segunda-feira, 19 de abril de 2010

Em busca de um parto qualquer, enquanto a canalha deita e rola

“Temos uma eleição indireta em que o colégio eleitoral é formado em grande parte por parlamentares notoriamente envolvidos em um esquema criminoso que levou ao afastamento do governador José Roberto Arruda”
Roberto Gurgel, procurador geral da República.

Estou indo passar oito dias no Ceará como se num vôo cego em busca de uma resposta qualquer, que já espero improvável. É uma prospecção cabalística, sem eira, nem beira, reconheço.
Mas é o que me ocorreu ao admitir que o acaso é a única via que pode levar à compreensão de tudo isso que vem acontecendo, num acinte clamoroso, sem peias, sem disfarces, na brutal configuração de um estado de patética morbidez institucional.
É a tentativa da própria catarse diante de uma cidadania que amarelou e arriou as calças as pés da canalha insaciável, cada vez mais numerosa, cada vez mais impudica, que deita e rola, como se restabelecida houvesse a escravidão do povo, pelo aprisionamento e manipulação do seu cérebro em frangalhos.
Não me iludo sobre os poderes mágicos da terra do sol, nem sobre a aura de suas jangadas hoje raras, que um dia se negaram a transportar escravos. Sei que a farra prospera lá, como cá. Lá, até pior: pelas notícias aqui chegadas não há alternativa ao governador avalizado por todos os caciques – e cacique lá manda chuva, faz parte dos vícios atávicos. Das tradições inquebrantáveis.
Mas foi lá que, ainda de calças curtas, comecei a abrir o olho para o mundo, tocado pelas asas de Castro Alves, o condoreiro apaixonante, que me ensinou ser a praça do povo. Lá, naquele 15 de novembro de 1958, aos 15 anos, insuflei a massa revoltada para invadir a Assembléia Legislativa, então na Praça dos Leões, na expressão bárbara de indignação diante do “inventário” indecente com que 25 deputadosse fartavam no pós-3 de outubro de uma sonhada (e frustrada) virada pelas urnas.
Tributos para engordar trapaceiros
Tenho por intenção auscultar o solo da Praça do Ferreira, onde a turba deu um basta ao espetáculo do mais desavergonhado assalto aos cofres públicos. Isso quando, junto, como de praxe, decretava-se o aumento abusivo das passagens de ônibus e dos preços dos produtos de primeira necessidade, até então controlados por repartição governamental.
Alguma coisa há de brotar para que eu ainda tenha fé no juízo crítico, recolhido desastradamente nesses dias de hibernação do pensamento e da ação.
Corro para a “terra da redenção” ante o sufoco do maior dos crimes – a extorsão tributária. Nestes dias em que 24 milhões de cordeirinhos preparam suas declarações de renda, aflitos para não cometerem um único erro ante a sanha do leão, volto minha verve indignada para a constatação de uma deprimente equação: cada dia pagamos mais impostos para que haja mais grana à disposição dos ladrões do colarinho branco, dos especialistas em malversação do dinheiro público. Quanto mais pagamos de tributos, mais quadrilhas se formam em todas as esferas do poder, numa risonha agressão continuada aos cidadãos inertes.
Enquanto meu amigo auditor, profissional de primeira, aponta cada vírgula que precisa ser esclarecida na minha declaração de renda, a caravana passa, carregando as jóias da República para os cofres privados, avançando sobre nosso dinheirinho sem dó nem piedade.
O poder que emana dos ladrões
E não estão nem aí sequer para o jogo de aparências. Em Brasília, ícone da malandragem mais torpe, os ladrões flagrados não se acanham e formam a maioria que entregou a chave do cofre a um corifeu da confiança dos dois maiores cancros do Distrito Federal – Arruda e Roriz.
Treze suspeitos – oito já desmascarados pelas câmeras – entregam a esse governador, saído dos cambalachos, uma grana preta para gastar em 2010: R$ 13,4 bilhões, incluindo recursos próprios, operações de crédito e convênios. Somados ao Fundo Constitucional do Distrito Federal, os valores chegam a R$ 22,6 bilhões – contra R$ 19,5 bilhões em 2009, resultando em aumento de R$ 3,1 bilhões, no que se pode definir como o maior orçamento per capita do país.
Aqui, nesta cidade envolva em lama, pipoca mais um escândalo: a Prefeitura já pagou mais de R$ 55 milhões a uma “firma de segurança”, cujo dono seria um camelô de Cataguazes. Sabe o que é isso? Laranja de policiais que desmoralizam a segurança pública para ganhar os tubos na privada. Isso depois da trapaça abortada com o desvio do Instituto de Previdência e em meio ao dinheiro farto que está sendo gasto sem licitação, sob o guarda-chuva da “emergência” que a recente tragédia ensejou.
Mas isso é só o que se fala nesta hora. Antes, tivemos muito mais, em todas as esferas, em todos os Estados, em todos os partidos. E logo, logo, nos servirão novos pratos da mais gulosa culinária do crime do colarinho branco.
Nunca pagamos tanto imposto; nunca se roubou tanto
Haja imposto para alimentar essas farras, fabricar novos ricos e engordar os mais antigos. Mais de 37% de tudo o que produzimos nos tomam na mão grande sob forma de tributos, uma extorsão recordista, envolvendo a União, Estados e Municípios.
Veja esses números do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário: Em 2008, a arrecadação no país foi de R$ 1,056 trilhão. A estimativa do IBPT é que em 2009 a arrecadação feche em R$ 1,070 trilhão, praticamente estável. Para 2010, a previsão é que o brasileiro pague R$ 1,2 trilhão em impostos. Estudo do IBPT mostra que, em 2009, cada brasileiro pagou aproximadamente R$ 5.553,00 em impostos. Se a previsão do instituto se confirmar, em 2010 o contribuinte vai desembolsar R$ 6.219,00 ( ou R$ 512,25 por mês ou R$ 17 por dia) tudo a título de pagamento de tributos.
É muito dinheiro, caríssimos! Se fosse empregado corretamente, teríamos serviços públicos de primeiro mundo. No entanto, invariavelmente, boa parte do nosso suor, do nosso sangue e das nossas lágrimas vai direto para os “terceiros” que mamam nas tetas do erário e repartem seus ganhos com os senhores de todos os poderes –  os desmascarados, mas soltos e saltitantes, ou ainda os escondidos na blindagem da experiência em malbaratar os recursos públicos.
Enquanto isso, a mídia se dedica prioritariamente à crônica medíocre da corrida pelos podres poderes, oferecendo-nos pesquisas e excitando-nos para a vil disputa de cunho exclusivamente pessoal, como se tudo num regime dito democrático se resumisse a uma gincana de ambições, vaidades e futricas entre quadrilhas rivais.
Não há como conviver com essa farsa sem recorrer a uma purgação que possa nos abrir as portas de um novo horizonte – ainda que perdido no tempo e no espaço. Nem que essa busca de uma resposta onírica seja apenas o ato de matar  saudades do berço amado.

3 comentários:

  1. Anônimo12:38 AM

    Só espero que o Ceará dê mais sol e mais luz parfa que você se mantenha firme na nossa batalha.
    Eduardo

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  2. Anônimo12:11 PM

    Idem, idem, os desejos do "Xará" anterior.

    Admitindo a evolução da espécie, e, que o tempo é uma variável relativa, continuemos nossa "batalha", pois, 4010 está logo aí !!

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  3. Porfírio dizes: iludo sobre os poderes mágicos da terra do sol, nem sobre a aura de suas jangadas hoje raras, que um dia se negaram a transportar escravos. Sei que a farra prospera lá, como cá. Lá. Das tradições inquebrantáveis.
    Mas foi lá que, ainda de calças curtas, comecei a abrir o olho para o mundo, tocado pelas asas de Castro Alves, o condoreiro apaixonante, que me ensinou ser a praça do povo. Lá, naquele 15 de novembro de 1958, aos 15 anos, insuflei a massa revoltada para invadir a Assembléia Legislativa, então na Praça dos Leões, na expressão bárbara de indignação diante do "inventário" indecente com que 25 deputados se fartavam no pós-3 de outubro de uma sonhada (e frustrada) virada pelas urnas.
    Sim Porfírio, estou a estudar o passado do Brasil encontrando no Ceará, assim como no Nordeste Pernambucano, a maior castração ao cidadão brasileiro, que existiu neste País nos anos 50.
    Como deves lembrar Gregório Bezerra,Francisco Julião, que lutaram pela reforma agrária para tornar o Nordeste brasileiro auto-sustentável; foram denunciados aos fardões de quepe, pela cearense jornalista comunista stalinista Raquel de Queirós apaixonada pela União Soviética; estes nordestinos assim como campesinos foram torturados, presos, exilados; a reforma agrária no Nordeste brasileiro assim como no Brasil não deu continuidade.
    No entanto,os latifundiários coronéis da época protegidos pelos guardiões de quepe, faziam o que queriam, se banquetearam tornando-se donos das terras e riquezas que conseguiram expropriar. Porfírio! Estudo o passado, dando-me a possibilidade de entender o presente, e saber porque o Brasil está de cabeça para baixo. Sei que sofreste!, leio seu livro,assim como tudo que me fala do passado. Mas saibas, que o povo brasileiro é humilde, paciente, permitiu até que os gananciosos tomassem tudo que puderam para dividirem entre meia dúzia. Mas, existe alguém muito mais soberbo e superior que está olhando por nós. O importante é ter Fé. Boa Viagem.
    Abraços Fraternos
    Marilda Oliveira

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.