domingo, 22 de agosto de 2010

De como os presunçosos perdem as estribeiras e caem do cavalo

“Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis”.
Niccolo Maquiavel (Florença, 1469 —1527 ) em O Príncipe.

Bem que avisei: a oposição “viável”, cheia de si, instigado por rancores e presa ao mofo político, preferiu o haraquiri. Pegou a direta desembestada e caiu do cavalo antes mesmo de setembro chegar.
Por várias vezes, disse e repeti: o adversário da candidata do Lula só teria chance se mostrasse que representava uma alternativa progressista. Isso não seria difícil, porque o governo Lula, além de ter feito todos os gostos do sistema financeiro, dando de lambuja a eliminação, pela cooptação e outras formas de sedução, dos focos de mobilização adversa, ainda se deu ao luxo de cercar-se e fortalecer o que há de pior na política brasileira, mesmo quando isso implicou em oferecer os governos de muitos estados àqueles a quem tratava como ladrões até outro dia.
O rei da cocada preta caiu do galho
É possível que os luas pretas que orientam José Serra tenham-se inspirado em alguns resultados recentes nas eleições do Continente – principalmente as vitórias pela direita de Sebastian Piñera, no Chile; Juan Manoel Santos, na Colômbia, e de Alan Garcia, no Peru. Este último derrotou o general Ollanta Moisés Humala Tasso, apoiado abertamente por Hugo Chávez.
A preocupação de identificar Serra com os eleitores de direita foi tão deliberada que até na propaganda eleitoral, ao falar de sua biografia, é dito que ele foi “presidente dos estudantes brasileiros”, omitindo propositalmente o nome da União Nacional dos Estudantes, a UNE, uma sigla demonizada pela ditadura.
Como o PSDB é muito mais uma empresa do que um partido político, tudo foi tratado sob a ótica do “mercado eleitoral”. Marqueteiros que desconhecem os intestinos partidários e nunca conviveram olho no olho com os eleitores, bem como jornalistas acostumados a análises de camarote cruzaram informações e venderam o peixe podre da vitória inevitável da oposição, por ser detentora de governos importantes como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul e por conta da própria condição de Dilma, uma marinheira de primeira viagem, imposta ao PT e ao espectro partidário situacionista pelo presidente Luiz Inácio.
José Serra se achava desde cedo o rei da cocada preta. Primeiro, definiu que qualquer um poderia ser o candidato da oposição, desde que fosse ele, alijando o governador Aécio Neves, que tem muito mais jogo e maior facilidade de lidar com o eleitorado para além das fronteiras de São Paulo.
Depois, manteve todo mundo de saia justa, à espera da sua fumacinha, que só foi irradiada no último dia do prazo, quando Dilma já havia saído da sombra e assumido o proscênio com um discurso estudadamente palatável, afinado com o modelo vitorioso de Lula, e até mais moderado.
Dilma foi mais ladina ao beijar a mão de dona Lily
Mais ousada do que o tucano, ela fez sua primeira aparição já como candidata justo na casa onde mais se conspirou contra o povo, onde o golpe de 64 foi negociado a peso de ouro, onde o assassinato de muitos “subversivos” foi brindado e onde Collor foi fabricado para impedir a ascensão de Brizola. Tendo a “comunista” Jandira Feghali ao lado, a ex-guerrilheira foi beijar a mão de dona Lily Marinho, na mansão do Cosme Velho que sempre foi o templo do poder paralelo no longo reinado do todo poderso Roberto Marinho.

Com o sorriso da "comunista" Jandira Feghali, Dilma tratou de beijar a mão da viúva de Roberto Marinho na casa que sempre foi o santuário da direita e dos queridinhos do imperialismo
Serra imaginou que a lembrança da Dilma “companheira em armas de José Dirceu”, como este alardeou ao passar o comando das Casa Civil, a tornaria um pesadelo para os defensores da propriedade, sejam os donos do agro-negócio que nunca foram tão favorecidos em nosso país como no governo petista, sejam os pequenos proprietários, sempre temerosos de perderem o que conquistaram a custa do suor do seu rosto.
Certo de que sua eleição eram favas contadas, Serra desprezou regras elementares da cartilha política. Seu vice só foi conhecido nos acréscimos do prazo. E, ao contrário do que se poderia esperar, ao invés de um jovem com a verve da cidade inquieta e cosmopolita, ele preferiu a farda do capitão Jair Bolsonaro, o herói dos porões da ditadura, indo chover no molhado com tal incompetência  que até sua aspiração compensatória de disputar a Prefeitura do Rio em 2012 pode ir por água abaixo.
Marina é uma peça do xadrez oficial
Dilma cuidou de cultivar a arte da prudência. Não entrou nas divididas em relação a quesitos sagrados da esquerda, como na mais recente ofensiva contra o reparo devido aos perseguidos políticos daqueles idos tenebrosos. E deixou que o seu inventor se expusesse nas polêmicas sobre as quais têm um domínio teatral invejável. Lula ganharia o Oscar como intérprete de uma tragicomédia em que seduz as massas com migalhas, não toca no cerne da injustiça social e ainda pode festejar o sucesso das elites, especialmente os banqueiros, cada vez mais ricos e mais concentrados.
Serra não percebeu que Marna Silva era um subproduto elaboado do governo a que serviu por sete anos, e do partido que liberou seu passe sem cobrar multa contratual, apesar da farisáica lei de fidelidade partidária. Seu papel na estratégia palaciana é tumultar o arraial oposicionista, tarefa que cumpriu com louvor ao desmontar a coligação no Estado do Rio, onde o candidato a governador apoiado pelos tucanos e democratas está de mãos atadas na retribuição devida.
Ainda em agosto de temperaturas amenas, já se prevê a vitória da debutante no primeiro turno e por uma margem avassaladora. Vitória que será também, como é do folcore político brasileiro, da velharia corrupta e arrivista, encabeçada pela figura deletéria do decano José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo Sarney.
Não me pergunte se ainda é possível reverter esse quadro patético. Nada em política é impossível. Mas acho que já é tarde, até porque o pessoal do Serra não sabe o que é “semancol”. Traduzindo: prepare-se para um longo e tenebroso período, que ainda partirá para uma espécie de governo de partido único, do tipo mexicano.
Bem feito, repito. Você pode dizer que nós não merecemos esse desenlace. Eu, porém, não tenho certeza disso.
Tentativa de calar o blog.

Esta semana, tiraram do ar o meu blog http://www.porfiirolivre.com/
Para resgar seu conteúdo, tive que mudar para http://www.porfiriolivre.info/
 Agora, você já sabe: o meu blog tem um novo endereço. É o “info” no lugar do “com”.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Apesar do seu artigo aparentemente fazer sentido, me decepciona você não mencionar diretamente o primordial ponto que diferencia a "banda boa" da oposição desse nojento estilo Lullista de governar ("...como nunca antes...") o nosso país.

    Me surpreende você aparentemente esquecer que assim como para VOCÊ foi impossível traduzir em votos suficientes a sua característica mais preciosa que é a sua essência de ser humano basicamente decente e coerente com os seus princípios, o mesmo ocorre com a atual oposição...

    Como pode qualquer político pretender levantar uma discussão séria em torno de propostas para um país onde o grosso do eleitorado vende o seu precioso voto por esmolas oficiais, a elite das elites financia as campanhas da "equerda que lutou contra a ditadura" que por sua vez se tornaram "unha-e-carne" com políticos que há décadas rapinam o povo Brasileiro???

    Como seria viável explicar a um eleitorado ignaro a insanidade de ver uma orgulhosa ex-guerilheira Marxista que lutou para para implantar uma Ditadura do Proletariado no nosso país ser bancada pelo grande capital Brasileiro e apoiada pelos políticos mais ladrões criados pela ditadura????

    Você diz ser provável que Serra perca as eleições por falta do traquejo de um Aécio, da flexibilidade de princípios de um Lulla, ou apenas pela ausência de "semancol", quando talvez na verdade Serra seja apenas como você: intransigente com os seus princípios!!! Só falta você dizer que isso é defeito!!!

    O Serra terá milhões de votos das pessoas mais conscientes e preocupadas com o futuro Brasil meu caro. Se formos minoria nos restará apenas o que nunca nos faltou: Esperança! O que jamais será possível é concordar com esta baixaria Lullista!

    Abraços, Peter Lessmann

    ResponderExcluir
  3. Anônimo9:09 AM

    Raciocínio perfeito, considerando que José Serra quisesse, ou estivesse efetivamente autorizado, a ganhar estas eleições. Do seu próprio texto depreende-se que os donos do poder estão tão satisfeitos com o Lula, que conseguiu subtrair os direitos da patuléia sem as resistências que enfrentou o tucanato. Não se mexe em time que está ganhando, Porfírio. José Serra pode estar fazendo só figuração, e Aécio estar sendo guardado para um possível fracasso do próximo governo, coisa que só depende do câmbio.

    ResponderExcluir
  4. Romulo Paz3:16 PM

    Caro Pedro

    É com imenso prazer que aqui apareço para oferecer minha humilde contribuição. Faz tempo que não trocamos mensagens, mas estou sempre acompanhando sua movimentação político-jornalística. Recordo-me que na primeira eleição de Lula você se manifestou indeciso pelas pesadas dúvidas que recaiam sobre a idoneidade do sindicalista. Contestei aquela posição, com base na certeza de que Lula entrara na cena política nacional com o único objetivo de barrar a chegade de Brizola ao Poder e por isso votaria em Serra. Disso, ainda hoje estou certo. Porém, o tempo passou e vejo que o quadro se inverteu. No primeiro mandato Lula mostrou a que veio, chegando inclusive a afirmar, sem qualquer cerimônia, que nunca tinha sido de esquerda. Mas, como dizia o velho caudilho, o processo social é sábio. E, veio o mensalão. Lula ficou sozinho e a elite se aproveitou para se desfazer dele, como uma espécie de queima de arquivo. E foi justamente no velho discurso de esquerda que Lula resolveu pedir socorro, passando então a tornar-se escravo da própria retórica. Nessa linha, aproximou-se dos lideres populares da América Latina, extendendo-se até o oriente médio do líder iraniano. No meu simples entender, foi esse gesto que lhe conferiu os altissimos índices de popularidade, afinal, fora disso, ele é um repeteco de FHC. Essa minha análise não é de graça, ficou na minha mente o discurso de Brizola no Rio Centro quando, em meio a revolta dos trabalhistas, ele os conclamou para fazer a direita engolir o sapo que criara para quebrar a espinha do trabalhismo. De certa forma, vejo se concretizando a profecia do velho Briza, a política externa de Lula é no mínimo inquietante. Assiti, com muito respeito, sua migração para o PSDB, enquanto caminhava justo o caminho inverso, apoiando Lula, principalmente pela importância que sua atitude (de respeitar os líderes que se insugiam contra o gigante do norte) representava para consolidação desse movimento libertário. Não deixei entretanto de admirar Serra pela sua desenvoltura e preparo técnico. Mas uma coisa sempre me preocupava. Quem financiou Serra? Não foram todos os exilados que viveram de privilégios, inclusive com carta branca para se preparar nas melhores universidades do mundo. Essa resposta eu obtive quanto ele esteve aqui na PB. Pois é Pedro, Serra, junto com Plínio Arruda e FHC foram recebidos com tapete vermelho no Chile, tudo bancado pelo Vaticano. O mesmo vaticano que chamou o povo pra ruas em apoio a deposição de Jango. Serra e Plínio não estão aí por acaso. Por tudo isto, Serra e seus aliados jamais poderiam seguir tua proposta, eles estão comprometidos até a alma com o mercado de capitais. Por conta disso, está sendo vítima da SÍNDROME DA BOLÍVIA, da mesma forma de Alckmin. Lembra que Alckmin foi cobrar a Lula uma medida de força contra os bolivianos? Serra iniciou do mesmo jeito, elegendo a cocaína boliviana como responsável pelos problemas estruturais do país para atacar, sem nenhum respeito, o líder boliviano. Com essa estratégia, Lula que estava em baixa, conseguiu o insólito feito de transferir 4 milhoes de votos dados a Alckmin no primeiro turno. Serra vai ser pior, não haverá segundo turno. E, assim, Morales entra para história como o maior eleitor brasileiro.

    Um grande abraço!!!

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.