sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Até que rasguem a mortalha da traição e da capitulação

“Se não chegou à Presidência da República, Brizola reeditou, ao menos, o martírio trabalhista, pelas perseguições que sofreu e pelos temores que despertou em parcelas das elites política e econômica.”

J. Trajano Sento-sé (Brizolismo: estetização da política e carisma, Rio de Janeiro, Editora FGV, 1999, p.347)

Passei com Brizola seu último reveillon, na entrada de 2004. Além de mim,
 ele  recebeu  apenas o filho João Otávio, os netos e os amigos Lígia Doutel
 de Andrade, Danilo  e Yone Groff . Naquela noite, não escondia seu
 desapontamento com o governo Lula.
Porque amanhã, 22 de janeiro, alguns brasileiros lembrarão Leonel Brizola, que nesta data completaria 89 anos, vejo-me impelido a derramar mais uma lágrima no luto de todo um sonho denegrido por fora e por dentro, registrando com profundo pesar o mais terrível sepultamento de uma legenda histórica, envolta na mais medonha das mortalhas, aquela que exibe as cores berrantes da traição à memória dos mortos.
Francamente, como diria o caudilho, ninguém poderia imaginar um ocaso tão deprimente, uma capitulação tão grosseira. A simples lembrança de sua saga aponta para a dramática inutilidade de uma jornada percorrida. Em tempo sumário, tudo o que de marcante ele deixou como lição e exemplo está sendo enterrado nas profundezas de um esquecimento inexorável, como se sua palavra inquieta estivesse fora do prazo de validade.
E enterrado, paradoxalmente, pelos que se apoderaram dos seus restos mortais, na pérfida exploração de uma herança desfigurada pelo mais torpe complô que o oportunismo pode forjar.
Por obra e graça dos que fizeram do seu partido um humilhado penduricalho dos podres poderes, o brizolismo é hoje uma escamoteada mensagem de transformação social, seja na adulteração dos seus compromissos pétreos ou no adesismo de natureza exclusivamente fisiológica a qualquer governo, em qualquer nível, em troca de algumas patacas que certas prebendas ensejam.
A destruição do que havia de essencialmente positivo no discurso que tanto incomodou às elites se dá com uma torrente semelhante ao impiedoso temporal que tantas vidas ceifou nas fraldas de nossas montanhas mais belas.
Bandeira esfarrapda
Há uma determinação traiçoeira de amputar as exigências básicas da velha bandeira, esfarrapando-a no vendaval de um leilão depravado de sua memória.
O que poderemos dizer aos pósteros sobre os 82 anos de vida daquele que mais despojadamente desafiou os poderosos interesses internacionais e impediu com a mobilização do povo a antecipação do golpe militar de 1964, ao assegurar a posse de João Goulart, em 1961?
O que ficou de seus quixotescos embates com os donos do Brasil e com os donos do mundo? Foi para ver o Ministério do Trabalho transformado numa grotesca caricatura, excluído ostensivamente de sua função mater – a gestão das relações trabalhistas - até mesmo da condição de primeira porta das reivindicações sindicais, que Brizola lutou até o último minuto de sua vida?
Foi para ver seus “continuadores” de pires na mão, agachados, indiferentes a qualquer desvio de conduta, a qualquer má idéia, interessados exclusivamente nas boquinhas marotas, que ele legou seu partido e sua coerência?
Não precisa ser brizolista para deplorar a emasculação de sua herança, alternativa histórica a esse modelo econômico colonial. Não faz bem ao país que joguem suas palavras contestatórias no esgoto de uma sociedade sem próceres.
Hoje, mais do que nunca, a defesa do país soberano, da libertação pela educação pública de tempo integral, de qualidade, da busca da justiça social, do tratamento humano, prioritário e dignificante das populações excluídas, esses anseios que se incorporaram à figura de Brizola dão a tônica dos melhores propósitos.
A corrosão pelo servilismo
Pode ser que o prostíbulo em que vicejam figuras abjetas e arrivistas mantenha ainda por algum tempo a fraude de uma continuidade “revisada” de episódios inesquecíveis que deram realce a momentos emblemáticos da história pátria. Pode ser, afinal, a carne é fraca.
Tudo é possível quando se está do lado do poder, quando se entra no jogo sujo da impostura e da mistificação. Há pepitas disponíveis para calar os pobres de espírito, há uma máquina azeitada, rica no ofertório de migalhas sedutoras, ao feitio de militantes de araque, mal intencionados, para os quais os interesses do povo se resumem nas suas próprias ambições pessoais.
É possível que até mesmo os herdeiros necessários, à falta valores éticos e morais, sem habilitação para um mercado de trabalho cada vez mais fechado, estejam servindo sem cerimônia àqueles que diariamente tratam de denegrir e criminalizar a obra e a memória do grande estadista.
Tudo é possível num ambiente de consagração da mediocridade, do cinismo e do “salve-se quem puder”. Tudo é possível quando o país perdeu o respeito pela vida inteligente, quando as cabeças rolam na navalha do suborno e da capitulação inercial.
O velho caudilho está lá no túmulo dos vencidos, na campa dos traídos. Já não se lembram dos seus ensinamentos, embora a fina flor da hipocrisia lhe ofereça a missa e o sermão surrados de todos os anos como prêmio de consolação.
Mas sua alma ainda há de rasgar a mortalha das cores berrantes da traição e da capitulação. Se não forem as gerações de hoje, outras ouvirão sua voz e romperão com a farsa que mantém a pirâmide social intacta e o país dependente, lembrando que um dia o gaúcho corajoso quis abrir caminho para um Brasil brasileiro, justo e transformador.

8 comentários:

  1. Mariana Rodrigues da Silva4:00 PM

    Entrei no seu blog por acaso. Sou gaúcha de Santa Maria e fiquei emocionada com o final do seu artigo. Lembrei-me do primo do meu pai, que foi amigo do Brizola no antigo PTB. Acho que todo brizolista deveria ler o que o senhor escreveu. Vou repassar para meus amigos.

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  2. Prezado amigo Pedro Porfírio, a traição contra Brizola também começou aqui em Fortaleza bem antes do seu falecimento. Os traidores preparavam suas alianças nas caladas da noite, estavam no partido apenas para se aproveitar, até falavam o nome do brizola, as bandeiras do brizolismo, mas preparavam a traição e nunca imaginaram que fosse tão fácil tomar um partido e colocá-lo a serviço da direita e do governo; os verdadeiros bizolistas foram obrigados a sair do partido que não era mais de orientação brizolista e assim continuaram até hoje a usar o nome desse grande estadista e seu partido que não é mais trabalista nem tem bandeiras que nortearam o PDT, hoje faz vergonha essa corja que tomou o partido e colocou a serviço dos interesses pessoais.

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  3. José Orlando Teixeira5:48 PM

    Pelo visto, a melhor maneira de ser fiel à memporia de Leonel Brizola é ficar bem distante desse pessoal que fala por ele, mas faz tudo o contrário do que ele faria.

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  4. Grande Porfirio. É triste vermos o que foi feito do maior legado político do Brasil no último século: o trabalhismo de Vargas e Brizola. Nos últimos anos, desde a cooPTação lulista, o PDT perdeu o rumo, perdeu o discurso, perdeu suas bandeiras e, o pior, perdeu a vergonha na cara. Enfim, caPiTulou ao tilintar das trinta moedas (provavelmente por bem mais). O partido se tornou um balcão de negócios, disputado por cinicos mascates. É a 'peemedebização' do PDT, coisa que já vinha de longe espreitando, mas que saiu das sombras no ambiente fisiológico do governo Lula. Chegaram ao disparate de dizer que "a ideologia está enterrada em São Borja". Eu porém digo: o PDT está sepultado em São Borja. O que há aí é um plágio, uma paródia, uma mímica do partido fundado por Brizola. SAUDAÇÕES AOS QUE LUTAM E RESISTEM!

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  5. CARO PORFÍRIO:

    Sou de Bauru SP e estou no Rio passando uns dias. Sou daqueles a me considerar brizolista de quatro costados. Igual a ele jamais teremos outro. Reverencio a cada dia seu passado e coragem. São tantas as passagens. Aqui em minha terra, ele veio uma só vez para filiar um lacaio, um prefeito da época, chamado Izzo Filho, que depois foi deposto e preso. Tantos usaram o nome de Brizola e o trairam. Ele sobrevive. Mantenho um blog aqui, o www.mafuadohpa.blogspot.com e amanhã aos 89 anos de Brizola escrevo dele e reproduzo algo do teu blog, com a citação da fonte. O PDT de hoje reza missa por Brizola, mas deixou de lutar como ele o fazia, o discurso é outros, mesmo algumas pessoas continuarems as mesmas. Gosto muito de Brizola Neto, o deputado não reeleito, que mantém um blog de resistência e luta, o Tijolaço. Alérm da escrita de amanhã, semana que vem no blog publico as fotos do Brizola na minha BAuru e mais alguma escrita sobre ele. Parabéns pelo blog de luta.

    Henrique Perazzi de Aquino - Bauru SP
    www.mafuadohpa.blogspot.com

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  6. Anônimo12:22 PM

    Realmente o "PODER" inebria e corrompe !!!

    O Leonel Brizola foi um grande brasileiro, mas escolheu mal o seu sucessor no PDT (Lupi)...

    Espero que ainda existam "brizolistas verdadeiros" no PDT e que "um dia" eles retomem o comando do partido.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.