quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fugindo do conflito da dupla face de nuances levemente diferentes



É oportuno ler o artigo de Cristovam
O que você prefere, seis ou meia dúzia?

“Debatem-se velhos temas: como crescer, e não qual crescimento; privatizar o estatizar, e não dar caráter de interesse público a toda atividade econômica, estatal ou privada; como construir mais escolas técnicas, e não como fazer uma revolução na Educação; quem vai distribuir mais Bolsa Família, e não quem a tornará desnecessária”.
Cristovam Buarque, senador reeleito por Brasília


Não sei se você leu o artigo do senador Cristovam Buarque, publicado no GLOBO de sábado, dia 23. Se não o fez, sugiro que dê uma olhada: ele está postado no seu próprio site
Reeleito com uma votação autorizadora, o ex-governador e ex-ministro da Educação esmiúça o processo degenerativo da campanha presidencial, mostrando com sua leveza de ser a ante-sala dos podres poderes.
“Não deveria haver surpresa no fato de o debate eleitoral estar sendo pautado pelo tema do aborto, da sexualidade e da crença no cristianismo.
Dois fatos levam a população a se preocupar com isso: de um lado, décadas de queda nos valores morais da sociedade - resultando em corrupção, desarticulação da família, generalização da droga, gravidez precoce, abandono de mulheres pelos maridos, prevalência da riqueza como objetivo central e valorização absoluta do consumo - fizeram com que ela, desarvorada pela falta de valores, buscasse abrigo na religiosidade.
De outro lado, nos últimos oito anos a apatia ideológica fez com que os partidos ficassem parecidos, o debate sem idéias novas e os candidatos pouco diferentes entre si”.
Tomo as reflexões de Cristovam Buarque como o ponto de partida da agenda do dia seguinte ao jogo de domingo, cada hora mais contaminado pelo vírus da diarréia mental, cada instante mais revelador de sua inutilidade, como se nunca antes nesse país a associação específica e exclusiva para o uso proveitoso do poder e para o leviano descompromisso tivesse ido tão longe.
Falta de bandeiras, excesso de ambições
Já não tenho fígado para ficar aqui cansando sua paciência com queixas infrutíferas sobre o apodrecimento da política, sobre a inversão grosseira e explícita do seu exercício. A sujeição do Estado ao jogo sujo dos interesses espúrios foi banalizada de tal forma que esse desvio de conduta já não conta como elemento de avaliação.
Políticos e aprendizes de formadores de opinião, entre estes a nova leva de missivistas da internet, perderam todo recato: agem e peroram com a certeza da existência de uma população acrítica e manipulável, nivelando-se na indigência de um ilusionismo mistificador e fraudulento, cada um puxando brasa para suas sardinhas reimosas.
Para mim, essa decisão da domingueira próxima é um oneroso conflito entre seis e meia dúzia. Já não lamento a ausência de fundamentos estratégicos e de referências ideológicas – eis que ganhou status de axioma a inventiva de que já não existem opostos entre esquerda e direita. A linha divisória estabelecida na revolução francesa teria morrido de inanição.
Não exijo sequer diferenciação de programas e propostas. Como já dizia o caudilho, tais ingredientes podem ser encomendados a especialistas, oferecidos ao consumo das expectativas e lançados ao lixo depois do seu gasto eleitoreiro.
Nas circunstâncias deste outubro ameno, o máximo que se pode almejar, em nome da construção de uma nação consistente e soberana, é que se tire uma boa lição da ressaca anunciada depois da corrida às urnas.
Não é figura de retórica dizer que os dois presidenciáveis são duas faces da mesma moeda. Igualmente, não há exagero em retirar do baú a velha máxima do primeiro dos Rothschild – “dê-me o Banco Central e não importa quem fará as leis”.
Depois que passaram a ser monitorados por marqueteiros e associados às elites dominantes, os candidatos abriram mão de suas naturezas e dos seus sonhos juvenis em troca de suas conveniências e do gáudio dos palácios.
Os marqueteiros insones ditam as falas de cada um. Para isso, além das consultas divulgadas, esses profissionais debruçam-se noite adentro sobre as tais pesquisas qualitativas para saber qual o fruto do arroto de um e de outro contendor. Dessas ilações  surgem as cenas dos próximos capítulos.
Se você sabe das diferenças, conte-me tudo
De onde ser impraticável alguém de atenção mais acurada pode se louvar nas ladainhas de campanha. Por seu caráter fraudatório, a engenharia eleitoral nutre personagens volúveis, capazes de deixarem o dito pelo não dito e fixados tão somente no rabo alheio, obrigando o eleitor a recorrer à sua intuição, ou mesmo a decidir no par ou ímpar.
Ou você é tão perspicaz que viu diferenças entre os adversários para além dos scriptes ensaiados? Se você penetrou no âmago de cada um, se lhe alcançou a alma blindada, então diga-me tudo e não me esconda nada. Porque eu mesmo, por mais que usasse minha sonda perfuratriz, cavei, cavei e vi sempre dois vultos iguais.
Tal é a fragilidade na diferenciação que o eixo do confronto perpassa a primeira vista: o conflito real é aceitar o fato consumado que o sistema eleitoral e os interesses hegemônicos impõem, como se o segundo turno fosse a consagração do partido único de dupla face, ou negar sua chancela, anulando o voto, numa assimilação da absoluta inutilidade de uma escolha entre os finalistas da mesma cepa, da percepção de um logro malfazejo.
É claro que a ilusão de poder falará mais alto. A população brasileira é politicamente subdesenvolvida, dependente do casuísmo de Estado e contagiada pelas síndromes da torcida e do fã-clube. Irá às urnas muito mais pela idealização fantasiosa dos seus pretendentes de ocasião do que pela compreensão da força motriz do seu voto, como um recado, uma opção por políticas de governo.
O índice de sensibilidade eleitoral pode ser aquilatado por uma pesquisa do DATAFOLHA, segundo a qual 30% dos eleitores já não sabem em quem votaram para deputado federal no último 3 de outubro. Não surpreenderá, portanto, se nos próximos dias os ânimos esquentarem, envolvendo as hordas numa guerra sem causa.
Apesar disso, pensando bem, pesando bem, creio ter chegado a hora de soltar o grito parado no ar e negar fogo a qualquer um dos parentes em transitório desacordo. Essa é a minha decisão, adotada com toda responsabilidade e consciente de que ao negar o voto aos dois estaremos contribuindo para um novo alvorecer.
Em que a sede de poder pelo poder dê lugar a uma emulação respeitável, representativa de partidos de verdade, de lideranças autênticas e de idéias coerentes.
Agora é Serra quem encosta em Dilma na enquete do blog PORFÍRIO LIVRE
A nova apuração, realizada à zero hora de hoje, dia 26 de outubro, revela que pelos cálculos do “Blogspot”, a diferença entre os votos postados pelos eleitores é de apenas 1%. Das 435 postagens feitas até o momento, Dilma Rousseff tem 204 votos (46%) e Serra, 197 (45%). As indicações de voto nulo subiram para 28 (6%), os indecisos são 4 e os que votarão em banco somam 2.
Se você ainda não votou, basta clicar aqui. Você tem até o meio dia de sábado para indicar sua preferência.

4 comentários:

  1. Meu caro Porfírio:
    Li atentamente este seu artigo. Me perguntei se há alguma razão nova para que os candidatos se pareçam tanto e recordei que esse é um fenômeno denunciado por comentaristas do mundo todo: democratas e republicanos nos EUA, trabalhistas e conservadores na Inglaterra, Serra e Dilma no Brasil.
    Me coloquei a hipótese de que a base real desse fenômeno pode ser a homogeneização ideológica (ou não ideológica) do eleitorado, que produz nos partidos discursos iguais. É a velha questão de agradar o freguês.
    Um abraço.
    Francisco Pucci

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  2. Francisco Pucci

    Seu comentário é realmente consistente. Mas o quadro em si é lamentável.

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  3. Anônimo2:46 PM

    Pedro, permita-me reduzir tudo dito, com mais uma das minhas...
    Ambos são gatos do mesmo balaio.
    Um abração
    Wagner

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  4. Anônimo3:37 PM

    Mesmo sendo "gatos (quase) do mesmo balaio", não são iguais, no mínimo, um é macho e o outro(a) é fêmea; assim, o abestado aqui, votará na GATA 13.

    E seja o que os DEUSES quizerem....

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.