quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Quando o jogo baixo resvala e provoca o tiro no pé

“Eu tinha 19 anos, eu fiquei três anos na cadeia, senador, e fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogadores compromete a vida dos seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, porque mentir na tortura não é fácil”.
Dilma Vana Rousseff, 7 de maio de 2008, em resposta a uma pergunta estúpida o senador Agripino Maia, que emocionou a todos a acabou servindo para mostrar a simpatia do povo pelos rebeldes que se insurgiram contra a ditadura militar.
CLIQUE AQUI E VEJA A RESPOSTA QUE DEIXOU OS SENADORES NA SAIA JUSTA

Ao relembrar a jovem Dilma, a ÉPOCA acabou falando de alguém que arriscou a própria vida no combate á ditadura militar
Não fossem tão estúpidos os primatas mercenários que manipulam a mídia, saberiam eles ser elementar a regra de que a produção de matérias sob encomenda tende a ter o efeito do tiro no pé, principalmente quando o escarcéu transborda os decibéis do senso comum.
Sendo tão despreparados como são, tais figurinhas carimbadas desconhecem inteiramente elementos que produzem efeitos e reagentes opostos a seus propósitos maliciosos. Isto ocorre pelo vício do desconhecimento do contexto, pela insensibilidade em relação ao momento, pela rasa percepção ontológica e, pasmem, pela afronta deliberada às informações históricas.
Infelizmente – ou felizmente, eis o paradoxo sadio – essas lesmas mentais ainda têm a alimentá-las uma súcia de falsos profetas, impulsionados muito mais pelo excesso da carga de ódio inerente aos contendores sem causa e a má fé míope que não enxerga o abismo de suas atitudes mal pensadas.
Uma reportagem de cartas marcadas
Veja tudo isso com a clareza cristalina ao deparar-me com o último rebento do laboratório de placebos que uma gravidez mal sucedida deu à luz. Refiro-me, para ser mais preciso, à reportagem de capa da revista Época, destinada a destilar uma paranóia que já não povoa o inconsciente coletivo, como naqueles tempos obscuros em que uma ditadura de trogloditas recorria à fórmula surrada de Paul Joseph Goebbels, o marqueteiro de Adolf Hitler, segundo a qual “uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade”.
Não tenho a menor dúvida: essa reportagem sobre o passado rebelde da sagitariana Dilma Vana Rousseff quis alvejá-la no que poderia ser o esconderijo de alguns segredos comprometedores. Ela ficaria mal fita se a classe média que ainda paga R$ 6,00 por uma revista de conteúdo amorfo ficasse sabendo dos detalhes daqueles momentos em que a filhinha de papai trocou o conforto da vida burguesa, das festinhas prazerosas e da alienação compensada por uma proeza da qual não sabia se sairia com vida, ainda na flor da idade.
Como se falasse de uma delinquente
Dispondo do acervo do lixo autoritário, a revista incursiona pela vida juvenil da rebelde d’antão como se estivesse falando de uma delinquente sem ideal, cujas práticas se assemelhavam a dos bandidos que nos assustam e nos ameaçam.
A intenção inegável da publicação da família Marinho é “alertar” a cidadania para os “riscos” de entregar a chefia do Estado brasileiro a alguém que, em sua juventude, mergulhou na “ilegalidade” e esteve “associada” a práticas nada amistosas para tentar derrubar o regime ilegítimo imposto pelos tanques e pela insanidade, que só não foi mais trágico porque o capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho – o Sérgio Macaco – abortou o plano sinistro do brigadeiro João Paulo Burnier, então todo poderoso da FAB, que queria explodir o gasômetro junto à estação de trem da Leopoldina, provocar milhares de óbitos e culpar os comunistas.
Para os primatas que engendraram a matéria, com a fartura de informações sobre a Dilma rebelde estar-se-ia abalando sua meteórica ascensão, decorrente exatamente da incúria e da incompetência de uma oposição, cujos despautérios se converteram no elevador da candidata governista.
Não sei se tal travessura dá para rir ou para chorar. Pensar que o povo brasileiro vê como criminosa a meia dúzia de bravos que ousou expor suas vidas no confronto desigual e utópico contra uma tropa envenenado e maculada pelas práticas animalescas que hoje nega de pés juntos é demonstrar total falta de compreensão da alma humana.
Esquecem que Che Guevara é um grande ídolo
Se ser rebelde, se pegar em armas contra a tirania fosse mácula, Che Guevara não seria de longe o maior ícone da história, cujo rosto carismático é reproduzido por todos os cantos do mundo, despertando a incontida admiração não apenas dos afinados com seu poema escrito com o sangue do seu assassinato covarde, aos 39 anos de idade. Che Guevara, o grande rebelde do Século XX, é a imagem mais cultivada em adesivos, bandeiras e até tatuagem de gente como a modelo Gisele Caroline Bündchen, que não tem nada de comunista ou subversiva.
Na prática, ao lembrar que a agora bem comportada Dilma Vana Rousseff já foi alguém que se alçou em armas contra uma implacável ditadura militar a mídia maniqueísta está resgatando a corajosa idealista que o mau tempo se encarregou de enferrujar. Os seres humanos, que se criam no culto aos heróis, que sabem da maldição dos audazes, como Tiradentes, jamais poderiam imaginar que essa Dilma que está aí, cheia de si, disposta a dar continuidade à alquimia do sr. Luiz Inácio, é alguém que já teve a vida por um fio, que pagou com a tortura mais cruel e o sofrimento do cárcere por que teve peito de enfrentar os brutamontes sádicos que um dia já saciaram suas taras sob a armadura de um regime de força, tão perverso que submeteu ao silêncio covarde e cúmplice essa mesma mídia que hoje quer cantar de galo.
Só para assustar os potentados
Pode até ser que essa matéria, manipulada segundo as mesmas técnicas da elegia inquisitorial, tenha a repercussão desejada como condimento de uma fritura que afeta meia dúzia de potentados, aqueles que estão apostando na candidata oficial como garantia de que continuarão tendo o melhor ambiente para a realização dos seus projetos empresariais.
Pode ser, mesmo, que o objetivo da reportagem seja muito mais minar as pragmáticas relações do mundo do capital com esse modelo de poder que fez de um operário o mais abrangente condutor de um processo em que todos se sentem aquinhoados, mesmo que a alguns caiba o banquete das mais apetitosas iguarias e à grande maioria apenas a garantia de que não lhes faltará feijão no prato.
Mas no grosso, como tenho dito exaustivamente em vão, essa armação será mais um ingrediente oferecido de mão beijada pelos desesperados oposicionistas à coroa que está vivendo sua primeira experiência eleitoral com o horizonte de uma vitória inevitável. Será um presente igual à provocação do senador Agripino Maia, um pulha de carteirinha.
Eu mesmo, que passei todos esses anos no sereno da indignação explícita, já disse e repito: se for para voltar àqueles tempos em que o entreguismo e a corrupção eram protegidos à bala e à mentira, não contem comigo, nem com os parceiros que jamais contribuirão para um retrocesso sem só, nem piedade.
A nós interessa o passo à frente e mais nada.

6 comentários:

  1. Flaudecy11:58 AM

    Caro Porfírio,
    Sou um admirador do seu idealismo. Só lhe peço que não permita que o idealismo ofusque sua percepção da realidade atual. Pessoa com sua inteligência sabe que se o idealismo é o motor de uma causa, a liderança política e a experiência, envolvendo inclusive o trânsito e intimidade com o mundo globalizado, são qualidades fundamentais em um governante. A realidade que vemos hoje nos mostra os dois principais candidatos sem condições de nos passar segurança nesses pontos. Ou seja, a escassez de líderes por que passa nosso País fará, mais uma vez, com que votemos praticamente no escuro. Resta-nos pedir a Deus, de joelhos, que nos ajude.

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  2. Anônimo12:35 PM

    Minha Bola-de-Cristal (precisão zero)indica que a Dilma vai ganhar já no Primeiro Turno, pois, nem o FHC vota no Serra(isto é bom ou mau ???).

    Tanto o PT, como o PSDB (os outros partidos também), são entreguistas, mas, o PT entrega mais lentamente...

    Espero que em 4010, a escala de valores e o conhecimento político dos contribuintes-eleitores, já tenham evoluido para o lado POSITIVO e que tudo esteja melhor.

    Será ???

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  3. Porfírio,
    Operação Condor, Ditadura,Tortura, Exclusão Social
    A conduta dos jovens que lutaram contra os ditadores no Brasil que conseguiram acabar com a nossa democracia, impondo neste País um capitalismo globalizado que beneficia apenas os Oligarcas. — Estes jovens que enfrentaram o perigo dos homens pervertidos e sedentos pelo poder $cifras, que não permitem obstáculos em seus caminhos, executando aniquilando o obstáculo seja qual for. — A estes jovens que tentaram defender a Pátria contra os expropriadores inescrupulosos. A estes jovens que tentaram evitar a exclusão social. Deixo aqui a estes jovens brasileiros meus agradecimentos pelas tentativas. — Estes a meu ver foram e são, os verdadeiros Patriotas da Nação Brasileira; - lutaram em um período em que não sabiam que o mal era muito maior do que imaginavam. Acredito, que se fosse hoje, aqueles jovens não teriam tanta audácia ao defender uma Nação aonde as corporações globais que apoiaram o Golpe, intimidavam o cidadão através da tortura.

    http://brasileafragilrepublica.blogspot.com/2010/08/classes-dominantes-e-exclusao-social.html#links

    http://brasileafragilrepublica.blogspot.com/2010/08/quando-o-jogo-baixo-resvala-e-provoca-o.html#links

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  4. Anônimo8:14 PM

    Caro Porfirio boa noite!!
    Se a Dilma tem tanto orgulho do passado, nao tem porque esconde-lo.
    Todas as vezes que aparece uma materia falando a respeito do passado dela ou de outro do mesmo partido, e esse desespero.Nao tenho o seu conhecimento de causa, contudo sei que nao se pensava em implantar democracia, e sim uma ditadura comunista, pelo menos no inicio,por um periodo, como foi divulgado no site da camara direcionado para criancas, e como vemos em outros paises, Cuba e nooso exemplo mais proximo.
    Fala-se muito nos `salvadores` mortos e esquecem dos civis inocentes que faleceram ou aqueles perderam membros e que hoje recebem uma miseria, eqto que os causadores estao a receber senhores salarios e mais, uma bolada de milhares ou milhao de reais a titulo de reparacao.
    Qto a mentira muitas vezes citadas tornar-se realidade, esse partido que hora comanda o Brasil ,usa e abusa.
    Ainda hoje eu estava citei-o como detentor de meu voto, por ter sido um dos poucos que defenderam a causa VARIG, contudo, como pedes opiniao, eis a minha.
    Mario -RJ
    Obs. Teclado nao configurado portugues ( ainda)

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  5. Essa repotagem não fede nem cheira porque a Dilma de ontem não mais a mesma. Ela é um fantoche. Representa apenas a continuidade do governo Lula, que é a continuidade do governo FHC, e assim retroativamente...
    É isso que deveria estar sendo abordado.
    Porque a "esquerda" não questiona qual foi a posição de Dilma no caso da anistia aos torturadores pelo STF?, qual a posição de Dilma quanto a decisão do TCU em rever as anistias às vítimas do regime militar?, qual a explicação de Dilma para que os documentos do chamado de Projeto Memórias Reveladas estejam sob guarda de entidade militar (http://www.oab-rj.org.br/index.jsp?conteudo=13105)?
    E, há tantas outras coisas mais a serem desmascaradas. Porque os dita "esquerda" não o faz?

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  6. Anônimo10:45 PM

    cantilena dos "salvadores da pátria" continua a cada eleição. No fundo são bostas de mesma croaca. O idealismo acaba com a vhegada ao poder e a mamata garantida. Para um canhoto a esquerda é direita e vice-versa. Concordo que toda ditadura é indesejável, principalmente a ditadura democrática conseguida sob a égide do capital hipócrita e falsamente indesejado.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.