sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Esse ano novo eu já vi antes

:"Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos."
Victor Hugo, pensador, poeta e político francês (1802-1885)

Olhando bem, esse ano novo eu já vi antes. Tem o corpo e a alma de amargos anos pretéritos. Até projeta algumas novíssimas novidades. Mas pelo desígnio da roda da história tais são quais, são vulgares e sem as essências que prenunciem mudanças, que ensejem novos dias, novas semanas, novos meses.
Que pena!
Temos a sensação de uma impertinente marcha lenta, quase parando. Trocam-se as fantasias e até mudam as posições das pedras no tabuleiro. Mas sem sinais de ventos uivantes, nem de uma brisa quimérica. O ar morno domina o ambiente de mortalhas andantes, introduzindo os fantasmas mórbidos, sem dó, nem piedade.
Como no sempre dessas fatalidades ignóbeis, o diapasão da farsa soa no sustenido sem recato que paira incólume sobre mentes inclementes, exibindo sem cerimônia a mesquinha caça aos podres poderes.
Os personagens se revezam nos movimentos ensaiados que cultivam a burla e a impostura. Todos, absolutamente todos os canastrões vestem a roupa de gala, correm para a fila das prebendas e exibem a exuberância de uma mediocridade de berço. Mediocridade que, por força de um óbvio torpemente triunfal, enraíza-se às profundezas da alma banalizada.
Há flores no meu jardim, ao pé da serra agredida, conspurcada, mas são rosas passageiras, sazonais.
Há uma réstia de esperança, isso há. Mas esperança de que? Em todos os entes o Estado vigente é um abominável mundo velho de costumes libidinosos e viciados. Olhe no alto, no tronco e nos ramos, nada verás de novo e belo nos altiplanos em rebuliço.
Ensaiam apenas variáveis de figurinos, cada vez mais influentes. O vozerio some no silêncio da ambição pessoal intumescida. Mais uma vez o grito estará parado no ar, ao sabor das conveniências de um jogo de cartas marcadas.
Querem a carne seca, a cocada preta, qualquer coisa que lhes sacie os olhos maiores do que a barriga. Cada uma puxa a brasa para sua sardinha. E embora seja farto o coração de mãe, a palavra de ordem é meu pirão primeiro.
Já se sabe de novas investidas à sombra da festa encorpada de assentimentos. Números graves denunciam a falência do porém, do todavia. Hordas acríticas cultivam o silêncio dos culpados. Sim, porque a inocência se perdeu nesse mundo de cínicas incongruências.
Antes, o tropel da esperteza vil mimetiza a consciência letárgica. Porca miséria, porca assimilação patética do canto das sereias. O mito venceu e se transformou no manda-chuva. Dentro ou fora das quatro linhas nada se fará sem seu bafejo inebriante. Dos seus suspiros e humores dependerão as alquimias.
Não há o que esperar para além dos velhos anos. É do espírito da mega farsa. A capacidade de encenação prevalecerá sobre a vida real. O populacho foi domado e nada tem a declarar.
Sirvam-lhes brioches e teremos as belas adormecidas pela languidez do seus cérebros moldados por úteros infantis. A lobotomia da eletrônica amputou em massa os signos da percepção, os fios da indignação doutrora.
Também pudera: o último dos moicanos sucumbiu faz tempo, isolado nos Andes encrespados. A história, infelizmente, não se repete, mormente quando os cordéis estão nas mãos sujas da malta insaciável. Da alcatéia dissimulada em peles de cordeiros.
Esse ano novo é pirata, é clone doutros monstrengos sem vergonha de ser. Haverá vinténs para os dóceis pedintes empencados sob sombra e água fresca. Mas faltarão níqueis para compensar décadas de labuta. Vem aí mais uma vez o garrote vil. Nessa tormenta, falam a mesma língua gregos e troianos, de olho na bagatela da banca.
Bem que eu queria está na liça para enfrentar os Golias empedernidos. Mas me puserem para corner, em golpes baixos, impiedosos. E me deixaram falando sozinho sob o sol abrasador.
Mesmo à distância, porém, meus mil olhos não fecham jamais. E se me fazem ver a mil milhas distantes, se me impelem ao esperneio infrutífero dos insones sem peias, satisfazem-me no mínimo o ego indômito.
Como de hábito – hasta la vitória siempre – recarregarei minhas baterias energizadas por palavras amigas e me manterei com a guarda em alto. Porque também não quero ser essa metamorfose ambulante que se agacha covarde aos encantos das cortes e dos cofres.
Não quero e não serei vergável, nem que me venham cobertos de ouro, como não me calaram na câmara de tortura. Não e não, nem que tenha que amargar, sem choro nem vela, a solidão dos que não podem mais oferecer aos ex-fraternos o estuário dos cobres da casa, comida e roupa lavada.
Afinal, se é orgástico o apetite dos palácios, mais consistente e perene é o impulso dos átomos revigorantes que ainda restam em uma meia dúzia de três ou quatro inconformistas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Porque um documentário sobre a formação de atletas em Cuba

Meninos, eu vi: não há paralelo em matéria de investimentos nos esportes, apesar das limitações econômicas


Alunos-atletas que se destacam nas escolas básicas são
selecionados para as escolas superiores de alto rendimento, desde os 10
 anos de idade,  onde estudam em regime de internato e,
além das aulas curriculares,  treinam 4 horas por dia
Cuba é uma ilha cercada de esportes por todos os lados. Ou Cuba é uma República federativa de esportes. Exageros à parte, as duas definições cabem muito bem nesse país caribenho de 11 milhões de habitantes, que emergiu na década de sessenta como a maior potência olímpica da América Latina – e uma das maiores do mundo - , apesar do impiedoso bloqueio econômico comandado pelos Estados Unidos, que a obriga a racionar seus alimentos básicos desde 1961. A transformação de Cuba num arquipélago de escolas voltadas para o esporte e de ensino esportivo em centenas de praças se deu dentro do conjunto de medidas para criar “o homem novo”, incorporando a ele uma capacidade de resistência provada ao longo de meio século. Antes de ganhar sua primeira medalha em jogos olímpicos nesse novo ambiente, em 1964, o país que também investia o que tinha e o que não tinha no crescimento cultural de sua população, já não lembrava o que era um troféu: o último em competições olímpicas mundiais fora ganho em 1904, em Saint Louis, nos Estados Unidos. Fora dessa competição, só em outra conseguira duas minguadas medalhas – 1900, em Paris. Para que Cuba pudesse exibir hoje o número recorde de 187 medalhas, contando apenas as conquistadas em jogos olímpicos mundiais, o governo revolucionário tomou uma decisão de natureza defensiva – utilizar o esporte como primeira terapia preventiva na área da saúde.
Em 1961, quando criou o seu instituto nacional de esportes, Cuba sofria com a emigração para os EUA de mais da metade dos seus 6 mil e 500 médicos, que faziam parte de uma elite voltada para a clientela privada.
Enquanto buscava ajuda em profissionais da América Latina e redirecionava a sua medicina – hoje respeitada no mundo inteiro – Cuba teve que fazer um criativo dever de casa. Pelos cálculos dos Estados Unidos, a que estava atrelada desde a independência no final do século 19, a ilha rebelde não resistiria a cinco anos de bloqueio implacável. Toda sua atividade econômica tinha como matriz o vizinho do norte e não haveria como sobreviver racionalmente com o corte de seus suprimentos.
Passados 50 – e não 5 anos – a ilha teimosa se apresenta ao mundo com índices de saúde superiores, em alguns casos, aos das grandes potências, com um padrão educacional de primeiro mundo e com a exuberância de seus triunfos nas praças de esportes. Isso, apesar de apertos monumentais, como os que se seguiram ao colapso da União Soviética e do bloco socialista que funcionavam como válvulas de escape providencial. Foi a compra de petróleo na Rússia, a partir de 1961, que garantiu o seu suprimento, ante o boicote norte-americano. Em 1989, 85% do comércio exterior cubano se processava com o bloco que desmoronou com a “Perestroika” de Gorbachev e o muro de Berlim.
Com a mudança brusca nos países socialistas da Europa, em 1989, Cuba teve que adotar medidas excepcionais a partir de setembro de 1991, que incluíam apagões de até 14 horas diárias e a compra de 1 milhão de bicicletas na China. Um mês antes, em agosto de 1991, como estava compromissado, Fidel Castro recebeu 4 mil 119 atletas para os 11º Jogos Pan-Americanos, que deram prejuízo à já combalida economia cubana, devido ao boicote comandado pelos EUA, que queriam mudar a sede. As redes de televisão e poderosos patrocinadores não tomaram conhecimento do evento, em que Cuba surpreendeu mais uma vez, ao classificar-se em primeiro lugar, com 265 medalhas – sendo 140 de ouro – superando os Estados Unidos, que obtiveram 130 medalhas de ouro entre as 352 conquistadas. Nessa competição, o nosso Brasil ficou em quarto lugar, com 21 medalhas de ouro entre as 79 conquistadas.
No ano seguinte, ainda sob o impacto das mudanças no leste europeu, Cuba confirmou sua performance, apesar das medidas de restrição impostas pelo período especial: classificou-se em 5º lugar nos 25º jogos olímpicos em Barcelona, obtendo 31 medalhas, entre as quais 14 de ouro. Ficou atrás apenas do bloco de países da antiga União Soviética, que ainda disputaram como se fossem uma única nação, dos Estados Unidos, da Alemanha unificada e da China, desta por duas medalhas de ouro. Nessa competição, o Brasil, segundo país latino-americano na ordem de classificação, ficou em 25º lugar, com apenas duas medalhas de ouro e uma de prata. México e Peru obtiveram uma medalha de prata; Argentina e Colômbia, uma de bronze.
Na 12ª edição dos jogos pan-americanos, em 1995, na cidade de Mar Del Plata, Argentina, Cuba confirmou seu poderio olímpico, ao classificar-se em segundo lugar com 112 medalhas de ouro, de um total de 238. Os anfitriões ficaram em quarto, com 40 ouros, somando ao todo 159. O Brasil ficou em sexto, com 18 ouros, de um total de 82 medalhas.
Em 1996, nos jogos olímpicos de Atlanta, mesmo em meio ao sacrifício, Cuba manteve-se como o país latino-americano melhor posicionado. Classificou-se em oitavo lugar, com 9 medalhas de ouro, de um total de 25. O Brasil ficou em 25º lugar com 3 medalhas de ouro de um total de 15, mantendo-se como o segundo latino-americano. Equador e Costa Rica tiveram uma medalha de ouro. Os demais do continente ficaram na rabeira.
Cuba confirmou sua liderança latino-americana nos jogos pan-americanos de Winnipeg, Canadá, em 1999, colocando-se em segundo lugar à frente dos anfitriões; nas olimpíadas de Sidney, Austrália, em 2000; no pan-americano de Santo Domingo, em 2003; nas olimpíadas de Atenas, em 2004, no pan-americano do Brasil, em 2007. Nas olimpíadas de Pequim, em 2008, com uma delegação reduzida, teve apenas 2 medalhas de ouro, contra 3 do Brasil, somando 11 de prata e 11 de bronze, contra 4 de prata e 8 de bronze, do Brasil.
A superação das dificuldades é acrescida de outro elemento de pressão: formadas por amadores, nos quais o Estado investe desde lactantes, as equipes cubanas são rotineiramente assediadas por empresas especializadas na sedução dos seus atletas. Aqui, nos jogos pan-americanos de 2007, dois boxeadores cederam a uma promessa de contrato de uma empresa alemã e, mais recentemente, em 2009, quatro jogadores de basquete pediram asilo na Espanha após um amistosa nas Ilhas Canárias, expediente totalmente fora de propósito, porque nenhum deles sofria perseguição política em seu país – antes, pelo contrário: o que eles almejavam mesmo era faturar muitos dólares por conta do que aprenderam a custo zero em seu país.
Conhecer por dentro a saga dos desportistas cubanos não foi difícil. Independente da abertura que se desenha a partir dos últimos três anos, viajar a Cuba é tão fácil como visitar uma cidade brasileira. Qualquer um pode pegar um avião e comprar o visto de entrada por 20 dólares no último aeroporto de embarque para a Ilha. A própria companhia aérea vende o tíquete. Se você esquecer, não tem problema: pode obter o “visto” no Aeroporto de Havana, pagando a mesma taxa.
Daí para ter acesso aos centros de formação de atletas não há mistério, até porque a maioria deles, como na gigantesca Cidade Desportiva de Havana, muitos treinamentos são realizados em espaços abertos.
Mas foi o conhecimento das entranhas do mega projeto esportivo cubano que me permitiu oferecer aos brasileiros e ao mundo o conhecimento dos segredos de uma verdadeira fábrica de campeões olímpicos.
Com esse documentário, ficam as autoridades e povo brasileiro sabendo que poderão fazer bonito nas olimpíadas de 2016, desde que concentrem investimentos na formação de nossos atletas. Afinal, a cada competição internacional, o Brasil tem registrado avanço, apesar da ausência de um projeto estratégico de esportes em nosso país.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Por falar em feliz natal e por desejar próspero ano novo (como de praxe)


Clique na foto e acesse o vídeo

A sociedade de consumo exagerou na dose por conta da celebração do nascimento de Jesus Cristo. Só se fala em presentes, em promoções por todos os meios – da internet ao “Papai Noel” postado em cada loja, em cada “ponto estratégico”. A figura do menino Jesus, na manjedoura virou peça rara. Nunca o comércio foi tão longe na instalação de alçapões para vender tudo e a todos.
800 mil consumidores amontoaram-se na Rua
da Alfândega, meca do comércio popular
O brasileiro caiu mais uma vez no conto do 13º salário. Explico: o que conta é a remuneração anual; quando uma empresa calcula os custos da mão de obra estabelece, digamos, um salário anual de R$ 13.000,00. E o divide por 13, embora sejam 12 os meses. Em dezembro, pelo produto do seu trabalho, o cidadão recebe duas parcelas do salário anual – uma só para gastar em compras de natal, como se fosse dinheiro que “estava sobrando”, o a mais.
Não estou aqui para questionar hábitos enraizadas. Mas tenho o direito de lembrar que o 25 de dezembro é, principalmente, o marco do início de uma civilização – a civilização cristã, fundada na saga de Cristo, seus apóstolos e de milhões de cristãos que foram perseguidos por mais de 3 séculos por acreditarem num outro mundo, diferente do que havia antes de Cristo.
Ao desejar a todos um feliz natal e um próspero ano novo – como é de praxe – faço uma reflexão sobre o que representou o cristianismo nas suas origens. Veja o vídeo que postei dia 15 no You Tube, clicando na foto ou em http://www.youtube.com/watch?v=y9Vob_qHEnk


Essa foto é da Coréia do Sul, onde Papai Noel chegou com os hábitos do Ocidente

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cuba, ano 52 – uma revolução na revolução (II)

"Estamos plenamente conscientes dos erros que cometemos e precisamente, as orientações marcam o início do caminho da correção e da necessária atualização do nosso modelo de economia socialista".
Raul Castro, 18 de dezembro de 2010, em discurso na Assembléia Popular, o parlamento cubano.

Escrever honestamente sobre Cuba é manusear uma afiada faca de dois gumes. A revolução cubana é um dogma para gerações ensandecidas que se deram por inteiro ao sonho de um mundo igualitário, destino quimérico escrito nas linhas e entrelinhas da dialética histórica.
Che Guevara  formulou o modelo mais avançado de gestão do Estado
Mas é também o mais azedado condimento do ódio destilado pelo outro lado dessas gerações, os liberais e conservadores, beneficiários e crentes no sistema capitalista, inconformados com sua teimosa sobrevivência como pequena cidadela que desafiou e derrotou os donos do mundo, que atravessou meio século de privações, mas não se entregou, que sobrepôs o poder da palavra, a força da ideologia e a obstinação cega aos encantos do consumismo tentador, do conforto conquistado no esforço individual de cada um.
Cuba viu desmoronar a União Soviética, em cujas mãos se jogou por gravidade; viu a China afastar-se dos trilhos maoístas para ir disputar o topo do universo com as armas do capitalismo e a assimilação do “socialismo de mercado”; viu o Vietnam dos herdeiros do lendário Ho Chi Minh dedicar-se à cooperação com os antigos inimigos mortais, enfim, viu o mundo virar de cabeça para baixo, mas permaneceu lá, aos trancos e barrancos, tentando viabilizar a sociedade igualitária que agora descobriu ser, na prática, uma mera peça de retórica.
Além disso, ao longo desse meio século, Cuba recuperou-se de furacões devastadores, como os três que provocaram pesados danos em 2008, acompanhados de chuvas torrenciais, destelhado ou derrubando totalmente 470 mil edificações, inclusive escolas e hospitais; alagando e destruindo maquinários de fábricas; arruinando 80% das plantações de folha de fumo, e destruindo totalmente a Faculdade, recém-construída na Ilha da Juventude como uma extensão Escola Latino-Americana de Medicina.
Desafiando as opiniões empedernidas
Escrever sobre Cuba pode ser o mesmo que chover no molhado. Não pela falta de novidades. Estas fervilham por todos os poros dessa ilha-referência. Mas pelas opiniões empedernidas, pela intransigência consumada, pelo confronto enraizado ao longo de meio século.
Há ainda a considerar o interesse restrito ao âmbito político dos brasileiros por Cuba. É o que se depreende do número de turistas que viajam àquele país: 11 mil por ano em média -  15% dos argentinos, ou menos de 1% em relação aos 2,4 milhões que viajaram à ilha em 2007. Ou ainda bem menos de 0,5% em relação aos 5 milhões brasileiros que estão indo ao exterior neste 2010.
O que acontece de fato e nas boatarias sobre Cuba insere-me no plano simbólico do sonho encarnado. É como se ali funcionasse um laboratório de experimentos sociais, dissecados todos os dias por cientistas do mundo inteiro. Nenhum país do mundo, nem mesmo a China na “revolução cultural”, ousou chegar tão perto da utopia, como propunha “Che” Guevara, o arquiteto de política econômica que desprezava radicalmente o poder do dinheiro diferenciador e os estímulos materiais como mola para o desenvolvimento.
“Negamos a possibilidade de uso consciente da lei do valor baseado na inexistência de um mercado livre que expresse automaticamente a contradição entre produtores e consumidores; negamos a existência da categoria mercadoria na relação entre empresas estatais, e consideramos todos os estabelecimentos como parte da única grande empresa que é o Estado (ainda que, na prática, ainda não ocorre em nosso país)” – escreveu Che, quando ministro da Indústria na defesa do “sistema orçamentário de financiamento”, com o qual se opunha à fórmula do “cálculo econômico”, concebida na União Soviética, já em fase de revisão, e oferecido aos cubanos como receita de modelo econômico fundado na existência de empresas estatais pulverizadas e com caixas próprias.
Socialismo (quase) por imposição dos EUA
A bem da verdade, a idéia do socialismo não estava explícita na agenda dos revolucionários de Sierra Maestra, apesar do fascínio dos guerrilheiros pelo médico argentino de formação marxista. Nem mesmo o confrotno radical com os Estados Unidos constava das transmissões da Rádio Rebelde: foi a intolerância dos Estados Unidos, sob a presidência do general Dwight David Eisenhower, republicano e adepto comprometido com a guerra fria, que empurrou Cuba para o “outro lado”.
Por conta da reforma agrária, compromisso pétreo da revolução, assumido com os camponeses que lhe deram sustentação, Washington não quis engolir o novo governo já nos seus primeiros dias: em 12 de fevereiro de 1959, a Casa Branca deu a pala de suas relações ao negar um pequeno crédito solicitado por Cuba para manter a estabilidade da sua moeda.
Logo no começo, as empresas norte-americanas que respondiam por 90% da economia cubana tentaram enquadrar as autoridades revolucionárias, supondo que a ilha jamais poderia escapar à dependência secular dos EUA.
Como não admitia “uma relação submissa”, Fidel respondeu às pressões dos norte-americanos, após corte nas cotas de importação de açúcar, com a nacionalização de quase 200 empresas norte-americanas, entre elas as refinarias que se recusaram a refinar petróleo comprado à URSS.
Isso aconteceu no início de julho de 1960. Cheguei a Havana pouco depois e os cubanos passavam a nítida sensação de que o conflito não tinha mais volta. Os EUA usavam de todos os expedientes para encurralar o governo revolucionário, adotando uma escalada de embargos até o bloqueio total, e incentivando a migração do pessoal qualificado: dos 6 mil médicos existentes então, 3 mil e 500 se foram; entre os engenheiros, o êxodo foi maior: de 2.700, ficaram em Cuba menos de 90, obrigaqndo o país à recorrer à solidariedade de profissionais do mundo inteiro.
A estatização repentina obrigou à busca de uma fórmula de gerenciamento. E levou a uma equação inesperada: o Estado passou a administrar toda a atividade econômica, como imperativo de sustentabilidade, num desafio que teria que superar simultaneamente as pressões externas e as idiossincrasias de cada gestor.
Voltarei ao assunto.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cuba, ano 52: uma revolução na revolução no país da fábrica de campeões

“A corrupção é rara nos escalões superiores, mas comum nos pequenos negócios. Os milhares de gerentes de lojas, restaurantes, e prestadores de serviços, freqüentemente, encontram uma maneira de desviar parte dos recursos que administram para sua conta particular e se associar ao proprietário do estabelecimento, o estado”.
George de Cerqueira Leite Zarur pesquisador Internacional da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. (FLACSO), em artigo publicado em 2005

Com Wilfredo Leon, de 17 anos, o maior fenômeno
 do vôlei  mundial no momento. Já aos 14 era da seleção
nacional de Cuba.

Estou chegando de minha quinta viagem a Havana– a primeira foi em 1960 – com a convicção de que 2011 não será igual a esses anos que passaram: mudanças de grande alcance no modelo econômico já povoam o inconsciente coletivo e parecem tão inevitáveis como urgentes.
Estava lá desde o dia 1 de dezembro, documentando o que chamei sem exagero de uma “Fábrica de Campeões”. Registrei detalhes de um trabalho sem paralelo em todo o mundo na formação de atletas, responsável pelos recordes de medalhas e pela liderança nos esportes na América Latina, feito que está associado ao projeto social da revolução cubana: de 1900 a 1961, quando foi criado o Instituto Cubano de Desportos, os cubanos só haviam obtido 13 medalhas olímpicas – duas em 1900, em Paris, e 11 em 1904, em San Louis; hoje, em todo o Continente, com um total de 183 medalhas nos jogos olímpicos mundiais (a virada começou em 1964, em Tóquio, com uma única medalha), só perdem para os Estados Unidos.
O objetivo desse documentário foi oferecer uma contribuição ao nosso país, que sediará os jogos olímpicos de 2016 e só parece preocupado com os investimentos na construção e nos transportes, colocando em último plano a preparação de atletas.
Com a produtora Paula Barreto na Habana Vieja restaurada.
Ao fundo, bar que fabrica sua própria cerveja.
Esse trabalho foi uma iniciativa pessoal minha, com todas as despesas por minha conta. Paguei a passagem de avião por R$ 1.821 reais (pagos em 6 parcelas sem juros) pela Copa Airlines e aproveitei a baixa temporada: a diária no famoso hotel Havana Rivieira, comprada através do site Decolar.com saiu por 41 dólares. Além disso, contratei os serviços de um carro particular com motorista e tive como guia, a custo zero, uma apaixonada funcionária do INDER.
Contei também com o apoio da produtora Paula Barreto e do casal Carlos e Adriana Vasconcelos. Paula, a quem conheci no avião, fora a Cuba apresentar o filme Lula, o filho do Brasil, dirigido por seu irmão, Fábio Barreto. Casada com Cláudio Adão, ex-craque de futebol, é mãe de dois atletas: Felipe Adão, que seguiu o esporte do pai, e Camila, atleta profissional de vôlei. Não é só isso: trata-se de uma das figuras humanas mais sensíveis e admiráveis que conheci.Ela é uma verdadeira enciclopédia sobre esportes e sabia tudo de cada campeão cubano.
Carlos Vasconcelos é empresário na área de exportação e importação. Há seis anos é quem leva em mãos os filmes brasileiros para o Festival Internacional de Havana. Adriana, sua esposa, é formada em cinema e em 2007 fez curso de direção de atores na EICTV (Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños – Cuba). Havia uma semana, concluíra as filmagens do seu “curta” Entre-muros. Os dois são meus amigos e me incentivaram a ir ao 32º Festival Internacional do Cinema Latino-Americano em Havana.

Cocotaxi e onibus com assentos panorâmicos:
o turismo tem cada vez maior importância
 Mudanças para preservar a natureza da revolução

Como disse, fui a Cuba pela primeira vez em julho de 1960, um ano e meio depois do triunfo da revolução. Aos 17 anos, com outro colega, representei os secundaristas brasileiros no Iº Congresso Latino-Americano de Juventudes. No início de 1961, já como jornalista, fui trabalhar em Havana, onde fiquei até maio de 1962. Depois, visitei Cuba em 1986, como turista, e em 2003, integrando uma delegação parlamentar do Rio de Janeiro.
Por esse currículo, considero-me um conhecedor de Cuba, em condições de visualizar seu futuro sem grandes esforços. Por isso, além de trabalhar no documentário, feito com duas pequenas câmeras de alta definição, espero escrever sobre as mudanças que se desenham no horizonte, segundo um diagnóstico racional de natureza profilática.
Pelo que pude observar nessa viagem, a mudança é incentivada pela direção política de Cuba, inclusive por Fidel Castro e pelos dirigentes de sua geração que ainda participam do governo revolucionário, entre os quais o vice-presidente do Conselho de Estado, José Ramón Machado Ventura, médico e guerrilheiro de Sierra Maestra, hoje com 81 anos de idade, e o ministro da Informação, comandante Ramiro Valdés Menéndez (78 anos), companheiro de Fidel desde o 26 de julho de 1953, quando um grupo de jovens atacou o quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, 16 meses depois do golpe que levou o general Fulgêncio Batista a implantar a mais sanguinária ditadura na América Latina.
Não há exagero em dizer que os formuladores dessa mudança trabalham freneticamente, 18 horas por dia, tentando compatibilizar o novo modelo econômico com os ganhos sociais, principalmente nas áreas da educação, saúde e dos esportes, estes entendidos num plano que abrange os cuidados com a saúde até a formação gregária dos cubanos.
Hotéis Meliá e Rivieira. A rede Meliá chegou  nos anos 90 e o
Rivieira, onde paguei diária de $ 41, faz parte agora da rede
Gran Caribe, junto com o Nacional e outros.
Através das emissoras oficiais, o governo revolucionário proclama ter chegado a hora de expor os próprios erros. Na verdade, pelo que vi com meus próprios olhos, o maior desafio será refazer os referenciais de poder, que produzem um ambiente desconfortável e contraditório: de um lado, muitos dirigentes partidários, á frente de unidades administrativas e empresas, não têm tido o comportamento desejado e excedem-se em benefício próprio.
Uma nova ótica sobre a remuneração do trabalho
De outro, paradoxalmente, a classe média emergente, com poder de compra e conforto, é integrada majoritariamente por 750 mil famílias cubanas que recebem ajuda dos seus parentes residentes em outros países. Só nos Estados Unidos, existem hoje 1,5 milhão de “cubanos-norte-americanos”. Estima-se que por vias legais e ilegais (através de “mulas”, via México) chegam a Cuba anualmente para essas pessoas cerca de 2 bilhões de dólares. As receitas com turismo, que crescem de ano a ano, saltaram para 2,4 milhões de dólares em 2006 (em 1989, último ano da União Soviética, Cuba recebeu 270.000 visitantes; em 2005, 2 milhões e 300 mil) As exportações, que já não se limitam ao açúcar, pelo contrário, batem 2,7 bilhões de dólares, com uma novidade: a biotecnologia, com mais de 700 patentes, poderá ser em breve o principal manancial do comércio exterior.
Não obstante, o governo reconhece que há grandes distorções salariais, em função das quais não será surpresa se um médico for fazer “hora extra” como maleteiro. Para corrigir essa distorção, governo está revendo o quadro de pessoal, abrindo espaço para que pelo menos 500 mil dos 4 milhões empregados públicos sejam transformados em profissionais privados, no exercício de 178 atividades já liberadas à “livre iniciativa”.

Eletrônicos japoneses, chineses e da Coreia são vendidos em
Cubapara a classe média que recebe dólares de fora ou para
alguns "administrradores"  de estabelecimentos
estatais, que ganham "por fora".Isso acaba criando uma
 "nova class de privililegiados". E isso e preocupa
o governo revolucionário.
 Com minha experiência de 50 anos no jornalismo – e mais esse tempo todo de convívio direto ou indireto com os cubanos – vou tentar dissecar o novo formato do regime socialista nessa ilha que é considerada o melhor e mais seguro destino turístico da América Latina.
Por ora, afirmo: as mudanças em estudo, além de porem corajosamente as coisas nos seus devidos lugares, cristalizarão um processo de avanço em condições de manter o país no ritmo de crescimento capaz de preservar seus níveis sociais imbatíveis, apesar do asfixiante bloqueio econômico norte-americano, sobre o qual também falarei aqui.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.