segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cuba, ano 52 – uma revolução na revolução (II)

"Estamos plenamente conscientes dos erros que cometemos e precisamente, as orientações marcam o início do caminho da correção e da necessária atualização do nosso modelo de economia socialista".
Raul Castro, 18 de dezembro de 2010, em discurso na Assembléia Popular, o parlamento cubano.

Escrever honestamente sobre Cuba é manusear uma afiada faca de dois gumes. A revolução cubana é um dogma para gerações ensandecidas que se deram por inteiro ao sonho de um mundo igualitário, destino quimérico escrito nas linhas e entrelinhas da dialética histórica.
Che Guevara  formulou o modelo mais avançado de gestão do Estado
Mas é também o mais azedado condimento do ódio destilado pelo outro lado dessas gerações, os liberais e conservadores, beneficiários e crentes no sistema capitalista, inconformados com sua teimosa sobrevivência como pequena cidadela que desafiou e derrotou os donos do mundo, que atravessou meio século de privações, mas não se entregou, que sobrepôs o poder da palavra, a força da ideologia e a obstinação cega aos encantos do consumismo tentador, do conforto conquistado no esforço individual de cada um.
Cuba viu desmoronar a União Soviética, em cujas mãos se jogou por gravidade; viu a China afastar-se dos trilhos maoístas para ir disputar o topo do universo com as armas do capitalismo e a assimilação do “socialismo de mercado”; viu o Vietnam dos herdeiros do lendário Ho Chi Minh dedicar-se à cooperação com os antigos inimigos mortais, enfim, viu o mundo virar de cabeça para baixo, mas permaneceu lá, aos trancos e barrancos, tentando viabilizar a sociedade igualitária que agora descobriu ser, na prática, uma mera peça de retórica.
Além disso, ao longo desse meio século, Cuba recuperou-se de furacões devastadores, como os três que provocaram pesados danos em 2008, acompanhados de chuvas torrenciais, destelhado ou derrubando totalmente 470 mil edificações, inclusive escolas e hospitais; alagando e destruindo maquinários de fábricas; arruinando 80% das plantações de folha de fumo, e destruindo totalmente a Faculdade, recém-construída na Ilha da Juventude como uma extensão Escola Latino-Americana de Medicina.
Desafiando as opiniões empedernidas
Escrever sobre Cuba pode ser o mesmo que chover no molhado. Não pela falta de novidades. Estas fervilham por todos os poros dessa ilha-referência. Mas pelas opiniões empedernidas, pela intransigência consumada, pelo confronto enraizado ao longo de meio século.
Há ainda a considerar o interesse restrito ao âmbito político dos brasileiros por Cuba. É o que se depreende do número de turistas que viajam àquele país: 11 mil por ano em média -  15% dos argentinos, ou menos de 1% em relação aos 2,4 milhões que viajaram à ilha em 2007. Ou ainda bem menos de 0,5% em relação aos 5 milhões brasileiros que estão indo ao exterior neste 2010.
O que acontece de fato e nas boatarias sobre Cuba insere-me no plano simbólico do sonho encarnado. É como se ali funcionasse um laboratório de experimentos sociais, dissecados todos os dias por cientistas do mundo inteiro. Nenhum país do mundo, nem mesmo a China na “revolução cultural”, ousou chegar tão perto da utopia, como propunha “Che” Guevara, o arquiteto de política econômica que desprezava radicalmente o poder do dinheiro diferenciador e os estímulos materiais como mola para o desenvolvimento.
“Negamos a possibilidade de uso consciente da lei do valor baseado na inexistência de um mercado livre que expresse automaticamente a contradição entre produtores e consumidores; negamos a existência da categoria mercadoria na relação entre empresas estatais, e consideramos todos os estabelecimentos como parte da única grande empresa que é o Estado (ainda que, na prática, ainda não ocorre em nosso país)” – escreveu Che, quando ministro da Indústria na defesa do “sistema orçamentário de financiamento”, com o qual se opunha à fórmula do “cálculo econômico”, concebida na União Soviética, já em fase de revisão, e oferecido aos cubanos como receita de modelo econômico fundado na existência de empresas estatais pulverizadas e com caixas próprias.
Socialismo (quase) por imposição dos EUA
A bem da verdade, a idéia do socialismo não estava explícita na agenda dos revolucionários de Sierra Maestra, apesar do fascínio dos guerrilheiros pelo médico argentino de formação marxista. Nem mesmo o confrotno radical com os Estados Unidos constava das transmissões da Rádio Rebelde: foi a intolerância dos Estados Unidos, sob a presidência do general Dwight David Eisenhower, republicano e adepto comprometido com a guerra fria, que empurrou Cuba para o “outro lado”.
Por conta da reforma agrária, compromisso pétreo da revolução, assumido com os camponeses que lhe deram sustentação, Washington não quis engolir o novo governo já nos seus primeiros dias: em 12 de fevereiro de 1959, a Casa Branca deu a pala de suas relações ao negar um pequeno crédito solicitado por Cuba para manter a estabilidade da sua moeda.
Logo no começo, as empresas norte-americanas que respondiam por 90% da economia cubana tentaram enquadrar as autoridades revolucionárias, supondo que a ilha jamais poderia escapar à dependência secular dos EUA.
Como não admitia “uma relação submissa”, Fidel respondeu às pressões dos norte-americanos, após corte nas cotas de importação de açúcar, com a nacionalização de quase 200 empresas norte-americanas, entre elas as refinarias que se recusaram a refinar petróleo comprado à URSS.
Isso aconteceu no início de julho de 1960. Cheguei a Havana pouco depois e os cubanos passavam a nítida sensação de que o conflito não tinha mais volta. Os EUA usavam de todos os expedientes para encurralar o governo revolucionário, adotando uma escalada de embargos até o bloqueio total, e incentivando a migração do pessoal qualificado: dos 6 mil médicos existentes então, 3 mil e 500 se foram; entre os engenheiros, o êxodo foi maior: de 2.700, ficaram em Cuba menos de 90, obrigaqndo o país à recorrer à solidariedade de profissionais do mundo inteiro.
A estatização repentina obrigou à busca de uma fórmula de gerenciamento. E levou a uma equação inesperada: o Estado passou a administrar toda a atividade econômica, como imperativo de sustentabilidade, num desafio que teria que superar simultaneamente as pressões externas e as idiossincrasias de cada gestor.
Voltarei ao assunto.

Um comentário:

  1. Arthur Poerner7:04 PM

    Porfírio, meu caro,

    é sempre bom ler algo de positivo ou, pelo menos, de isento sobre Cuba. Abraço fraternal do

    Poerner

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.
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