quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A deprimente agonia crepuscular do "brizolismo de resultados"


A Executiva adesista do PDT: a lamentar mudança de postura de Alceu Collaes, que ganhou uma diretoria na estatal Furnas.

"Capitular agora em relação a essa camarilha que vem sendo desmascarada diariamente, por todos os poros, é promover, de forma vergonhosa, o segundo enterro do Brizola. O velho não merecia isso".
Da minha coluna na TRIBUNA DA IMPRENSA, publicada em 14 de novembro de 2005.

Na mesma semana em que os brasileiros serão lembrados da passagem do 88º aniversário do nascimento de Leonel Brizola, a Executiva Nacional do PDT formalizou o que todo mundo já sabia: o partido do caudilho embarcará de mala e cuia na candidatura de Dilma Rousseff, a mesma que, há exatos dez a nos, trocou vinte de militância no brizolismo, onde sempre foi tratada com carinho e afeto, pela permanência na Secretaria de Minas e Energia do petista Olívio Dutra, no maior e mais contundente ato coletivo de traição no trabalhismo gaúcho.
Esse anúncio, que um deprimido senador Cristóvão Buarque limitou-se a ironizar (nem mesmo o PT se definiu oficialmente) faz parte de uma grande farsa, em benefício tão somente do ministro Carlos Roberto Lupi e da meia dúzia de lupistas aquinhoados com periféricas prebendas  e alguns favores de um poder sem escrúpulos de espécie alguma.
Fosse só isso, eu diria com uma análise amarga de todo um processo de decadência partidária: bem, o Lupi, que os ladinos do arrivismo alçaram a um ministério da República, é o último subproduto do próprio caudilho, que fez dele ao mesmo tempo presidente e tesoureiro do partido, na hora em que se sentia abandonado por antigos parceiros e marginalizado com uma coleção de quatro derrotas sucessivas, das quais a mais humilhante foi ter menos votos para presidente em 1994 do que o folclórico Enéas.
Mas essa decisão impensada afigura-se como um embalado haraquiri, prenunciando uma derrota eleitoral letal, um autêntica bancarrota, com os mesmos efeitos tóxicos do vexame de 1994.
Abrindo mão de outros caminhos mais consequentes, o que resta do brizolismo assume de vez o inexpressivo papel de linha auxiliar, sem nada a declarar, sem discurso próprio, sem bandeiras e sem dignidade, jogando na mesma vala a penca perdida de mandatários restantes, alguns, como o governador cassado do Maranhão, Jackson Lago, brizolista de primeira hora, mortalmente traído e entregue às feras.
Desde a morte de Brizola, que sempre se deixou contaminar pelo culto à sua personalidade, pelos bajuladores de ocasião, e nunca soube usar seu carisma para a construção de um partido de verdade, sabia-se que o PDT perdera seu cérebro, sua alma, seu norte, sua própria razão de ser, eis que a agremiação em si era um mero apêndice do líder messiânico e se bastava com a exploração de sua popularidade, outrora arrebatadora.
Um prontuário de fracassos eleitorais
Carlos Roberto Lupi surgiu do nada. Perdeu todas as eleições que disputou, de vereador a governador, com uma única exceção: em 1990, graças aos ingentes esforços do seu “padrinho”, o então prefeito Marcello Alencar, conseguiu ser eleito deputado federal com pouco mais de 20 mil votos, ficando como o penúltimo da legenda, que também se beneficiou do retorno triunfal de Brizola ao governo do Estado do Rio.
Disputou a primeira eleição em 1982, ficando em vigésimo lugar na chapa de vereadores do PDT. Em 1986, teve uma votação pífia para deputado estadual. Em 1994, não conseguiu retornar à Câmara Federal. Em 1998, foi ser suplente do senador Saturnino Braga, com o compromisso, desconhecido pelos eleitores, de assumir na segunda parte do mandato, o que gerou um desconfortável bate-boca, porque o senador do PSB deixou de “honrar o acordo”.
Já em 2002, com duas vagas para o Senado, ficou em nono lugar, com parcos 182.482 sufrágios, ou 1,2% dos votos válidos. Vexame semelhante passou em 2006, ao candidatar-se a governador: obteve 125.735 votos (1,52%).
Com esse prontuário eleitoral, mas no comando do partido do qual alijou figuras históricas, como o ex-deputado José Maurício, o primeiro com mandato a aliar-se a Brizola, foi feito ministro do Trabalho por Lula, numa jogada de mestre: o seu descredenciamento como expressão política e seu despreparo ostensivo para o cargo faria dele o mais subserviente dos ministros – alguns o chamam de bobo da Corte – operando sem pestanejar a liquidação do brizolismo como força autônoma e eliminando o  potencial competitivo no mesmo “campo popular” dominado pelo PT.
Para isso, instrumentalizou o preposto de meios para explorar a medula fisiológica dos correligionários, servindo-lhes os ingredientes da subalterna "bolsa-adesão" em convenientes doses balanceadas.
Ajudando Lula e sacrificando os correligionários
A precipitação da declaração de apoio a Dilma Rousseff não se deu por acaso. É do interesse do presidente Luiz Inácio desarticular candidatos na “base de sustentação”, como Ciro Gomes, do PSB, que poderiam se reanimar com três fatos recentes: 1. A vitória do candidato da direita no Chile, contra o situacionista que contava com a aceitação de 80% da presidente atual; 2. O fracasso de bilheteria do filme montado para ser a uma apaixonante peça de propaganda do “lulismo”, o que mostra que a sua popularidade é relativa; 3. E a reaglutinação dos partidos oposicionistas no Estado do Rio, com a possibilidade da candidatura de Gabeira, que dará uma nova feição ao quadro no terceiro maior colégio eleitoral do Brasil, afetando, principalmente, o aliado Sérgio Cabral.
Como está absolutamente despersonalizado, o PDT cumpriu sua tarefa e o ministro pode manter seu sonho de, continuando no cargo até o fim do mandato de Lula, ser reaproveitado segundo a mesma equação de 2007 no caso de uma eventual vitória de Dilma Rousseff.
Com isso, será praticamente impossível que o PDT alcance os 5 milhões de votos que o preserva na desmoralizada cláusula de barreira. Uma análise preliminar mostra que sua bancada federal poderá “sumir na poeira”: dos 6 senadores, restará João Durval, da Bahia, e Acir Gurgacz (que entrou no lugar do adversário cassado) já que Osmar Dias, do Paraná, quer disputar o governo do seu Estado; Cristovam Buarque levará uma boa rasteira em Brasília, Patrícia Saboya, do Ceará, nem sabe se disputará a reeleição, e Jefferson Praia, do Amazonas (suplente de Jefferson Perez), não tem condições de fazer uma “carreira solo”.
Na Câmara Federal, o quadro é mais confuso. Mas no Estado do Rio é certo que tanto Miro Teixeira como Brizola Neto estão ameaçados de sobrarem pelos candidatos do interior: Arnaldo Viana, de Campos, o mais votado em 2006, Sérgio Zveiter, candidato pessoal do prefeito Jorge Roberto da Silveira, de Niterói, o irmão da prefeita de São Gonçalo e o irmão do prefeito de São João de Meriti. Não se sabe ainda se a família do bicheiro Anísio da Beijafor, que entrou para o PDT, terá federal, além de Simão Sessim, do PP.
No Rio, não será surpresa se o PDT se juntar a Sérgio Cabral, o preferido de Lula, desfigurando-se ainda mais. No Rio Grande do Sul, o presidente ocasional do partido, Vieira da Cunha, também não vai bem das pernas. Na Bahia, o partido perdeu seus deputados federais diante da imposição de coligação com o PT, situação parecida em Mato Grosso do Sul.
Em São Paulo e Minas Gerais a trapalhada é mais complexa porque o PDT está nas bases aliadas dos governadores tucanos. E o prefeito de Campinas, Doutor Hélio, não fala mais de sua pretensão de disputar o governo paulista.
Por toda uma variedade de dificuldades, o PDT não poderia dar passo mais infeliz do que declarar seu atrelamento à candidatura de Dilma Rousseff, limitando-se em sua opção, sem qualquer verniz ideológico, em termos de “compensação” ao sonho pessoal do ministro Carlos Lupi, que não pretende se candidatar a nada, para evitar uma exposição de sua absoluta falta de representatividade. Mas, sim, permanecer no cargo em que já ganhou 12 quilos.
E com isso, o brizolismo vive sua agonia crepuscular.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Pobre de ti, Haiti

"Recebo muita pressão para usar a violência, para ser mais robusto na utilização da força, principalmente dos países mais interessados na área e cuja atuação de força de paz difere da nossa”, General Augusto Heleno Ribeiro, primeiro comandante da ONU no Haiti, apontando como autores dessa pressão os Estados Unidos, Canadá e França, em audiência na Câmara Federal, em 2 de dezembro de 2004.
"O grande risco do Haiti não é a falta de segurança. A ameaça é na área política, social e econômica, que pode voltar a gerar violência. Mas a realidade é que hoje não é a violência que está impedindo a governança. Hoje, é a falta de resultado econômico e social que ameaça gerar nova violência".
General Carlos Santos Cruz, então comandante da ONU no Haiti, em 19 de março de 2009.
“Não tem lógica que as tropas americanas estão pousando no Haiti, se o Haiti está pedindo é ajuda humanitária e não tropas. Seria uma loucura para todos começar a enviar tropas para o Haiti”.
Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, em 15 de janeiro de 2010.
"A revolução haitiana foi o maior movimento negro de rebeldia contra a exploração e a dominação colonial das Américas. Mesmo com o assassinato de Toussaint L'Ouverture pelos franceses - que haviam substituído os decadentes espanhóis como colonizadores da ilha -, a revolução triunfou e fez realidade, contra a França, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A abolição da escravidão, não contemplada pelos revolucionários de 1789, foi conquistada pelos ''jacobinos negros'' do Haiti".
Emir Sader, 4 de janeiro de 2004

Operando como forças policiais, os soldados brasileiros da ONU estão sendo desbancados  pelas tropas de intervenção dos Estados Unidos

Por sob os escombros do terremoto e das caóticas ações de socorro que estão sendo mostradas fartamente ao vivo e a cores, num espetaculoso “reality show” de deixar à míngua o novo “Big Brother”, há uma outra terrível catástrofe que pode culminar com a “refundação” do Haiti como uma colônia de novo tipo dos Estados Unidos, cujos soldados, armados até os dentes, estão invadindo a parte ocidental da antiga ilha Quisqueya, batizada de “hispaniola” por Cristóvan Colombo, enquanto os efetivos de 17 nações pousados ali em 2004 com mandato da ONU (Argentina, Benin, Bolívia, Brasil, Canadá, Chade, Chile, Croácia, França, Jordânia, Nepal, Paraguai, Peru, Portugal, Turquia e Uruguai) estão sendo obrigados a escolher entre o recolhimento dos mortos e policiamente das favelas, ou a “saírem à francesa” de volta a seus quartéis de origem.
Um golpe entre os escombros
Essa é a mais patética constatação de um golpe explícito como corolário da tragédia que fez desmoronar o Estado haitiano, já minado por controle remoto desde Washington, até agora através da Minustah - Missão da ONU para a Estabilização do Haiti, sempre sob o comando de um oficial brasileiro, agora  o quinto chefe desde que o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira lá chegou em 1 de junho de 2004.
Para garantir o êxito de sua operação, as tropas enviadas por Obama assumiram de imediato o controle do aeroporto da capital e de todas as pistas de pouso do país, como ensina o manual de guerra, agindo com tal desenvoltura que até aviões com alimentos da ONU e outros com hospitais de campanha e ajuda do Brasil foram impedidos de pousar, a fim de facilitar o desembarque da soldadesca ianque e o embarque para área segura dos norte-americanos e seus amigos locais que sobreviveram à destruição.
Tudo está acontecendo na maior sem-cerimônia, ante o silêncio do Conselho de Segurança da ONU e apesar da recambolesca aparição na área, por alguns dias, em indumentária militar, do advogado Nelson Azevedo Jobim, o exibido e deslumbrado ministro da Defesa do Brasil.
Talvez, já nestes próximos dias, dez mil homens treinados para as guerras do Iraque e do Afeganistão estarão operando com equipamentos de última geração no plano de ocupação militar, sobrepondo-se à missão internacional que em 2008 já custara US$ 2.176.772,00 (R$574.914.065,51 erário brasileiro).
Esse processo inédito e indevido de ocupação se dá em meio a um ambiente de absoluta paralisia, quando Porto Príncipe se converte numa cidade fantasma, ante o sumiço de suas autoridades, em todos os níveis, a começar pelo presidente René Préval, um títere acovardado e destituído de toda e qualquer poder de mando.
Presidente, aliás, já convertido em boi de presépio, com a superposição das ONGs ligadas diretamente aos Estados Unidos, as verdadeiras destinatárias da “ajuda internacional” de U$ 1 bilhão por ano, o que levou em 19 de março de 2009 o general brasileiro Carlos dos Santos Cruz, então no comando da Minustah, a apontar a corrupção desenfreada como o maior problema do Haiti naquele momento.
A ocupação militar não se dá como uma “emergência”. Quem estava lá nesses anos em que as forças internacionais “legitimavam” o regime títere, montado quando, em 29 de fevereiro de 2004, Estados Unidos e França resolveram sequestrar e mandar para a África o presidente constitucional, o ambíguo ex-padre Jean-Bertrand Aristide, já vislumbrava o “Plano B”, previsto desde a suspeita substituição do general Carlos dos Santos Cruz, em abril de 2009, um mês depois da entrevista incômoda que deu ao jornal “Estado de São Paulo” (19 de março) denunciando os desvios da ajuda externa.
Essa interferência, aliás, já havia afetado a própria implantação da tropa internacional, conforme denúncia do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, em audiência oficial na Câmara dos Deputados, que por pouco não caiu ao provocar um “incidente diplomático”, quando afirmou que vinha sofrendo “muita pressão de países como EUA, Canadá e França para usar a violência”.
Tirando proveito da tragédia
Saber fazer a leitura das afirmações dos generais brasileiros significa entender o móvel da perversa atitude dos Estados Unidos de aproveitarem a declarada falência do Haiti para implantarem seu próprio projeto de ocupação de uma nação amaldiçoada desde o precoce nascimento, em 1804, por ter sido fruto de revolta dos escravos, trazidos à força do Togo e do Daomé, que conservavam sua cultura ewe-fon*, cuja história tem muito a ver com a natureza do povo haitiano até hoje.
O terremoto só precipitou o plano de ocupação do Haiti, mantido de propósito como a nação mais pobre do Continente, sobre cujas áreas há um projeto finalizado por Bil Clynton, baseado na implantação wm regime de sweatshops”  de confecções produzindo com mão de obra barata para os Estados Unidos em zonas livres de exportação, e da internacionalização da costa de Labadee, no norte do país, alugada pela Royal Caribbean até 2050, que será transformada numa zona livre de turismo.
O abalo sísmico afetou o a idéia de ocupação lenta e gradual, por ter eliminado todos os mecanismos de controle institucional do Haiti. Os especialistas do Pentágono e da CIA acreditam que à falta de uma intervenção militar com poderes de extermínio – recusada pelos oficiais brasileiros – o país se abrirá para uma nova revolta dos escravos”, agora de conteúdo social revolucionário, com reflexos imediatos na vizinha República Domicana.
Os saques já são vistos pelos norte-americanos como primeiros passos de uma revolução que poderá eliminar as elites já afetadas gravemente pelas perdas de 12 de janeiro e implantar um estado social sob influência da massa faminta.
Não havendo estrutura repressora e ante o enfraquecimento da elite dominante, o Haiti poderá ser um campo fétil para um regime nacionalista baseado nos sonhos dos seus fundadores, o qual o ex-padre desistiu de implementar, após o fim da era Duvalier (pai e filho ditadores cruéis e fiéis aos EUA).
Por mais que nossas atenções ainda estejam presas à tragédia que comoveu o mundo inteiro, cabe já ir detectando o que poderá acontecer de igualmente trágico nos dias seguintes. Nenhum país decide de repente mandar para outro uma tropa de dez mil homens, bem maior do que o contingente da ONU, sem as intenções coloniais, que estão nos cérebros doentios do império decadente.

*EWE (êuê) – Povo originário do reino de Oyo que no século XIII (1300) migraram para a cidade de Ketou no Dahomey, fugindo das constantes guerras e da perseguição dos sacerdotes. Eles estabeleceram sua própria identidade como um grupo e batizaram a cidade de Ketou como Amedzofe (origem do mundo) ou Mawufe (casa de Deus). No princípio do século XIV (1400) os Ewe se viram acuados novamente por inúmeros ataques do exército de Oyo e resolveram dividir-se em dois grupos. O primeiro moveu-se para Tado em 1450 e o segundo permaneceu em Ketou, fugindo mais tarde também para Tado onde permaneceram pouco tempo, indo para Notsu em 1600. região central de Tado.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Só para lembrar: general brasileiro denunciou corrupção como maior problema do Haiti


Um mês após essa entrevista, o general Santos Cruz foi afastado e substituído no comando das tropas da ONU pelo general Floriano Peixoto, que estava em Nova York no dia da tragédia.

19 de março de 2009
General Carlos dos Santos Cruz pede mecanismo de controle para combater desvio de recursos internacionais
Jamil Chade - O Estado de S. Paulo

GENEBRA - O comandante das tropas de paz da ONU no Haiti, o general brasileiro Carlos dos Santos Cruz, denunciou a corrupção com recursos internacionais e alerta que um mecanismo de controle precisa ser colocado em funcionamento para evitar os desvios. O general ainda alertou que a crise financeira internacional ameaça os avanços obtidos no Haiti e pede que as doações sejam mantidas.
Segundo ele, sua missão cumpre seu papel e os índices de criminalidade no Haiti já é quatro vezes menor que a do Brasil. Ele só não sabe quando é que o Brasil poderá sair do Haiti. "Hoje, o Haiti não vive mais um problema militar. O país vive um problema político", afirmou ao Estado o general, que assumiu o comando no início de 2007. A Missão de Paz da ONU no Haiti é comandada pelo Brasil. Nesta semana, o general está participando de reuniões na ONU em Genebra.
"O grande risco do Haiti não é a falta de segurança. A ameaça é na área política, social e econômica, que pode voltar a gerar violência. Mas a realidade é que hoje não é a violência que está impedindo a governança. Hoje, é a falta de resultado econômico e social que ameaça gerar nova violência", alertou.
"Os militares resolvem alguns aspectos do problema, mas não tudo", apontou. Na avaliação do militar brasileiro, a corrupção tem sido um obstáculo sério. Por ano, o Haiti recebe cerca de US$ 1 bilhão em doações internacional. "O problema não é só garantir que o dinheiro chegue ao país. O problema é de otimizar e como aproveitar da melhor maneira esses recursos", disse.
Por anos, a chancelaria brasileira alegou que a comunidade internacional precisava garantir recursos ao Haiti para que a missão de paz desse resultado. Para o general, o controle do dinheiro também precisa ser aperfeiçoado. "O aproveitamento do dinheiro precisa ser reavaliado", defende. "Precisamos analisar para saber qual é a perda desse dinheiro nos caminhos administrativos. Há uma perda grande. O volume de dinheiro é grande, mas não há o impacto social no final da linha", continuou.
Ele defende a criação de um mecanismo para garantir a transparência na distribuição dos recursos. "Só vamos ter dinheiro se tivermos credibilidade. Não adiante só pedir dinheiro", disse. Outra proposta é de que a corrupção com recursos internacionais seja classificada como "um crime internacional" e que tribunais fora do país de destino do dinheiro possam julgar os suspeitos.
"Precisamos criar mecanismos para proteger esse dinheiro", afirmou. O comandante evitar identificar o alvo de suas críticas. "Mas precisamos garantir que a corrupção com dinheiro de ajuda humanitária seja classificado como crime internacional, para inibir e colocar aqueles que usam o dinheiro expostos ao processo internacional", defendeu. Nos bastidores, ele também já alertou o governo brasileiro do fenômeno.
CRISE
Outra ameaça para o Haiti é a crise internacional, secando as doações internacionais. "Hoje, o Haiti ainda vive de doação. 65% do orçamento do governo vem de recursos do exterior", disse o comandante. "Se isso acabar ou for reduzido, há sérios riscos", disse. "A comunidade internacional precisa manter esse fluxo."
Carlos dos Santos Cruz prevê que o Brasil terá de permanecer no Haiti ainda por "alguns anos", mas admite que ainda não sabe quanto tempo será necessário. "Minha previsão é de que precisamos ficar pelo menos até 2011, quando há eleições no Haiti. Isso é o mínimo", afirma.
Ele destaca que a crise e a corrupção poderiam ameaçar os avanços na área de segurança. "Se a população não ver avanços em suas vidas, o processo pode ser ameaçado", disse. Os dados da Missão de Paz da ONU apontam que a taxa de criminalidade no Haiti é de 5,5 assassinatos por cada 100 mil habitantes por ano. "Essa taxa é bem menor que a do Brasil, Jamaica, México ou os vizinhos da República Dominicana", afirmou o general.
No Brasil, a taxa é de 22 assassinatos, contra 25 na República Dominicana e 30 no México. Há cinco anos, a média de assassinatos no Haiti superava a marca de 30 "Precisamos ficar mais. Mas precisa haver um esforço na área política. Essa é a grande chave no momento", alertou o comandante.
PACOTE
Da parte do governo brasileiro, a decisão do Palácio do Planalto foi a de destinar o maior volume de recursos já dado por um país ao Haiti entre 2009 e 2011. No total, o Brasil vai destinar US$ 12 milhões para 40 programas sociais no Haiti.
"Uma fazenda modelo será inaugurada pela Embrapa no País nesta semana", afirmou Marco Farani, diretor da Agência Brasileira de Cooperação. No total, a agência espera um orçamento de R$ 40 milhões para 2009 para suas atividades pelo mundo, uma gota d´água comparado aos recursos de US$ 7 bilhões do Japão.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A verdade tardia será sempre uma meia verdade



"A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos."
George Bernard Shaw, escritor e dramaturgo irlandês (1856-1950)

Quem diria: aquele a quem pretensos doutos alcunham de apedeuta está dando um baile, fazendo todo mundo dançar conforme a sua música. Algo jamais imaginável já que não havia em seu palrar sintomas do brilho ofuscante que impõe a cada um dos seus rivais as agruras dos distúrbios mentais e de um espernear à semelhança de arapongas gasguitas presas em alçapões.
Pois é o que está acontecendo ao som do bolero de Ravel, num ambiente de fantasias meticulosamente espraiadas. Enquanto joga pesado ao meter o suspeito bedelho na negociata dos “caças” franceses, mais caros e mais custosos do que os suecos, ouriça as casernas, os órfãos da ditadura e anencefálicos despolitizados com o florear de um simulacro, essa hipócrita catilinária da caça ao rodapé da engrenagem que operou nos subterrâneos, sob mando e inspiração de quem jamais foi questionado por insuflar à barbárie, seja o baronato parlamentar de estirpe, que deu sustentação aos calabouços, sejam os maiorais da tropa d’antão ou essa mesma mídia que agora se pretende inocente daquilo com que colaborou servilmente de braços dados, enquanto enchia as burras.
O catálogo do faz-de-conta
De repente, no alvorecer do ano da sucessão, o talentoso príncipe operário põe sobre a mesa 521 cartas para todos os gostos, oferecendo o melhor mel silvestre àqueles a quem subjugou por 7 anos de trapaças contundentes, como as rasteiras que levou ao humilhante desespero as plêiades da mais zelosa corporação aérea brasileira, particularmente os extorquidos do seu fundo de pensão. Que submeteu ao faz-de-conta os milhões de aposentados, pensionistas, subempregados, desempregados, esfomeados, sem terra e/ou sem arados.
São 521 ofertas telúricas e afrodisíacas num catálogo esmiuçado que mais se afigura o supra-sumo de um placebo adocicado. São idéias tão delirantes que ganharam do novo espadachim Paulo Vannuchi, o até então discreto secretário dos Direitos Humanos, o epíteto de “transversalidade temática”, ou, melhor dizendo, apenas idílicos logaritmos da matemática do embuste.
E, no entanto, fraudes tão salientes pegaram os adversários com as calças na mão, levando-os ao segundo ato da farsa esboçada.  Dentro e de fora das muralhas dos podres poderes todos sem exceção reagiram na medida certa, conforme o script.
Fizeram o cavalo-de-batalha engendrado pelos feiticeiros do príncipe, armaram uma tremenda barafunda e mergulharam de cabeça no confronto do imaginário. Precipitado e de comprovado desequilíbrio emocional, o senador tucano Artur Virgílio decidiu assumir o papel de vilão, ao anunciar aquilo que regimentalmente é impossível e politicamente é obscuro: quer num só decreto legislativo anular as 521 tacadas que por si não passam de um velhaco sonho de uma noite de verão.
Quer dizer: o governo que passou sete anos pisando em ovos, que amarelou diante do sistema e convidou o banqueiro Henrique Meireles para dar as cartas, inventa um monte de fórmulas genéricas que agradam à massa iludível e, antes mesmo de configurar-se o blefe, aparece essa turma desassossegada da “oposição” e o sacramenta, para o gáudio da corte.
Tivessem alguns desses “oposicionistas” folheado o irlandês Bernard Shaw, o espanhol Baltasar Gracian, o florentino Nicolau Maquiavel ou nosso sábio Barão de Itararé, provavelmente não teriam caído nessa esparrela.
O homem inteligente não polemiza sobre hipóteses, muito menos sobre ilações ou sandices. O pior que ele pode fazer contra si é embarcar no confronto maniqueísta, mormente se virtual e se aceita o papel atribuído por seu adversário. Antes de pegar uma briga, precisa averiguar se a coisa é mesmo à vera.
No caso mais relevante dessa nova batalha de Itararé, não dá para perceber o alcance real dos propósitos enunciados. Nesse ponto, os chefes militares mostraram um despreparo pueril. Primeiro porque, supõe-se, as gerações castrenses de hoje não têm nada em comum com os generais golpistas que eram subprodutos da segunda guerra mundial e sofriam influência direta dos oficiais norte-americanos e da chamada Escola das Américas (o golpe de 64 começou com o manifesto dos coronéis de 1953 contra João Goulart, então jovem ministro do Trabalho).
E os que estão sendo torturados hoje?
Depois, a bem da verdade, - posso afirmar como testemunha ocular dos fatos - a grande maioria da tropa rejeitava a ditadura e só não se insubordinava pelo medo de “fazer o jogo dos comunistas”. Não foi por acaso que, ao contrário dos outros regimes de exceção do Continente, os nossos ditadores tinham prazo no poder e não podiam pleitear um “segundo mandato”. Com esse ardil, em que invariavelmente o sucessor não era bem um “correligionário” do outro (exceção de Figueiredo e Geisel) criava-se uma válvula de escape dentro do próprio estamento militar.
É certo e incontestável que alguns poucos aloprados cometeram crimes de lesa-humanidade nos quartéis, mácula de que quem mais deveria ter interesses em livrar-se seria a tropa altamente profissional de nossos dias.
Mas também não dá para aceitar que somente agora, quatro décadas depois, criem um palanque político e alcancem alguns sobreviventes daquela época como bodes expiatórios de uma farsa de tinturas revanchistas.
Não dá para ver um torturador como um sujeito que agia por conta própria. E os mandantes? E eminências daquela época, como o senador José Sarney, que entre outros serviços sujos teve a missão de explicar á Embaixada Americana o AI-5? E os empresários que bancaram com muito dinheiro do caixa 2 as operações de extermínio dos adversários de um regime que se sustentava pelas armas, depois de derrubar um presidente constitucional e rasgar a Constituição?
Pelos meus cabelos brancos, sou forçado a descrer na repentina “boa intenção” de um governo que nada faz contra os torturadores de hoje, os policiais que só no Estado do Rio de Janeiro, em um ano, mataram mais jovens “suspeitos” do que em todos os 20 anos de ditadura no país.
Ou torturar e matar pretos, favelados e marginalizados é diferente de dar porrada nos jovens de classe média que, envoltos no mais puro idealismo, mas conscientes do risco que corriam, se tornaram insurgentes?
Como vítima daqueles dias, eu não aceito que transformem agora, neste momento, com tanto atraso, casos tão complexos em palanques políticos que, em última instância, visam tudo, menos restaurar uma verdade que, por tardia,  não pode ser uma meia verdade.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Tão perto e tão distante da tragédia

A poucos quilômetros da tragédia, o governador Cabral não tomou conhecimento no dia em que  sua presença seria mais necessária. Agora, está prometendo ir lá hoje.

"A situação por aqui é caótica, estamos ilhados no hotel (...) a única opção pra ir embora hoje é de helicóptero. Estradas bloqueadas".
Preta Gil, cantora, que passou o réveillon em Angra.

O país inteiro – como boa parte do mundo – tomou conhecimento da tragédia que se abateu na região de Angra dos Reis, com vítimas fatais no morro da Carioca, centro da cidade, e na paradisíaca praia do Bananal, na Ilha Grande.
As primeiras informações são de trinta mortes já confirmadas. Situações de calamidades causadas pelas chuvas aconteceram também em todos os municípios da Baixada, em parte do Rio de Janeiro e no Sul do Estado.
Durante todo o primeiro dia do ano, não se falou de outra coisa. Não eram apenas os pobres dos morros as vítimas dos desmoronamentos. A pousada Sankay, com doze suítes, era um empreendimento de luxo, que cobrava R$ 5.300,00 por casal no réveillon. Sua clientela é em maioria de São Paulo e de Minas. Mas é frequente a presença de turistas estrangeiros.
Em situações como essa, as autoridades responsáveis costumam ir pessoalmente tomar conhecimento dos estragos. Na pior das hipóteses, sobrevoam a área.
No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes visitou pessoalmente a comunidade de São Sebastião, em Jacarepaguá, onde cinco pessoas de uma mesma família foram soterradas.
No dia da tragédia, o governador não estava nem aí
E o governador Sérgio Cabral, o que fez diante da tragédia?
Apesar de ser um dos mais jovens do país – fará 47 anos no próximo dia 27 – não deu as caras em lugar nenhum, pelo menos até a noite do dia primeiro, “delegando” essa obrigação para o seu vice, Luiz Fernando Pezão, que, aliás, é quem vem carregando o piano, enquanto Serginho passa a maior parte do tempo viajando pelo mundo, com escala preferencial em Paris, onde, diz-se, tem um apartamento montado.
Às dez horas da manhã desta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio, que está de férias numa área da Marinha na Bahia, tentou falar com ele para prestar a solidariedade de praxe e oferecer cestas básicas para as vítimas que ficaram desabrigadas em várias cidades do Estado.
Não conseguir contatar o governador, que, provavelmente, ainda estava dormindo, depois de uma noitada de festa por conta do ano novo. Sua ligação foi redirecionada para o vice Pezão, o ex-prefeito do pequeno município de Piraí, de pouco mais de 22 mil habitantes, que só chegou ao cargo de vice por exigência do casal Garotinho, a quem servia incondicionalmente até que Cabral virou as costas para seus antecessores antes mesmo de empossar-se.
A meninada da imprensa engoliu a notícia de que o governador rompera o ano nas instalações do Exército da Restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, Zona Oeste da capital. E ficou tentando explicar a omissão ostensiva do governador.
Só ao cair da tarde, depois de pisar na lama e ir de um lado para o outro na área de Angra – não se falou de sua presença nos bairros pobres da Baixada – o vice-governador deixou escapar que Sérgio Cabral estava ali perto, em sua casa no Resort Porto Belo, em Mangaratiba, de onde se avista a Ilha Grande (de lancha não gasta mais de 30 minutos para chegar á Praia do Bananal, na Ilha).
Sua mansão, mostrada um dia com detalhes pelo ex-governador Marcello Alencar, a quem traiu para se juntar a Garotinho, que trairia depois, tem marina própria. Mas é comum ele e seus familiares chegarem ao Resort de helicóptero do Estado, que pousa ao lado da Rio-Santos.
Porto Belo fica a exatos 33 quilômetros do morro da Carioca, no centro de Angra, onde aconteceu o desabamento com pelo menos 10 vítimas fatais.
O governador do Rio estava, portanto, de cara para a tragédia, que, aliás, causou desmoronamentos em vários pontos da serra que acompanha a rodovia. Depois de 24 horas de buscas, tensão, sofrimento e confusão, sua assessoria está prometendo que hoje ele deverá dar um pulo na Ilha Grande e, provavelmente, irá até Angra.
A indiferença no momento mais tenso da maior autoridade do Estado não me surpreendeu. Pode ser que ele tenha ficado por toda a noite com seus convidados, geralmente empresários do naipe de Eike Batista, e não se sentiu em condições de dar um pulinho ali perto, onde heróicos bombeiros e muitos voluntários cavavam os escombros com as próprias mãos, já que nos locais atingidos não dava para subir máquinas.
Provavelmente, os jornais de hoje não comentarão essa postura preguiçosa do governador, por conta do balanço da tragédia, mostrada em tempo real pelas emissoras de televisão.
Pode ser que você também não tenha atentado para esse comportamento absolutamente inexplicável e injustificável. Você também ainda deve estar chocado com as cenas comoventes, que tocam nossos corações.
Esse é o homem de Lula no Rio
Mas eu não posso aceitar tal omissão, tal demonstração de frieza e desumanidade, até porque, ao contrário do que aconteceu na eleição passada, Sérgio Cabral Filho será candidato agora com o apoio da mesma base de sustentação do governo Lula, que acaba de vergar o prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh Farias, para atrelar a “penca de esquerda” (PT-PDT-PC do B e PSB) no desesperado esforço para reeleger quem sequer começou a dar ar de sua graça como governador nesses três anos em que está à frente da administração mais medíocre de toda a história fluminense.
O comportamento do governador Sérgio Cabral neste episódio não é diferente de toda a sua trajetória nesses três anos em que atuou muito mais como um delegado do governo federal, lançando-o em mal inspirados projetos de alto custo financeiro e baixo retorno social, como o bilhão destinado a três áreas de favela, bilhão que representa mais do que todo o orçamento da cidade de Niterói em um ano.
O desprezo assinalado no calor da tragédia provocada pelas chuvas dos últimos dias é da sua personalidade e da sua insensibilidade.
Pela sua cabeça, passam apenas preocupações cosméticas ou grandes tacadas, como a privatização do Aeroporto Internacional do Galeão, pela qual tem se empenhado com toda garra, valendo-se do enorme prestígio e da intimidade que desfruta junto ao presidente da República.
O diabo é que de tal sorte foi o trabalho demolidor operado pela grande mídia e de tantas traições se construiu o processo político no Estado, que já foi o mais politizado do país, que a máquina governamental poderá assegurar sua reeleição pela simples ausência de um candidato com peito de enfrentá-lo e pela manipulação do solerte do eleitorado e das urnas.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.