domingo, 27 de junho de 2010

PDT com Sérgio Cabral: o brizolismo no fundo do poço (1)

Lupi age como empresário à beira da falência: a empresa sucumbe, mas ele se garante pessoalmente

“Em um desses momentos em que as traições castigavam o PDT, Brizola desabafou com Neiva Moreira, então líder da bancada na Câmara: “Qualquer dia desses, eu fecho esse partido e vou fundar um Movimento Nacional de Libertação… Os políticos nunca vão criar vergonha!”
Do livro El caudilho Leonel Brizola, de FC Leite Filho (Assessor da bancada federal do PDT)
Vejo Brizola muito mais com espelho dos sentimentos populares do que como um líder indiscutível. Desde a resistência ao primeiro golpe em 1961, que o pôs o Rio Grande em armas e garantiu a posse de João Goulart, desde as emblemáticas nacionalizações dos trustes de energia e telefonia, ele passou a incorporar as expectativas de mudança social e afirmação da soberania nacional.
Essa referência o transformou num mito, para uns, e num estorvo, num inimigo público para as elites. Ele, mais do que ninguém, passou a ser o divisor de opiniões.
Quando veio a ordem para os militares voltarem às suas atividades constitucionais, o general Golbery do Couto e Silva, articulador do golpe de 64 através do IPES e homem forte da ditadura, tratou de barrar o passos de Brizola, de impedir que voltasse com possibilidades de assumir a Presidência, como aconteceu com outros líderes exilados, como Mário Soares, em Portugal, Papandreou na Grécia, e, mais recentemente, Nelson Mandela, que se tornou presidente da África do Sul depois de 28 anos de cárcere.
Mortes suspeitas e fabricação de Lula
Qualquer um poderia aspirar ao comando do país, menos Leonel Brizola, imaginado pelo sistema como alguém sem freios, capaz de levar seu discurso nacionalista a consequências imprevisíveis. Tratava-se, em todos os códigos do poder, de uma ameaça tão perigosa que até a sua posse na inesperada vitória para o governo do Estado do Rio, em 1982, foi objeto de uma conspiração militar, isso depois da utilização dos computadores da Proconsult para desviar seus votos.
Todo mundo sabe que Lula foi inflado no contexto dessa rejeição sistêmica. Feito sindicalista somente porque o irmão – o Frei Chico (filiado ao PCB) – se achava inseguro para ser do conselho fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, na chapa de Paulo Vidal, abençoada pela ditadura, Lula logo caiu nas graças do IADESIL, a “ONG” montada com a ajuda da CIA para fabricar, subornar e cooptar os líderes sindicais no Brasil.
Lula não teria existido se não fosse pela necessidade de se ter um projeto “novo”, capaz de evitar um outro “queremismo”, como o que levou Getúlio de volta à Presidência em 1950.
No período entre agosto de 1976 e maio de 1977, o sistema já havia se livrado de três grandes líderes de envergadura nacional, que se aproximaram em 1966 através de uma frente ampla: JK foi “acidentado” em 22 de agosto de 1976, já aos 74 anos; Jango, envenenado na província de Corrientes, Argentina, em 6 de dezembro do mesmo ano, quando tinha pouco mais de 57 anos, e Carlos Lacerda, cassado em 1968 pelos golpistas que ajudou a alçar e em 1964, morreu em 21 de maio de 1977, depois de ser internado numa clínica com “uma gripe forte”, um mês depois de completar 63 anos.
Brizola escapou por duas razões: primeiro, porque era mais atento; segundo, porque o sistema precisava de um bode expiatório capaz de unir “o outro lado”. Mesmo anistiado, ele foi monitorado regularmente pelo SNI e sucedâneos, inclusive quando já se fizera governador.
Brizola quase ficou sem partido
O golpe mais certeiro do general Golbery foi tomar-lhe o PTB, entregando-o a Cândida Ivete Vargas Tatsch, uma cúmplice que tinha algum grau de parentesco com Getúlio. Convencido de que não teria futuro na velha sigla, Brizola correu contra o tempo e fundou o PDT, conseguindo a surpreendente proeza de ser eleito governador do RJ, á frente de um verdadeiro “exército brancaleone” de excluídos.
No seu primeiro governo, procurou a linha do entendimento. No primeiro ano, tinha almoços regulares com Roberto Marinho, que viria a ser seu principal algoz em função de desentendimentos atribuídos pelo caudilho à sua disposição de implementar o projeto do ensino de tempo integral, os CIEPs, e de garantir os direitos constitucionais das populações das favelas, assegurando-lhes a possibilidade da posse dos seus barracos, através do programa “cada família, um lote”.
Apesar de ter feito corrosivos acordos com velhos corruptos na Assembléia Legislativa,e de ter mais tarde se manifestado contra a CPI do Collor (o que lhe valeu um massacre por parte do PT – a divulgação de uma declaração sua infeliz na campanha de Lula em 1994 causou mais danos do que toda a campanha da Globo), Brizola permaneceu inserido no inconsciente coletivo e no index do sistema.
Sérgio Cabral sempre quis ser o anti-Brizola
Sérgio Cabral Filho era um pirralho de talento que queria ser político. Em 1986, não se elegeu deputado estadual, mas já fazia questão de se apresentar como o anti-Brizola. Eleito Moreira Franco com a fraude do Plano Cruzado, Cabral Filho foi ser diretor de Operações da Turisrio. Em 1990, conseguiu seu primeiro mandato pelo PMDB com 12 mil votos.
Já no PSDB, disputou a eleição para prefeito do Rio de Janeiro com um slogan que estava em sintonia com seu discurso antibrizolista: "Quero ser um novo Marcello sem o Brizola para atrapalhar".
Foi mal, mas em 1994, já trabalhando o segmento da terceira idade, teve uma votação expressiva para deputado estadual. Com a eleição de Marcello Alencar para governador, pelo PSDB, tornou-se presidente da Assembléia Legislativa e articulou com todo o seu poder de pressão a rejeição das contas do então governador Brizola, com o que o caudilho ficaria inelegível, para o que contou com a ajuda do PT, especialmente de Carlos Minc. Brizola sobreviveu por um voto, graças a uma atitude digna do deputado petista Neirobis Nagae (hoje fora da política) e do então prefeito Cesar Maia, que mandou os deputados do PFL saírem fora do complô que imobilizaria o velho por 8 anos.
Valeu lembrar que Leonel de Moura Brizola morreu também em circunstâncias estranhas, ao seu internado num hospital em obras, no dia 21 de junho de 2004, 24 horas de uma reunião com Garotinho, que fora convencê-lo a disputar com seu apoio a eleição para prefeito, no lugar de Luiz Paulo Conde.
Governo campeão na caça aos jovens pobres
Em seu governo, Cabral Filho estimulou a matança de jovens suspeitos das favelas e conjuntos populares, começou a murar e transformar em gueto onze favelas da Zona Sul (incluindo a Rocinha, que agora corteja), esvaziou as escolas de tempo integral, dedicou-se à terceirização da saúde através das “OS” e dedicou-se de corpo e alma aos interesses das elites, especialmente ao do triilionário-relâmpago Eike Batista, para quem desapropriou as terras de 6 mil famílias de lavradores no futuro Porto de Açu, em São João da Barra.
Para culminar, Sérgio Cabral demoliu o memorial a Brizola, que a governadora Rosinha mandara construir no final da Av. Presidente Vargas, atitude que mereceu críticas chorosas do deputado-neto do caudilho, agora aliado incondicional de Cabral.
Em suma, ninguém encarnou com tanta exuberância o antibrizolismo, no que o brizolismo tinha de mais saudável, ninguém agiu tanto contra o povo pobre como esse governador, a quem não se pode atribuir nenhum mérito administrativo. E cuja maior bandeira é a PRIVATIZAÇÃO DO AEROPORTO DO GALEÃO.
Pois, preocupado tão somente em garantir o controle do Ministério do Trabalho e das verbas do FAT,  Carlos Roberto Lupi, uma espécie de produto da depressão pessoal do caudilho,  carreirista sem voto e sem escúpulos, convocou a convenção regional do PDT para o dia do jogo do Brasil contra Portugal.
Na mesma hora em que a nação estava acompanhando o jogo mais chocho da Copa, o ministro do Trabalhoi valia-se do seu poder que o cargo oferecia para sacramentar a adesão ao mauricinho das elites, isto porque o diretório regional foi "eleito" em chapa única, graças à cassação da chapa adversária.
Com essa desastrosa adesão, o ministro pode sonhar em continuar no cargo se Dilma ganhar, mas, em conpensação,  vai ajudar a enterrar o partido que um dia foi a maior força do Estado. Voltarei ao obtuário do PDT chapa branca, que, inteiramente dopado pelas migalhas do poder,  está indo para o fundo do poço.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O dunguismo que faz o jogo das marcas e alimenta a idiotia pátria

Agressão a um profissional é apresentada de má fé como um conflito com seus patrões

“Dos craques preferidos pelo mercado apenas Kaká estará na Copa. Isso vem abrindo espaço para “novos garotos” propaganda, tais como Luiz Fabiano e Robinho. Mas quem mais ganhou espaço com essa “ausência” foi o técnico Dunga, ao ponto de praticamente tornar uma marca registrada o lance do Guerreiro, incorporada pela cerveja patrocinadora da Copa e da Seleção, a Brahma”.
Fernando Fleury, Professor de Marketing - especializado em Marketing Esportivo (no site ESPN Brasil).
Para quem considera Sarney e Renan Calheiros bons companheiros, nada é mais coerente do que sair em defesa de Dunga em suas agressões autoritárias, em sintonia com o novo “pra frente, Brasil” expresso com todas as letras no discurso em dueto que o treinador inventado pela cúpula da CBF pronunciou após anunciar sua (?) desastrosa lista de convocados para a Copa em andamento.
Como a mediocridade primária impulsiona os arrivistas que se acham detentores de franquias ideológicas, sobre as quais, aliás, blasfemam na maior sem-cerimônia para explicar a índole adesista, o oba-oba acrítico, o sonho (ou realidade) de uma boquinha no coração de mãe da máquina pública, arautos auto-designados invadiram o território livre da internet com declarações de amor ao treinador, como se suas agressões a profissionais no correto exercício do ofício fossem demonstrações de confrontos com os patrões, esquecendo-se, por conveniência ou idiotia, que o jornalista agredido poderia ser de qualquer órgão da mídia: os palavrões agressivos se dirigiram a um trabalhador especializado e não ao complexo empresarial onde presta serviço no momento.
A preocupação de blindar Dunga, assim como Lula blindou o banqueiro Henrique Meireles no Banco Central, tem mais a ver com a imprudente politização da seleção brasileira de futebol, tal como nos idos do general Médici.
A paranóia dos que nunca comeram mel e agora se lambuzam tem origem no medo de que um fiasco dos escolhidos de Dunga (e de Ricardo Teixeira, patrocinadores e "empresários" inescrupulosos) possa repercutir negativamente e afete a “onda de sucesso” cuja âncora é a transformação da caritativa “bolsa-Família” no remédio para os pobres sem emprego e no fortalecimento do lumpesinato como arma de imobilização de um proletariado vendido pelos cabeças de seus sindicatos.
Um treinador tirado do bolso do colete
Todo mundo sabe que Dunga nunca treinou nem time de várzea antes de ser pinçado para a seleção brasileira, assim como dona Dilma não disputou nem eleição de síndico antes de ser imposta ao PT e aos partidos premiados com boas prebendas como compensação pelo grito parado no ar.
Sem histórico escolar, Dunga caiu sob medida como testa de ferro dos grupos econômicos que manipulam o futebol, a grande paixão dos brasileiros, onde rola muito mais grana do que aparece, até porque a orgia de sua corrupção especializada está a salvo dos controles de tribunais de contas e dessas ONGs focadas bitoladamente num único alvo, como se a má conduta não tivesse enodoado toda a alma da sociedade e não acometesse todo gestor de dinheiro de terceiros.
Houvesse o mínimo de escrúpulo, Dunga jamais poderia ser sido chamado para comandar um grupo que poderá levar ao orgasmo ou à depressão 190 milhões de seres humanos, causando sensações colaterais de conflitantes efeitos múltiplos.
Ainda outro dia, Dunga jogava ao lado de alguns dos atletas que iria “escolher” como a nata do nosso futebol. Participara da guerra silenciosa de egos, no esforço individualista de cada um de ser a peça de maior valor no leilão que o certame alimenta como se fosse, talvez, mais importante do que a própria prestação de serviços ao conjunto.
Nunca foi brilhante, nunca se destacou como um Pelé, um Garrincha, um Zico, um Sócrates, um Ronaldo, um Maradona, um Zidane, um Beckenbauer, e muitos outros que realmente esbanjaram talento e domínio total dos segredos das quatro linhas.
Sempre quis ser o “operário-padrão”, ter sua foto exposta como o mais esforçado, o que cobrava raça dos parceiros, como se futebol fosse apenas um enduro. Mas mesmo tendo sido “capitão” em uma Copa, isso não seria o bastante para preterir outros profissionais com mais chão e dotes reconhecidos para o ofício de treinar homens de talento, mas motivados pelo trágico de uma profissão que os aposenta antes dos quarenta, obrigando cada um a fazer seu dourado pé de meia por todos os meios e de forma muito pessoal.
Apenas um sargentão da bola
Talvez, ao catapultá-lo a um mister que desconhecia, o controvertido comando da CBF partiu do princípio de que temos uma tal fartura de talentos que só precisavam de um sargentão cumpridor e repassador de ordens, cuja ascensão se exauria por si. Como alguns ministros e secretários deslumbrados desses governos aí, cumprir o script num jogo de aparências já seria o bastante. O resto se resolveria no gramado pelo escalados, até porque a transformação do futebol em arena de gladiadores mercenários é um fenômeno globalizado.
Fenômeno, aliás, que está expondo algumas matrizes do futebol, afetadas pela condição de países importadores de mão-de-obra, destacando-se aí, entre outros, a Itália, onde a Inter de Milão ganhou a Taça Europa com um elenco exclusivo de forasteiros.
Em geral, jornalistas e radialistas que cobrem futebol (e polícia) têm uma tendência a um estranha cumplicidade, até porque alguns acabam ombreados com os cartolas ou até ocupam seus lugares, como Kleber Leite, no Flamengo.
O incômodo de jornalistas independentes
A existência de um bom número de profissionais independentes, alguns, como o Cajuru, sacrificados por levarem a fundo suas convicções, é um excrescência que incomoda o esquema montado em torno do futebol, área livre para mafiosos e canalhas.
Jornalistas de verdade ameaçam o jogo sujo que se esconde na movimentação de milhões de dólares e euros e acabam por tencionar os que aparecem no proscênio dessa grande farsa produzida por empresas que sabem tirar proveito da visibilidade ganha com a canalização da ansiedade da população apaixonada.
Mais do que nunca, ante o envolvimento de interesses insaciáveis de empresas especialistas no trabalho escravo (seja dos operários paquistaneses ou dos ídolos das seleções) é preciso estimular o jornalismo crítico e independente.
As agressões de baixo nível ao jornalista Alex Escobar, proferidas, curiosamente, por quem guarda com o príncipe operário uma certa semelhança no achincalhe do vernáculo, devem ser vistas como sintomas de uma doença grave que se reflete no desempenho medíocre dos craques escolhidos.
Desempenho que pode até dar certo, o que acho quase impossível, mas que certamente seria mais garantido se tivessem sido convocados craques que não tiveram tempo de puxar o saco do Dunga ou contassem com “empresários” e patrocinadores influentes.


domingo, 20 de junho de 2010

Com a “ficha limpa” como panacéia, a “urna limpa” ficará para quando Deus quiser

"Eu não acredito no processo de eleição. Se o governo quiser, elege até um poste como presidente da República".
Leonel Brizola, 30 de maio de 2002
A mediocridade, a má fé e a informação de superfície, que caminham de braços dados nestes dias de esterilidade da decência, estão apresentando a “lei da ficha limpa” como a panacéia para os delitos crônicos de uma vida política eivada dos piores vícios.
É como se, daqui para frente, estivéssemos protegidos por um antídoto de eficácia fatal, capaz de limpar a área e afugentar os maus políticos.
Festeja-se em feéricas palavras, induzindo-nos à sensação de segurança moralizadora. Do jeito que falam, não precisa mais nada. O pente fino da Justiça Eleitoral separará o joio do trigo pela simples constatação que os maus elementos estarão catalogados a partir da condenação em segunda instância – ou por órgão colegiado.
Oferece-se ao povo cansado de tantos escândalos o vinho de mais uma inebriante ilusão de cura.
E o povo, que só raciocina sob o turbilhão da mídia, respira fundo e diz: enfim, vencemos.
É uma lástima.
Sarney, Renan e a máfia têm ficha limpa
Essa lei não deixa de ser um passo, apesar de distorcida na semântica da redação final, mas é apenas um passo. E nada mais.
Se o sindicato do crime político estivesse todo catalogado, se os corruptos estivessem sido levados às barras da Justiça ou se houvesse um porvir prometedor, podia até ser que certos vândalos viessem a pôr a viola no saco e saíssem de mansinho para não serem pilhados a olho nu.
Mas e a grande malta de honoráveis bandidos que permanecem à sombra, até porque têm estreitos laços com proeminências desse intocável poder judiciário?
Dá para acreditar numa lei de ficha limpa que não alcança nem de perto figuras como José Sarney, Renan Calheiros, Eduardo Azeredo, João Paulo Cunha, Jader Barbalho e Romero Jucá?
Antes, pelo contrário: do jeito que ficou, quem está ameaçado é um homem de bem, Jackson Lago, o ex-governador do Maranhão que ousou derrotar a grei poderosa, cassado num processo em que seu acusador era nada menos do que um ex-ministro do Supremo e ex-presidente do TSE, que faz pouco ainda estava julgando nas mais altas cortes.
Ameaçado está logo aquele que interrompeu quase meio século de trambiques explícitos e carimbados com o brasão dos seus autores.
Já o clã que ganhou no tapetão o controle do governo estadual parece hoje mais forte do que nos tempos em que seu capo presidia o “partido” da ditadura. Tanto que ordens expressas de Lula puseram sob o tacão de suas mãos sujas o que restava de patrimônio moral do petismo, inclusive o legendário Manoel da Conceição, sobrevivente de épicas lutas no campo e um dos fundadores daquilo que se dizia ser o estuário da pureza política em nosso país.
Até me pergunto se a repentina rapidez com que a lei foi votada e a interpretação sumária do TSE não alimentam uma certa coincidência: vão ceifar candidatos que ameaçavam governistas, como Sérgio Cabral e a filha do todo poderoso, tão convencido da própria força que, sendo o senhor dos anéis no Maranhão, ganhou a cadeira de senador pelo Amapá, onde, com toda certeza, não tem o seu real domicílio eleitoral.
Essa lei, ao contrário do que aparenta, é estranhamente esdrúxula. Sabendo-se que a morosidade é a marca registrada de uma Justiça que hoje empilha 70 milhões de processos, alguns com mais de vinte anos, subordina aos seus prazos proteláveis a constatação da ficha suja.
Renan Calheiros, cujas peripécias o levaram a renunciar à Presidência do Senado, mantendo seu mandato sabe Deus por que tipo de acordo, está lá, lépido e fagueiro, como candidato da santa aliança e com as bênçãos do Papa Luiz Inácio, primeiro e único, num jogo tão pérfido que, para garantir sua volta triunfal ao tapete azul das falcatruas, empurraram para ser candidato a governador o pedetista Ronaldo Lessa, expondo-lhe ao mesmo tempo a um novo confronto com o preferido da corte, o conhecidíssimo Fernando Collor de Melo.
E quando teremos “urnas limpas”?
Enquanto isso, o achincalhe ao processo eleitoral permanece impávido e “imexível”, com as urnas eletrônicas protegidas de qualquer auditagem e ainda expostas ao “voto terceirizado”, apesar da existência de farta tecnologia e equipamentos para a introdução, em nível nacional, do sistema biométrico de identificação, pelo qual o eleitor só vota depois de “tocar piano” no aparelho identificador.
Embora essas urnas tenham demonstrado total vulnerabilidade, inclusive em simulação promovida pela TSE, com elas ninguém mexe e ponto final.
Oferecem a curto prazo a exigência de ficha limpa na Justiça de segunda instância como remédio, mas protelam a perder de vista tanto a impressão do voto como a identificação digital – práticas em países demonizados como a Venezuela e Bolívia.
Por que tanta resistência a esse controle profilático?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não tenho mais dúvidas: dessa estou fora como candidato

Informo que, apesar das dezenas de manifestações de apoio recebidas, decidi não participar desse processo eleitoral como candidato.
Quero,  em primeiro lugar, agradecer aos que postaram opiniões no blog ou me responderam diretamente. Oportunamente, direi com mais detalhes o que me levou à desistência.
Mas adianto, desde já, que o não envolvimento direto me permitirá discutir com os amigos o que fazer. Com certeza, terei candidatos de presidente da República a deputado estadual, segundo os meus próprios critérios de FICHA LIMPA (Não basta ter sido condenado: tem muito corrupto e negocista à salvo da Justiça).
O pior que pode acontecer, a meu ver, é não votar em ninguém. E também não me parece lúcido optar pelo VOTO DE PROTESTO em quem não tem condições de vencer.
Cabe relatar aqui que pesou muito na minha decisão a convicção, já manifestada anteriormente a alguns parceiros, de que cometera um grande erro na opção partidária.
Nesse nove meses de nova casa, fiquei do lado de fora, sabendo de suas decisões pelos jornais. Amarguei um grande desconforto, o isolamento,  no partido que escolhi segundo uma avaliação influenciada por relações pessoais, critério absolutamente anômalo para a minha personalidade e meus comprometimentos ideológicos.  Mas esperava assim ter uma perspectiva de  espaço mais amplo para desfraldar nossas bandeiras.
É claro que hoje no Brasil os partidos perderam inteiramente suas essências, suas responsabilidades gregárias numa sociedade plural. Em geral, têm "donos", são controlados por quem tem mais bala na agulha e é mais rápido no gatilho. 
Infelizmente, também, (quase) todos os políticos só têm olhos para o poder a qualquer preço, e o poder, no caso, para seu próprio ganho pessoal. Isso, eu pretendo discutir aqui mesmo, em meu blog.
Irei até mais além: será que realmente estamos vivendo numa democracia?
Uma das minhas idéias, de imediato, é ativar um grupo de debates, defesa dos dieitos do povo e formação política, valendo-me de algumas ferramentas já existentes como a Associação Brasileira do Cidadão. Um grupo que se reúna tanto pela internet como em núcleos que poderão se espalhar pelo país. Será possível ou estou sonhando?
Voltarei a vocês em breve.
Pedro Porfírio

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Após a perplexidade, a dúvida: participar ou não do processo eleitoral

Sem um  tostão para gastar numa campanha, dependeria do apoio de multiplicadores voluntários
Por quase dois meses, a perplexidade, o sentimento de impotência e a percepção da inutilidade da nossa indignação me prostraram.
O desânimo abateu-me e me afetou por inteiro. Escrever por escrever não poderia converter-se numa mera terapia ilusória. Na rotina de pôr o dedo nas feridas, de dar nomes aos bois, passei a constatar que acumulava incompreensões e desafetos. E temia a ausência do contraponto. Isto é: minhas palavras batiam e resvalavam, perdendo-se no tempo e no espaço, sem o eco capaz de influir no processo.
Essa sensação pessimista me imobilizou. Não tinha nem como expressar a falência múltipla do pensamento crítico. Sequer sabia ser esse um fato consumado. Ou apenas uma depressão passageira.
Nesses 54 dias, muita coisa aconteceu e não me senti com forças e convicções para opinar. A reação dos destinatários das minhas palavras já parecia codificada: dependendo do que dissesse, poderia receber a aprovação de uma corrente e a desaprovação de outra. E vice-versa. Passei a temer que escrevia para pessoas já fechadas em suas idéias e interpretações do processo político.
Não foi fácil retomar a palavra.
Hoje, volto até você porque o país vai viver mais um momento transcendente de sua história. Mais de 130 milhões de brasileiros serão chamados a escolher seus mandatários, de deputados estaduais até presidente da República.
Tenho sido cobrado diante desse embate já em andamento. Os que me abordam, nas raras vezes que saio de casa, ou mesmo pela internet, lembram da necessidade de uma participação efetiva, até pela própria vivência nos últimos anos, quando desempenhei mandatos em quatro legislaturas, além de ter exercido cargos no primeiro escalão do governo da cidade do Rio de Janeiro sem nunca ter me deixado corromper.
Por algum tempo, argumentei que já não há espaços para pessoas honestas na vida pública. Ao predomínio de políticos corruptos e corruptores, somam-se o baixo índice de exigência dos eleitores, a mistificação como arma de sedução, a alienação alimentada pelo sistema e a ascensão da mediocridade.
Criaram-se mitos aparentemente invencíveis. Nenhum político hoje tem coragem de dizer que esse “bolsa-família” é um engodo para forjar currais eleitorais, é a consagração da política de migalhas, da formação de substratos sociais parasitários, a perda da noção de que o sustento deve prover do nosso trabalho.
A ninguém ocorre pedir um prazo para a transformação da “caridade pública” em frentes de trabalho, nas quais os beneficiados fariam sua parte, recuperando a dignidade perdida com a contraprestação de algum serviço: além do que, integrando-se na atividade produtiva, estariam aliviando a carga daqueles que a ela se dedicam a um custo cada vez mais sacrificado.
Os que falam sobre a corrupção que campeia como uma erva daninha ficam na superfície e não o fazem com a convicção necessária para promover um efetivo desmonte dos poderosos bolsões que a transformam numa  regra demolidora. É como se fossem contra a corrupção dos outros – com os amigos e com seus desejos pessoais são condescendentes.
Cada dia são mais agressivos os atos de corrupção, que não se limitam somente aos poderes oficiais: hoje, você começa a ser roubado na conta do seu condomínio, infestado pelas terceirizações direcionadas,  e pode ser ludibriado a cada momento, exigindo uma atenção redobrada de cada um.
Falam da corrupção dos políticos, mas não ousam tocar nas malhas que se espalham pelo poder judiciário, cujo controle externo de fato ainda não existe. Quando um desembargador é flagrado e preso em ruinosas práticas, sua punição é restrita à “aposentadoria precoce”.
E não ousam falar na rede de corruptos privados, empresários que enriquecem da noite para o dia, e integrantes de ONGs montadas apenas para sugar dinheiro público: nos últimos oito anos, essas arapucas passaram de 25 mil para 350 mil, profissionalizando a solidariedade e comprometendo o trabalho sério daquelas, cada vez mais raras, que realmente agem de boa fé.
Na questão social, não têm coragem de tocar em temas sustentados por dogmas. Nada de concreto se faz em relação ao crescimento irracional da população – ninguém quer admitir a necessidade de um programa amplo de paternidade responsável, que inclua apoio às famílias que precisam limitar a prole, providência que salvou alguns países populosas de uma verdadeira catástrofe.
E na voracidade do assalto do Estado em impostos escorchantes, ninguém admite fórmulas de redução, porque os políticos se imaginam fazendo uso dessas fortunas tributárias. Em todos os casos, cada um puxa brasa para a sua sardinha, esquecendo que o pomo da questão é a roubalheira: metessem menos a mão no dinheiro do contribuinte, o Estado faria mais e por menos.
Nessa farra de impostos, há pelo menos um que deveria ser extinto já – o laudêmio, um herança dos tempos feudais, do primeiro império, pela qual moradores de boa parte das cidades têm que pagar a mais 5% de taxa na compra de um imóvel, isso sem falar no ITBI, fixado arbitrariamente pelas prefeituras.
Para você ter uma idéia, estudos recentes revelam que a própria renda per capita da população é corroída pelas práticas de propinas, superfaturamentos, favorecimentos e outras formas de apropriação ilegal dos altos impostos que pagamos: se estancássemos as falcatruas, a renda per capita anual dos brasileiros passaria dos atuais R$ 14.317,00 para R$ 16.551,00 – isso partindo da tímida constatação de que as perdas anuais com o práticas deletérias são estimadas entre R$ 74,7 bilhões e R$ 124,3 bilhões.
Da mesma forma, ninguém quer encarar com seriedade dois dos maiores desafios do país: a educação e a saúde. No primeiro caso, todos os governos, em todos os níveis, burlam os percentuais destinados ao ensino público e nada acontece. Além disso, por falta de mobilização, a destinação de recursos configura um desprezo total sobre os ensinos fundamental e médio.
Na área da saúde, até por influência corporativa, boicotam a implantação dos médicos de família, a medicina preventiva, enquanto incham a indústria farmacêutica, limitando a produção de genéricos e de medicamentos de laboratórios públicos. Por conta disso, temos hoje no Brasil mais farmácias (55 mil) do que padarias (46 mil).
Em suma, a mistificação e o engodo fazem a festa, ludibriando eleitores pouco atentos e oficializando um estado de mentiras e de ilusões.
Daí a necessidade de pedir mais uma vez sua opinião a respeito do que eu devo fazer ante a cobrança de alguns segmentos sobre minha possível contribuição no caso de disputar mais uma vez um mandato – agora de deputado federal.
Tenho até o dia 19 para decidir. Se você se dignar a me responder, e se sua resposta for positiva, por favor, informe de que forma você poderia me ajudar a desfraldar as bandeiras de uma mudança radial de hábitos e de políticas públicas.
Sem um tostão para gastar numa campanha, dependeria fundamentalmente de uma rede de multiplicadores voluntários, que se tornariam parceiros de um mandato marcado pela transparência, a coragem de encarar os canalhas e a criatividade na formulação de alternativas para livrar o povo brasileiro dos políticos corruptos e dos grilhões da ignorância, do atraso e da insegurança social.
Espero sua manifestação.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.