sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Esse ano novo eu já vi antes

:"Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos."
Victor Hugo, pensador, poeta e político francês (1802-1885)

Olhando bem, esse ano novo eu já vi antes. Tem o corpo e a alma de amargos anos pretéritos. Até projeta algumas novíssimas novidades. Mas pelo desígnio da roda da história tais são quais, são vulgares e sem as essências que prenunciem mudanças, que ensejem novos dias, novas semanas, novos meses.
Que pena!
Temos a sensação de uma impertinente marcha lenta, quase parando. Trocam-se as fantasias e até mudam as posições das pedras no tabuleiro. Mas sem sinais de ventos uivantes, nem de uma brisa quimérica. O ar morno domina o ambiente de mortalhas andantes, introduzindo os fantasmas mórbidos, sem dó, nem piedade.
Como no sempre dessas fatalidades ignóbeis, o diapasão da farsa soa no sustenido sem recato que paira incólume sobre mentes inclementes, exibindo sem cerimônia a mesquinha caça aos podres poderes.
Os personagens se revezam nos movimentos ensaiados que cultivam a burla e a impostura. Todos, absolutamente todos os canastrões vestem a roupa de gala, correm para a fila das prebendas e exibem a exuberância de uma mediocridade de berço. Mediocridade que, por força de um óbvio torpemente triunfal, enraíza-se às profundezas da alma banalizada.
Há flores no meu jardim, ao pé da serra agredida, conspurcada, mas são rosas passageiras, sazonais.
Há uma réstia de esperança, isso há. Mas esperança de que? Em todos os entes o Estado vigente é um abominável mundo velho de costumes libidinosos e viciados. Olhe no alto, no tronco e nos ramos, nada verás de novo e belo nos altiplanos em rebuliço.
Ensaiam apenas variáveis de figurinos, cada vez mais influentes. O vozerio some no silêncio da ambição pessoal intumescida. Mais uma vez o grito estará parado no ar, ao sabor das conveniências de um jogo de cartas marcadas.
Querem a carne seca, a cocada preta, qualquer coisa que lhes sacie os olhos maiores do que a barriga. Cada uma puxa a brasa para sua sardinha. E embora seja farto o coração de mãe, a palavra de ordem é meu pirão primeiro.
Já se sabe de novas investidas à sombra da festa encorpada de assentimentos. Números graves denunciam a falência do porém, do todavia. Hordas acríticas cultivam o silêncio dos culpados. Sim, porque a inocência se perdeu nesse mundo de cínicas incongruências.
Antes, o tropel da esperteza vil mimetiza a consciência letárgica. Porca miséria, porca assimilação patética do canto das sereias. O mito venceu e se transformou no manda-chuva. Dentro ou fora das quatro linhas nada se fará sem seu bafejo inebriante. Dos seus suspiros e humores dependerão as alquimias.
Não há o que esperar para além dos velhos anos. É do espírito da mega farsa. A capacidade de encenação prevalecerá sobre a vida real. O populacho foi domado e nada tem a declarar.
Sirvam-lhes brioches e teremos as belas adormecidas pela languidez do seus cérebros moldados por úteros infantis. A lobotomia da eletrônica amputou em massa os signos da percepção, os fios da indignação doutrora.
Também pudera: o último dos moicanos sucumbiu faz tempo, isolado nos Andes encrespados. A história, infelizmente, não se repete, mormente quando os cordéis estão nas mãos sujas da malta insaciável. Da alcatéia dissimulada em peles de cordeiros.
Esse ano novo é pirata, é clone doutros monstrengos sem vergonha de ser. Haverá vinténs para os dóceis pedintes empencados sob sombra e água fresca. Mas faltarão níqueis para compensar décadas de labuta. Vem aí mais uma vez o garrote vil. Nessa tormenta, falam a mesma língua gregos e troianos, de olho na bagatela da banca.
Bem que eu queria está na liça para enfrentar os Golias empedernidos. Mas me puserem para corner, em golpes baixos, impiedosos. E me deixaram falando sozinho sob o sol abrasador.
Mesmo à distância, porém, meus mil olhos não fecham jamais. E se me fazem ver a mil milhas distantes, se me impelem ao esperneio infrutífero dos insones sem peias, satisfazem-me no mínimo o ego indômito.
Como de hábito – hasta la vitória siempre – recarregarei minhas baterias energizadas por palavras amigas e me manterei com a guarda em alto. Porque também não quero ser essa metamorfose ambulante que se agacha covarde aos encantos das cortes e dos cofres.
Não quero e não serei vergável, nem que me venham cobertos de ouro, como não me calaram na câmara de tortura. Não e não, nem que tenha que amargar, sem choro nem vela, a solidão dos que não podem mais oferecer aos ex-fraternos o estuário dos cobres da casa, comida e roupa lavada.
Afinal, se é orgástico o apetite dos palácios, mais consistente e perene é o impulso dos átomos revigorantes que ainda restam em uma meia dúzia de três ou quatro inconformistas.

5 comentários:

  1. o importante além do consistente e perene movimento dos átomos é que a meia duzia de tres ou quatro é o objetivo de "ser" dos abestados que vivem sob as mentes inclementes. Só que esses abestados sucumbem e a meia dúzia é consistente e perene.

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  2. Anônimo12:09 PM

    Água dura, em pedra mole, tanto fura, até que bate !!!, se não é isto, é algo parecido....

    FELIZ 2011 e melhor 4.011 !!!

    para todos os "abestados", esperando que a "meia dúzia", passe a ser, pelo menos, "uma dúzia" (o dobro), já em 2011.

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  3. Anônimo1:10 PM

    Se analisarmos: o "nosso" Universo tem aprox. 14.000.000.000 (Bilhões) de anos e começou com uma confusão "dos diabos", ou "dos deuses", até ficar mais "calmo" e viabilizar a nossa vida terrestre nos termos atuais, a aprox. 1.000.000 (Milhão) de anos, data do surgimento dos primeiros membros do gênero "Homo" com inteligência como a conhecemos hoje.

    (1.000.000 / 14.000.000.000)100 = 0,007 %

    Verificamos que a "nossa inteligência" está presente por nem mesmo 0,007% da história do "nosso Universo".

    Conclusão: ainda vai demorar muito até que a resultante desta "inteligência" aponte para o lado "positivo da Força".

    Ou não ???!!!

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  4. Anônimo4:32 PM

    Macacada Amiga,

    Dá para confiar numa presidentA, que nomeia (mantem) como Ministro da Defesa, um renomado entreguista, que, comprovadamente, falsificou a Constituição do Brasil.

    A diferença entre a Dilma/Lula (PT/Etc.) e o Serra/FHC (PSDB/Etc.), é que,
    estes entregam 100% do Brasil para a Ditadura Mídia-Financeira Mundial do G8, com comando anglo-americano, e, aqueles, entregam "só" 70%.....

    Com 30%, está bom para você ???

    Pobre do país em que o Lula é uma liderança destacada. Ele é ruim, mas, os outros são ainda piores....

    SOCORRO !!!!

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  5. Anônimo1:12 PM

    Wow this is a great resource.. I’m enjoying it.. good article

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.