sábado, 2 de janeiro de 2010

Tão perto e tão distante da tragédia

A poucos quilômetros da tragédia, o governador Cabral não tomou conhecimento no dia em que  sua presença seria mais necessária. Agora, está prometendo ir lá hoje.

"A situação por aqui é caótica, estamos ilhados no hotel (...) a única opção pra ir embora hoje é de helicóptero. Estradas bloqueadas".
Preta Gil, cantora, que passou o réveillon em Angra.

O país inteiro – como boa parte do mundo – tomou conhecimento da tragédia que se abateu na região de Angra dos Reis, com vítimas fatais no morro da Carioca, centro da cidade, e na paradisíaca praia do Bananal, na Ilha Grande.
As primeiras informações são de trinta mortes já confirmadas. Situações de calamidades causadas pelas chuvas aconteceram também em todos os municípios da Baixada, em parte do Rio de Janeiro e no Sul do Estado.
Durante todo o primeiro dia do ano, não se falou de outra coisa. Não eram apenas os pobres dos morros as vítimas dos desmoronamentos. A pousada Sankay, com doze suítes, era um empreendimento de luxo, que cobrava R$ 5.300,00 por casal no réveillon. Sua clientela é em maioria de São Paulo e de Minas. Mas é frequente a presença de turistas estrangeiros.
Em situações como essa, as autoridades responsáveis costumam ir pessoalmente tomar conhecimento dos estragos. Na pior das hipóteses, sobrevoam a área.
No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes visitou pessoalmente a comunidade de São Sebastião, em Jacarepaguá, onde cinco pessoas de uma mesma família foram soterradas.
No dia da tragédia, o governador não estava nem aí
E o governador Sérgio Cabral, o que fez diante da tragédia?
Apesar de ser um dos mais jovens do país – fará 47 anos no próximo dia 27 – não deu as caras em lugar nenhum, pelo menos até a noite do dia primeiro, “delegando” essa obrigação para o seu vice, Luiz Fernando Pezão, que, aliás, é quem vem carregando o piano, enquanto Serginho passa a maior parte do tempo viajando pelo mundo, com escala preferencial em Paris, onde, diz-se, tem um apartamento montado.
Às dez horas da manhã desta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio, que está de férias numa área da Marinha na Bahia, tentou falar com ele para prestar a solidariedade de praxe e oferecer cestas básicas para as vítimas que ficaram desabrigadas em várias cidades do Estado.
Não conseguir contatar o governador, que, provavelmente, ainda estava dormindo, depois de uma noitada de festa por conta do ano novo. Sua ligação foi redirecionada para o vice Pezão, o ex-prefeito do pequeno município de Piraí, de pouco mais de 22 mil habitantes, que só chegou ao cargo de vice por exigência do casal Garotinho, a quem servia incondicionalmente até que Cabral virou as costas para seus antecessores antes mesmo de empossar-se.
A meninada da imprensa engoliu a notícia de que o governador rompera o ano nas instalações do Exército da Restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, Zona Oeste da capital. E ficou tentando explicar a omissão ostensiva do governador.
Só ao cair da tarde, depois de pisar na lama e ir de um lado para o outro na área de Angra – não se falou de sua presença nos bairros pobres da Baixada – o vice-governador deixou escapar que Sérgio Cabral estava ali perto, em sua casa no Resort Porto Belo, em Mangaratiba, de onde se avista a Ilha Grande (de lancha não gasta mais de 30 minutos para chegar á Praia do Bananal, na Ilha).
Sua mansão, mostrada um dia com detalhes pelo ex-governador Marcello Alencar, a quem traiu para se juntar a Garotinho, que trairia depois, tem marina própria. Mas é comum ele e seus familiares chegarem ao Resort de helicóptero do Estado, que pousa ao lado da Rio-Santos.
Porto Belo fica a exatos 33 quilômetros do morro da Carioca, no centro de Angra, onde aconteceu o desabamento com pelo menos 10 vítimas fatais.
O governador do Rio estava, portanto, de cara para a tragédia, que, aliás, causou desmoronamentos em vários pontos da serra que acompanha a rodovia. Depois de 24 horas de buscas, tensão, sofrimento e confusão, sua assessoria está prometendo que hoje ele deverá dar um pulo na Ilha Grande e, provavelmente, irá até Angra.
A indiferença no momento mais tenso da maior autoridade do Estado não me surpreendeu. Pode ser que ele tenha ficado por toda a noite com seus convidados, geralmente empresários do naipe de Eike Batista, e não se sentiu em condições de dar um pulinho ali perto, onde heróicos bombeiros e muitos voluntários cavavam os escombros com as próprias mãos, já que nos locais atingidos não dava para subir máquinas.
Provavelmente, os jornais de hoje não comentarão essa postura preguiçosa do governador, por conta do balanço da tragédia, mostrada em tempo real pelas emissoras de televisão.
Pode ser que você também não tenha atentado para esse comportamento absolutamente inexplicável e injustificável. Você também ainda deve estar chocado com as cenas comoventes, que tocam nossos corações.
Esse é o homem de Lula no Rio
Mas eu não posso aceitar tal omissão, tal demonstração de frieza e desumanidade, até porque, ao contrário do que aconteceu na eleição passada, Sérgio Cabral Filho será candidato agora com o apoio da mesma base de sustentação do governo Lula, que acaba de vergar o prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh Farias, para atrelar a “penca de esquerda” (PT-PDT-PC do B e PSB) no desesperado esforço para reeleger quem sequer começou a dar ar de sua graça como governador nesses três anos em que está à frente da administração mais medíocre de toda a história fluminense.
O comportamento do governador Sérgio Cabral neste episódio não é diferente de toda a sua trajetória nesses três anos em que atuou muito mais como um delegado do governo federal, lançando-o em mal inspirados projetos de alto custo financeiro e baixo retorno social, como o bilhão destinado a três áreas de favela, bilhão que representa mais do que todo o orçamento da cidade de Niterói em um ano.
O desprezo assinalado no calor da tragédia provocada pelas chuvas dos últimos dias é da sua personalidade e da sua insensibilidade.
Pela sua cabeça, passam apenas preocupações cosméticas ou grandes tacadas, como a privatização do Aeroporto Internacional do Galeão, pela qual tem se empenhado com toda garra, valendo-se do enorme prestígio e da intimidade que desfruta junto ao presidente da República.
O diabo é que de tal sorte foi o trabalho demolidor operado pela grande mídia e de tantas traições se construiu o processo político no Estado, que já foi o mais politizado do país, que a máquina governamental poderá assegurar sua reeleição pela simples ausência de um candidato com peito de enfrentá-lo e pela manipulação do solerte do eleitorado e das urnas.

5 comentários:

  1. Odilon9:28 AM

    Prezado Pedro Porfírio, você está exigindo demais do "nosso" governador. Pretender que ele saisse da "maré mansa" de Porto Belo para, numa extenuante viagem de 33 quilômetros, ir a Angra dos Reis e à Ilha Grande coordenar as primeiras providências e prestar solidariedade às famílias das vítimas das grandes tragédias ocorridas naquelas localidades, não se coaduna com o espírito alegre (alegríssimo) do "serginho cabralzinho" (royalties para o mestre Hélio Fernandes). Afinal, Porfírio, ele também é "humano": tinha o direito de continuar se esbaldando na passagem do ano. Se as tragédias fossem em Paris, Nova Iorque, Roma e adjacências certamente o "governador" iria correndo exibir o seu generoso coração, principalmente se o Lula estivesse em tour pela região, pois, se existe uma coisa que o "serginho" não gosta de perder é oportunidade de demonstrar que é hoje, sem dúvida alguma, o maior e mais ridículo baba-ovos do presidente da República. De qualquer forma, Profírio, parabéns pelo seu oportuno e corajoso texto. Desmascarar esses fariseus é preciso. Valeu!

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  2. Caro Porfírio
    Já estou eu novamente em seus espaços, com minhas observações cortantes.
    Cada "povo" merece, aproximadamente, os seus "representantes". 8 em 10 "brazileiros" fariam exatamente o que este vagabundo chamado de "governador" fez, faz, e continuará fazendo, ou seja, estava este vagabundo, e continua estando, comemorando a alegria de ter nascido nesta coisa que se chama "brazil" (o dia que esta coisa for uma nação eu escrevo, novamente, "brazil" com S); por enquanto é "brazil" mesmo. Existem pessoas com "sorte"; pessoas que nascem no lugar certo; e existem pessoas que nascem nos lugares errados. Este vagabundo (e tantos outros) nasceram no lugar certo: brazil !!
    Este ano parece que vai ter "circo e bolo" para a galera, e, portanto, fiquemos nós, os chatos, os desenvolvidos, os inteligentes, os preparados, "reclamando" o que seguramente 80% deste povinho de merda faria em situações idênticas. A "população" brazileira não se irrita com estas coisas; ... ela simplesmente "inveja" seus governantes corruptos, boçais, etc. Não fariam quase nada de diferente se "chegassem lá" ... (Aliás, o PT e o "que nunca sabe de nada" estão aí para confirmar a minha tese). Infelizmente meu caro Porfírio, "karma é karma" ... eu estou pagando a minha conta, e creio que vc também ... grande abraço
    Murillo Cruz

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  3. André Menezes Mendes (sigmatau@oi.com.br )12:34 AM

    Caro Porfírio:

    Primeiramente feliz ano novo,a você e aos leitores do blog.
    Concordo com suas observações a respeito do nosso governador. Não foi sem motivo que o Deputado Paulo Ramos, numa reunião em Campo Grande (RJ), o chamou de "picareta". Mas no momento, algumas dúvidas estão sobrecarregando meu raciocínio. Por isso recorro a sua ajuda.
    Sabemos que desde muito tempo atrás, a grande dificuldade em acabar com o tráfico se devia ao envolvimento de "graúdos" na partilha dos seus lucros. Ou seja, como acabar com algo que remunera fartamente quem deveria se empenhar pela sua erradicação? Cheguei a imaginar que as facções rivais só existissem para os "buchas", os que se expõem de fuzil não mão, sendo meros testas de ferro de uma cúpula intocável que cria a idéia de grupos rivais para melhor controlar seus zumbis. Então como é que agora, sem grande alarde na preparação disto tudo, o Governo anuncia a eliminação do tráfico em algumas favelas? Eram de se esperar, antes que isso fosse possível, verdades vindo à tona, figurões sendo presos, tentativas de atentados às autoridades moraralizadoras, como foi na Itália com a máfia. No Pavão/Pavãozinho a imprensa informou que siquer houve confronto. Os traficantes saíram e a polícia assumiu. Será que é mágica? Outra questão: Isso será feito em todas as favelas? Se não, as que não participarem destas ações não vão virar verdadeiras fortalezas do crime, já que os egressos das favelas escolhidas para receberem as UPPs irão se concentrar nas remanecentes?
    Qual a sua opinião?

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  4. Sobre o tráfico:
    Tudo isso é uma falácia. Enquanto exitirem consumidores - e existem cda vez mais - haverá fornecedores. Nessas comunidades, o tráfico passou para a "clandestinidade", mas não se sabe de prisões, até porque, de fato, os maiores cúmplices dos traficantes são os policiais.

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  5. Anônimo3:10 PM

    Quanto a esse caso tenebroso do assassinato da menina Isabella, tenho muita pena dos filhos dos assassinos. Estes inocentes, que não tem culpa dos pais que lhes foram reservados, é que vão sofrer mais que todos. Provavelmente, terão que se mudar e trocar de sobrenome, ou serão massacrados para o resto de suas vidas. Já não basta ficarem sem os pais, o que, nesse caso, é até uma sorte, mas serão sempre apontados como os filhos de dois assassinos cruéis.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.