domingo, 10 de janeiro de 2010

A verdade tardia será sempre uma meia verdade



"A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos."
George Bernard Shaw, escritor e dramaturgo irlandês (1856-1950)

Quem diria: aquele a quem pretensos doutos alcunham de apedeuta está dando um baile, fazendo todo mundo dançar conforme a sua música. Algo jamais imaginável já que não havia em seu palrar sintomas do brilho ofuscante que impõe a cada um dos seus rivais as agruras dos distúrbios mentais e de um espernear à semelhança de arapongas gasguitas presas em alçapões.
Pois é o que está acontecendo ao som do bolero de Ravel, num ambiente de fantasias meticulosamente espraiadas. Enquanto joga pesado ao meter o suspeito bedelho na negociata dos “caças” franceses, mais caros e mais custosos do que os suecos, ouriça as casernas, os órfãos da ditadura e anencefálicos despolitizados com o florear de um simulacro, essa hipócrita catilinária da caça ao rodapé da engrenagem que operou nos subterrâneos, sob mando e inspiração de quem jamais foi questionado por insuflar à barbárie, seja o baronato parlamentar de estirpe, que deu sustentação aos calabouços, sejam os maiorais da tropa d’antão ou essa mesma mídia que agora se pretende inocente daquilo com que colaborou servilmente de braços dados, enquanto enchia as burras.
O catálogo do faz-de-conta
De repente, no alvorecer do ano da sucessão, o talentoso príncipe operário põe sobre a mesa 521 cartas para todos os gostos, oferecendo o melhor mel silvestre àqueles a quem subjugou por 7 anos de trapaças contundentes, como as rasteiras que levou ao humilhante desespero as plêiades da mais zelosa corporação aérea brasileira, particularmente os extorquidos do seu fundo de pensão. Que submeteu ao faz-de-conta os milhões de aposentados, pensionistas, subempregados, desempregados, esfomeados, sem terra e/ou sem arados.
São 521 ofertas telúricas e afrodisíacas num catálogo esmiuçado que mais se afigura o supra-sumo de um placebo adocicado. São idéias tão delirantes que ganharam do novo espadachim Paulo Vannuchi, o até então discreto secretário dos Direitos Humanos, o epíteto de “transversalidade temática”, ou, melhor dizendo, apenas idílicos logaritmos da matemática do embuste.
E, no entanto, fraudes tão salientes pegaram os adversários com as calças na mão, levando-os ao segundo ato da farsa esboçada.  Dentro e de fora das muralhas dos podres poderes todos sem exceção reagiram na medida certa, conforme o script.
Fizeram o cavalo-de-batalha engendrado pelos feiticeiros do príncipe, armaram uma tremenda barafunda e mergulharam de cabeça no confronto do imaginário. Precipitado e de comprovado desequilíbrio emocional, o senador tucano Artur Virgílio decidiu assumir o papel de vilão, ao anunciar aquilo que regimentalmente é impossível e politicamente é obscuro: quer num só decreto legislativo anular as 521 tacadas que por si não passam de um velhaco sonho de uma noite de verão.
Quer dizer: o governo que passou sete anos pisando em ovos, que amarelou diante do sistema e convidou o banqueiro Henrique Meireles para dar as cartas, inventa um monte de fórmulas genéricas que agradam à massa iludível e, antes mesmo de configurar-se o blefe, aparece essa turma desassossegada da “oposição” e o sacramenta, para o gáudio da corte.
Tivessem alguns desses “oposicionistas” folheado o irlandês Bernard Shaw, o espanhol Baltasar Gracian, o florentino Nicolau Maquiavel ou nosso sábio Barão de Itararé, provavelmente não teriam caído nessa esparrela.
O homem inteligente não polemiza sobre hipóteses, muito menos sobre ilações ou sandices. O pior que ele pode fazer contra si é embarcar no confronto maniqueísta, mormente se virtual e se aceita o papel atribuído por seu adversário. Antes de pegar uma briga, precisa averiguar se a coisa é mesmo à vera.
No caso mais relevante dessa nova batalha de Itararé, não dá para perceber o alcance real dos propósitos enunciados. Nesse ponto, os chefes militares mostraram um despreparo pueril. Primeiro porque, supõe-se, as gerações castrenses de hoje não têm nada em comum com os generais golpistas que eram subprodutos da segunda guerra mundial e sofriam influência direta dos oficiais norte-americanos e da chamada Escola das Américas (o golpe de 64 começou com o manifesto dos coronéis de 1953 contra João Goulart, então jovem ministro do Trabalho).
E os que estão sendo torturados hoje?
Depois, a bem da verdade, - posso afirmar como testemunha ocular dos fatos - a grande maioria da tropa rejeitava a ditadura e só não se insubordinava pelo medo de “fazer o jogo dos comunistas”. Não foi por acaso que, ao contrário dos outros regimes de exceção do Continente, os nossos ditadores tinham prazo no poder e não podiam pleitear um “segundo mandato”. Com esse ardil, em que invariavelmente o sucessor não era bem um “correligionário” do outro (exceção de Figueiredo e Geisel) criava-se uma válvula de escape dentro do próprio estamento militar.
É certo e incontestável que alguns poucos aloprados cometeram crimes de lesa-humanidade nos quartéis, mácula de que quem mais deveria ter interesses em livrar-se seria a tropa altamente profissional de nossos dias.
Mas também não dá para aceitar que somente agora, quatro décadas depois, criem um palanque político e alcancem alguns sobreviventes daquela época como bodes expiatórios de uma farsa de tinturas revanchistas.
Não dá para ver um torturador como um sujeito que agia por conta própria. E os mandantes? E eminências daquela época, como o senador José Sarney, que entre outros serviços sujos teve a missão de explicar á Embaixada Americana o AI-5? E os empresários que bancaram com muito dinheiro do caixa 2 as operações de extermínio dos adversários de um regime que se sustentava pelas armas, depois de derrubar um presidente constitucional e rasgar a Constituição?
Pelos meus cabelos brancos, sou forçado a descrer na repentina “boa intenção” de um governo que nada faz contra os torturadores de hoje, os policiais que só no Estado do Rio de Janeiro, em um ano, mataram mais jovens “suspeitos” do que em todos os 20 anos de ditadura no país.
Ou torturar e matar pretos, favelados e marginalizados é diferente de dar porrada nos jovens de classe média que, envoltos no mais puro idealismo, mas conscientes do risco que corriam, se tornaram insurgentes?
Como vítima daqueles dias, eu não aceito que transformem agora, neste momento, com tanto atraso, casos tão complexos em palanques políticos que, em última instância, visam tudo, menos restaurar uma verdade que, por tardia,  não pode ser uma meia verdade.

8 comentários:

  1. Prezado Porfírio, parabéns pelas lúcidas considerações, ainda mais válidas por vindas de alguém que conheceu de dentro os porões do regime de 64 e, certamente, não recebeu uma polpuda indenização por "xingar o Figueiredo" (como afirmou um dos sacripantas mais conhecidos que se beneficiou do Bolsa-Ditadura). Nessa pantomima urdida por Vanucchi e Genro, faltam grandeza e visão de futuro e sobram mesquinharias e revanchismos. Sucesso na luta.

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  2. Caro Porfírio,
    Claro que nem os MANDANTES de ontem nem os de hoje estão no olho desse midiático furacão oportunista.
    Continue abrindo os olhos da galera.

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  3. Anônimo2:13 PM

    Porfírio,
    Afinal de contas, o que você quer?
    Ontem, você reclamou da falta de vontade do governo em apurar e punir os torturadores e assassinos da didadura militar; hoje, que governo está iniciando aquilo que você tanto pregou, você se mostra contra.
    AFINAL DE CONTAS, O QUE VOCÊ QUER?

    Gilson Raslan - Jaru/RO

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  4. Amigo Pedro Porfírio, seu muito lúcido artigo desperta verdades incontestáveis que o tempo vai diluindo e destaca os principais motivos do Plano Nacional de Direitos Humanos, uns sem razão de ser pela ausência de culpados, outros que não foram executados porque os arguidos têm muito poder nas mãos e a maioria para iludir o Povão que continua sofrendo com todas as diabruras do governo atual, comandado por um espertalhão que até gosta que o considerem apedeuta.
    Sempre leio seus artigos, mas este é o melhor que já li por abordar assunto tão extenso de modo abreviado, mas derramando a verdade até nas entrelinhas e obrigando todos a enfrentar a realidade que nos pode ser mostrada na prática com existência de Zé Sarney presidindo o congresso!

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  5. Porfírio,Postei sua tese em Observatório Político Brasileiro e Protógenescontracorrupção;resposta longa!,abaixo, complemento:
    Diario de Pernambuco: O que despertou o seu interesse por este tema, da cooperação policial entre os EUA e a América Latina?
    Martha Huggins: É uma história interessante. Em 1975, quando eu fazia pesquisas para o meu primeiro livro - From slavery to Vagrancy in Brazil [lançado nos EUA em 1984, mas nunca publicado em português] -, sobre a repressão contra escravos e homens livres no fim da escravidão em Pernambuco, conheci um integrante da Polícia Civil que recebera treinamento nos Estados Unidos, no Grupo Especial de Contra-Insurgência. Vi na parede da sala dele, em 1976, um diploma da AID. Resolvi naquele momento que, após terminar o livro no qual estava trabalhando, iria investigar o programa da AID. Em 1989, durante a pesquisa, li uma reportagem que listava os torturadores que haviam atuado durante o regime militar. O nome do policial de Pernambuco, que eu entrevistara em 1976, estava lá. Em 1993, quando fazia a pesquisa para o novo livro, Operários da Violência, tentei entrevistá-lo novamente. Ele não aceitou. Neste ano, 1993, ele estava no fim de carreira e ocupava um cargo oficial no DETRAN.
    Diario: Qual o nome dele?
    Huggins: Não posso revelar. A ética da pesquisa não me permite.
    Diario: Houve outros policiais do Nordeste que participaram desses cursos? Eles ascenderam na carreira depois desses cursos?
    Huggins: Sim, houve. Em 1993 eu entrevistei dois no quartel do Derby, em 1993. Os doisprogrediram na carreira depois do curso. A maioria dos policiais que entrevistei, aí incluídos todos os dos outros estados, teve melhoria na carreira. Constatei isso também através dos dados da pesquisa.
    abraços,http://marildacdeoliveira.blogspot.com/

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  6. Agradeço os comentários, mas acho que pelo menos um mostrou que não fui compreendido. Uma coisa é apurar uma rede criminosa, outra é escolher alguns para bodes expiatórios e matéria prima para palanque eleitoral. Pelas últimas notícias, Lula já vai mudar o decreto. E a emenda sairá pior do que o soneto.
    Porfírio

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  7. Anônimo5:01 AM

    Será que o prícipe nico vai esculhambar com seu criador, o gal Golbery? Vai esquecer da uíscada maneira com o pessoal dos coturnos encantados? Me poupem, engane´se os que quizerem.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.