam das áreas de risco o centro de Nova Friburgo, o Instituto Politécnico da UERJ (onde no passado funcionou a admirável escola da FGV) os bairros de veraneio de Teresópolis, cada dia mais inchados pela especulação imobiliária, e o haras do Jóquei Clube em Petrópolis, fortemente atingidos.
Não será exagero dizer que os esses estudos tornaram-se questionáveis a partir de tamanhos estragos. Agora já se fala com mais ênfase no tipo de solo vulnerável dos municípios atingidos, oferecendo um quadro em que, à falta de um projeto de escoamento efetivo, ninguém por ali pode se sentir a salvo da violência de lamas em alta velocidade. Isto é, na prática, as próprias estradas asfaltadas e sem drenagem servem de leitos para as águas dos temporais. E olha que são rodovias “pedagiadas”, onde você morre numa grana preta para passar por elas.
Corpo de delito da classe política
A catástrofe que ainda vai ter muitas consequências dramáticas poderia pelo menos servir de lição para os governantes.
Mas já não há homens públicos vocacionados. Um parceiro lembrou que, á frente do Ministério de integração, o titular, Geddel Vieira Lima, candidato ao governo da Bahia, canalizou para lá 60% dos recursos federais, e ficou por isso mesmo.
Quem vê essa guerra suja por qualquer fatia do poder não pode esperar nada de novo no front. Na década de 60, duas inundações no antigo Estado da Guanabara levaram à criação do Instituto de Geotécnica e da própria Defesa Civil.
Hoje, duvido que se pense em qualquer estratégia de prevenção. Apesar da sua magnitude acusadora, esse não foi o primeiro grande desastre natural em nosso Estado e em nosso país.
A sucessão de explosões da natureza já faz parte de uma rotina macabra que desafia a imperícia dos governantes de baixa estatura política.
O que aconteceu agora é o mais saliente corpo de delito de uma classe política indigna, que recorre a todo tipo de truque e a expedientes sórdidos para acessar os cofres gordos de um poder público desfigurado, privatizado, costurado ao gosto de um valhacouto do que há de mais desprezível na sociedade brasileira.
Essa malta que deita e rola, que só está lá para se dar bem, infelizmente, é a expressão escabrosa de nossa festejada democracia representativa.
Para ganho fácil não há áreas de risco
A insistência dos prefeitos de Teresópolis e Petrópolis em pôr a mão no dinheiro, em qualquer dinheiro, para as despesas de emergência que calculam no chute, levianamente, não causa mais espanto.
Enquanto a população procura na solidariedade incansável amenizar o sofrimento das vítimas e até mesmo purgar o seu descuido na escolha dos governantes, os abutres querem saber é por onde tirarão seus ganhos das facilidades oferecidas pela situação de calamidade configurada, de fato, no desespero generalizado, e de direito, no decreto do governador.
Daqui a pouco, a catástrofe sairá da mídia e se transformará numa pálida lembrança de um povo acostumado a tais infortúnios na mansidão cultivada conforme os hábitos e costumes destes dias mal inspirados.
Os abutres sabem que para suas incursões insaciáveis não há áreas de risco. Afinal, vivem num país onde reinam os picaretas, encastelados nas fortalezas do Estado e nos seus anexos terceirizados, fruindo de um ambiente de tal promiscuidade que amaldiçoa como inconveniente quem não reza por sua cartilha.
Que as vítimas da tragédia não se culpem amanhã por terem servido de carniça para a rapinagem dos abutres.
E que um dia renasça dos escombros a consciência crítica que tanta falta faz a todos nós.


28 comentários:

  1. Vanda Maria Silveira1:35 AM

    É lamentável que a gente seja obrigada a conviver com este tipo de políticos. Tenho minha consciência limpa. Não votei nesse governador.

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  2. Paulo Antônio dos Santos1:57 AM

    O que considero mais grave é que nas verbas para prevenção não havia nenhum tostão para as cidades da Região Serrana do Estado do Rio.

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  3. É para isto que servem os financiadores de campanha, principalmene empreieiras!
    Uma classe política séria já teria acabado com o financiamento privado, e instiuído o financiamento público exclusivo. Mas estamos longe de ter uma classe política séria!
    Franklin Ferreira Netto -
    Visconde do Rio Branco-MG-

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  4. É para isto que servem os financiadores de campanha, principalmente empreiteiras!
    Uma classe política séria já teria acabado com o financiamento privado, e instituído o financiamento público exclusivo. Mas estamos longe de ter uma classe política séria!
    Franklin Ferreira Netto -
    Visconde do Rio Branco-MG-

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  5. Gilson Raslan8:16 AM

    Porfírio, eu sempre me perguntava: "como são feitos esses cálculos?"
    Como não encontrava a resposta, me julgava um perfeito ignorante.
    Com este artigo, você me demonstrou que eu não sou ignorante, os políticos é que picaretas.

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  6. Anônimo9:53 AM

    Enquanto a maioria dos eleitores (e dos eleitos) for de "Ignorantes Políticos-Ganansiosos" nada mudará!!!

    Em quem votar para Prefeito e Vereador em 2012 ???

    Em quem votar para Presidente, Governador, Senador, Deputado Federal e Estadual, em 2014 ???

    SOCORRO !!!

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  7. O jornalista está quase certo. Mas esquece - ressalvadas as poucas exceções - de que é a cabroeira que os elege em 1º turno; de que o povo gosta de ser possuído; de que a maioria sente orgulho por um vagabundo desses convidá-los para chafurdar nas migalhas que eles jogam no chão; pra beber da marafa junto com eles. Então o povo só tem o que merece.

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  8. jose netto11:11 AM

    Perfeita sua colocação. A rapidez do prefeito em $Calcular$ o $Prejuízo$ é a forma mais estúpida de desviar a atenção das pessoas para as responsabilidades dele, do governador e outros agentes quanto à proteção da vida perante estas previsíveis manifestações de força da natureza. Ainda assim, com toda a desfaçatez revelada, nossa sociedade está tão viciada em pensar no valor das coisas pelo $Dinheiro$ que as pessoas se esquecem que um pequeno papel pintado não vale o que se discute, e esta é a razão principal destas tragédias. Tem $Seguro$? Tá resolvido.

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  9. Flaudecy11:55 AM

    O que espanta mesmo não são os ABUTRES, mas a naturalidade com que o povo, as lideranças de todas as áreas, aceitam os canalhas políticos e governantes, como decorrência natural do regime democrático. Há até quem os invejem. REPUGNANTE!!!!!!

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  10. www.luispimenta.com.br12:10 PM

    BLOG DO PIMENTA - www.luispimenta.com.br


    Caro Sr. Pedro Porfírio,
    Quando estava no término de uma matéria em meu Blog intitulada a 'REGIÃO SERRANA - A TRAGÉDIA DENTRO DA TRAGÉDIA", recebi as notícias do seu Blog e vi a similitude da preocupação.

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  11. Aos políticos, a todos eles 50 chicotadas no lombo e condenados a trabalharem de manhã até à noite nos trabalhos pesados de recuperação das áreas atingidas pela catástrofe, com direito a um prato de comida!
    Quando terminarem os trabalhos de emergência, vão continuar nos trabalhos de prevenção pelo resto da vida para aprenderem a ser honestos!
    Pelo menos servirá de lição para futuros candidatos a espertalhões!

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  12. Ricardo12:15 PM

    blz, amigo pedro porfírio
    mas, os abutres já estão ai e faz tempo
    abs
    ricardo

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  13. Espero que todos os parceiros que me escrevem diretamente adquiram o hábito de comentar no blog, para que todo mundo tenha conhecimento de suas opiniões e não apenas eu.

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  14. Fabio Carino1:16 PM

    Grande amigo Porfírio, você realmente abordou todos os aspectos de forma corretíssima. O despreparo das autoridades, a ganancia, o oportunismo a indiferença .. tudo isso na carona do terror .. infelizmente, no Brasil, é assim que fuciona .. como mudar isso? Por onde começar?

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  15. Francisco Pucci3:28 PM

    Caro Porfirio:
    Li atentamente os comentários (o artigo está impecável). A face trágica da Internet é que proporciona uma infeliz catarse: escrevemos, opinamos, reclamamos e ao postar nos sentimos aliviados como se tivéssemos participado e/ou feito alguma coisa concreta. Me incluo nessa culpa. Pura virtualidade.
    Me parece que a questão é mais radical (de raíz): nosso sistema político, falsamente democrático, que faz "recrutamento e seleção" de candidatáveis segundo os critérios viciados do próprio sistema, é a causa maior disso tudo. Não a única, é claro, pois o sistema é complexo e humano. Mas tente alguém realmente honesto, com "postura política" e bem intencionado candidatar-se a algo. Não passará nunca pelos crivos da seleção. Precisamos expandir a consciência disso para que tenhamos massa crítica suficientemente forte para implodir esse sistema e constituir uma "constituinte" realmente descomprometida para efetuar uma reforma política que valha a pena. Não precisa mais do que contruir mecanismos que previnam e combatam a desonestidade. Amém.
    Francisco Pucci.

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  16. Viva o Comunocracismo, o modelo mais democrático do mundo!

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  17. SOCORRO LUSTOSA11:23 PM

    Li numa coluna que a Dilma ficou por conta com o Sérgio Cabral e chegou a dizer uns desaforos a ele. Já estava mesmo na hora de alguém enquadrar esse meninão.

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  18. Existe o corrupto e o corruptor, ambos rezam para que apareçam oportunidades, pois, é engano dizer que a ocasião faz o ladrão, o ladrão aguarda a ocasião.
    As enchentes e catástrofes no sul, especialmente em Santa Catarina serviram de exemplo e alerta à nova forma de enriquecimento fácil formalizando uma nova regra de "lavagem" de dinheiro com as águas que caem do céu, benditas sejam.
    A salvação dos milagreiros: os corruptos banham-se, mas os corruptores é que abrem e fecham os cofres. A quem mais interessa as catástrofes?

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  19. Salvador de Farias6:49 PM

    Porfírio,

    Lembrei de uma história que me contaram de um coronel da Aeronáutica que quando precisava de, por exemplo, R$ 15 mil reais, chamava o intendente e o mandava comprar R$ 150 mil reais de qualquer coisa.
    É que a quantia que o coronel precisava ele conseguia com a propina de 10%.
    Ou seja, a compra era estimada com base nas suas próprias e ilícitas necessidades.

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  22. Porfírio, por tudo o que tem acontecido nas regiões serranas assim como em outras regiões do Brasil, nós povo brasileiro esperamos que o Ministério Público atue com firmeza, apure os fatos verdadeiros do porque tanta tragédia, e liberte o povo sofredor que a estes nada mais resta do que as poucas lágrimas restantes e clamar pelo nosso BOM DEUS.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.