domingo, 12 de dezembro de 2010

Cuba, ano 52: uma revolução na revolução no país da fábrica de campeões

“A corrupção é rara nos escalões superiores, mas comum nos pequenos negócios. Os milhares de gerentes de lojas, restaurantes, e prestadores de serviços, freqüentemente, encontram uma maneira de desviar parte dos recursos que administram para sua conta particular e se associar ao proprietário do estabelecimento, o estado”.
George de Cerqueira Leite Zarur pesquisador Internacional da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. (FLACSO), em artigo publicado em 2005

Com Wilfredo Leon, de 17 anos, o maior fenômeno
 do vôlei  mundial no momento. Já aos 14 era da seleção
nacional de Cuba.

Estou chegando de minha quinta viagem a Havana– a primeira foi em 1960 – com a convicção de que 2011 não será igual a esses anos que passaram: mudanças de grande alcance no modelo econômico já povoam o inconsciente coletivo e parecem tão inevitáveis como urgentes.
Estava lá desde o dia 1 de dezembro, documentando o que chamei sem exagero de uma “Fábrica de Campeões”. Registrei detalhes de um trabalho sem paralelo em todo o mundo na formação de atletas, responsável pelos recordes de medalhas e pela liderança nos esportes na América Latina, feito que está associado ao projeto social da revolução cubana: de 1900 a 1961, quando foi criado o Instituto Cubano de Desportos, os cubanos só haviam obtido 13 medalhas olímpicas – duas em 1900, em Paris, e 11 em 1904, em San Louis; hoje, em todo o Continente, com um total de 183 medalhas nos jogos olímpicos mundiais (a virada começou em 1964, em Tóquio, com uma única medalha), só perdem para os Estados Unidos.
O objetivo desse documentário foi oferecer uma contribuição ao nosso país, que sediará os jogos olímpicos de 2016 e só parece preocupado com os investimentos na construção e nos transportes, colocando em último plano a preparação de atletas.
Com a produtora Paula Barreto na Habana Vieja restaurada.
Ao fundo, bar que fabrica sua própria cerveja.
Esse trabalho foi uma iniciativa pessoal minha, com todas as despesas por minha conta. Paguei a passagem de avião por R$ 1.821 reais (pagos em 6 parcelas sem juros) pela Copa Airlines e aproveitei a baixa temporada: a diária no famoso hotel Havana Rivieira, comprada através do site Decolar.com saiu por 41 dólares. Além disso, contratei os serviços de um carro particular com motorista e tive como guia, a custo zero, uma apaixonada funcionária do INDER.
Contei também com o apoio da produtora Paula Barreto e do casal Carlos e Adriana Vasconcelos. Paula, a quem conheci no avião, fora a Cuba apresentar o filme Lula, o filho do Brasil, dirigido por seu irmão, Fábio Barreto. Casada com Cláudio Adão, ex-craque de futebol, é mãe de dois atletas: Felipe Adão, que seguiu o esporte do pai, e Camila, atleta profissional de vôlei. Não é só isso: trata-se de uma das figuras humanas mais sensíveis e admiráveis que conheci.Ela é uma verdadeira enciclopédia sobre esportes e sabia tudo de cada campeão cubano.
Carlos Vasconcelos é empresário na área de exportação e importação. Há seis anos é quem leva em mãos os filmes brasileiros para o Festival Internacional de Havana. Adriana, sua esposa, é formada em cinema e em 2007 fez curso de direção de atores na EICTV (Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños – Cuba). Havia uma semana, concluíra as filmagens do seu “curta” Entre-muros. Os dois são meus amigos e me incentivaram a ir ao 32º Festival Internacional do Cinema Latino-Americano em Havana.

Cocotaxi e onibus com assentos panorâmicos:
o turismo tem cada vez maior importância
 Mudanças para preservar a natureza da revolução

Como disse, fui a Cuba pela primeira vez em julho de 1960, um ano e meio depois do triunfo da revolução. Aos 17 anos, com outro colega, representei os secundaristas brasileiros no Iº Congresso Latino-Americano de Juventudes. No início de 1961, já como jornalista, fui trabalhar em Havana, onde fiquei até maio de 1962. Depois, visitei Cuba em 1986, como turista, e em 2003, integrando uma delegação parlamentar do Rio de Janeiro.
Por esse currículo, considero-me um conhecedor de Cuba, em condições de visualizar seu futuro sem grandes esforços. Por isso, além de trabalhar no documentário, feito com duas pequenas câmeras de alta definição, espero escrever sobre as mudanças que se desenham no horizonte, segundo um diagnóstico racional de natureza profilática.
Pelo que pude observar nessa viagem, a mudança é incentivada pela direção política de Cuba, inclusive por Fidel Castro e pelos dirigentes de sua geração que ainda participam do governo revolucionário, entre os quais o vice-presidente do Conselho de Estado, José Ramón Machado Ventura, médico e guerrilheiro de Sierra Maestra, hoje com 81 anos de idade, e o ministro da Informação, comandante Ramiro Valdés Menéndez (78 anos), companheiro de Fidel desde o 26 de julho de 1953, quando um grupo de jovens atacou o quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, 16 meses depois do golpe que levou o general Fulgêncio Batista a implantar a mais sanguinária ditadura na América Latina.
Não há exagero em dizer que os formuladores dessa mudança trabalham freneticamente, 18 horas por dia, tentando compatibilizar o novo modelo econômico com os ganhos sociais, principalmente nas áreas da educação, saúde e dos esportes, estes entendidos num plano que abrange os cuidados com a saúde até a formação gregária dos cubanos.
Hotéis Meliá e Rivieira. A rede Meliá chegou  nos anos 90 e o
Rivieira, onde paguei diária de $ 41, faz parte agora da rede
Gran Caribe, junto com o Nacional e outros.
Através das emissoras oficiais, o governo revolucionário proclama ter chegado a hora de expor os próprios erros. Na verdade, pelo que vi com meus próprios olhos, o maior desafio será refazer os referenciais de poder, que produzem um ambiente desconfortável e contraditório: de um lado, muitos dirigentes partidários, á frente de unidades administrativas e empresas, não têm tido o comportamento desejado e excedem-se em benefício próprio.
Uma nova ótica sobre a remuneração do trabalho
De outro, paradoxalmente, a classe média emergente, com poder de compra e conforto, é integrada majoritariamente por 750 mil famílias cubanas que recebem ajuda dos seus parentes residentes em outros países. Só nos Estados Unidos, existem hoje 1,5 milhão de “cubanos-norte-americanos”. Estima-se que por vias legais e ilegais (através de “mulas”, via México) chegam a Cuba anualmente para essas pessoas cerca de 2 bilhões de dólares. As receitas com turismo, que crescem de ano a ano, saltaram para 2,4 milhões de dólares em 2006 (em 1989, último ano da União Soviética, Cuba recebeu 270.000 visitantes; em 2005, 2 milhões e 300 mil) As exportações, que já não se limitam ao açúcar, pelo contrário, batem 2,7 bilhões de dólares, com uma novidade: a biotecnologia, com mais de 700 patentes, poderá ser em breve o principal manancial do comércio exterior.
Não obstante, o governo reconhece que há grandes distorções salariais, em função das quais não será surpresa se um médico for fazer “hora extra” como maleteiro. Para corrigir essa distorção, governo está revendo o quadro de pessoal, abrindo espaço para que pelo menos 500 mil dos 4 milhões empregados públicos sejam transformados em profissionais privados, no exercício de 178 atividades já liberadas à “livre iniciativa”.

Eletrônicos japoneses, chineses e da Coreia são vendidos em
Cubapara a classe média que recebe dólares de fora ou para
alguns "administrradores"  de estabelecimentos
estatais, que ganham "por fora".Isso acaba criando uma
 "nova class de privililegiados". E isso e preocupa
o governo revolucionário.
 Com minha experiência de 50 anos no jornalismo – e mais esse tempo todo de convívio direto ou indireto com os cubanos – vou tentar dissecar o novo formato do regime socialista nessa ilha que é considerada o melhor e mais seguro destino turístico da América Latina.
Por ora, afirmo: as mudanças em estudo, além de porem corajosamente as coisas nos seus devidos lugares, cristalizarão um processo de avanço em condições de manter o país no ritmo de crescimento capaz de preservar seus níveis sociais imbatíveis, apesar do asfixiante bloqueio econômico norte-americano, sobre o qual também falarei aqui.

12 comentários:

  1. Anônimo10:01 PM

    Maravilha!!! O povo é corrupto e a elite dirigente só de gente fina. Mas, esse não saem do povo???

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  2. Anônimo10:03 PM

    [Não é só isso: trata-se de uma das figuras humanas mais sensíveis e admiráveis que conheci]Dizer isso de que apoia uma das piores didatura, assassino de criança que rouba pão, é um escárnio

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  3. Pedro Porfirio
    Tenho lido os seus artigos e gostado muito. Exatamente por isto, vou acompanhar sua avaliaçao sobre Cuba pois seguramente vai ter a seriedade e sensibilidade para enxergar uma sociedade nao pautada pelo consumo, o que choca muita gente. Em contrapartida, é o povo menos stressado e arrogante que ja conheci.

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  4. PAULO BISPO12:21 AM

    VAMOS VALORIAZAR NOSSASS ESTRELASS Q ESTÃO SE INDO PRA OUTROSS CONTINENTES
    E ILUMINANDO OUTRASS NAÇOES
    nunca se esqueça do passado vc me conheceu eu não sabia andar e vc não soube me regar era muito amigo do meu pai adotivo DAVID BISPO esqueceu da comuinidade onde vc deu seus primeiros passos FAMILIA BISPO

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  5. Anônimo12:23 AM

    VAMOS VALORIAZAR NOSSASS ESTRELASS Q ESTÃO SE INDO PRA OUTROSS CONTINENTES
    E ILUMINANDO OUTRASS NAÇOES
    nunca se esqueça do passado vc me conheceu eu não sabia andar e vc não soube me regar era muito amigo do meu pai adotivo DAVID BISPO esqueceu da comuinidade onde vc deu seus primeiros passos FAMILIA BISPO

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  6. A única coisa boa que Cuba tem são os atletas, é uma grande verdade, mas eu tenho é muita pena do povo que vive debaixo de uma ditadura.

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  7. Anônimo8:26 AM

    Dizer que o bloqueio é asfixiante enquanto os cubanos dos EUA enviam U$ 2 BILHÕES e os "Campeões" Cubanos só conseguem exportar com sua ideologia superior ( coitados),apenas U$ 2,7 bilhões é a clara demonstração que trabalhe-se muito pouco na Ilha presídio. Um país que vive desde 1959 sob regime unitário dos ditadores Castro não sei como consegue ter admiradores,a não ser que seus teleguiados queiram o mesmo infeliz destino aos Brasileiros que pela livre iniciativa prosperam e forjam seu futuro com a força do braço, com a liberdade de pensamento e com o direito de escolha. Deus nos livre do socialismo fracassado e leve esse vento empestiado prá lonje daqui.

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  8. Anônimo10:16 AM

    Porfírio,

    Repetindo o comentário de "Dirlene Marques: ...vou acompanhar sua avaliação sobre Cuba, pois seguramente, vai ter a seriedade e sensibilidade para enxergar..." esta sociedade.

    Espero que os demais "comentaristas" façam o mesmo, pois estão muito preconceituosos...

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  9. Anônimo11:03 AM

    Os dois lutadores de boxe cubanos que foram PRESOS e DEPORTADOS quando buscavam permanecer no Brasil durante o pan, e seus familiares em Cuba devem sua desgraça ao imbecil e filho da puta Lula da Silva que, para puxar saco dos Castro e cheio de cachaça na bufa, os entregou à cruel polícia cubana. Covarde.
    Todos eles se foderam. Não se tem mais notícias do que aconteceu com eles.

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  10. Anônimo7:30 PM

    Quando a revolução cubana triunfou estremeceu o imperialismo americano, e fizeram tudo para destruir essa sociedade que nascia com o nome de socialista. Cuba sofreu várias invasões do capitalismo americano ou dos mercenários treinados por eles mas foram derrotados e o apoio mundial crescia, na época estudante do 2o grau participava das manifestações de apoio a cuba,me lembro da frase; Fora Ianque e de uma que carregamos na nossa passeata dos calouros: a cubana é uma mulher livre ela não USA aliança e outras mais. Hoje me orgulho de ter feito parte dessa luta para que cuba permanecesse livre do capitalismo.Toda revolução tem suas distorções mas cuba permanece uma célula viva da chama socialista, viva cuba, viva Fidel,Che Guevara e todos os revolucionários que deram suas vidas pela construção dessa primeira célula socialista na américa latina.

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  11. Anônimo7:17 AM

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.