domingo, 27 de junho de 2010

PDT com Sérgio Cabral: o brizolismo no fundo do poço (1)

Lupi age como empresário à beira da falência: a empresa sucumbe, mas ele se garante pessoalmente

“Em um desses momentos em que as traições castigavam o PDT, Brizola desabafou com Neiva Moreira, então líder da bancada na Câmara: “Qualquer dia desses, eu fecho esse partido e vou fundar um Movimento Nacional de Libertação… Os políticos nunca vão criar vergonha!”
Do livro El caudilho Leonel Brizola, de FC Leite Filho (Assessor da bancada federal do PDT)
Vejo Brizola muito mais com espelho dos sentimentos populares do que como um líder indiscutível. Desde a resistência ao primeiro golpe em 1961, que o pôs o Rio Grande em armas e garantiu a posse de João Goulart, desde as emblemáticas nacionalizações dos trustes de energia e telefonia, ele passou a incorporar as expectativas de mudança social e afirmação da soberania nacional.
Essa referência o transformou num mito, para uns, e num estorvo, num inimigo público para as elites. Ele, mais do que ninguém, passou a ser o divisor de opiniões.
Quando veio a ordem para os militares voltarem às suas atividades constitucionais, o general Golbery do Couto e Silva, articulador do golpe de 64 através do IPES e homem forte da ditadura, tratou de barrar o passos de Brizola, de impedir que voltasse com possibilidades de assumir a Presidência, como aconteceu com outros líderes exilados, como Mário Soares, em Portugal, Papandreou na Grécia, e, mais recentemente, Nelson Mandela, que se tornou presidente da África do Sul depois de 28 anos de cárcere.
Mortes suspeitas e fabricação de Lula
Qualquer um poderia aspirar ao comando do país, menos Leonel Brizola, imaginado pelo sistema como alguém sem freios, capaz de levar seu discurso nacionalista a consequências imprevisíveis. Tratava-se, em todos os códigos do poder, de uma ameaça tão perigosa que até a sua posse na inesperada vitória para o governo do Estado do Rio, em 1982, foi objeto de uma conspiração militar, isso depois da utilização dos computadores da Proconsult para desviar seus votos.
Todo mundo sabe que Lula foi inflado no contexto dessa rejeição sistêmica. Feito sindicalista somente porque o irmão – o Frei Chico (filiado ao PCB) – se achava inseguro para ser do conselho fiscal do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, na chapa de Paulo Vidal, abençoada pela ditadura, Lula logo caiu nas graças do IADESIL, a “ONG” montada com a ajuda da CIA para fabricar, subornar e cooptar os líderes sindicais no Brasil.
Lula não teria existido se não fosse pela necessidade de se ter um projeto “novo”, capaz de evitar um outro “queremismo”, como o que levou Getúlio de volta à Presidência em 1950.
No período entre agosto de 1976 e maio de 1977, o sistema já havia se livrado de três grandes líderes de envergadura nacional, que se aproximaram em 1966 através de uma frente ampla: JK foi “acidentado” em 22 de agosto de 1976, já aos 74 anos; Jango, envenenado na província de Corrientes, Argentina, em 6 de dezembro do mesmo ano, quando tinha pouco mais de 57 anos, e Carlos Lacerda, cassado em 1968 pelos golpistas que ajudou a alçar e em 1964, morreu em 21 de maio de 1977, depois de ser internado numa clínica com “uma gripe forte”, um mês depois de completar 63 anos.
Brizola escapou por duas razões: primeiro, porque era mais atento; segundo, porque o sistema precisava de um bode expiatório capaz de unir “o outro lado”. Mesmo anistiado, ele foi monitorado regularmente pelo SNI e sucedâneos, inclusive quando já se fizera governador.
Brizola quase ficou sem partido
O golpe mais certeiro do general Golbery foi tomar-lhe o PTB, entregando-o a Cândida Ivete Vargas Tatsch, uma cúmplice que tinha algum grau de parentesco com Getúlio. Convencido de que não teria futuro na velha sigla, Brizola correu contra o tempo e fundou o PDT, conseguindo a surpreendente proeza de ser eleito governador do RJ, á frente de um verdadeiro “exército brancaleone” de excluídos.
No seu primeiro governo, procurou a linha do entendimento. No primeiro ano, tinha almoços regulares com Roberto Marinho, que viria a ser seu principal algoz em função de desentendimentos atribuídos pelo caudilho à sua disposição de implementar o projeto do ensino de tempo integral, os CIEPs, e de garantir os direitos constitucionais das populações das favelas, assegurando-lhes a possibilidade da posse dos seus barracos, através do programa “cada família, um lote”.
Apesar de ter feito corrosivos acordos com velhos corruptos na Assembléia Legislativa,e de ter mais tarde se manifestado contra a CPI do Collor (o que lhe valeu um massacre por parte do PT – a divulgação de uma declaração sua infeliz na campanha de Lula em 1994 causou mais danos do que toda a campanha da Globo), Brizola permaneceu inserido no inconsciente coletivo e no index do sistema.
Sérgio Cabral sempre quis ser o anti-Brizola
Sérgio Cabral Filho era um pirralho de talento que queria ser político. Em 1986, não se elegeu deputado estadual, mas já fazia questão de se apresentar como o anti-Brizola. Eleito Moreira Franco com a fraude do Plano Cruzado, Cabral Filho foi ser diretor de Operações da Turisrio. Em 1990, conseguiu seu primeiro mandato pelo PMDB com 12 mil votos.
Já no PSDB, disputou a eleição para prefeito do Rio de Janeiro com um slogan que estava em sintonia com seu discurso antibrizolista: "Quero ser um novo Marcello sem o Brizola para atrapalhar".
Foi mal, mas em 1994, já trabalhando o segmento da terceira idade, teve uma votação expressiva para deputado estadual. Com a eleição de Marcello Alencar para governador, pelo PSDB, tornou-se presidente da Assembléia Legislativa e articulou com todo o seu poder de pressão a rejeição das contas do então governador Brizola, com o que o caudilho ficaria inelegível, para o que contou com a ajuda do PT, especialmente de Carlos Minc. Brizola sobreviveu por um voto, graças a uma atitude digna do deputado petista Neirobis Nagae (hoje fora da política) e do então prefeito Cesar Maia, que mandou os deputados do PFL saírem fora do complô que imobilizaria o velho por 8 anos.
Valeu lembrar que Leonel de Moura Brizola morreu também em circunstâncias estranhas, ao seu internado num hospital em obras, no dia 21 de junho de 2004, 24 horas de uma reunião com Garotinho, que fora convencê-lo a disputar com seu apoio a eleição para prefeito, no lugar de Luiz Paulo Conde.
Governo campeão na caça aos jovens pobres
Em seu governo, Cabral Filho estimulou a matança de jovens suspeitos das favelas e conjuntos populares, começou a murar e transformar em gueto onze favelas da Zona Sul (incluindo a Rocinha, que agora corteja), esvaziou as escolas de tempo integral, dedicou-se à terceirização da saúde através das “OS” e dedicou-se de corpo e alma aos interesses das elites, especialmente ao do triilionário-relâmpago Eike Batista, para quem desapropriou as terras de 6 mil famílias de lavradores no futuro Porto de Açu, em São João da Barra.
Para culminar, Sérgio Cabral demoliu o memorial a Brizola, que a governadora Rosinha mandara construir no final da Av. Presidente Vargas, atitude que mereceu críticas chorosas do deputado-neto do caudilho, agora aliado incondicional de Cabral.
Em suma, ninguém encarnou com tanta exuberância o antibrizolismo, no que o brizolismo tinha de mais saudável, ninguém agiu tanto contra o povo pobre como esse governador, a quem não se pode atribuir nenhum mérito administrativo. E cuja maior bandeira é a PRIVATIZAÇÃO DO AEROPORTO DO GALEÃO.
Pois, preocupado tão somente em garantir o controle do Ministério do Trabalho e das verbas do FAT,  Carlos Roberto Lupi, uma espécie de produto da depressão pessoal do caudilho,  carreirista sem voto e sem escúpulos, convocou a convenção regional do PDT para o dia do jogo do Brasil contra Portugal.
Na mesma hora em que a nação estava acompanhando o jogo mais chocho da Copa, o ministro do Trabalhoi valia-se do seu poder que o cargo oferecia para sacramentar a adesão ao mauricinho das elites, isto porque o diretório regional foi "eleito" em chapa única, graças à cassação da chapa adversária.
Com essa desastrosa adesão, o ministro pode sonhar em continuar no cargo se Dilma ganhar, mas, em conpensação,  vai ajudar a enterrar o partido que um dia foi a maior força do Estado. Voltarei ao obtuário do PDT chapa branca, que, inteiramente dopado pelas migalhas do poder,  está indo para o fundo do poço.

4 comentários:

  1. Anônimo2:04 AM

    Caro Porfírio:

    Concordo plenamente. veja que situação difícil nos encontramos agora. A história que você recordordou nos enche de orgulho e saudades, além de justificar nossa opção pelo PDT. O sonho da volta do velho PTB foi sepultado, mas restava-nos seguir o herdeiro do bastão do trabalhismo, fosse qual fosse a sigla. Sabíamos que o garoto de Carazinho um dia teria que ir para São Borja em definitivo, se juntar aos grandes, mas tínhamos a esperança que, mais uma vez, surgisse uma mão digna de receber o bastão que (na minha opinião) foi empunhado primeiro por Bento Gonçalves. Não aconteceu. Nem há nada de novo, a não ser o desprezo generalizado à ética e a coerência, numa época em que o fim justifica os meios e a ação no lugar das idéias é pretexto para a busca inescrupulosa do poder. Nos anos 90o Brizola dizia que um político sério não encontrava ambiente entre "seus pares". Imagine se ele tivesse que conviver com o cenário atual. Imagine a situação (por exemplo) do Dep. Paulo Ramos: adversário implacável do Gov. Sérgio Cabral, tendo (como seria o normal) dividir panfletos, cartazes e galhardetes com dito cujo!
    Mas continuemos fazendo o possível, sem nos contaminar. Espero que minha filha de 4 anos, um dia me chegue com uma novidade que me indique uma saída, afinal o fio da História nunca se parte.

    Um abraço,

    André Menezes Mendes
    sigmatau@oi.com.br

    ResponderExcluir
  2. Anônimo10:15 AM

    Não vai ser fácil para o PDT explicar esse apoio ao Sérgio Cavral e à Dilma, que tem cara de puro interesse pessoal da cúpula

    ResponderExcluir
  3. Anônimo8:58 PM

    O Brizola colocou pulha em questão no pdt simplesmente em deferencia à dona Darcy, numa homenagem aos pequenos jornaleiros. Daí que o vendilhão das bancas se deu bem. Sem querer Bizola cuidou para que o partido mostrasse sua cara e acabasse como está acabando- uma siglinha medíocre de aluguel, comandada por concubinas e proxonetas. Tenho nojo só em passar na porta dessa espelunca. Quanto ao neto, que carinha ridículo e medíocre. Não puxou ao avô. Se não tomar cuidado o "ministro" vende-lhe a genitora na feira livre.

    ResponderExcluir
  4. Anônimo9:30 PM

    São todos uma cambuta de filhos da pada.

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.