quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Os sinais explícitos de parentesco próximo entre os finalistas de domingo

As semelhanças entre Dilma e Serra, PT e PSDB, não são meras coincidências
“Nenhum dos candidatos aborda aspectos da política econômica. Não se colocam contra a autonomia e independência do Banco Central; não falam nos aspectos danosos do câmbio flexível, dos juros, da dívida que já ultrapassou os R$ 2 TRILHÕES. Auditoria da dívida... ora, não vão mexer nos interesses dos banqueiros”.
Ronald Barata, ex-dirigente da Cut e ex-presidente do Sindicato dos Bancários.

São tantas e tais as semelhanças explícitas entre os dois finalistas de domingo que me dispensaria de relacionar algumas não fosse pelas exigências de leitores ainda iludidos com a idéia de que os personagens em tela são de incubadoras diametralmente opostas.
Poderia simplesmente recomendar a leitura do trabalho assinado por Ronald Barata, ex-dirigente da CUT e presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, que transcrevo no blog PORFÍRIO & PARCEIROS.
Mas, como estamos na boca da urna, cuido eu mesmo de citar o enorme parentesco entre ambos, coisa que faço sem precisar ir fundo na pesquisa:
Política Econômica igual, sem tirar nem pôr
Nos últimos 16 anos, FHC e Lula seguiram o mesmo receituário monetarista, inserido no contexto da globalização, sem questionar o modelo econômico dependente dos humores externos e do “mercado”.
O eixo dessa política é a utilização das taxas de juros como elemento “disciplinador” do mercado e “inibidor” da inflação. Com o uso sem pudor dessa ferramenta, ganham principalmente os banqueiros e os inevitáveis detentores de informações privilegiadas, que manipulam as aplicações.
Essa política limita o crescimento do país, como escreveu o economista Daniel Miranda Soares: “o Brasil não cresce porque possui uma enorme dívida pública que não para de crescer. E não pára de crescer porque temos a mais alta taxa de juros do mundo. FHC deixou que essa dívida chegasse a 64% do PIB, quando era 30% no início do seu governo. No momento que a dívida externa se estabilizava FHC aumentava a taxa de juros para estabilizar o Real. Ao manter as taxas na estratosfera a dívida cresceu de R$60 bi para R$890 bilhões. O governo Lula conseguiu estabilizar a dívida pública em torno de 50% do PIB mas às custas de elevado superávit primário, mantendo as taxas de juros elevadas. Resultado disso tudo: baixas taxas de crescimento do PIB, desde a explosão da dívida externa dos anos 80”.
Se FHC engessou a economia no superávit primário, Lula aumentou sua meta de 3,19 para 4,32%. Com esse recurso contábil, o governo tira do setor produtivo para garantir o pagamento das dívidas – interna e externa – sem proceder nenhum questionamento, nenhuma auditoria como queria Brizola.
Estudo do Forum Brasil de Orçamento, uma entidade apartidária, deixa muito claro o que isso significa: “Ter uma meta de Superávit Primário significa necessariamente que o governo vai tirar da economia privada (na forma de impostos ou tributos, que são a receita do governo) mais do que vai injetar nela (na forma dos gastos do governo). O superávit primário não significa Austeridade Fiscal, e sim, Sacrifício Social”!
Os mesmos bodes expiatórios
Para sustentar essas políticas que abastecem o oligopólio financeiro, os dois governos fizeram o mesmo na exibição de bodes expiatórios: gastos com funcionalismo e custos da previdência pública. Ambos trabalharam na prática pelo Estado mínimo e favoreceram a previdência privada, com as duas “reformas” que fizeram através das emendas constitucionais 20 e 40.
E qualquer um que ganhe patrocinará o terceiro garrote, desta vez mais impiedoso, tendo como contrapeso a “reforma trabalhista” preparada por Mangabeira Unger com o assentimento das cúpulas sindicais, devidamente amansadas por um conjunto de expedientes – do abastecimento financeiro dos seus cofres à cooptação de uma numerosa malha de dirigentes.
Na área do funcionalismo, os dois governos mantiveram os arrochos nas atualizações dos vencimentos, principalmente do pessoal do Executivo, civil e militar, estabelecendo também a tática dos reajustes setoriais.
Além disso, dedicaram-se freneticamente às terceirizações de triplo efeito: livram o Estado dos compromissos estatutários, dispensam os concursos públicos e forjam uma máquina de propinas alimentada pela elevada diferença entre o que uma empresa cobra e o que paga pela mão de obra alocada.
Privatizações de primeira e segunda geração
Na questão das privatizações-doações, nada de diferente, a não ser no formato. Além de manter todos os atos privatistas do governo anterior, o governo do PT colocou o BNDES como suporte do que se poderia chamar de “reprivatização” ou privatização de segunda geração.
Com recursos públicos, algumas empresas compraram outras numa ciranda que passou por cima das leis, como relata Ronald Barata em sua matéria. Além disso, concessionárias como a Eletropaulo foram arrematadas  com financiamento do BNES para as empresas estrangeiras, como a AES. Esta não só se beneficiou da proteção tucana, como voltou a tirar vantagens no BNES de Lula.
Na área do petróleo, os dois governos se equipararam no favorecimento às empresas privadas, inclusive as estrangeiras. Nem mesmo a troca do regime de concessão por partilha significou mudança real. Ao contrário, o novo sistema põe a empresa estatal como sócia obrigatória de todas as empresas aquinhoadas, sem peso decisório (ao contrário da propaganda oficial), sujeitando-se aos riscos. Sobre o comportamento verdadeiro dos dois governos, sugiro ler a entrevista que Ildo Sauer, ex-diretor da Petrobrás, concedeu a O GLOBO, transcrita no blog do Nassif.
Dela, vale destacar um relato emblemático: “Nos negócios normais do capitalismo, quando uma empresa subtrai de outra núcleos estratégicos do conhecimento, as pessoas ficam impedidas de trabalhar, em quarentena técnica ou legal. Neste caso, a presidenta do Conselho de Administração da Petrobras (Dilma Rousseff), sabendo que o núcleo estratégico foi retirado, não fez nada e ainda manteve o leilão. Recrutaram a equipe em meados de 2007 e, em novembro, compraram os blocos. Em julho do ano seguinte, venderam 38% de seu capital por R$ 6,7 bilhões. E, desde ano passado, vem anunciando descobertas, confirmando tudo aquilo que nós já dizíamos sobre aquelas áreas, que eram promissoras. Já anunciaram de 2,6 a 5,5 bilhões de barris. Em valor de mercado, em torno de R$ 50 a R$ 80 bilhões, valor maior que a capitalização da Petrobras. Fora esses barris entregues ao Eike Batista, há tantos outros entregues durante os anos. O governo Lula leiloou mais blocos sobre o pré-sal e verteu por mais tempo o modelo inventado pelo FH do que o FH. FH começou a leiloar em 2000, fez 4 rodadas. Lula leiloou 6, dos quais cinco tinham blocos sobre o pré-sal”.
A ajuda “temporária” que virou meio de vida do lumpesinato
Na questão social, operaram com as mesmas fórmulas concebidas para o lumpesinato dos países subdesenvolvidos pelos cérebros do “Diálogo Interamericano”, a super-ONG presidida por David Rockfeller (presidente do Chase Manhattan Bank), na qual FHC e Lula foram recebidos, de mãos dadas, na “cúpula” de 1992, em Washington.
O mote foi jogar pesado na implementação de políticas compensatórias imobilizantes, bancando o lumpesinato e transformando-o num macro-curral eleitoral. Por sua natureza, os tucanos diversificaram os programas assistencialistas, evitando a centralidade irreversível. Lula, orientado pelos marqueteiros, juntou tudo no “bolsa-família” e hoje o que seria um socorro temporário tende a institucionalizar o parasitismo social: Serra promete até o 13º para ver se quebra a hegemonia petista sobre a massa de viciados dependentes da esmola estatal.
Na educação, os mesmos referenciais, que tornam caricato o ensino público no nível fundamental e no médio, favorecendo a caríssima rede de escolas particulares. Ao invés de investirem na melhoria da educação nessas instâncias, passaram a jogar com a oferta de cotas destinadas a quem não estava necessariamente preparado para acessar a Universidade Pública.
Lula foi mais além no ensino superior, ao favorecer as faculdades privadas que tinham ofertas de sobra, através do Prouni, um programa de compensação tributária que garante diplomas obtidos  sem os critérios das faculdades públicas a milhares de universitários, lançados em condições desfavoráveis no mercado de trabalho.
A saúde continua sendo uma afronta e isso não quer dizer pouco dinheiro público. O problema está no modelo, que despreza a medicina preventiva, através do médico de família, e na falta de saneamento básico: o que o PAC do Lula gasta para implantar um teleférico no Complexo do Alemão (R$ 500 milhões) que ninguém pediu, daria para levar redes de esgotos a todas as comunidades que não dispõem desse serviço. Digo isso porque fui secretário de Desenvolvimento Social e com menos 1% desse valor realizei mais 1000 Kms de redes nas favelas do Rio de Janeiro.
Iguais na impunidade dos torturadores e nos desvios de conduta
Semelhantes são também as posturas dos dois governos em relação ao lixo autoritário. Ao contrário dos Kirchner, FHC e Lula mantiveram impunes os torturadores e intactos os crimes de Estado perpetrados durante a ditadura, sob a pífia alegação de uma anistia de dupla face. O ministro que ensaiou algum questionamento  pôs a viola no saco por ordem superior, enquanto o governo petista registrava a proeza de “desanistiar” mais de 500 ex-cabos da Aeronáutica, beneficiados no governo anterior.
Finalmente, por agora, vale lembrar que não há diferenças na apropriação dos recursos públicos, mais explícita na era Lula porque executada por governantes menos experientes. No tempo de FHC, havia mais discrição, mais “profissionalismo” na hora de meter a mão. Além disso, nada em termos de danos aos cofres públicos supera a farra das privatizações-doações, de que se beneficiaram muitos operadores do governo.
Como o Brasil porque sacrifiquei minha juventude seria mais justo e mais sério, porque acho que qualquer um dos finalistas nada mudará, negarei meu preciso voto aos dois e sairei da seção eleitoral com a consciência do dever cumprido.

Diferença na enquete continua 1%. Você tem até sábado para votar
Apurados 465 votos postados até às dez e meia da noite do dia 28, os dois presidenciáveis conservam o que se poderia chamar de “empate técnico”, termo que não cabe porque a enquete não pretende refletir o universo de todo o eleitorado.
Como o prazo da votação termina neste sábado, ao meio dia, só divulgaremos o resultado final.
No momento, Dilma tem 216 votos (46%), contra 211 (45%) de Serra. Os nulos chegam a 31 (6%), indecisos são 5 ebrancos somam 4. Para votar, clique aqui.

3 comentários:

  1. Anônimo10:07 AM

    Porfírio,

    Concordo em 99,99% com seus comentários, mas estes 0,01% de diferença, me fazem votar na Dilma.

    Ainda prefiro ser oposição ao governo da "Turma da Dilma", do que ao da "Turma do Serra".

    FHC/Serra/Aécio/etc. nunca mais; já basta ter de aguentar mais 4 anos do "Picolé de Chuchu", na paulicéia DEIVAIRADA.

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  2. Anônimo3:25 PM

    You made a few excellent points there. I did a search about the subject and hardly found any specific details on other sites, but then happy to be here, really, appreciate that.

    - Lucas

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  3. Anônimo1:05 PM

    Errata:

    Fiquei tão abestado com a eleição do "Picolé de Chuchu", que digitei errado. Leia-se: DeSvairada.

    Em tempo: A "Turma do Serra/FHC" privatiza até a mãe, e o pior: ENTREGA !

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.