sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Esse ano novo eu já vi antes (como a miopia e a egolatria ainda ditam a moda, repito o escrito do ano velho)

Bem que eu queria refazer o dito, mas não vejo diferenças nesses hábitos de pensar e viver sem razão

"A civilização moderna tem reduzido o número dos tolos, mas aumentado proporcionalmente o dos velhacos."
Marquês de Maricá
Político e pensador brasileiro ( 1773-1848)


Olhando bem, esse ano novo eu já vi antes. Tem o corpo e a alma de amargos anos pretéritos. Até projeta algumas novíssimas novidades. Mas pelo desígnio da roda da história tais são quais, são vulgares e sem as essências que prenunciem mudanças, que ensejem novos dias, novas semanas, novos meses.
Que pena!

Temos a sensação de uma impertinente marcha lenta, quase parando. Trocam-se as fantasias e até mudam as posições das pedras no tabuleiro. Mas sem sinais de ventos uivantes, nem de uma brisa quimérica. O ar morno domina o ambiente de mortalhas andantes, introduzindo os fantasmas mórbidos, sem dó, nem piedade.

Como no sempre dessas fatalidades ignóbeis, o diapasão da farsa soa no sustenido sem recato que paira incólume sobre mentes inclementes, exibindo sem cerimônia a mesquinha caça aos podres poderes.

Os personagens se revezam nos movimentos ensaiados que cultivam a burla e a impostura. Todos, absolutamente todos os canastrões vestem a roupa de gala, correm para a fila das prebendas e exibem a exuberância de uma mediocridade de berço. Mediocridade que, por força de um óbvio torpemente triunfal, enraíza-se às profundezas da alma banalizada.

Há flores no meu jardim, ao pé da serra agredida, conspurcada, mas são rosas passageiras, sazonais.

Há uma réstia de esperança, isso há. Mas esperança de que? Em todos os entes o Estado vigente é um abominável mundo velho de costumes libidinosos e viciados. Olhe no alto, no tronco e nos ramos, nada verás de novo e belo nos altiplanos em rebuliço.

(Convenci-me que em um ano fiquei vinte anos mais velho - quase senil)

Ensaiam apenas variáveis de figurinos, cada vez mais influentes. O vozerio some no silêncio da ambição pessoal intumescida. Mais uma vez o grito estará parado no ar, ao sabor das conveniências de um jogo de cartas marcadas.

Querem a carne seca, a cocada preta, qualquer coisa que lhes sacie os olhos maiores do que a barriga. Cada uma puxa a brasa para sua sardinha. E embora seja farto o coração de mãe, a palavra de ordem é meu pirão primeiro.

Já se sabe de novas investidas à sombra da festa encorpada de assentimentos. Números graves denunciam a falência do porém, do todavia. Hordas acríticas cultivam o silêncio dos culpados. Sim, porque a inocência se perdeu nesse mundo de cínicas incongruências.

(Até o benefício da dúvida dissolveu-se na perspectiva do nada)
Antes, o tropel da esperteza vil mimetiza a consciência letárgica. Porca miséria, porca assimilação patética do canto das sereias. O mito venceu e se transformou no manda-chuva. Dentro ou fora das quatro linhas nada se fará sem seu bafejo inebriante. Dos seus suspiros e humores dependerão as alquimias.

Não há o que esperar para além dos velhos anos. É do espírito da mega farsa. A capacidade de encenação prevalecerá sobre a vida real. O populacho foi domado e nada tem a declarar.

Sirvam-lhes brioches e teremos as belas adormecidas pela languidez do seus cérebros moldados por úteros infantis. A lobotomia da eletrônica amputou em massa os signos da percepção, os fios da indignação doutrora.

Também pudera: o último dos moicanos sucumbiu faz tempo, isolado nos Andes encrespados. A história, infelizmente, não se repete, mormente quando os cordéis estão nas mãos sujas da malta insaciável. Da alcatéia dissimulada em peles de cordeiros.

(A pobreza de espírito tornou-se a mãe de todas as pobrezas)

Esse ano novo é pirata, é clone doutros monstrengos sem vergonha de ser. Haverá vinténs para os dóceis pedintes empencados sob sombra e água fresca. Mas faltarão níqueis para compensar décadas de labuta. Vem aí mais uma vez o garrote vil. Nessa tormenta, falam a mesma língua gregos e troianos, de olho na bagatela da banca.

Bem que eu queria estar na liça para enfrentar os Golias empedernidos. Mas me puserem para corner, em golpes baixos, impiedosos. E me deixaram falando sozinho sob o sol abrasador.

Mesmo à distância, porém, meus mil olhos não fecham jamais. E se me fazem ver a mil milhas distantes, se me impelem ao esperneio infrutífero dos insones sem peias, satisfazem-me no mínimo o ego indômito.

(Mesmo assim, ainda respiro sem auxílio  de aparelhos)

Como de hábito – hasta la vitória siempre – recarregarei minhas baterias energizadas por palavras amigas e me manterei com a guarda em alto. Porque também não quero ser essa metamorfose ambulante que se agacha covarde aos encantos das cortes e dos cofres.

Não quero e não serei vergável, nem que me venham cobertos de ouro, como não me calaram na câmara de tortura. Não e não, nem que tenha que amargar, sem choro nem vela, a solidão dos que não podem mais oferecer aos ex-fraternos o estuário dos cobres da casa, comida e roupa lavada.

Afinal, se é orgástico o apetite dos palácios, mais consistente e perene é o impulso dos átomos revigorantes que ainda restam em uma meia dúzia de três ou quatro inconformistas.

(Esta coluna é a mesma do final de 2010)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um feliz natal, porque ainda temos Eliana Calmon, símbolo de coragem e determinação

Com seu desassombro, a corregedora do CNJ está levantando a auto-estima dos brasileiros indignados

"A ministra não merece ser censurada, e tanto menos execrada pelos seus iguais, pois seu único pecado foi ser implacável contra a corrupção".
Roberto Wanderley Nogueira, juiz federal em Pernambuco
Veja a solidariedade dos juízes clicando aqui  

Haja o que houver, e não se pode esperar que haja algo de modificante, conforme a lógica dos nossos podres poderes, a ministra Eliana Calmon Alves já fez um grande bem a todos nós, ao levantar-se corajosamente contra o ambiente de perigosíssima cumplicidade que blinda e lacra a penca de malfeitos camuflados  em um  Poder Judiciário de um pernicioso corporativismo – incômodo para os magistrados honestos, que são maioria – mas sob medida para aqueles que ela identificou como bandidos de toga.

A opinião pública está chocada com a reação das associações classistas e com a postura de ministros do Supremo Tribunal Federal, que estão recorrendo a toda  jurisprudência disponível para castrar o Conselho Nacional de Justiça, já em si um órgão limitado em sua capacidade punitiva.

É bem provável que os “sábios do templo” consigam mimetizar o CNJ, transformando-o em mais uma caricata ficção dentro dessa decadente fantasia alcunhada de democracia, porque o complexo empresarial-judiciário, que sacramenta as grandes tacadas em nossos dias é muito mais poderoso do que uma ministra quixotesca e o punhado de juízes decentes espalhados pelo país, num isolamento imobilizante.

Como sabem os advogados sérios, que também não são muitos, esse Poder Judiciário está longe de ser tido e havido como Justiça. Antes, mercê das maiores prerrogativas constitucionais de intocabilidade, personaliza aquilo que se percebe nos corredores forenses:
o juiz pensa que é Deus; o desembargador tem certeza que é.
Eliana Calmon Alves, do alto dos seus 67 anos e uma carreira exemplar com decisões antológicas, está pondo o dedo numa grande ferida – isto quer dizer, está mexendo com destemor sem precedentes numa venenosa caixa de marimbondos.

A  reação insana das entidades classistas legitima suas intenções. Digo intenções porque a máquina judicante é dotada de inexpugnáveis defensivos corporativistas e assimila a contaminação de uma politicagem feroz, substância ativa da lógica desses podres poderes.

A  estrutura do Judiciário é um convite ao dolo. Apenas o juiz de primeira instância ganha a toga em concursos públicos, alguns, aliás, de fazerem inveja ao ENEM, mas sempre beneficiados pelos panos quentes, inclusive no próprio CNJ, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, quando o examinador Ricardo Creton detectou irregularidades, mas que acabou sendo legitimado no plenário daquele Conselho contra o voto do relator.

Desembargadores, as autoridades maiores nos Estados, e ministros do STJ são escolhidos por critérios diversos. Um deles, que poderia ser festejado como conquista democrática, garante um quinto das vagas a votações no âmbito da OAB. E aí ganha o poder superior quem nunca julgou antes, não sendo raros os casos em que advogados indicados por suas entidades levaram pau mais de uma em concursos regulares para a primeira instância.

Os ministros do Supremo, então, são todos escolhidos pelo chefe do Poder Executivo e submetidos à apreciação do Senado, que costuma sacramentá-los. Qualquer um pode chegar ao mais alto poder judicante do país, ganhar um cargo vitalício até os 70 anos de idade, bastando para isso de uma boa articulação política. Já o servidor público comum precisa fazer concurso, como prescreve o Artigo 37 da Constituição Federal.

O resultado é que temos uma Justiça imperial, em cujas prateleiras empoeiram-se mais de 80 milhões de processos. E que somos obrigados a engolir decisões estapafúrdias pelo poder indiscutível de que cada magistrado se reveste, no uso abusivo dessa falácia chamada hermenêutica.


Dessa vez, a ministra Eliana Calmon Alves está sendo apedrejada por seus colegas sob a alegação de que teria violado sigilos bancários, quando, pela Lei 8730/93, todos os servidores, sem exceção, a começar pelos de maiores poderes decisórios, devem apresentar suas declarações de renda onde prestam serviços.
Em São Paulo, 45% dos magistrados deixaram de cumprir esse dever. Em Mato Grosso, o boicote foi total.

E as ações contra ela vão ser julgadas pelos próprios interessados na causa, embora se espere que o olhar da parte atenta sociedade possa ter algum peso no frigir dos ovos.


O ideal é que submetessem os titulares da Justiça à mesma exposição dos políticos: qualquer candidato a qualquer cargo eletivo tem sua declaração de renda divulgada ao alcance de qualquer mortal no site do TSE.  Que é sempre vorazmente decupada por uma mídia movida pelas mais variadas motivações.
Embora eternos em seus cargos e intocáveis em suas prerrogativas, os magistrados estavam mal acostumados com as delícias do espírito de corpo até a hora em que os corregedores no CNJ Gilson Dipp e, depois, Eliana Calmon Alves resolveram investigar transações atípicas envolvendo membros do Judiciário. As inspeções são realizadas há quatro anos e apenas agora, quando chegaram a São Paulo, a Associação dos Magistrados Brasileiros reclamou. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Amapá já passaram pelo processo.

"As investigações patrimoniais começaram na época do ministro Dipp e o problema só surgiu quando chegou a São Paulo. Esse estardalhaço que estão fazendo de uma decisão eminentemente técnica e que os senhores poderão acessar e verificar, 
isso é para tirar o foco do que está realmente em jogo, que é a sobrevivência com autonomia do CNJ. Isso é que o foco do corporativismo" – lamentou a ministra
Pelo seu desassombro, Eliana Calmon Alves não está disposta a se render, antes pelo contrário. E tudo o que está ocorrendo na cúpula do Judiciário tem servido para fazer dela uma grande heroína de nossos dias, tão escassos de pessoas de caráter. Essa mulher-coragem, felizmente, já tem a seu lado uma grande torcida, gente que se sente recompensada por sua saga indomável e que vê nela motivação para despertar o inconsciente coletivo adormecido.

É como se a ministra fosse de fato o nosso grande presente de natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A ceia de natal e o pão que o diabo amassou

“Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”
Charles Chaplin


Bem que eu queria desejar feliz natal de coração para coração. Queria valer-me das imagens singelas do nascimento de Jesus Cristo, tal como aprendi no catecismo, para cobrir a todos de carinho, afeto e de um luminoso feixe de esperanças.


Queria que a data, referência de uma civilização nascida na cruz e multiplicada nas catacumbas, fosse o momento sublime do mais afetuoso dos abraços.

Queria, sim, juro por tudo quanto é sagrado, que todos os 7 bilhões de seres humanos tivessem um belo motivo para um grande abraço através do planeta, inspirando-se nos sentimentos mais generosos de que desfrutamos e cultivamos no círculo restrito dos entes mais próximos.


Queria, mas, infelizmente, esse desejo é mais uma fantasia de inspiração lunática, típica de quem perdeu a noção da realidade e tenta desconhecer o trágico dos impulsos ensimesmados de cada indivíduo.


Imaginar a “festa máxima da cristandade” para além do corre-corre no comércio à cata de um presente para alguém que já está à espera dessa lembrança é passar atestado de desmiolado incurável.


O natal desses tempos modernos reduziu-se à troca de presentes porque a alma humana reduziu-se também ao império dos interesses, aos impulsos de caráter material, ao culto de satisfações egoístas, seja para hoje, na fruição de cada conquista pessoal, seja para o amanhã, quando a fé em Deus nos supõe eternos, com direito a um paraíso espiritual para todo o sempre.


A alma humana, aliás, é mais uma figura de retórica. Estes seres com que cruzamos na guerra silente de uma sobrevivência apequenada já se perderam no caos de suas próprias querências e compõem hoje apenas uma totalização disforme de partículas amargas e beligerantes.


Portanto, o mais que se disser de mais um 25 de dezembro é subproduto reles da demagógica hipocrisia.


Mesmo assim, imaginando ser esta ainda a oportunidade de uma ceia em família, aproveito o ensejo para exortar a uma reflexão qualquer, qualquer coisa que permita lembrar o calvário de tantos outros filhos de Deus que nesta data santa ainda comem o pão que o diabo amassou

domingo, 11 de dezembro de 2011

Uma fumaça no fim do túnel

A tragédia da Covanca é um aviso para quem quer trocar a Perimetral por passagens subterrâneas


"O prolongamento do elevado da Perimetral dará ensejo a que se descortinem as fachadas leste e norte do imponente Mosteiro de São Bento com seu famoso botareu". – Lúcio Costa, o mais importante urbanista brasileiro, citado pelo engenheiro Emílio Ibrahim, que participou da obra do Elevado da Perimetral.


Todo o Brasil viu em tempo real imagens de uma tragédia que poderá se repetir outras vezes, como afirmam especialistas: um ônibus pegou fogo no túnel mais moderno da cidade do Rio de Janeiro, que foi totalmente tomado pela fumaça tóxica nos dois sentidos, levando pânico a milhares de pessoas que estavam em seu interior e paralisando boa parte da cidade: só por um milagre não morreu ninguém.

Foi um Deus nos acuda e só quem viveu o drama pessoalmente pode descrever o pânico que se estabeleceu: a fumaça densa se espalhava no meio da escuridão – isso às 4 da tarde no horário de verão:

No desespero, o designer Fabio Wojcikiewicz Almeida, uma das vítimas da nuvem de fumaça represada no túnel ainda tentou ultrapassar o veículo em chamas:

- Só que não dava para ver nada e quase atingi o ônibus que estava pegando fogo. Acabei batendo num carro mais à frente, e o meu veículo ficou preso. Não consegui abrir a porta do motorista, tive que sair pela do carona. Peguei a blusa, botei no rosto e comecei a andar grudado na parede.

Intoxicado e traumatizado, só foi socorrido à saída do túnel de 2.187 metros. E como outros, pode dizer que nasceu novamente.

Esta manchete é do jornal GLOBO... pra você ver

Sempre digo que Deus escreve certo por linhas tornas.

Neste exato momento, o jovem prefeito Eduardo Paes está intransigente em sua idéia fixa de usar uma grana preta do FGTS – liberado generosamente pelo governo federal – para derrubar o elevado da Perimetral, substituindo-o por uma rede de quatro túneis, o maior dos quais, o da Via Expressa, com 2.500 metros de extensão, e a 24 metros de profundidade
.Em nome de revitalizar a região do porto, o prefeito foi induzido a uma idéia de jerico: cortar ao meio a única via alternativa, confortável e segura, que liga a Zona Sul, às Norte, Oeste, Baixada e Ponte Niterói, passando ao largo do Centro, sem um único sinal e, portanto, sem cruzamento.

E essa demolição insana pela bagatela que já passa do bilhão e meio de reais, já que ele mudou de idéia para pior: antes, o estrago iria da Praça Mauá oo Viaduto do Gasômetro (3,5 km); agora, cismou de promover um bota - abaixo completo, começando pelo acsso do Aeroporto Santos Dumont, que não tem nada a ver com a miragem do Porto Maravilha, privando-nos agora de 5,5 km de uma obra erguida ao logo de 25 anos e por onde passam quase 100 mil veículos sem o risco de uma tragédia como a acontecida na quinta-feira passada e ainda com o deleite da contemplação vista do alto da Baía da Guanabara e de parte do Rio antigo.

O que aconteceu no Túnel da Covanca foi um recado. No mundo inteiro só se discute a abertura de túneis à falta de outras soluções. É sempre uma obra CARÍSSIMA, de custo-benefício discutível. Na maioria dos casos – isso não se diz – um túnel custa três vezes mais do que um elevado. E aí a nossa vaca é que vai pro brejo.

No caso dos projetos do Porto Maravilha, a maioria dos trechos a serem cavados é, como já disse, em áreas de aterro tomadas ao mar. E ainda que esse novo projeto viário tivesse aspecto positivo, ele podia conviver com o Elevado:  como lembrou o professor Álvaro Queiroz Bastos, “a Perimetral é o cordão umbilical que une o Estado do Rio ao município. Milhares de cariocas venderam seus imóveis, por causa da violência e foram morar do ouro lado da ponte, em Itapu, Itapuaçu e etc . Eles todos os dia utilizam a ponte Rio Niterói para virem trabalhar no Rio e Zona sul. Com o fim da perimetral o trânsito da zona oeste e Niterói vai afunilar e acabar com o centro Os engarrafamentos serão terríveis”.

Não sei se o susto do Túnel da Linha Amarela terá algum peso nas decisões dos governantes e na compreensão da população, que precisa se mobilizar o quanto antes, porque a gente nunca sabe o que leva um governo a aventurar-se numa obra de destruição,  temerária e antipática: as finanças do Rio, mesmo com as injeções do governo federal, não estão com essa bola toda e não podem se dar ao luxo de destinar uma fortuna para derrubar uma via expressa de grande utilidade só porque ela é vista como feia por quem não tem a menor noção do que seja administrar uma cidade com as características topográficas do Rio de Janeiro.

Que essa fumaceira que saiu do túnel sirva como aquele antigo sistema de aviso que foi tão usado no passado. Muitas vezes, aliás, ferramentas da antiga funcionam com muito mais precisão e consistência.

Que essas linhas tortas de Deus ajudem a evitar a caríssima demolição desnecessária do Elevado da Perimetral.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A verdade que precisa ser revelada e que pode influir no existencial das gerações hoje alienadas pelo sistema

No dia em que cruzei com um torturador, vi-me de volta
 aos porões da ditadura, 34 anos antes


Dilma numa auditoria militar após sessões de tortura.
  Os auditores milirares escondem o rosto.
Até onde ela pode
 conduzir a Comissão da Verdade?



"No Brasil, pelo menos por enquanto, a ditadura venceu no propósito de fazer da tortura um tema de natureza pessoal do torturado. Uma questão individual e não um tema político de interesse de toda a sociedade”.
Vladimir Saflate, professor e escritor

Lembro-me como se fosse hoje: estava distraído à cata de uma maleta numa loja da Rua da Carioca quando uma estranha figura de pouco mais de um metro e sessenta se aproximou. Estava todo de branco, camisa de mangas compridas e uma espessa barba com que pretendia mascarar o rosto pinicado de protuberâncias avermelhadas.

Os óculos eram os mesmos de fundo de garrafa, que lhe valeram o apelido de “Doutor Silvana”, entre nós, jovens vítimas de seu sadismo incontrolável. Pôs-se na minha frente, tentando repetir o terror d’outrora e me chamou pelo nome completo:

- Sim. Sou eu mesmo.

- Você sabe com quem está falando? – ensaiou um discreto relaxamento labial.

- Sei, sim, o Solimar.

De certa forma, ele desconcertou-se. Aquele março de 2003 distava 34 anos daqueles dias de horror, em que ele se destacava como o mais tenebroso dos torturadores do Cenimar, o serviço secreto da Marinha a que se incorporara, egresso do velho DOPS carioca, delegacia dedicada com zelo e afinco ao massacre diário de todo e qualquer suspeito de adversário da ditadura.

- Se você sabe que eu sou o Solimar, por que fala comigo?

- Porque não tenho alternativa.

Eu mesmo não saberia responder com a devida tranquilidade às perguntas daquele que durante muitos anos povoou meus pesadelos, predecessores da minha insônia de hoje.

O “doutor Cláudio”, como se alcunhava entre os criminosos de uma repressão insana e impulsionada por um ódio nada profissional, já não era mais nada. Estava com aquela barba toda, a cabeleireira branca e um esparadrapo preso a uma das faces na faina de passar despercebido.

O carrasco arrogante de 1969 era em 2003 um homem medroso, que assimilara todas as paranóias de suas centenas de vítimas. Talvez, nem fosse de andar muito pela rua à luz do dia. Mas naquele instante defrontava-se com alguém que pusera várias vezes inteiramente despido no meio de outros comparsas, submetera a choques elétricos, à palmatória, ao “telefone” e ao “pau-de-arara”, que humilhara por 15 dias seguidos, tentando suprimir-lhe qualquer resíduo de dignidade e auto-estima.


- Como o mundo é pequeno – comentei, contendo-me até pela compreensão política de que aquele verme era apenas um “soldado” da estrutura mortífera que uma meia dúzia de generais, almirantes e brigadeiros comandava por controle remeto, decidindo sobre as vidas de cada um, sob a proteção da censura e da cumplicidade da quase totalidade da mídia e de um empresariado pródigo em fornecer recursos para os porões da ditadura.
- Mas você tinha culpa no cartório – tentou justificar-se.

Não queria prolongar aquele diálogo macabro, não tinha obrigação de falar com o monstro, mas não sabia como esquivar-me. Para falar a verdade, as imagens da tortura em que muitas vezes desejei a própria morte para safar-me de tanta dor afetavam e imobilizavam meu cérebro nervoso.

Fiquei mais tenso ainda quando ele me perguntou:

- Se você agora é vereador, não tem segurança, não anda acompanhado?

Emudeci. Por que aquela pergunta? Estaria o torturador imaginando eliminar um arquivo capaz de expô-lo aos próprios descendentes como um dos “assassino da Ilha das Flores”?

Ele insistiu.

- Você escapou de morrer por um triz. Já tinha recebido ordens para mandá-lo para o inferno, já que você não colaborava e acabamos sem ter como reunir provas sobre seu envolvimento com o MR-8 e o Al Fatah. Ainda por cima, você acabou absolvido na Auditoria da Marinha, uma afronta ao nosso trabalho.

Continuei calado, inerte, sem conseguir dar um passo. Sem animar-me a balbuciar, pelo menos.

- Mas não se preocupe. O que passou, passou. Agora, estamos todos juntos. Eu até votei na esquerda – riu – em você, não, mas dei meu voto a um ex-subversivo que faz sucesso entre a garotada de hoje, que é muito mais light do que daquela época.

Lembrei-me da primeira porrada, naquele 2 de julho de 1969 (trecho do meu livro Confissões de um Incoformista”:


— Quem te mandou sentar?
— O torturador Solimar, codinome Dr. Cláudio, acertou-me um tapa no meio da cara. A porrada me fez ver estrelinhas. Mijei-me na hora. Quem mandara sair apressado da cela, na ilusão de pegar o caminho de casa? Um pouco mais alto do que eu, óculos de garrafa e uns cornos que lembravam o Dr. Silvana, o torturador bufava, transpirando ódio e terror. Agarrou-me pelo pescoço e pôs-me de pé. Outra porrada me jogou ao chão. Sérgio, pernambucano grosseiro que vestia uma camisa branca de SPC – soldado de primeira classe – dos Fuzileiros Navais, comemorou com um sorriso de canto de boca. Estava começando uma sessão de tortura na casa 9 da Ilha das Flores. Quarta-feira, 2 de julho de 1969.
Enquanto o sargento Antunes espremia meu peito contra o chão, Solimar fez-me cheirar o chulé do seu pé:
— Qual é a cor da minha meia, seu filho da puta?
Que pergunta mais insólita, pensei. O que tem a ver a meia com as calças?
— Qual é a cor da meia do pé direito? – especificou. Já que insistia tanto, respondi:
— Azul –um azul piscina, diria.
— E do esquerdo?
— Do esquerdo?
— Do pé esquerdo, seu veado.
— Certamente, azul também.
A resposta o enlouqueceu.
— Não, seu puto, do pé esquerdo é azul marinho, é mais escura.
Percebi que tinha um bom estoque de palavrões, mas não consegui atinar para sua insistência sobre o colorido de meias tão fedorentas. Afinal, não podia admitir que tinha levado aquelas porradas todas só para falar de meias azuis e suas variáveis.

Naquele encontro interminável esqueci até da maleta que ia comprar. Olhei para o relógio e disse que estava atrasado. O torturador não queria me lugar. Parecia ter renascido nele toda arrogância e todo o sadismo que marcaram sua personalidade nos porões do Cenimar.

E eu, que já exercia o terceiro mandato de vereador aqui no Rio de Janeiro, sem saber o que fazer. Olhei para a sua cintura e vi claramente que tinha um revólver. Provavelmente para reagir a alguma outra vítima mais rancorosa.

Consegui desvencilhar-me do Solimar, enquanto contemplava o vai-e-vem da Carioca, pessoas acotovelando-se nas pastelarias dos coreanos, e alguns mais ligados numa música sertaneja que um bar tocava.

Não tinham a menor idéia de que um monstro passeava por ali, mesmo disfarçado, tentado exorcizar seus crimes ou alimentar-se de suas lembranças.

Conto esse episódio hoje na esperança de que os brasileiros sejam finalmente apresentados à verdade. Que essa comissão em formação não seja apenas uma peça caricata, condicionada por meias verdades.

Talvez quando tudo vier à luz do dia, quando os horrores dos nossos cárceres forem revelados, doa a quem doer, talvez seja outra a reação de alguém como eu diante de um algoz perverso e canalha.

Talvez essa sociedade envolta numa perigosa cortina de fumaça abra os olhos e comece a atuar politicamente, ao invés de ficar à margem criminalizando a vida pública,  enquanto se pode fazer alguma coisa em nome desse arremedo de democracia.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Descubram qualquer coisa, mas arranjem um jeito qualquer de pôr Lupi no olho da rua e enterrar o PDT


Esse filme eu já vi antes: não é diferente daquela saraivada que levou Getúlio Vargas ao suicídio

"Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca".
DARCY RIBEIRO
Guardadas as proporções históricas e as naturezas dos cargos, vejo nessa enxurrada de balas disparadas para forçar a presidente Dilma a demitir o ministro Carlos Lupi o retrato sem retoque daquela insidiosa campanha patrocinada pela embaixada norte-americana que levou ao suicídio do presidente Getúlio Vargas.

Perdoe-me a comparação, mas o ritual é o mesmo: hoje já não se fala nem nos contratos com as ONGs, assinados geralmente através de governos locais. Essa não pegou. Aí passaram a vasculhar até se Lupi fazia xxi na cama já grandinho ao dormir. De algum lugar, precisa sair qualquer coisa que leve à sua demissão.

Sua queda é a encomenda mais cara já feita pelas elites, porque ele, que nunca foi de confrontos, que deu mole em muitos conflitos trabalhistas aceitando que outros exercessem as faculdades de um Ministro do Trabalho, resolveu levar adiante a implantação do PONTO ELETRÔNICO, medida que exporia não apenas o desrespeito atávico aos direitos dos trabalhadores, mas revelaria igualmente o turbilhão de sonegações de um patronato que deita e rola, vive se queixando de altos impostos, mas contrata os melhores contadores e os mais caros escritórios de advocacia para sonegar suas contribuições obrigatórias, isso sem falar na velha prática de distribuir propinas através do “Caixa 2”.
Porque a sua demissão não é apenas uma questão de honra de uma mídia entre facciosa e vaidosa, que não se deixa por vencida quando quer reafirmar sua pretensa condição de PODER PARALELO.

Sobre isso, escreveu-me com paixão ideológica um funcionário de carreira de Furnas, que, não obstante sua antiga militância no PDT (ao ponto de não acompanhar o irmão quando este, vereador, se viu na contingência de acompanhar seu grupo indo para outro partido) jamais foi chamado para um cargo de chefia por indicação partidária.

Escreveu-me Rudenilson Andrade, um cara muito íntegro, cujas atitudes desassombradas me faz seu admirador:

“Eu tenho nojo de corrupção Pública e Privada assim com qualquer tipo de Ditadura, mas tenho acompanhado atentamente esse processo e só entram nessa os tolos ou falsos tolos.


O grande embate que se está travando neste momento é uma encarniçada Luta de Classes e como disse o velho Marx a Luta de Classes é multifacetada, então vamos aos fatos bem sintéticos que é a forma que eu mais gosto.


Quando Lupi deseja e não é de agora implantar o Ponto Eletrônico com a emissão de comprovante nas mãos do trabalhador e as empresas terem que enviar o movimento eletrônico através de dados para o Ministério do Trabalho a burguesia começou a se rebelar via as suas Confederações e Federações Industriais e Comerciais, porque por esse processo a Classe Operária via Ministério do Trabalho começaria a ter o controle da sua Mais Valia, seja ela Absoluta ou Relativa.


Descobriu-se, também que as empresas pagam as horas extras, porem não recolhem o pagamento do FGTS e INSS aos Cofres Públicos referente às essas mesmas horas extras. Hoje o cálculo de aposentadoria do trabalhador pelo INSS não é mais feito pela média dos seus últimos 36 meses de contribuição e sim se pega de 1994 até a presente data e separa 80% das maiores contribuições, deste período, para fazer a média e calcular o seu Salário de Benefício. Com toda certeza aquele trabalhador que durante o(s) ano(s) vem fazendo hora extra será roubado no valor do seu salário de aposentadoria do INSS, pois o não recolhimento para o INSS do valor sobre as horas extras dele não ficara registrado no banco de dados do INSS de onde é extraído, volto a dizer de 1994 até a presente data os valores para calcular a sua aposentadoria. Assim sendo, escolham os seus lados cavaleiros porque o meu eu já escolhi há muito tempo, não quero chegar a essa altura da minha vida como um Renegado Kaustsky”.

Lembro-me quando do golpe militar de 1964, financiado pelos trustes internacionais o genial Darcy Ribeiro, que ainda tentava resistir, desabafou: “O presidente João Goulart está caindo por suas qualidades e não pelos seus erros”.

A história está inflacionada de situações semelhantes, geralmente deturpadas. Porque ela é escrita pelos vencedores e pelos monopólios da informação. Mas todo mundo sabe, até um foca reles, que muita gente que se esconde à sombra nunca engoliu a nomeação de Lupi para o Ministério do Trabalho, que implicou na retirada dessa pasta do controle do Partido dos Trabalhadores, com o deslocamento de Luiz Marinho, ex-presidente da CUT para a Previdência Social, porque conselheiros de Lula temiam que o PDT não desse continuidade à punga que até hoje torna infernal a vida de aposentados e pensionistas.

Lupi errou, sim, ao aceitar o Ministério sem condições de imprimir as premissas do brizolismo em suas políticas, sentindo-se fraco para compor sua própria equipe, com o que desprezou contribuições de correligionários preparados e íntegros, inclusive alguns de marcante atuação sindical, levando-os a engrossar uma dissidência que hoje é alimentada por amarguras pessoais.

Mas, em compensação, com sua personalidade flexível, foi o principal responsável pela sobrevivência do seu partido depois da morte de Brizola. E a visibilidade que ganhou com um cargo no primeiro escalão do governo foi dedicada à costura de alianças pragmáticas, sem as quais o partido teria sucumbido de vez, tal a sua composição heterogênea, hoje muito distante das bandeiras brizolistas por conta de erros cometidos inclusive pelo caudilho, diga-se com honestidade e coragem.

A presidente Dilma sabe de toda essa trama de cor e salteado. Sabe que está sendo minada e perdendo a autoridade na hora em que vai cedendo às pressões da direita, representada por políticos galhofeiros, como o herdeiro de ACM e o tucanato insaciavel, e de uma mídia cujo manual de redação principia no informe do seu  passivo financeiro.
A fritura de Lupi passa, principalmente, por esse insólito modelo de gestão do país, no qual a Praça dos Três Poderes poderia ser enxertada de mais um pilar - a mídia que hoje desempenha o mesmo papel das Forças Armadas no passado, desde quando um manifesto de coronéis, em 1953, levou à queda de João Goulart, o melhor ministro do Trabalho da história do Brasil, porque ele conseguiu convencer Getúlio a reajustar em 100%, o salário mínimo, que o general Dutra congelara por 4 anos.
O país, hoje, 3 de dezembro de 2011, espera o desenlace montado e urdido pelos mesmos entreguistas que se dedicaram à mais rendosa corrupção, com as privatizações-doações que o governo do PT também não teve peito de reverter, como aconteceu em muitos casos na Argentina, por conta de um acordo de governabilidade.

Se a trama tiver o epílogo funesto, com a queda de mais um ministro, como já disse antes, Dilma que se cuide: seu governo é o grande alvo dos derrotados nas urnas. Eles só não são mais frontais porque a crise bate à porta e eles esperam que a presidente derrape, como refém das maltas mesquinhas que dão as cartas no Planalto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nem que eu tenha que me amarrar a um pilar do Elevado da Perimetral, que querem demolir por bem ou por mal


Vão gastar uma baba para derrubar via expressa que liga Zona Sul às zonas Norte e Oeste do Rio

“Durante a gestão do prefeito Pereira Passos, no início do século XX, deu-se o primeiro aterro marítimo de grandes dimensões com o objetivo de criar uma área central portuária: a demolição do Morro do Senado para aterrar 170 hectares sobre o mar, diante dos morros do Livramento, Conceição, Providência e Saúde. A nova linha de costa possibilitou a construção do berço da Gamboa, primeiro cais do porto moderno”.
O Rio de Janeiro e a sua orla: história, projetos e identidade carioca
Verena Andreatta, , Maria Pace Chiavari e Helena Rego, da Secretaria Municipal de Urbanismo.

Mapa parcial da Cidade do Rio de Janeiro com áreas aterradas sobre o mar
realizado por Verena Andreatta

Ou você exerce agora sua inalienável cidadania e exige o mínimo de lucidez das autoridades desta mui amada cidade do Rio de Janeiro, ou amanhã milhares de cidadãos de toda a região metropolitana pagarão o preço alto do mais terrível nó no trânsito produzido pelo poder autoritário da miopia e da insensatez.


Porque a esta altura só mesmo a mobilização dos cidadãos, principalmente dos que precisam atravessar a cidade, sem obstáculos de sinais, da Zona Sul à Avenida Brasil, à Linha Vermelha ou pegar a Ponte Rio-Niterói, será capaz de tirar a mais imprudente e perigosa das idéias que já passou pela cabeça de um prefeito, no caso Eduardo da Costa Paes, que acaba de completar 42 anos e não tem a menor idéia do que representou para os cariocas e moradores da Baixada a construção a duras penas da única grande via expressa do Rio de Janeiro, o elevado da Perimetral, que liga o aterro do Flamengo às grandes vias de escoamento da cidade em direção às zonas Norte, Oeste, Baixada e Niterói.

Primeiro, o inquieto prefeito disse que derrubaria o elevado no trecho que vai do Arsenal de Marinha, próximo à Praça Mauá, até o Viaduto do Gasômetro, sob a pífia alegação de que essa via essencial, por onde passam diariamente 95 mil veículos, enfeava seu mirabolante projeto do “Porto Maravilha”, numa temerária inversão de prioridades: como se a única preocupação de sua administração fosse “valorizar” a beira do cais, tudo o mais que vá a pique e quem quiser que embarque na mirabolância adjacente – a implantação de túneis em área de aterro precário e lençóis freáticos, já que, como sabem até os ginasianos, tudo aquilo ali foi tomado ao Mar a partir do final do Século XIX, com a utilização de areia extraída dos morros próximos.

Para ser sincero, o prefeito só está pensando nessa extravagância urbana, de consequências imprevisíveis, porque está com o cofre abarrotado pelo dinheiro do PAC, esse projeto majestoso que só consegue sair do papel quando para injetar grana preta no sistema financeiro, em nome do financiamento habitacional.

No final do seu governo, Lula determinou ao Ministério do Trabalho que abrisse as torneiras do FGTS, fundo que pertence aos trabalhadores e não ao governo, e oferecesse casa, comida e roupa lavada ao projeto do Porto Maravilha, com que Eduardo Paes pretende carimbar sua passagem pela Prefeitura carioca.

Sem pestanejar, o ministro Carlos Lupi abriu uma linha de crédito de quase R$ 8 bilhões do FGTS (e ninguém piou porque, no final da linha os grandes beneficiários serão os empreiteiros e sabe Deus quem mais, e estes estão de bem – ou bens - com essa mídia de boca torta).

Sem todos os estudos preliminares impostos pela legislação, o prefeito foi logo anunciando que só para o bota abaixo do elevado gastaria mais d R$ 1 bilhão, dinheiro que poderia ser usado em construções e não em demolições.

Essa idéia nova de derrubar todo o viaduto da perimetral, agora até o Santos Dumont, – obra de 25 anos - e não apenas o trecho da alegada feiúra, parece muito mais produto de um cérebro com traumas de infância e admirações na adolescência por demolidores de quadrinhos.

Mas é também uma demonstração de força, do controle amplo, geral e irrestrito da Câmara dos Vereadores, e até mesmo da desatenção do ministério público.

Falta alguém com maior experiência, e um pingo de coragem, para soprar ao jovem Eduardo Paes sobre o risco de ter sua própria carreira enterrada nos escombros da via demolida, já que todas as alternativas apresentadas têm conteúdo lotérico e só interessam, rigorosamnte, aos empreiteiros, que terão lucro muito maior na demolição do que em assentar pedra sobre pedra.

A nós, porém, restará a maldição das futuras gerações se calados ficarmos, se não exigirmos discussões amplas e fundadas em informações verdadeiras.


A nós, não. Eu, de minha parte, pretendo fazer qualquer coisa. Nem que seja me amarrar num pilar do elevado que a milhares de pessoas facilita a vida.

sábado, 19 de novembro de 2011

Romário, a boa surpresa, como protagonista de uma AGENDA POSITIVA na política

O que você acha? Responda-me no facebook 
 http://www.facebook.com/porfiriolivre#!/porfirio2012

Romário é a agradável surpresa da política brasileira, por suas posições firmes e coerentes e pela disposição de "aprender e crescer" com honestidade, todos os dias. Tanto na sua atuação parlamentar, como nas entrevistas concedidas, ele tem falado o que gostaríamos, como definiu muito bem Luiza Fraga, ex-comissária da Varig. A questão é saber até onde ele pode chegar. Gostaria de conhecer sua opinião através do Facebook, de acesso fácil, que parece o espaço mais adequado para discussões objetivas e multiplicadoras, permitindo uma comunicação instantânea entre nós. Solicito que você se manifeste AGORA MESMO, na minha página http://www.facebook.com/porfiriolivre#!/porfirio2012




Na minha página,  facebook você pode se posicionar simplesmente clicando em CURTIR a matéria postada. Este é o “primeiro passo”. Clicando em CURTIR, estará integrando-se na página, oferecendo também sua opinião e conhecendo as demais. Será uma oportunidade para que tenhamos um novo e dinâmico canal de comunicação, com um debate rápido a respeito de temas previamente postos. Estou esperando pelo seu clique em CURTIR em http://www.facebook.com/porfiriolivre#!/porfirio2012
 Quanto antes sua manifestação, melhor para me ajudar a elaborar uma tese alternativa que sugira uma AGENDA POSITIVA em contraste com os desalentadores comportamentos dos nossos políicos, RESPONSÁVEÍS, queiramos ou não, pelos destinos de nosso país.
Romário atento a Alexandre Cardoso, presidente do PSB fluminense, que o introduziu na poítica

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ainda sobre o Lupi e toda essa orquestração de odor escatológico

Lamento que, por motivos pessoais, hóspedes do brizolismo engrossem o coral dos seus arquiinimigos

“Tem rabo de jacaré, tem olho de jacaré, tem couro de jacaré e não é jacaré?” – frase que Leonel Brizola costumava repetir.

Todo mundo ficou sabendo do acidente de helicóptero durante um animado fim-de-semana na Bahia, em que o governador Sérgio Cabral fez de um, tudo: foi até Porto Seguro num avião do Eike Batista, em companhia de um dos mais bem aquinhoados empreiteiros do Estado do Rio, o dono da construtora Delta, e foi recebido com nababescas mordomias por outro empresário do ramo de hotéis.

Durante alguns dias, falou-se naquele desvio de conduta, mas não me consta que tenham acionado a Polícia Federal ou pedido CPI e a cassação do seu mandato por conta daqueles momentos de abjeta promiscuidade de um chefe de governo estadual. Ou que o foco paroquial de dissidentes do PDT tenha ido a procuradorias pedir a cabeça do governador em más companhias.

Lupi no taxi aéreo alugado pelo PDT: Vamos e venhamos: não estão procurando chifre em cabeça de burro?
Agora, na falta de algum comprovante de qualquer tipo de dolo que possa ser atribuído ao ministro do Trabalho, o ex-jornaleiro Carlos Roberto Lupi, a máquina de triturar auxiliares da presidente Dilma Rousseff instalou uma bizarra polêmica sobre uma certa viagem de táxi aéreo feito por ele no interior do Maranhão, tudo porque, segundo o mais que se disse como “delito comprometedor”, estaria em tal vôo um dirigente de uma ONG que tivera convênio com o Ministério.

Sinceramente, você não acha que estão passando dos limites no furor conspiratório insaciável? Pense bem: não é pra lá de suspeito a exacerbação desse fato? Não é uma demonstração da mais mesquinha baixeza, que o senso comum rejeita em nome dos mais elementares bafejos da lógica e da inteligência?

Isso me faz lembrar os tempos em que estudava latim no ginásio, aquela fábula “Lupus et agnus” , que a gente traduzia da língua mãe. O lobo queria papar o cordeiro e o acusava de poluir sua água, embora este a bebesse do outro lado do rio, já depois da corrente que antes saciava a sede do lobo. Depois de muito violar a lógica, o animal feroz atacou e abateu sua vítima.

Desculpe, caros parceiros e parceiras, mais esse tipo de jogo sujo me dá náuseas e me faz abrir mão do sono (nessas horas, ele foge no escuro da madrugada) para reverberar contra esse achincalhe do papel da mídia e dessa   oposição calhorda. Mais ainda, enoja-me ver nesse coreto midiático de encomenda alguns correligionários do Lupi, a maioria de pregressas vidas indexadas a vários tipos de malfeitos.

Essa história do táxi aéreo contratado pelo diretório do PDT do Maranhão, sob a égide do falecido Jackson Lago realça o viés inegavelmente GOLPISTA de quem não admite que a ex-guerrilheira Dilma Rousseff está se havendo com sabedoria, talento e equilíbrio à frente do governo no momento em que o mundo capitalista vive o mais apavorante dos seus terremotos cíclicos.


Estou muito à vontade para meter minha mão no fogo, até porque saí do PDT atormentado com erros políticos, a meu juízo, de sua direção, que perdeu o rigor necessário na franquia dos seus espaços e favoreceu quem não tinha nada com a legenda, como o antibrizolista visceral Sérgio Zveiter, que agora, num surto de “semancol” bandeou-se para outra legenda.

Estou mais à vontade ainda porque na hora em que alguns dos atuais desafetos corriam atrás de uma boa prebenda, eu escrevia contra a forma como o PDT juntou-se ao governo Lula.

Estou finalmente muito tranquilo porque faz parte da minha natureza inquebrantável e da minha história de escriba cinquentenário a rejeição explícita e irada de todas as injustiças e de todas as hipocrisias que, infelizmente, infestam do pior fel o convívio humano escatológico que vem tornando nosso cotidiano uma ode a toda forma de indignidades.

O conflito nesses podres poderes sempre foi inspirado nos abutres insaciáveis, na sujeição covarde aos interesses espúrios, com a produção de jogos de cenas diversionistas, cuja marca maior ainda permanece blindada – todo aquele período lúgubre de arbitrariedades, violações, torturas e assassinatos, cujos protagonistas permanecem historicamente impunes e ainda dão nomes a escolas, logradouros e rodovias.

No caso em tela, isto é, nessa busca encomendada de qualquer coisa para incriminar o ministro do Trabalho, a mídia golpista, abarrotada de grana dos grandes grupos econômicos, de um patronato ávido por rasgar o legado de Getúlio Vargas e das lutas sociais pretéritas, é deprimente ver a que lamaçal chegou a espécie humana.

É o caso de “pedetistas” que já estavam no ostracismo decorrido do fim do seu período de vacas gordas, com  espaços nobres em jornais como O GLOBO, que não se cansa de vituperar contra qualquer um que tenha algum tipo de parentesco político com aquele que teve peito – e pagou caro por isso – de enfrentar o todo poderoso Roberto Marinho.

É patético ver posar de vestal o mais industriado rebento da corrupção chaguista e colaboracionista, hoje hospedado pela segunda vez no que resta do sonho do caudilho, a quem desprezou, como ao seu primeiro chefe, preferindo permanecer ministro na estratégica área de interesse da família a quem realmente serve, quando o velho pediu a saída todos do primeiro governo Lula.

Desobediência que acometeu também esse que tenta somar sua amargura pessoal no coro da direita raivosa, quabdi desafiou o seu partido em troca de uma empresinha do leque de subsidiárias da Petrobrás.

Falei direita raivosa porque ela é a matriz indisfarçável desse discurso de cartas marcadas, que, como disse, poupa deliberadamente os amiguinhos do tucanato que deitam e rolam no maior Estado do país, exercitando práticas de fazer inveja ao Maluf.

Ma eu, Pedro Porfírio, que estou na outra margem do rio, só tenho a deplorar tanto o estoque de indignidades que uma mídia ensandecida produz no corpo de uma “agenda negativa” de encomenda, como a falta de grandeza (ou mesmo de bom senso) que reacende em alguns dos meus amigos rancores de mal-entendidos, restrições precipitadas,  que, nesta hora, não servem para nada, a não ser para endossar as indignidades conspiratórias que querem muito mais do que questionar quem estava a bordo de teco-teco da era moderna. Querem, isto sim, tutelar o governo a serviço do poder econômico.
A essa altura do campeonato, já nem sei o que pode acontecer com mais esse ministro da Dilma, contra quem, efetivamente, nada de substancioso se exibiu.

Nesse caso, perdoem-me, se depender de mim, vai gorar toda essa conspirata de meia tigela. O povo brasileiro pode até ser manipulável, mas até a manipulação midiática tem limite.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Deu zebra na Rocinha. Prenderam o Nem: ele está vivo e pode dar com as línguas nos dentes

Algumas pinceladas dessa prisão e seus mistérios. Se não for muito arriscado, o resto depois eu conto


Beltrame é “um dos caras mais inteligentes que já vi. Se tivesse mais caras assim, tudo seria melhor. Ele fala o que tem de ser dito. UPP não adianta se for só ocupação policial. Tem de botar ginásios de esporte, escolas, dar oportunidade”.
Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, em entrevista à reporter Rute Aquino só agora publicada.


Deu zebra. A operação montada para tirar o traficante Nem tropeçou em dois policiais cabeças duras do Batalhão de Choque. Essa cena não estava no script de quem montou a fuga, que falhou da mesma forma que a de outros bandidos, presos na Gávea, apesar da escolta de 5 policiais.

Deu zebra das grandes: Nem está vivo e, se foi interrogado por profissionais competentes, vai ter novidade aos montes. Não só dos policiais e autoridades – mas, por exemplo, sobre uma certa cervejaria que tem praticamente o monopólio das biroscas da Rocinha.

Já ouvi muitos ruídos de "fontes fidedignas" e posso dizer, desde já, que a coisa é muito mais feia do que parece. É coisa de cachorro grande, que vão tentar abafar como fizeram com a “Operação Guilhotina”, que sujou o então chefe de polícia Allan Turnowski, demitido oficialmente do cargo, mas já de novo nas cabeças, sabe Deus porque.

Nesse caso, vale você mesmo procurar entender: a implantação da UPP na Rocinha estava prevista para 2012, na melhor das hipóteses. Por que agora, correndo, com anúncios reluzentes e encenação de fazer inveja a Hollywood?
O vice-governador Pezão, que andou muito por lá, supervisionando as obras do PAC, disse que uma operação dessas precisaria de dois mil efetivos, o equivalente a quatro BPMs. Portanto, apesar do monte de dinheiro público jogado lá, coisa que passa dos 800 milhões de reais, o governo teria de conviver com o todo poderoso chefão da maior favela carioca.

Pezão pode-se dizer um grande especialista em Rocinha. Ele e o deputado André Lazaroni (ex-PV) que fechou a área com o apoio do pessoal da Associação de Moradores de lá, agora “reeleito” com as bençãos de Nem.

Além de tudo, por alguma razão que só Deus sabe, as UPPs ainda têm como foco as comunidades dominadas pelo Comando Vermelho, facção criada na Ilha Grande quando puseram na mesma Galeria A os assaltantes de bancos e os presos políticos. Naquela época, também o tiro saiu pela culatra. Pra entender melhor, alugue na sua locadora o filme QUASE DOIS IRMÃOS, obra magistral da diretora Lúcia Murat, rodado em 2004. E a Rocinha é da facção AMIGO DOS AMIGOS.

Deu zebra porque queriam dar sumiço no Nem vivo ou morto. Esse aí é  um arquivo altamente explosivo.

Ele precipitou a fuga depois que soube do fiasco com os comparsas protegidos por policiais muito bem relacionados. Achou que esperavam um recuo da sua turma naquela noite. Mas deu zebra.

O tenente Disraeli Gomes e o cabo André Souza se empombaram com o “cônsul da meia noite”. Viram que tinha truta naquele Corolla. E não estavam a par do script. Pode ser que os advogados que conduziam Nem desceram pela saída errada. Eles subiram até o alto do Morro, na Rua 1, e pegaram a descida que dá na Marquês de São Vicente, na Gávea, evitando São Conrado. Estavam tão confiantes que não usaram uma única viatura para dar cobertura.

Aí pode ter havido outra falha no script. Desde a investigação fulminante que a Polícia Civil e o Ministério Público fizeram no caso da juíza Patrícia Acioli, levando para a cadeia um comandante de Batalhão, as relações entre as suas corporações, que nunca foram boas, azedaram de vez. O pessoal doChoque pode ter dado o troco, embora, até agora, ninguém tenha sido questionado, até porque o subsecretário de Polícia Civil, Fernando Veloso, está jurando que o deslocamento do delegado Roberto Gomes Nunes, de Maricá, para tomar Nem dos PMs cabeças duras, foi com a melhor das intenções e por ordens suas, expedidas diretamente da Alemanha, onde, por coincidência, estava o seu chefe, José Maria Beltrame.
Segundo Veloso, Nem estava negociando sua rendição. Sui generis: ia se render com um milhão na mala. Onde já se viu rendição com tal numerário, cara pálida?

Tenho muito que falar, mas por enquanto reservo-me do direito ao silêncio. Rute de Aquino, jornalista séria, divulgou agora uma entrevista que fizera com Nem pouco antes de sua prisão. Fez isso, provavelmente, para não glamourizá-lo.

Eu vou deixar falarem mais, para ver onde vão chegar. Mas convido você a ver o filme da campanha vitoriosa  da chapa apoiada pelo tráfico na recente eleição para a Associação de Moradores da Rocinha. Clique aqui e veja as imagens e ouça a música. Depois me diga o que você sacou.

O resto depois eu conto.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se Dilma ceder mais uma vez por que as elites querem ver cabeças rolarem, ela que cuide do seu próprio pescoço

Não votei nela, mas não sou rancoroso e vejo em tudo isso uma mesquinha trama política

Querem fazer de Lupi a bola da vez. E quando chegará a vez de Dilma?

“Por trás das denúncias, há o dedo daqueles que ficaram insatisfeitos com a implantação do ponto eletrônico no país. Constatei que existia uma fraude no descontrole da frequência dos trabalhadores. Muitas empresas pagam a hora extra, mas não recolhem FGTS e INSS. Com o ponto, o ministério passa a enfrentar essa sonegação. Mexi com poderosos inimigos. Agora, esses caras me escolheram para derrubar”.
Ministro Carlos Lupi, em entrevista a O GLOBO

Bem que queria ficar na espera de mais informações, mas não precisa. O cinismo do senador Aécio Neves é capaz de tirar qualquer um do sério. Tipo "cheguei", bem sucedido na política por conta da árvore genealógica e da absoluta escassez de homens e idéias nas Minas Gerais, ele tinha que aparecer na fita.
Metido a esperto e, com a graça desse ambiente que fez de um soldado PM ladrão-milionário o novo herói da República, pobre república, resolveu associar-se à orquestração midiatica que só vai parar de fazer barulho quando a presidente Dilma Rousseff fizer todos os seus gostos ou fizer as malas.
Em Minas, tucanos de braços com o PDT
Imagina. Durante todo o seu governo em Minas, Aecinho teve como aliado o próprio PDT que agora ele quer ver longe do Ministério do Trabalho, assim, de supetão, por conta de mais uma reportagem da revista VEJA, inflada pela síndrome do golpe em doses homeopáticas.
Idêntica postura o governo de Anastasia,  seu sucessor,  não teve em relação a um dos seus dois secretários pedetistas - Manoel Costa, que atravessou governos tucanos em meio a denúncias à frente da Secretaria de Regularização Fundiária, e só perdeu o cargo, agora, no dia 20 de setembro, depois de ser preso pela Polícia Federal na “Operação Grilo”, juntamente com toda a diretoria do Instituto de Terras e outros menos cotados.
No dia 12 do mesmo mês, o governador tucano foi distinguido por Carlos Lupi, ao ser o primeiro estado a instalar o “Sistema Mais Emprego”, gerido pelo deputado pedetista Carlos Pimenta, titular de porteira fechada da Secretaria Estadual do Trabalho, criada este ano para abrigar mais um correligionário do ministro.
Como Minas fica escondida por trás das montanhas alterosas, fora do foco da mídia nacional, o senador conhecido por suas noitadas de porre no Rio de Janeiro (já foi pego na Lei Seca) saiu-se com uma declaração pra lá de “marraquechi”:
- O governo (federal) é refém de um aparelhamento absurdo que ele sempre montou na máquina pública e está imobilizado pela pressão da base. O malfeito para este governo só é malfeito quando vira escândalo. Antes disso, está bem feito - disse o senador, esquecendo-se de acrescentar que na sua terra a coisa é pior: o malfeito só é malfeito quando o cara é preso. Que o diga o pessoal do “Novo Jornal”, diário de grande circulação em Belo Horizonte que vinha denunciando os malfeitos de Manoel Costa há dois anos.
“Fogo amigo” e intolerância das elites
Não sei se Lupi vai ter a mesma sorte do Orlando Silva, acho que não.  No seu caso, o “fogo amigo” é disparado às claras, porque não faltam candidatos para o seu lugar dentro do seu próprio partido (que há muito tempo já não é o meu).
Miro Teixeira, que abandonou o PDT para permanecer no governo Lula e depois ficou mal na fita, perdendo a sinecura, voltando  com todas as honras, já está agindo para miná-lo como se fosse um correligionário indignado.
Mas não é só. A elite nunca suportou a idéia de ver um ex-jornaleiro desengonçado,  sempre disposto a uma boa gargalhada, à frente do Ministério do Trabalho, embora este tenha sido cuidadosamente esvaziado do seu papel político.
Desde o dia em que o presidente Luiz Inácio preferiu tirar de lá o sindicalista Luiz Marinho, homem forte da CUT, transferindo-o para a Previdência, os torpedos afiaram-se em sua direção. Falavam a mesma língua o banqueiro Marcílio Marques Moreira, que queria queimá-lo de chofre em nome do Conselho de Ética Pública, e segmentos contrariados da CUT. Tudo para enfraquecer o ex-jornaleiro já nos primeiros dias de trabalho.
A verdade sobre o Ministério do Trabalho
Ao contrário do que diz essa mídia, até por falta de força política, o Ministério do Trabalho não foi entregue de porteira fechada ao PDT. Lupi pagou um perrengue com os sindicalistas do seu partido, à frente Fernando Bandeira, por manter boa parte da equipe anterior, inclusive Luiz Orlando Medeiros, ex-presidente da Força Sindical, e Paulo Singer, este um dos homens mais respeitáveis do PT, que se dedicava a projetos de autogestão nas empresas fracassadas em mãos dos patrões. EsseAnderson dos Santos mesmo, que foi denunciado agora, está no cargo há oito anos, desde de antes de Lupi assumir.
O FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador – que restou como corpo do Ministério, também não é domínio pessoal do ministro. É gerido por um conselho de confederações sindicais, que vivem puxando brasas para as suas sardinhas.
Por pouco, aliás, se não fosse pela habilidade de Lupi, por sua conta e risco, não passou ao controle dos grandes latifundiários, através da senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura.
Os conflitos com o banqueiro Marcílio Marques Moreira, que perdeu a vaga no Conselho de Ética, e com a senadora do agro-negócio custaram muito caro ao ex-jornaleiro, que sobreviveu até agora porque também não é bobo e fez toda a sua carreira sob a batuta de Leonel Brizola, seu ídolo.
Uma experiência administrativa e uma vida simples
Sim, porque ele não caiu de pára-quedas na administração pública.  Em 1983, enquanto eu coordenava as administrações regionais da Zona Norte, ele exercia a mesma função na Zona Sul do Rio de Janeiro.  Quando Saturnino Braga se elegeu prefeito, unificou as coordenações e fez dele uma espécie de secretário. Eu fui assumir a presidência do Conselho de Contribuintes do município. Ambos saímos dos nossos cargos quando Saturnino deixou o partido de Brizola.
Ambos passamos muitas dificuldades até as eleições seguintes. Ele, lembro bem, foi trabalhar num projeto de reabrir o PASQUIM, com apoio do ex-deputado Getúlio Dias.
Na volta de Marcello Alencar, pelo PDT, foi seu assessor especial, elegeu-se deputado federal e assumiu a Secretaria Municipal de Transportes em meio a uma crise. No governo de Garotinho, por indicação de Brizola, foi seu secretário de governo. Quando este deixou o partido, Lupi imediatamente colocou seu cargo à disposição e foi ajudar o caudilho na administração do PDT, já atingido por debandadas fatais que fizeram da legenda uma miniatura do que foi nos bons tempos do brizolismo.
Lupi tem uma personalidade tão vaidosa que sempre disse a quem me pergunta: para continuar Ministro, com tudo o que isso representa de glamour, o ex-jornaleiro não arriscaria nada que pusesse em risco esse orgasmo. Que, aliás, não afetou sua forma simples de fruir a vida: o seu telefone celular, hoje, tem o mesmo número do seu primeiro aparelho.
Convênios de controle difícil
Em geral, é bom que se diga também, os convênios do Ministério do Trabalho são feitos através dos governos dos Estados e das Prefeituras. Esta era pelo menos a doutrina que conheci quando ainda militava no PDT. 
E que foi consolidada com a adoção de uma nova salvaguarda, adotada por ele em 2007: todos os projetos são submetidos a uma chamada pública, como forma de ter uma avaliação comparativa em relação aos outros. E, ressalte-se, se fizerem as contas, o Ministério do Trabalho tem mais convênios com governos de oposição do que da base aliada. Isso não querem apurar.
Irregularidades em convênios e existência de assessores picaretas são situações que podem e devem ser enfrentadas diretamente. No caso dos convênios, pessoalmente, acho muito difícil o controle sobre esse mundo de ONGs criadas da noite para o dia, inclusive das chamadas “OS” a quem o governo tucano de São Paulo e  do Rio de Janeiro estão transferindo nossos hospitais e centros de saúde.
Por isso, já disse em outro episódio: se quiser fazer uma faxina em regra nessas áreas, a presidente deve imediatamente estancar o fluxo de dinheiro público para empresas e entidades privadas. As sérias, com credibilidade, têm suas próprias fontes de receita, até porque o Fisco abate doações.
Escrevi tudo isso porque me recuso terminantemente a pegar a onda desse golpe em conta-gotas que a elite e os piores abutres engendraram para fazer de Dilma Rousseff uma espécie de “Rainha da Inglaterra”.
Esse pessoal derrotado nas ruas (eu não votei na Dilma, todo mundo sabe, mas não sou rancoroso) também não suporta a idéia de que uma ex-guerrilheira venha se desempenhando tão bem como chefe do Estado brasileiro, isto é, comandante suprema de nossas Forças Armadas.

domingo, 6 de novembro de 2011

No calote à UNESCO a face mais boçal das potências decadentes

EUA, Israel e Canadá recusam pagamentos à organização da ONU, que reconheceu a Palestina
“Em um período de crise econômica e transformações sociais, o trabalho da UNESCO foi essencial para promover a estabilidade econômica e os valores democráticos”.
Irina Bokova, secretária-geral da UNESCO, ao saber da decisão dos EUA de dar um calote na entidade.

As atitudes bestiais dos Estados Unidos, Israel e Canadá em relação à UNESCO mostram que tipo de escória moral governa esses países. Você provavelmente não está sabendo, porque essa mídia rastejante calou o bico, por conveniência, preferindo o exercício da fofoca demolidora e suspeita.

Esses países resolveram dar um calote na Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura como represália à decisão, amplamente majoritária, que acolheu o Estado Palestino como membro. Israel, para variar, foi mais além: intensificou a agressiva implantação de colônias judaicas em território palestino, em ações que desmascaram seus mentirosos anúncios de negociar a paz.

Desde a resolução de 1948 que criou dois Estados na Palestina, só os judeus puderam instalar-se, isso a  custa de guerras e usurpações apoiadas pelas potências ocidentais e pelas colônias judaicas espalhadas por todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos, de onde exercem a hegemonia financeira internacional.

O Estado da Palestina, ao contrário, além de até hoje não ter sido reconhecido, vem tendo suas fronteiras reduzidas pela força e vê seus direitos nacionais sucumbirem ano a ano, num sofrimento sem precedente já imposto a um povo milenar.

Ante a ostensiva disposição de Israel e dos seus aliados de remeterem para as calendas o reconhecimento da Palestina, sua liderança optou por pleitear formalmente o reconhecimento na Assembléia Geral da ONU, este ano.

Enquanto a vontade da grande maioria das nações em seu favor é postergada ali pelo poder de veto dos Estados Unidos, França e Inglaterra, a Autoridade Palestina obteve o assento na UNESCO, graças à expressiva decisão de 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

Isso foi o bastante para que o governo dos Estados Unidos anunciasse a suspensão do pagamento em novembro de U$ 60 milhões, parte de suas obrigações com o órgão, que somam U$ 143 milhões a cada dois anos. A represália foi seguida pelo Canadá e por Israel. Em todos os casos, serão afetados programas da UNESCO em todo o mundo, inclusive no Afeganistão, como lembrou sua diretora-geral, a búlgara Irina Bokova, referindo-se aos programas de alfabetização de policiais daquele país.

“Será impossível mantermos o nosso nível de atividade atual, uma vez que a suspensão anunciada da contribuição norte-americana para 2011 afetará imediatamente a nossa capacidade de manter os programas em domínios críticos.” De acordo com a diretora da UNESCO, são programas consagrados ao alcance da educação primária universal, ao apoio às novas democracias e à luta contra o extremismo.

Não é a primeira vez que os Estados Unidos investem contra a UNESCO. De 1984 a 2003 o país afastou-se formalmente da organização, negando toda e qualquer contribuição, sob a alegação de discordar de sua linha de trabalho, de grande relevância para a educação, a ciência e a cultura, principalmente nos países pobres.

Desta vez, porém, essa decisão, anunciada pelo Sr. Barack Obama, está conectada com o apoio aos extremistas de Israel, que usam de todos os pretextos para aprofundarem o domínio total e absoluto de áreas pertencentes milenarmente às populações árabes.

O boicote à UNESCO acontece às vésperas da votação no Conselho de Segurança da ONU do pedido de reconhecimento do Estado Palestino, agendada para 11 de novembro.

E deu gás para que Israel anunciasse a intensificação das obras para a conclusão de duas mil unidades habitacionais para colonos judeus - 1650 nos territórios palestinos em Jerusalém Oriental e os restantes nos assentamentos de Maalé Adoumim e de Efrat (no sul de Belém, na Cisjordânia). Hoje, já somam 500 mil os judeus introduzidos  pela força em território palestino, através de colônias construídas pelo governo de Israel.

De quebra, o governo israelense decidiu suspender o pagamento de R$ 50 milhões mensais devidos à Autoridade Palestina por conta da Taxa sobre o Valor Agregado recolhida sobre os produtos destinados aos palestinos que transitam pelos portos e aeroportos israelitas. Esta é a segunda vez neste ano que Israel retém as receitas que recolhe em nome da Autoridade Palestina. A primeira vez sucedeu o acordo de reconciliação de do governo do Fatah com o grupo islâmico que controla Gaza, Hamas, no início deste ano.

Em horas de violação dos direitos das nações soberanas com a complacência e o apoio de uma mídia atrelada ao grande capital, era de se esperar que os interesses coloniais mais insaciáveis ganhassem estímulo e avançassem na busca de compensações por suas próprias  crises, cada vez mais agudas.

O projeto sionista é a ponta de lança mais exuberante da usurpação colonialista. Mas não se limita às suas áreas geográficas.

Quando penaliza a UNESCO, isto é, quando pune uma organização da ONU que atende a 193 países, o núcleo central do sistema colonial define suas prioridades, transformando uma injustiça regional no pretexto para atingir todo mundo, especialmente os mais de 100 países que acolheram o pedido dos palestinos, que tiveram uma vitória meramente simbólica e que em nada afetariam a estratégia e os programas da organização internacional.

Por aí, você vê com que tipo de canalhas estamos lidando. 

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.