quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Serra que assumiu as vozes das trevas e da intolerância

"Todo mundo sabe, até as árvores da floresta amazônica. Elas são as principais testemunhas de que as Farc se abrigam na Venezuela."
José Serra, mm almoço com empresários do Grupo de Líderes Empresariais -Lide – a fina flor da plutocracia multinacional paulista.
Serra no ninho da plutotocracia paulista com um discurso nostálgico
Meu Deus! Onde fui amarrar meu cavalo.
Sinceramente, esse Serra desses últimos dias me faz lembrar os torturadores que me submeteram a sevícias por 16 dias seguidos nos porões do Cenimar, na Ilha das Flores. É um Serra ao avesso do nosso tempo, alguém saído do sarcófago da intolerância, do atraso e da guerra fratricida que tanto prejuízo nos causou.
Sua insistência em atacar governantes que desagradam o império não vai lhe render um único voto a mais. Em compensação reacende os piores sentimentos obscurantistas que a aragem já varreu, reduzindo a ditadura paranóica a uma péssima lembrança, evitada até pelos que delas se serviram ou graças a ela aumentaram suas fortunas.
Esse discurso soa como filho temporão daqueles idos em que se matava, prendia e arrebentava pessoas que eram apontadas como “agentes de Moscou” forjados na guerra santa que precisava fabricar inimigos externos para justificar sua barbárie.
Primeiro, Serra cometeu o desatino de culpar o governo boliviano pelo consumo de drogas no Brasil. Ao querer atingir Evo Morales, o mais legítimo representante do povo boliviano, cuja integridade moral é reconhecida no mundo inteiro, o candidato do PSDB imaginou alcançar o Sr. Luiz Inácio e sua adversária por tabela.
Existem traficante porque existem compradores
Demonstrou, ao mesmo tempo, que subestima a inteligência do cidadão brasileiro. Nessa questão das drogas, ele preferiu um caminho diferente do seu líder, Fernando Henrique Cardoso, que abriu os olhos e hoje  tem uma compreensão mais lúcida a respeito.
E vai mais além: desconhece a lógica mais cristalina: há traficantes porque há consumidores. E muitos desses compradores de cocaína vivem lá, em Ipanema e nos jardins da elite paulista, onde as festas mais badaladas não dispensam a “branquinha”.
Tenta tapar o sol com a peneira. Desconhece a própria crise da família e todos os fatores que incrementam a proliferação das drogas.
Tenho quatro filhos – os mais novos de 22 e 18 anos – e nunca eles se deixaram seduzir por amigos cujos pais não lhes dedicam a atenção devida. Estes, então, nem cigarro põem na boca.
Todo mundo sabe que esse vício macabro atinge a muitas famílias. Pais desesperados correm atrás de bodes expiatórios e clamam por mais intervenção policial para resolver o que eles não conseguiram resolver. Esse é um grande drama que o Sr. José Serra, numa precipitada irresponsabilidade, debita ao presidente Evo Moraes – um delírio, que só pode ser entendido como uma agressão gratuita e insana.
Chávez como alvo para agradar ao império
Agora, resolveu alvejar o presidente Hugo Chávez, a quem apontou levianamente como uma “ameaça à paz na América Latina”. E ofereceu a cobertura do seu manto aos belicistas da Colômbia, esta, sim, uma cabeça de ponte dos interesses  norte-americanos, totalmente minada por três grandes bases instaladas em Malambo, Palanquero e Apiay (esta a 400 km de nossa fronteira) para assegurar a obediência vil dos países da América do Sul ao império decadente.
Serra decidiu seguir as pegadas do milionário Sebastián Piñera, que chegou à presidência do Chile numa aliança de direita (que agora, por pragmatismo, começa a renegar, negando-se a conceder indulto aos assassinos da ditadura de Pinochet, pedido pela Igreja católica de lá).
Ao invés de oferecer um projeto de avanço, uma alternativa para frente, o candidato oposicionista embarcou na parola da plutocracia paulista. Com vasta experiência, José Serra não pode alegar que desconhece a articulação dos norte-americanos para derrubar Chávez (como já tentaram em 2002) e que a Colômbia é peça chave nesse projeto, no qual o sistema internacional não quer passar pelos mesmos vexames sofridos ao longo dos últimos 50 anos, em suas quase 400 tentativas de assassinar Fidel Castro, invadir Cuba e acabar com a revolução.
Como nos velhos tempos
Essa história sobre o acolhimento de guerrilheiros das FARC pelo governo venezuelano não é nem um pouco diferente dos “informes” sobre a existência de armas químicas no Iraque, pretexto para a invasão do país árabe, amplamente desmascarado pelos fatos.,
Não é diferente também de outras montagens, como o incêndio do Reichstag, forjado por Hitler, em 1933, para assumir o poder na Alemanha e iniciar uma brutal perseguição política.
Contra uma política externa correta
Assessorado por algum primata, Serra ataca a política externa do sr. Luiz Inácio, reconheçamos, a forma mais lúcída de fortalecer o Brasil  como nação soberana e assegurar ganhos excepcionais para o país. Sob esse aspecto, só sendo um grande mau caráter, um asno ou um cego, ou as três coisas juntas, para negar o que significou a presença de Lula em todo o mundo: ele deve ter feito mais visitas a outros países do que todos os presidentes que o antecederam. E isso foi altamente positivo, refletindo-se na afirmação do prestígio internacional do Brasil.
Serra está vestindo a carapuça da volta ao passado mais traumático, mais primário, ao reino da intolerância e da indústria da guerra fria, no que revela mais do que interesse eleitoral. É lícito imaginar que ele esteja agindo assim por  por insegurança ou, o que é mais lamentável, por querer ganhar o apoio e a ajuda dos trilionários internacionais, que se consideram os donos do mundo.
Com esses pronunciamentos ao gosto da pior direita, ele vai acabar jogando nas mãos de sua adversária as pessoas de opinião, as que não querem ver o país alinhado incondicionalmente ao sistema internacional e curtem uma política externa com identidade própria.
Nessa, ele vai ficar perdido no espaço da história, festejado somente pela meia dúzia de nostálgicos da ditadura. E não arrumará um voto sequer: a direita sentimental já está contra Dilma pelos seus arroubos juvenis.
E vai acabar alimentando o discurso  amplamente difundido de que ele seria dos males o pior.

domingo, 25 de julho de 2010

A fritura de aposentados e pensionistas na terceira "reforma" da Previdência

Aposentados e pensionistas estão sendo cozidos na fila no INSS para um novo sacrifício
Enquanto tentamos digerir o morno de uma disputa eleitoral sem contrastes protuberantes, os escaninhos do poder agem em alta temperatura na cozinha de uma terceira “reforma da previdência”, que será muito mais drástica do que as anteriores, contribuindo com maior volúpia para o crescimento da já robusta previdência privada.
O ministro-tampão da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, não pensa noutra coisa. Sabe que está ali, como burocrata sem custos políticos a temer, para preparar o terreno de um novo massacre que inclui o fim das pensões das viúvas, o aumento da idade mínima para aposentadoria e a unificação, por baixo, do regime de aposentadorias.
Todos no piso em 2020
O governo já trabalha com a certeza de que o Congresso manterá o veto do presidente Luiz Inácio ao fim do fator previdenciário e acolherá sua resistência à tentativa de equiparar os reajustes de todos os aposentados, ganhem ou não o salário mínimo.
Isto, mesmo sabendo de uma projeção macabra, divulgada pela Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas: a ser mantido o critério de reajustes diferenciados, em 2020 todos os benefícios da Previdência serão limitados ao salário mínimo.
Aposentadorias por faixas

Hoje, dos 27 milhões de aposentados e pensionistas, 8 milhões e 200 mil ainda ganham mais do que o piso. Uma tabela publicada na última semana de abril pela revista Época mostra o seguinte quadro:
O “déficit” com discurso
Não é de hoje que os governos neoliberais insistem de má fé no discurso do déficit previdenciário, como forma de incrementar a corrida aos planos privados abertos, que já contam hoje com 11 milhões e meio de inscritos, o dobro do existente em 2003, quando Lula bancou a segunda “reforma” com o apoio explícito dos governadores de todos os partidos.
Nessa nova cruzada, os solapadores da previdência pública admitem como favas contadas o fim das pensões, que hoje alcançam 3 milhões e 600 mil viúvas e 250 mil viúvos, num universo de 27 milhões de benefícios.
Festa dos planos privados
Graças a essa política de dilapidação dos direitos na previdência pública, os bancos fazem a festa, favorecendo-se, inclusive, com a generosidade do erário: o contribuinte pode abater até 12% do seu imposto de renda com o aporte anual aos planos privados. Nessa festa, o Bradesco Vida e Previdência tem sozinho um terço do faturamento do mercado previdenciário privado, que cresce a mais de 30% ao ano.
Essa balela de déficit da Previdência Pública, exaustivamente desmascarado em minha coluna da TRIBUNA DA IMPRENSA, pode ser desqualificada até mesmo com os números oficiais sobre o desempenho das receitas previdenciárias diretas.
Superávit “urbano” e déficit “rural”
Esta semana, o próprio ministro Gabas reconheceu um superávit de R$ 3,2 bilhões no “setor urbano”, no primeiro semestre de 2010: a arrecadação líquida urbana somou R$ 93,1 bilhões contra uma despesa de R$ 89,9 bilhões.
Segundo seus números, o “déficit” no Regime Geral da Previdência ocorre em função da grande diferença entre arrecadação e gastos na área rural: A receita no primeiro semestre de 2010 foi de R$ 2,2 bilhões, menos do que os R$ 2,3 bilhões no primeiro semestre de 2009. Já a despesa com pagamento de benefícios rurais chegou a R$ 22,5 bilhões, mais do que os R$ 20,9 bilhões do ano passado.
É preciso deixar claro que nestes componentes há dois fatores determinantes: o Funrural, que garante o salário mínimo a mais de 5 milhões de aposentados, mesmo sem terem contribuído, e o sistema de arrecadação, calculado exclusivamente pelo faturamento oficial dos empregadores, que é facilmente mascarado.
Aposentado garante família
O novo pacote em gestação segue a mesma estratégia da segunda “reforma”: deverá ser encaminhado logo no início do novo governo, juntamente com a “reforma trabalhista”, preparada pelo ex-ministro Mangabeira Unger, que já detalhei aqui.
Ao investirem mais uma vez contra aposentados e pensionistas, os articuladores da nova “reforma” desconhecem solenemente o mal que vão causar à própria economia: estudos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA - revelam que 55% dos beneficiários da Previdência são os “cabeças” de suas famílias, arcando com a maior parte de suas despesas.
E pesa na renda dos brasileiros
Desconhecem igualmente outro dado marcante, o peso dos aposentados e pensionistas na renda da população. Estudo da Fundação Getúlio Vargas mostrou que no Estado do Rio, por exemplo, o rendimento dos que recebem mais de um salário mínimo na Previdência representou 25,35% do total da renda em 2008. E, ao contrário do que se acredita, esse não é um fenômeno exclusivo de pequenas cidades do interior.
Na capital fluminense, o retrato é semelhante: o ganho dos aposentados que recebem benefício acima do piso mínimo correspondeu a 27,22% do total da cidade no mesmo ano, a maior parcela entre as 36 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas. O ganho dos aposentados e pensionistas que recebem mais de um salário mínimo representa 13,36% da renda da cidade de São Paulo. Quando se analisa a renda obtida por meio de diferentes atividades de trabalho, a situação muda. A cidade do Rio de Janeiro é a última colocada entre as 36 capitais e periferias metropolitanas analisadas para a pesquisa, com uma parcela de 67,98% da renda vinda do trabalho assalariado.
Essa conspiração para aniquilar a previdência pública e favorecer a privada tem agentes em todos os partidos, de onde a necessidade de uma resistência ampla e suprapartidária da parte daqueles que não engolem esse jogo sujo contra os atuais e futuros aposentados e pensionistas.

sábado, 17 de julho de 2010

O alcance da bala que matou uma criança na sala de aula

“Não teria sido um erro construir escola perto de favela?”
Leilane Neubarth, da Globo News, ao entrevistar um especialista em violência no jornal Em cima da Hora das 18h do dia 16.7.2010.
Estão em êxtase frenético os patrocinadores da matança de jovens nas favelas e conjuntos habitacionais da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, criminalizados como “santuários do crime e da violência urbana”.
Nesta sexta-feira, 16 de julho de 2010, a polícia, excitada pelo governador Sérgio Cabral Filho, matou dois coelhos de uma só cajadada, em uma enraivecida operação de guerra no bairro de Costa Barros: Wesley Gilber Rodrigues de Andrade, um garoto de 11 anos, foi atingido mortalmente por uma bala “perdida” e em plena aula num CIEP, a escola emblemática concebida por Brizola e Darcy Ribeiro.
Ao comentar a notícia no site do GLOBO, o leitor Sérgio Barros escreveu em letras maiúsculas, às 20h06m do dia 16: “TEM QUE INVADIR FAVELAS MESMO. QUEM MORA EM FAVELA É BANDIDO”. Esse não é o sentimento isolado de um debilóide – infelizmente, muitos pensam exatamente como ele.
O menino, que caiu com um lápis na mão durante a aula de matemática, foi um dos sete mortos, todos moradores do Morro da Pedreira: no confronto, nenhum policial saiu sequer arranhado.
Política oficial de extermínio
É mais um capítulo na mais brutal utilização de uma máquina de extermínio oficial na matança de jovens e adolescentes moradores nas áreas pobres e estigmatizadas do Estado: em 9 de novembro de 2009, o jornal ESTADO DE SÃO PAULO revelava: o número de mortos em autos de resistência, desde que esse tipo de morte começou a ser registrada oficialmente, passou de 10 mil no Estado do Rio de Janeiro. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam que, de janeiro de 1998 a setembro de 2009, policiais civis e militares mataram 10.216 pessoas acusadas de envolvimento em confrontos, média de 2,4 mortos por dia.
O episódio da sexta-feira fala por si. A polícia militar transformou o entorno de uma escola pública numa praça de guerra, ato tão infeliz que levou à demissão do comandante do 9º Batalhão, feito bode expiatório da tragédia anunciada.
Escolas questionadas pela localização
Crianças são as maiores vítimas das operações policiais realizadas em horas e locais em que deliberadamente inocentes viram alvos. E isso não acontece por acaso. Essas crianças, por coincidência, são das comunidades pobres, onde, para muitos, quem não é bandido faz o seu jogo.
Tão grave como a matança promovida pelos policiais do gosto do governador está sendo a reação de certos formadores de opinião. Ao comentar a morte do garoto no CIEP, a apresentadora Leilane Neubarth, da Globo News, questionou a existência de escolas perto de favelas. O problema seria esse, em sua opinião, levada a milhares de telespectadores.
Outro menino Wesley foi morto no Jacarezinho
Lembrei-me do que escrevi em 18 de janeiro de 2008, ao comentar a morte de outro Wesley, este, de 3 anos, do Jacarezinho:
A tarde já se ia quando três tiros de fuzil alvejaram mortalmente o menino Wesley Damião da Silva Saturnino de Brito, de apenas três anos de idade. Foram três “balas perdidas”, que atingiram o tórax, o ombro e no braço esquerdo.
O menino mulato de semblante risonho morreu em frente à casa de sua avó, na Rua Esperança, um dos acessos ao Jacarezinho que dá na Rua Pinto de Azevedo, já no bairro do Jacaré. Ele voltava para casa com a mãe de 23 anos, que trazia o caçula de 6 meses no colo e Wesley pela mão.
No dia seguinte, a notícia saiu nos jornais, mas depois não se falou mais nisso. As pessoas que fizeram grandes mobilizações quando da morte de um menino carregado por bandidos em fuga, presos a um cinto de segurança, não disseram nada. Nem os jornais, nem ninguém emprestou à morte do pequeno Wesley do Jacarezinho nenhum sentimento de indignação.
Afinal, Wesley Damião da Silva Saturnino de Brito é mais um menino da favela que, como já comentou um dia o governador Sérgio Cabral, poderia ser amanhã mais um traficante, de onde o caráter “profilático” de sua morte e a indiferença generalizada de uma sociedade hipócrita, para a qual três balas de fuzil disparadas contra uma criança de favela não lhe causa qualquer comoção”.
O apartheid e a sensação de segurança
O episódio de agora tem que ser encarado como reflexo de uma política de segurança inspirada no apartheid. Sérgio Cabral Filho mostra-se, mais uma vez, o oposto de Brizola, cuja percepção remetia para o investimento maciço na educação. Esse CIEP já fora desfigurado quando aboliram o ensino de tempo integral, o único meio de preparar os jovens para uma Universidade pública sem precisar da janela indecente das cotas.
A grande mídia tem uma boa parcela de responsabilidade nesses massacres. Ela vende aos cidadãos da classe média a idéia de que o caos social é problema da polícia. E que a violência será resolvida com a militarização de algumas favelas da Zona Sul e da Tijuca, através das chamadas UPPs.
Nesse caso, vendem a “sensação de segurança” e a “seletividade da violência” como achados dignos de todo apoio. Não dizem que as ocupações policiais são, de fato, reles encenações, sustentadas por um “acordo” tácito com os traficantes: estes continuam seu comércio - nenhum deles foi preso nessas ações – mas passam agir com discrição, sem a exibição de armas e sem confrontos.
O caso desse garoto sairá rápido da mídia, mais atenta à novela que envolve o goleiro do time mais querido do Brasil. Hoje mesmo, o crime não aparecia na primeira página do site do EXTRA, o jornal de maior circulação no Rio de Janeiro. Sua manchete era reservada ao anúncio de que o goleiro Bruno será demitido por “justa causa” pelo Flamengo.
Isto quer dizer: punição para os matadores do menino? Nem pensar. Não haverá ninguém para cobrar uma investigação séria, que, para variar, será atributo exclusivo da própria polícia, fato que é apontado pela Human Rights Watch como certeza da impunidade.
Aliás, em relatório divulgado no dia 8 de dezembro de 2009, essa organização mostrou a essência da política de segurança de Sérgio Cabral ao comparar os números: Segundo o relatório, em 2008 a polícia do Rio prendeu 23 pessoas para cada morte em “autos de resistência”. Em São Paulo, foram 348 prisões para cada morte. Nos Estados Unidos, essa média é de 37 mil prisões para cada caso de resistência seguida de morte.
Ainda em 2008, a polícia do Rio matou 1.137 pessoas; a de São Paulo, 397; enquanto a polícia norte-americana matou, em um ano, 371 pessoas.
A matança vista por representante da ONU
Opinião parecida consta do relatório do comissário especial da ONU sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extra-Judiciais, Philip Alston, que esteve por aqui de 4 a 14 de novemvro de 2007, motivado pela chacina do Morro do Alemão, ocorrida em 27 de junho daquele ano, na qual 19 pessoas foram mortas durante uma mega-operação que mobilizou 1.350 policiais. Em seu documento, ele escreveu:
“Na maioria dos casos, assassinatos cometidos por policiais em serviço são registrados como “atos de resistência” ou casos de “resistência seguida de morte”. Em 2007, no Rio de Janeiro, a polícia registrou 1.330 mortes por atos de resistência. Isto corresponde a 18 % do total de assassinatos no Rio de Janeiro. Em tese, essas são casos em que a policia teve de usar a força necessária e proporcional à resistência daquele que os agentes da lei desconfiavam ser criminosos. Na prática, o quadro é radicalmente diferente. É o próprio policial quem primeiramente define se ocorreu uma execução extrajudicial ou uma morte legal. Apenas raramente, essas auto-classificações são investigadas com seriedade pela polícia civil. Recebi muitas alegações altamente críveis de que as mortes especificadas como “resistência” eram, de fato, execuções extra-judiciais. Essas alegações são reforçadas pelo estudo de autópsias e pelo fato de que a proporção entre civis e policiais mortos é inacreditavelmente alta”. (CLIQUE AQUI E LEIA O RELATÓRIO NA ÍNTEGRA)
Finalmente, cabe alertar: a morte do aluno Wesley em plena sala de aula não é a primeira e nem será a última. A polícia não age assim por acaso. Por trás de suas truculências há um governador convencido de que é melhor “cortar o mal pela raiz”. E ele não está sozinho. Que o diga a aliança montada para garantir sua reeleição.

sábado, 3 de julho de 2010

E o dunguismo deu no que deu, aliás, como eu havia previsto

“Porque o futebol é acima de tudo um jogo feroz coletivo e somos incapazes de que, sendo individualista? Porque a meta para o indivíduo em nosso ethos civilizacional é nada menos do que Nirvana ou Moksha ou liberação total, e esse espírito não suporta um incêndio na barriga para colocar a bola na rede cabo e chamando-o de uma meta?”
BS Prakash,  embaixador da Índia no Brasil

Robinho, agressividade gratuita ao gosto do sargentão


Não pense que estou feliz diante do fiasco da seleção do sargento Dunga, tal como havia previsto na minha coluna do dia 20 de junho, quando ainda tudo eram flores. E mais: para início de conversa, condeno como peça do mau-caratismo em moda o seu linchamento,  agora que o leite foi derramado.
Como disse o veterano comentarista Luiz Mendes, 86 anos de idade e na cobertura de copas desde o fatídico 1950, nada podia se esperar de um time comandado por alguém que jamais havia sido antes treinador. “Isso não se podia fazer com um esporte que envolve 190 milhões de brasileiros”.
Como uma Copa do Mundo é hoje apenas uma grande exposição internacional de mão de obra especializada, onde cada atleta trata tão somente de sua cotação aos olhos de “empresários” inescrupulosos e patrocinadores insaciáveis, movimentando bilhões de dólares e euros em interesses paralelos, não me surpreende que o evento seja paradoxalmente o sepulcro do bom futebol.
Treinador por inseminação artificial
Dunga foi forjado por inseminação artificial como treinador sob medida nos tornos do fute-negócios e seus fabricantes sabiam exatamente onde ele poderia chegar. Sua escolha não foi uma opção técnica, mas uma obra da guerra psicológica relacionada com o gesto do Roberto Carlos, o lateral que cuidava de suas meias na hora do gol fatal que tiraria a seleção da Copa de 2006.
Naquele momento, os cartolas da CBF concluíram que o futebol de estrelas e egos desmedidos trazia mais prejuízos do que lucros. O jogador se confundia sem constrangimento com reles mercenários, dos tipos daqueles que Maquiavel já dizia serem inabilitados para ganharem uma guerra.
Era preciso apagar essa idéia: criar a imagem do gladiador, que envolveu até Kaká, com seus ares de presbítero. A escolha de um aprendiz que jamais fora técnico era o primeiro passo. Dunga se notabilizara em campo como o chefe da facção raçuda, que não se rendia e não via limites no afã de evitar a derrota, mesmo que faltasse o mínimo de aptidão técnica. Condição que engendrou xerifes porradores como Felipe Melo ou bravateiros, como Robinho.
Para os cartolas, maiores vilões do futebol, o noviciado inebriante faria do escolhido alguém mais manipulável, consciente ou inconscientemente. Por lógica, o comandante sem currículo seria um bom processador de interesses, independente de suas idiossincrasias.
As determinantes jogadas de grana
Num contexto mais amplo, o ambiente de uma seleção nacional se tornou tão dependente de jogadas de grana que a escalação de um grupo sofre influências de uma espécie de poder paralelo, mais exuberante do que os dotes eventuais de um treinador, seja ele quem for.
Este, por sua vez, tem de administrar o estrelismo e as ansiedades daqueles que aparecem temporariamente como os melhores produtos em campo. Para alguém que até outro dia estava dentro das quatro linhas, o exacerbar de uma competição de protagonismo surda em relação aos futuros comandados seria inevitável. Isso o próprio sargento Dunga deixou claro quando declarou, após o anúncio da convocação, que só trabalhava com jogadores que assimilassem a condição de subalterno.
Ao escolher o grupo para a batalha final, o vaidoso treinador havia acumulado forças com a escalada de vitórias nos ensaios com público. Ele se achava suficientemente blindado para escolher quem não lhe fizesse sombra, recorrendo a pretextos duvidosos, como notas de bom comportamento e não terem sido experimentados na fase preparatória.
A arrogância de um semideus
Como é da natureza humana, a vaidade engendrou a arrogância, o sentimento do semideus que há em cada vencedor de uma pugna, por mais pontual que possa parecer.
Dunga pode não ter cultura, mas reúne outras qualidades compensatórias, como a capacidade de percepção e o preparo para o conflito. Isso o levou a administrar suas ambiguidades e sujeições de forma a tirar proveito dos que imaginavam poder usá-lo incondicionalmente.
Ao final dos três anos vestibulares, ele já havia adquirido uma armadura própria, com a qual se sentia em condições de ombrear-se aos patrões. O episódio em que barrou a repórter da Tv Globo se insere dentro desse quadro novo. Os jornalistas negociaram as matérias exclusivas com “as pessoas erradas”. Se tivessem conversado diretamente com ele, certamente a reação seria outra. Uma vez na boca do lobo, ninguém poderia ter mais autoridade do que ele para decidir sobre hábitos de sua tropa. A entrevista que o goleiro Júlio Cesar deu à Globo no final do jogo contra a Holanda mostra que, nesse caso, os repórteres devem ter se entendido com a pessoa certa, mesmo porque, afinal, naquele momento, a casa acabava de cair.
Jogo sujo dos bodes expiatórios
O pior que acontece depois da queda é o jogo sujo dos bodes expiatórios e a precipitação na adoção de corretivos. Não há exagero em dizer que praticamente todo o povo brasileiro estava entristecido quando o juiz apitou o final do jogo.
E mais do que o povo brasileiro: os negociantes começavam a contabilizar os prejuízos provocados pela desclassificação “prematura”. É muito dinheiro em jogo. Muita cobrança que deverá ser debitada nas costas de alguém.
Porque nessa área os “investidores” não trabalham com cálculos de risco. Sabendo das paixões desenfreadas dos consumidores pelo futebol, multiplicam suas expectativas de vendas e pegam pesado. Em alguns segmentos, não há do que se queixar, apesar da desclassificação. Apesar do frio, o consumo de cerveja dobrou durante a Copa; as vendas de televisores tiveram um incremento superior a 50% em relação a outros eventos, como natal e dia das mães.
Agora, já se fala no contrário do contrário. Se o aprendiz de treinador cristalizava a mediocridade grupal disciplinada, o espírito de ordem unida, o confinamento em cárcere privado, já se fala no renascer das estrelas individualistas, no relaxamento dos hábitos. O isolamento e a abstenção dos prazeres não compensaram, admitem após o fiasco.
A manipulação das paixões continua
É uma lástima. O apaixonado sentimento futebolístico do povo brasileiro será mais uma vez trabalhado no processo de manipulação sistemática. Enquanto isso, a cartolagem continuará com a mão na massa, envolvida até a medula no mais impune ambiente de corrupção protegida que palmilha a cordilheira dos podres poderes.
Dessa copa desastrosa, ficará para o cidadão comum a imagem de desespero de uma tropa em retirada: um Robinho dando decisão no adversário e um Felipe Melo pisando com toda a raiva do mundo na perna do colega, como se tais gestos brotassem daquele discurso patrioteiro que o sargentão pronunciou, com seu adjunto, ao contrariar o país inteiro com a não convocação dos craques que poderiam ter sido mais competentes no único jogo em que sua tropa enfrentou uma seleção de verdade.
Só espero que meus parceiros tirem suas próprias lições do acontecido. E abram seus olhos para além dos códigos internalizados como únicas referências de avaliação.
Para além, muito além, desse campo de batalha forjado há uma vida real que precisa ser encarada com a mesma paixão e o mesmo envolvimento produzido pela disputa glamourizada de uma bola de futebol.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.