domingo, 28 de março de 2010

A encenação deprimente de um julgamento espetacularizado

“Cerca de 150 jornalistas se espremiam para repassar cada momento, as reações do casal, o espetáculo montado como uma espécie de caça às bruxas. Na sala de imprensa, as brigas não eram apenas por causa do ventilador e do calor por vezes insuportável, fruto da falta de espaço. Também faltavam cadeiras, e nem todos podiam assistir às frequentes discussões travadas por acusação e defesa em plenário”.
Rosanne D'Agostino, repórter do portal UOL

Mãe de Isabella acena para manifestantes e agradece apoio no julgamento

Estava concluindo pesquisas sobre o uso perdulário dos royalties do petróleo – uma farra de políticos ladrões que impõe uma corajosa reformulação – e pretendia oferecer a você hoje o resultado dessa criteriosa investigação. (Peço replay, aliás, ao parceiro que me mandou informação sobre o vereador de Macaé que tentou inutilmente garantir o controle dos gastos. Seu e-mail sumiu).
Mas me vi agredido pelo festival de levianas boçalidades expostas com a espetacularização dos assassinos da menina Isabelle Nardoni, mais um crime abusivamente explorado por uma mídia sedenta de audiência a qualquer preço e por uma súcia de exibicionistas atrás dos tais 15 segundos de fama.
Durante toda a semana, o assassinato da menina foi o filé mignon de todos os noticiários, numa exacerbação proposital dos sentimentos de censura que violência de tal crueldade a todos acomete.
A mídia não teve recato na excitação de uma massa cada vez mais manipulável. Era tal a evidência da autoria do crime que ninguém poderia imaginar qualquer sentença diferente da condenação.
Essa decisão prevista, no entanto, precisava ser “trabalhada” para produzir os orgasmos sociais rocambolescos e envolver as massas, em diferentes escalas, como se a punição dependesse da “pressão popular” e do desempenho do promotor.
As pessoas diretamente ligadas ao caso – inclusive as que não tiveram nada a ver com a brutalidade, tornaram-se personagens centrais do folhetim, qualificadas como vilões ou heróis.
Armou-se algo absolutamente bestial, com o exibicionismo de um "fã-clube" da vítima, devidamente uniformizado, e a desfiguração da mãe da criança, cujos sentimentos não foram respeitados: ela própria se viu no centro de uma cena patética, quando soltaram fogos e gritaram triunfais o nome da filha morta na festa filmada para comemorar o placar final – 31 anos de cadeia para um e 26 para outro, por coincidência, como ressaltou um repórter dado a comparações, as idades dos assassinos.
Chocou-me a mãe à sacada do seu prédio acenando para a torcida organizada nessas 120 horas de espetáculo forense. E revoltou-me mais ainda a exibição de uma dupla de cantores, à porta do seu edifício, querendo aparecer com a apresentação em primeira mão da canção composta para a menina morta.
Da mesma forma, causou-me nojo as agressões na porta da casa do pai do assassino. Com a cobertura das câmeras de TV, um bando de falsos indignados foi lá, achando que ficaria bem na fita se também participasse do linchamento de um homem que estava tão abatido como os demais familiares da menina.
Durante os dias de julgamento, as televisões se rivalizavam na apresentação de personagens que se exibiam na porta do Fórum, alguns com cartazes ou até mesmo fantasiados de modo a chamar a atenção das câmeras.
Por que tanta espetacularidade? O mais provável é que a mídia não entendeu ainda a responsabilidade social inerente ao exercício de sua liberdade. Tudo o que se pretendia era obter mais índices de audiência frente às concorrentes. Esse pessoal medíocre e despreparado trabalha nessa direção e não tem escrúpulo a preservar.
Mas também é possível que, consciente ou não, a mídia esteja influenciando o inconsciente coletivo, acenando com a satisfação pontual do sentimento de justiça que permeia todas os seres humanos.
Tudo num ritual que ofereceu às pessoas ali a idéia de que eram figurantes e testemunhas oculares de um “julgamento histórico”, como definiu o promotor, feito astro principal da “mini-série”.
Julgamento histórico por quê? Haveria alguma possibilidade de poderosas forças ocultas influírem em favor da absolvição dos réus? Haveria quem pudesse acreditar na versão de que uma terceira pessoa teria aparecido no apartamento do casal só para pegar a garota e jogar no meio da rua?
Sinceramente, qualquer rábula teria convencido os jurados que os assassinos da menina estavam ali. Se não fosse pela lógica mais cristalina, o trabalho feito pela perícia, que se esmerou em sua mis-en-scène, oferecia um inventário técnico incontestável.
Crimes de crueldade semelhante repetem-se por este Brasil afora. Mas este envolvia personagens de classe média, semelhantes aos das novelas, e cenários exuberantes. Ele chocou por que não se imagina que gente com certo nível de cultura cometeria tais brutalidades, “típicas” da outra parte da cidade, criminalizada e marginalizada num contexto de imputações enraizadas.
Era, portanto, matéria prima ideal para esse carnaval montado, esse espetáculo vulgar que ganhou foros de uma emblemática e memorável vitória do bem contra o mal.
Não ocorre a ninguém uma avaliação dessa exibição mórbida, que afetará inevitavelmente, pela sua glamorização e ampla difusão, outras duas crianças inocentes – os filhos do casal assassino. Assim como o pai de Alexandre Nardoni foi punido pela sanha dos “indignados”, o anátema será inevitavelmente um espectro a perseguir os garotos.
Depois, essa grande mídia reage à idéia do controle social de seus atos sob impulsos meramente comerciais. E brande aos céus na defesa da sua liberdade, para que possa continuar faturando às custas das desgraças alheias.
É isso que me deixa louco, convencido, aliás, de que sou apenas um imprudente criador de cismas num mundo cada vez mais dominado por uma rendosa fábrica de idiotas.

15 comentários:

  1. Concordo plenamente que o julgamento não passou de um grande espetáculo. Porque não se fala dos crimes que acontece todos os dias que envolve a classe dos mais pobres? Claro, isso não dá ibope não é mesmo?

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  2. Definitivamente vivemos no País dos imbecis. Queremos viver de festa, de espetaculo, enquanto isto nossas potencialidades seguem rio abaixo rumo ao cofre dos ricos. Bem feito. Não há saída. Talvez, quando caos chegar a todos os recantos.

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  3. Sem dúvida alguma meu amigo Pedro tem total razão, fez-se um espetáculo deprimente, não por causa do julgamento em si, fato este que dentro de um processo social e jurídico teria realmente de ser feito, mas sim a teatralização de um fato deprimente, que certametne nos faz meditar e muito, que nos obriga a rever muitos conceitos e se perguntar para onde estamos caminhando, o que queremos realmente. Sinceramente chega a me fazer mal a estar em frente a televisão tentando ver alguma notícia e aparece simplesmente essa teatralização ridícula desrespeitosa a todos nós e à própria inocente vítima!
    Não consigo compreender, como as pessoas se deixam levar pela brutalidade e causam a si e a umapequena inocante tamanha tragédia, sim tragédia mesmo!, não consigo entender como se permitem que isso ocorra, uma bestialidade edionda. Tanto promotor como advogado de defesa fizeram seu papel consitucional e legal, mas imprensa, platéia, me parecem mais hienas dando gargalhadas ao prato que comeu!!! Bestialidade maior.
    Minha incompreeção, espanto e revolta com tudo isso, baseia-se no fato de ter eu um filhote pequeno, minha raspinha de tacho, termos um carinho muito grande um para com o outro, os irmãos mais velhos, e meus netos, onde fico aflito por ficar longe deles e me esforçar sempre que me é possível estar junto a eles, pega-los no colo receber aquele beijo babado gostoso, aquelas mãozinhas a cariciarem meu rosto e a palavra mágica que é um doce, papai, vovô, são sublimes, daí não conseguir compreender tamanha brutalidade com quem somente pretendia dar carinho e receber o que recebeu.
    Teimosia todos são quem não o foi um dia!!!! muitos continuam sendo e burramente, outros por teimosia em função de convicções.
    Obrigado meu amigo Pedro pela oportunidade de expressar meu pensamento, meus sentimentos, minha revolta, e aos irmãos leitores. Vos pesso permissão para deixar aqui um pequeno verso meu em homenágem a memória da pequena Isabela, e a meus filhos, netos e todas as crianças filhos do planeta Terra!
    O sorrizo de uma criança é um alento para o coração
    Que a todos encanta como uma oração
    Maldito seja todos aqueles que a elas maltratam sem consideração
    bendito seja todos que delas cuidam com devoção
    Pois, são elas a certeza da nossa continuação.
    Wagner Amenta

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  4. Gilson Raslan (Jaru-RO)7:22 PM

    Num país onde mais de 70 milhões de pessoas gastam seu suado dinheirinho para eleger quem deve sair do BBB, só se pode esperar esse espetáculo desprimente protagonizado pela mídia.

    O Djalma aí em cima tem razão: DEFINITIVAMENTE VIVEMOS NO PAÍS DOS IMBECIS.

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  5. Anônimo9:18 PM

    Pedro Porfífio,
    Me admiro "vosco" que leio sempre. Que pvoas vc tem que foi o casal quem assassinou a menina? Não houve confisão nem provas.
    Por que não se explorou o tal do tenente pedófilo que fez a varredura do prédio. Surigo que vc leia no orkut "Eu defendo Alexandre Nardoni". Vc vai ficar sabendo de muita verdade que nãoapareceu.
    Agora, espere a Oliveira, em breve vai posar para playboy e andidatar-se a um cargo politico. Famosa, ela já ficou.

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  6. Anônimo9:32 PM

    Pedro,
    Vc deve se lembrar o caso do Tenente Bandeira, vitima de erro judiciário.Se não fosse o Tenório Cavalcante teria ficado mais tempo na prisão.
    Vc acompanhou o caso da Escola de Base?
    Toda aqueles que fizeramcarnaval, do lado de fora, do julgamento dos Nardonis, não sabem que amanhã, poderão precisar de um advogado para defendê-los, mesmo sendo inocentes como os Nardonis. Ninguém pode dizer "deste pão não comerei, desta água não beberei,num mundo onde a injustiça impera. Fico penalizada por todos: pela linda Isabela, pelos pais, avós, pelos dois filhos do casal, que conforme fiquei sabendo, tiveram até que mudar o sobrenone.

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  7. Até que enfim vejo algo que vale a pena ser lido! A minha impressão foi exatamente esta: da turba exacerbada na queima das bruxas, no maior desrespeito as duas crianças filhas do casal. Como ficará a cabecinha destes pequeninos diante dos pais prisioneiros por longos anos... O que dirão a seus amigos sobre seus pais? Se a linda criança Izabela sofreu o que sofreu, por que não pensar nos seus irmãos que estão ai,ainda tenros, completamente indefesos diante do fél da multidão ignorante que não respeita sentimento de ninguem?
    O espetáculo, amigo, foi realmente deprimente. A midia se alimenta disto e manipula o povão reprimido para querer não tanto justiça, mas vingança! Por mais crués que tenham sido os assassinos a família de ambos, com a da mãe de Izabela merece respeito.
    Enfim, o que dá esperança a gente é que tem uma minoria lúcida que pensa como você. Difícil é mudar o comportamento da imprensa e do povão manipulado por ela.

    http://arteseartesmjfortuna.blogspot.com/

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  8. Esquecem as pessoas que o tal julgamento só interessa aos envolvidos. Criou-se então uma gigantesca cortina de fumaça para aquilo que atinge a todos nós.

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  9. Os comentários postados servem como um alento: afinal, ainda há pessoas que têm uma posição crítica razoável e entendem o porque dessa indústria do sensacionalismo.

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  10. A matéria foi brilhante até o penúltimo parágrafo, pena que, no meu entender, o autor mostrou-se, no final do texto, um saudosista da censura à imprensa. Não é com o "controle social"(apelido bonito para censura), que o povo vai deixar de ser idiota e manifestar-se como no caso do julgamento do casal dos assassinos da menina Isabela, mas com educação de qualidade, a começar em casa pelos pais, ensinando os filhos a terem senso crítico.

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  11. Anônimo12:03 AM

    infelizente tive que me render as evidencias e concordar que o casal é culpado.só não consegui en tender o porque.quanto ao julgamento achei deprimente,aquele monte de gente querendo aparecer na tv e a imprensa classificando como "clamor popular".Se nao tivesse mídia ,não tinha ninguem lá.
    ninguem pensa na dor e vergonha da famila dos acusados?eles não são culpados dos atos dos filhos.

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  12. Anônimo6:12 AM

    Concordo com o amigo. Tudo isso devido aos problemas sazonais de safra: faltam abacaxis, usam, usam-se jacas, faltam jacas, usam-se melancias, e assim por diante. Tudo para que se possam aparecer. Circo puro! O prpmotor teve seu big-brotherzinho, Mazaropi não faria comédia pastelão melhor. Por falar em circo montado pela mídia fabricada nos bancoc de faculdades, o casal da Escola Base já receberam as indenizações devidas? O "jornalista" Florestan perdeu sua licença, pagou o que deve ao casal, ou continua por aí desinformando e defamando impunemente? Copiamos tudo dos americanos, mas lá, jornalista que falta com a verdade e burla informação é defenestrado e some do mapa.

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Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.