segunda-feira, 14 de junho de 2010

Após a perplexidade, a dúvida: participar ou não do processo eleitoral

Sem um  tostão para gastar numa campanha, dependeria do apoio de multiplicadores voluntários
Por quase dois meses, a perplexidade, o sentimento de impotência e a percepção da inutilidade da nossa indignação me prostraram.
O desânimo abateu-me e me afetou por inteiro. Escrever por escrever não poderia converter-se numa mera terapia ilusória. Na rotina de pôr o dedo nas feridas, de dar nomes aos bois, passei a constatar que acumulava incompreensões e desafetos. E temia a ausência do contraponto. Isto é: minhas palavras batiam e resvalavam, perdendo-se no tempo e no espaço, sem o eco capaz de influir no processo.
Essa sensação pessimista me imobilizou. Não tinha nem como expressar a falência múltipla do pensamento crítico. Sequer sabia ser esse um fato consumado. Ou apenas uma depressão passageira.
Nesses 54 dias, muita coisa aconteceu e não me senti com forças e convicções para opinar. A reação dos destinatários das minhas palavras já parecia codificada: dependendo do que dissesse, poderia receber a aprovação de uma corrente e a desaprovação de outra. E vice-versa. Passei a temer que escrevia para pessoas já fechadas em suas idéias e interpretações do processo político.
Não foi fácil retomar a palavra.
Hoje, volto até você porque o país vai viver mais um momento transcendente de sua história. Mais de 130 milhões de brasileiros serão chamados a escolher seus mandatários, de deputados estaduais até presidente da República.
Tenho sido cobrado diante desse embate já em andamento. Os que me abordam, nas raras vezes que saio de casa, ou mesmo pela internet, lembram da necessidade de uma participação efetiva, até pela própria vivência nos últimos anos, quando desempenhei mandatos em quatro legislaturas, além de ter exercido cargos no primeiro escalão do governo da cidade do Rio de Janeiro sem nunca ter me deixado corromper.
Por algum tempo, argumentei que já não há espaços para pessoas honestas na vida pública. Ao predomínio de políticos corruptos e corruptores, somam-se o baixo índice de exigência dos eleitores, a mistificação como arma de sedução, a alienação alimentada pelo sistema e a ascensão da mediocridade.
Criaram-se mitos aparentemente invencíveis. Nenhum político hoje tem coragem de dizer que esse “bolsa-família” é um engodo para forjar currais eleitorais, é a consagração da política de migalhas, da formação de substratos sociais parasitários, a perda da noção de que o sustento deve prover do nosso trabalho.
A ninguém ocorre pedir um prazo para a transformação da “caridade pública” em frentes de trabalho, nas quais os beneficiados fariam sua parte, recuperando a dignidade perdida com a contraprestação de algum serviço: além do que, integrando-se na atividade produtiva, estariam aliviando a carga daqueles que a ela se dedicam a um custo cada vez mais sacrificado.
Os que falam sobre a corrupção que campeia como uma erva daninha ficam na superfície e não o fazem com a convicção necessária para promover um efetivo desmonte dos poderosos bolsões que a transformam numa  regra demolidora. É como se fossem contra a corrupção dos outros – com os amigos e com seus desejos pessoais são condescendentes.
Cada dia são mais agressivos os atos de corrupção, que não se limitam somente aos poderes oficiais: hoje, você começa a ser roubado na conta do seu condomínio, infestado pelas terceirizações direcionadas,  e pode ser ludibriado a cada momento, exigindo uma atenção redobrada de cada um.
Falam da corrupção dos políticos, mas não ousam tocar nas malhas que se espalham pelo poder judiciário, cujo controle externo de fato ainda não existe. Quando um desembargador é flagrado e preso em ruinosas práticas, sua punição é restrita à “aposentadoria precoce”.
E não ousam falar na rede de corruptos privados, empresários que enriquecem da noite para o dia, e integrantes de ONGs montadas apenas para sugar dinheiro público: nos últimos oito anos, essas arapucas passaram de 25 mil para 350 mil, profissionalizando a solidariedade e comprometendo o trabalho sério daquelas, cada vez mais raras, que realmente agem de boa fé.
Na questão social, não têm coragem de tocar em temas sustentados por dogmas. Nada de concreto se faz em relação ao crescimento irracional da população – ninguém quer admitir a necessidade de um programa amplo de paternidade responsável, que inclua apoio às famílias que precisam limitar a prole, providência que salvou alguns países populosas de uma verdadeira catástrofe.
E na voracidade do assalto do Estado em impostos escorchantes, ninguém admite fórmulas de redução, porque os políticos se imaginam fazendo uso dessas fortunas tributárias. Em todos os casos, cada um puxa brasa para a sua sardinha, esquecendo que o pomo da questão é a roubalheira: metessem menos a mão no dinheiro do contribuinte, o Estado faria mais e por menos.
Nessa farra de impostos, há pelo menos um que deveria ser extinto já – o laudêmio, um herança dos tempos feudais, do primeiro império, pela qual moradores de boa parte das cidades têm que pagar a mais 5% de taxa na compra de um imóvel, isso sem falar no ITBI, fixado arbitrariamente pelas prefeituras.
Para você ter uma idéia, estudos recentes revelam que a própria renda per capita da população é corroída pelas práticas de propinas, superfaturamentos, favorecimentos e outras formas de apropriação ilegal dos altos impostos que pagamos: se estancássemos as falcatruas, a renda per capita anual dos brasileiros passaria dos atuais R$ 14.317,00 para R$ 16.551,00 – isso partindo da tímida constatação de que as perdas anuais com o práticas deletérias são estimadas entre R$ 74,7 bilhões e R$ 124,3 bilhões.
Da mesma forma, ninguém quer encarar com seriedade dois dos maiores desafios do país: a educação e a saúde. No primeiro caso, todos os governos, em todos os níveis, burlam os percentuais destinados ao ensino público e nada acontece. Além disso, por falta de mobilização, a destinação de recursos configura um desprezo total sobre os ensinos fundamental e médio.
Na área da saúde, até por influência corporativa, boicotam a implantação dos médicos de família, a medicina preventiva, enquanto incham a indústria farmacêutica, limitando a produção de genéricos e de medicamentos de laboratórios públicos. Por conta disso, temos hoje no Brasil mais farmácias (55 mil) do que padarias (46 mil).
Em suma, a mistificação e o engodo fazem a festa, ludibriando eleitores pouco atentos e oficializando um estado de mentiras e de ilusões.
Daí a necessidade de pedir mais uma vez sua opinião a respeito do que eu devo fazer ante a cobrança de alguns segmentos sobre minha possível contribuição no caso de disputar mais uma vez um mandato – agora de deputado federal.
Tenho até o dia 19 para decidir. Se você se dignar a me responder, e se sua resposta for positiva, por favor, informe de que forma você poderia me ajudar a desfraldar as bandeiras de uma mudança radial de hábitos e de políticas públicas.
Sem um tostão para gastar numa campanha, dependeria fundamentalmente de uma rede de multiplicadores voluntários, que se tornariam parceiros de um mandato marcado pela transparência, a coragem de encarar os canalhas e a criatividade na formulação de alternativas para livrar o povo brasileiro dos políticos corruptos e dos grilhões da ignorância, do atraso e da insegurança social.
Espero sua manifestação.

10 comentários:

  1. Muitas pessoas querem e participam da política, mas somente algumas enxergam os problemas sociais e oferecem sugestões para resolvê-los. Você é uma delas.
    O país que temos não é o que queremos. Sua participação nas próximas eleições engrandece o processo e alimenta esperanças.Você tem bagagem, seja candidato, conte com nosso apoio, de nossos amigos e familiares no Rio de Janeiro.
    Vamos juntos!
    Forte abraço
    Ricardo Faria

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  2. Salve Porfírio
    Sua análise está perfeita; concordo com 98% de seu pensamento. Só discordo, e eu creio que vc já "ouviu" isto de mim, de seu "virtual" otimismo. O "brasileiro" médio é um retardado, politicamente e neurologicamente (não sei bem em que ordem). Não existem explicações pseudo-sociológicas. E o retardamento do brasileiro médio é a causa de 2 fenômenos, entre tantos outros: (1) os políticos bandidos (fui redundante), o judiciário conivente e igualmente "fora da Lei" (fui tb redundante), apenas (sic) utilizam (e muito bem) o retardamento social para elevar seus butins; e (2) nós, pessoas não retardadas, e com sangue nas veias, mas que participamos deste circo, sofremos a cada "informação" atualizada. Se vc - por mera falta do que fazer - se candidatar novamente, conte com o meu voto, e a minha campanha (em minhas listas). Não sei se ajudará muito, mas é sempre bom saber que os amigos ainda têm esperanças.
    grande abraço
    Prof. Murillo Cruz

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  3. Mario Sá11:46 AM

    Deputado Porfírio,

    Conte com meu voto "moral/espiritual", pois, voto em São Paulo.

    Como os atuais partidos políticos nada representam, você está "perdoado" por estar no PSDB.

    "Mais vale acender uma vela, do que amaldiçoar a escuridão".

    "Água mole, em pedra dura, tanto bate, até que fura".

    Considerando que o TEMPO é uma variável relativa, e, que a evolução das espécies é muito lenta, a única alternativa é continuar pregando o "Lado Bom da Força", sempre ...

    Saudações Revolucionárias Virtuais,
    Mario

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  4. http://ademirklein.blogspot.com/

    Veja o meu comentário no blog acima.

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  5. http://ademirklein.blogspot.com/


    Veja meu comentário no blog acima

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  6. Anônimo7:52 AM

    Prezado Pedro,
    Conte comigo e com meu voto. Além disso, pedirei voto a amigos e familiares. Você é a nossa trincheira ética e moral. Por isso, o PiG não te quer no Parlamento.
    Abraços fraternos,
    Cláudio Ribeiro

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  7. Adriana Tenório3:37 AM

    O que responder diante de palavras tão profundas. Oriundas de uma vida de pura dedicação ao outro.
    Viva e tenha vontade de ser feliz.
    Infeliz aquele que não tenha vontade.
    Infeliz aquele que acha que vai ser feliz sozinho.
    Bendita seja sua determinação em ajudar uma pessoa, um estado, uma nação.
    Com o coração aberto, estarei sempre ao seu lado, somando forças ao encontro de um ideal de felicidade comum a todos nós brasileiros.
    Seu caminho hoje ou amanhã é de força, como foi ontem. E sempre será do bem, independente de qual posição política ou não você estiver.
    Parabéns pela pessoa que você é!
    Grande abraço,
    Adriana Tenório

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  8. Porfirio, - A Nação precisa mais do que nunca de políticos transparentes; - principalmente aqueles como vc que não se sujou, não se vendeu, com a conivência da usura do erário público. Sofrestes na ditadura tentando livrar e defender o Brasil das garras dos [.]
    chegaste até hoje, com uma admirável bagagem de conhecimento da vida e política, aliada ao comprometimento de continuar sua luta de transparência para colocarmos sobre a mesa os fatos, e com a mesma transparência, amenizar-mos no dia-a-dia a corrupta política que domina o país.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.